Jornalistas, eu os acuso!

Por Marcio Valley

A responsabilidade da imprensa pelo acirramento de ânimo entre petistas e anti-petistas é evidente. Estão fabricando um fosso que vai se aprofundando. Um dia será impossível a construção de pontes para o retorno à confraternização. Ontem (18/10) publiquei um twit com a seguinte mensagem: “O antipetismo cego está se radicalizando e dividindo o país. Um dia ainda conseguem a guerra civil”. É o que penso de verdade, mas esse pensamento não cabe em somente cento e quarenta caracteres, por isso a razão desse texto.

Estamos entrando num caminho extremamente perigoso, a partir do qual a percepção de uma parcela da população quanto à dificuldade de solução política pela via democrática começa a criar, em mentes menos tolerantes, perigosas ideias de dominação a qualquer preço, a qualquer custo.

eu os acusoA paz social sempre nos caracterizou, ao ponto de sermos inclusive considerados pusilânimes. Enquanto o povo argentino ou o chileno não deram trégua às respectivas ditaduras, os militares brasileiros sentiram-se totalmente confortáveis na cadeira do poder, praticamente sem resistência da população, sem contar uns poucos “chatos” que não chegaram a causar incômodo relevante.

Sempre fomos assim, um povo pacífico. Os que hoje arriscam perturbar essa paz brincam de forma irresponsável com o monstro do sonho totalitário. Fazem isso porque, ou pensam tolamente que o barulho ainda é incapaz de acordá-lo, ou são idiotas imaginado que lograrão controlá-lo.

O abismo que estão criando é capaz de engolir os dois lados.

É sábia a comparação feita pelo juiz paulista Marcelo Semer do jogo praticado pela imprensa real com aquele retratado no excelente filme “V de Vigança”, no qual, dada a ordem para a disseminação do medo pela imprensa, esta imediatamente passa a publicar somente manchetes negativas. O objetivo? Causar medo na população, disseminar o pânico, para facilitar o caminho daquilo que apropriadamente Semer denomina de “populismo legal”, com estabelecimento de medidas apresentadas como de “segurança” e de “benefício social”, que, porém, invariavelmente envolvem severa redução das liberdades e dos direitos individuais. Em todo lugar, em toda a história, a escalada do medo é seguida da ascensão do canto do radicalismo conservador, com o discurso do ódio, da segregação, do preconceito, do endurecimento criminal, do conservadorismo moral, da eterna sensação conspiratória causada pela vigilância de todos por todos. Sempre envolve imensas perdas e grave retrocesso civilizatório.

Se isso ocorrer, parcela substancial da culpa deve ser atribuída a quem a merece: os jornalistas.

As empresas jornalísticas praticam a política que interessa às corporações que são suas donas, pretendem a subida de um governo mais palatável ao financismo, mais aberto ao capital especulