Uma resposta para Dado Dolabella

Por Gregorio Duvivier

Fui uma criança tucana. Colava adesivos do Fernando Henrique na janela do meu quarto e na traseira do chevette — era tucano “before it was cool”. Imaginem minha euforia quando soube que o FHC, o próprio, viria lá em casa, numa festa cheia de bolinhas de queijo. Sim, o jantar de adesão da classe artística ao FHC foi lá em casa (chupa, Dado Dolabella!).

Captura-de-Tela-2014-10-20-às-14.28.22-600x384 (1)Adentrei a sala vestindo um terno de veludo cotelê e uma gravata borboleta, em pleno outono carioca — que não difere em nada do verão carioca, que não difere em nada do verão do Zâmbia. Minha mãe me pediu pra trocar de roupa: “As pessoas vão pensar que foi a gente que te vestiu assim. Tira esse terno?” Negociei, engolindo o choro: “Posso ficar com a gravata?”. “Preferia que não”, respondeu minha mãe. Descambei para o comunismo — ou o que eu pensava que fosse o comunismo.

Virei representante de sala. Graças a alianças espúrias, me elegi representante geral, algo como um presidente da Câmara (na minha cabeça). Minha primeira proposta foi a liberação gradativa para o recreio. Primeiro liberariam o quarto andar, dez segundos depois o terceiro, e assim por diante, para que todos chegassem ao térreo no mesmo exato segundo e tivessem as mesmas chances de ser o primeiro na fila da cantina — os rissoles, disputadíssimos, acabavam num piscar de olhos.

Fracassei retumbantemente. Os glutões do primeiro andar não queriam perder os privilégios, os CDFs do quarto andar diziam que a liberação antecipada não era prêmio mas castigo, porque perderiam segundos preciosos de aula.

Sem base, sem alianças, sem aprovação popular, pichei o martelo e a foice na parede da escola. Até hoje nunca tinha confessado. Fui eu, pessoal. Meu primeiro voto, aos 16 anos, foi no Lula. E ele se elegeu. Pareceu que era culpa minha. Comemorei como uma vitória pessoal. Abraçava desconhecidos na Cinelândia, num clima de carnaval fora de época.

Na prática, o PT só piorou minha vida burguesa: o aumento do IOF para compras no exterior e a maldita tomada de três pinos me dão saudades enormes dos anos 90. Aécio seria um candidato infinitamente melhor para mim, homem-branco-heterossexual-carioca-que-viaja-para-fora-do-Brasil-uma-vez-por-ano-e-faz-a-festa-na-H-&-M. Mas democracia não é — ou não deveria ser — isso que virou, esse exercício do voto narcísico, em que pastor vota em pastor, policial vota em policial e carioca vota em bandido.

Talvez por isso a democracia representativa seja um desastre. Ninguém deveria representar os outros porque ninguém está, de fato, pensando nos outros.

Confesso, que nos meus tempos de representante, tanto à direita quanto à esquerda, só pensava no rissole.

14 comentários em “Uma resposta para Dado Dolabella

  1. Quanto a reclamar da qualidade de vida, a burguesia tem excesso de, digamos, conveniências e facilidades. O dólar baixo é uma conveniência para a burguesia, que pode ir mais vezes ao exterior, mas uma tragédia para o povo, que não pode sequer se dirigir atá à mercearia da esquina. A inflação baixa é uma boa para quem tem poupança e investimentos e compra à vista ou à prazo. O pobre não consegue nem comprar à prazo, muito menos à vista, porque inflação baixa significa juros altos. Poupança para pobre hoje, como antes, é uma piada, de mau gosto. O IOF mais alto é uma taxação esperada pelo povo já que o imposto sobre grandes fortunas não saiu até hoje. Do que a elite reclama, afinal? Ela, pois, consegue repassar a maior parte dos impostos aos mais pobres, têm descontos em dívidas com o Estado e ainda sonega o que pode e não deveria… Sei, sei, o rico deu duro (sic) para ter a fortuna que tem e não quer sustentar os outros. Pobres coitados aqueles que passam fome, a elite não quer cuidar deles e nem quer que o governo o faça. É realmente uma pena que os impostos se percam no halo da corrupção e da burocracia.

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  2. “Fla-Flu eleitoral…

    Texto censurado do Xico Sá na Folha…
    Nao sei se alguem já tinha postado aqui no blog…se sim, mil perdoes…

    Se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata
    Amigo torcedor, amigo secador, mesmo com a obviedade ululante de PT x PSDB, eleição não é Fla-Flu, eleição não é sequer Atlético x Cruzeiro, Galo x Raposa, para levar a contenda para as Minas Gerais onde nasceram os dois candidatos do segundo turno.
    Eleição não é um dérbi clássico como Guarani x Ponte Preta, eleição é tão mais rico que cabe, lindamente contra o voto, meus colegas anarquistas na parada, votar simplesmente no nada, nonada, como nos sertões de Guimarães Rosa, sempre na área.
    Fla-Flu, embora exista antes do infinito e da ideia de Gênesis, nego esquece em uma semana. Futebol nego esquece no 25º casco debaixo da mesa, afinal de contas, como dizia meu irmão Sócrates Brasileiro, futebol não é uma caixinha de nada, futebol é um engradado de surpresas sempre dividido com amigos de todos os clubes.
    Doutor Sócrates Brasileiro que foi mais pedagógico, um Paulo Freire da bola, com a Democracia Corintiana, do que muitas escolas. Doutor Sócrates, Casagrande e Vladimir nos ensinaram mais sobre a ideia grega do “poder do povo e pelo povo” do que toda aquela imposição de Educação Moral e Cívica dos generais das trevas.
    Foi-se o tempo que viver era Arena x MDB, era Brahma x Antarctica. Até porque eles hoje são a mesma coisa, a mesma fábrica, a mesma Ambev que botou dinheiro de monte até na Marina evangélica –la não queria, mas o tesoureiro, talvez neopentecostal, pegou do mesmo jeito de todo mundo, vai saber, já era.
    Eleição é coisa de quatro anos, no mínimo, pois até quem diz que não quer mais compra um aninho de luxúria e sossego iluminista em Paris, como já vimos no caso do FHC, comprovado em um dos maiores furos desta Folha, reportagem do grande Fernando Rodrigues, parlamentar comprado a preço de mensalão superfaturado.
    Cadê a memória, a mínima morália, como diria Adorno, jornalismo safado?
    Quem dera eleição fosse apenas o Fla-Flu que dizem. Quem dera fosse apenas um cordel que poderia ser resumido na peleja do playboy danadinho contra a mulher durona. É tudo mais complexo, ainda bem, e se no primeiro turno foi Brasileirão de pontos corridos, agora, camarada, é Copa do Brasil, mata-mata.
    Como sou favorável à linha dos jornais americanos que declaram voto, coisa que meu jornal aqui teimosamente não encampa, queria deixar claro da minha parte: voto Dilma, apesar do meu pendor anarquista. Perdão, Bakunin, mas meu voto é contra a imprensa burguesa.
    Digo que o jornal que me emprega não encampa e justiça seja feita: nunca me proibiu de dizer nada. Nem no impresso nem no blog. “Bota pra quebrar, meu filho”, lembro do velho sr. Frias nessa hora, que cabra! Seria legal que todos os jornalistas, que têm lado sim, se declarassem. Quem se apresenta para tornar as coisas mais iluminadas?

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  3. Amigo Lopes, eu também não entendo como possa beneficiar alguém (salvo os especuladores, de quem não se trata no contexto), mas, como você, à certa altura, disse que “inflação baixa É UMA BOA para quem tem poupança e investimentos e compra à vista ou a prazo. O POBRE NÃO CONSEGUE NEM COMPRAR A PRAZO, MUITO MENOS À VISTA, PORQUE INFLAÇÃO BAIXA SIGNIFICA JUROS ALTOS”, achei melhor lhe perguntar antes de tirar alguma conclusão precipitada sobre este particular de seu escrito. A propósito, a caixa alta não tem outro objetivo, a não ser o de localizar com exatidão qual o aspecto gerador de minha dúvida no seu texto.

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  4. Meus caros, já expliquei isso outro dia, mas explico de novo.

    Diferente de nós, que engolimos os juros bancários (na base do “é pegar ou largar”), o governo é quem define os juros que ele mesmo vai pagar pelos empréstimos que ele mesmo fizer. Ou seja, o governo é o cara, o governo pode… Essa taxa de juros é chamada SELIC e é definida pelo Banco Central. Essa mesma taxa SELIC define muitos aspectos da economia por si só pois atinge em cheio os bancos. Como? Da seguinte forma: Os bancos possuem o dinheiro dos correntistas e investidores para girar no mercado. Isso quer dizer que o banco empresta o dinheiro dos investidores que depositam seu dinheiro lá a terceiros e o recebe de volta com juros depois de algum tempo. O banco recebe de volta o principal emprestado e os juros e com isso paga o correntista e ainda lucra. E emprestar ao governo pode ser atraente financeiramente se a SELIC for alta, uma vez que o risco de levar calote do governo é muito baixo.

    A SELIC necessariamente provoca alguns efeitos no mercado. Uma SELIC alta atrai um grande volume de capital dos bancos para o governo, tirando-o da possibilidade de ser emprestado a terceiros (pessoa física, pessoa jurídica). O fluxo de capital passa a se dar entre o Estado e os bancos. Esse pode ser um objetivo da política econômica e se chama de redução de crédito, pois com o fluxo de capital restrito ao povo ocorrerá a redução do consumo. A redução de crédito implica em redução do consumo pela queda de dinheiro para financiamento, o que implica numa queda de preços, pois os produtores têm que dar saída ao estoque se não quiserem ter prejuízo. Voilà, os preços não sobem mais e a inflação está controlada. Mas note bem o efeito colateral: o salário perde imediatamente poder de compra porque perde a capacidade de honrar compromissos. Como assim? Comprar com cartão de crédito, por exemplo, torna-se um problema porque os juros bancários passam a acompanhar também a SELIC. Financiar um bem móvel ou imóvel também se torna mais difícil porque há redução de capital para financiamento e alta nos juros. O pobre se endivida rapidamente e leva mais tempo para pagar. Isso quer dizer que o controle da inflação eleva os juros e dificulta a quitação de dívidas porque ela se prolonga. Os bancos ganham mais ainda.

    Outro efeito disso é que o endividamento público também cresce rapidamente. Isso quer dizer que o governo tendo que pagar os juros da SELIC aos bancos deixa de fazer obras ou políticas públicas que beneficiem aos brasileiros só para pagar os juros da dívida assumida. Esse indicador se chama superávit primário e é a economia que o governo faz para pagar esses juros. O superávit primário indica o caixa disponível para quitar dívidas do governo e pode indicar cortes em programas do governo, o que não é lá uma coisa boa para o contribuinte. Quanto maior o superavit primário, maior é o sacrifício para pagar dívidas, igual a gente tem que fazer para pagar o cartão de crédito ou um empréstimo no banco. Se bem que a gente faz economia na conta de luz, de telefone, mas não tem sido fácil né?

    Inflação de uns 5% a.a. não é o fim da picada como quer fazer parecer o PSDB. E o controle da inflação pode ser simplesmente o mote necessário para instalar essa política econômica perversa, que privilegia bancos e investidores e prejudica o pobre. Por isso vejo uma segunda intenção nesse discurso de inflação de 3% a.a. Vejo aí a volta de uma política de fortalecimento dos bancos e de enfraquecimento das políticas sociais. O risco de corte em projetos nas áreas sociais é real e pode acontecer a qualquer momento de um eventual governo tucano. Por isso voto Dilma.

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  5. rs… Sou apenas socialista. Aliás, um ateu comunista. Assim como Xico Sá, concordo com Bakunin e vocês talvez me vissem/vejam como alguém que chegou tarde na história, ou simplesmente como um ingênuo sonhador. Ou coisa pior, sei lá… Sendo mais objetivo, vivemos num país onde já se disse que comunista come criancinha e que Deus é brasileiro. Uma coisa e a outra não passam senão de um discurso que atestam o resultado da venda do Brasil ao capital estrangeiro, ao menos caracterizam a desconstrução da identidade nacional, um povo esquecido de si mesmo. Os anseios socialistas da nação estão lá na constituição, no art. 6º, em que se diz que é dever (do Estado) cuidar dos desamparados. Os dois candidatos do 2º turno representam duas formas de governar bastante distintas, com a mais flagrante diferença na política econômica e atuação do Banco Central. Vote em quem votar, faça isso consciente de que política econômica e social cada candidato propõe. E com que clareza ele faz isso. Por isso desconfio seriamente de Aécio, porque ao falar em meta de inflação em 3%, deixa subentendido alta na SELIC, o que acarreta sérios riscos de cortes nos programas sociais. Mesmo não sendo atendido por estes programas, nem hoje e nem nunca, reconheço a importância deles para o país e, pessoalmente, procuro eliminar qualquer risco que ele corra.

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  6. Ok, Lopes. Agora entendi… Nem o Miguel do Rosário, no seu (dele), “O Cafezinho”, explicaria e justificaria com maior peculiaridade esse aspecto de que a inflação oficial de 5% é algo normal. Dentre outras, achei especialmente interessante aquela passagem onde dizes que o controle da inflação tem como efeito colateral a perda do poder de compra dos salários.

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  7. Pois é,caro Oliveira, afetando o crédito, se atinge a capacidade de endividamento do pobre. Hoje a inflação está alta porque o crédito disponível está sendo usado porque os juros, ainda altos, são mais baixos que na era FHC. E há disponibilidade de crédito porque a SELIC ainda não é tão atraente quanto no passado, que chegou a marcar 45% a.a. e inflação de uns 2% a.a. Quero dizer também que o custo do combate à inflação é social, quem paga são os mais pobres. Não conheço pessoas pobres que façam economia na poupança visando uma compra à vista no futuro. Em geral, os brasileiros são imediatistas e não planejam a aquisição de bens. Resultado: compram à prazo. Uma política de redução de crédito só vem dificultar a aquisição de bens pelos mais pobres. Poupança é uma boa saída, mas exige que o poupador planeje seus gastos com bastante antecedência. Para os bancos também é ótimo, porque é o investimento em que ele, o banco, paga o menor juro ao cliente. Voltando às compras à prazo, com juros altos, uma geladeira vai custar bem mais caro que à vista. Os índices oficiais de inflação não são sensíveis a esta variação dos juros sobre vendas à prazo, mas o preço sobe muito com a alta da SELIC simplesmente porque vender à prazo é mais arriscado que emprestar ao governo.

    Na minha opinião, o salário mínimo precisa continuar subindo, assim como o mercado interno tende a aumentar. Sinto falta de uma política industrial mais sólida por parte do governo. O industrial tem feito corpo mole para expandir a produção, o que reduziria os preços na prateleira. Quando não aumenta a produção, segura os preços em cima. Como também já disse outro dia, a elite oligárquica não quer grandes investimentos para competir no exterior, quer sim a manutenção de uma produção baixa porque assim garante pouco investimento e alta lucratividade, o que eles devem entender que seja produtividade. Isso não é produtividade, é moleza.

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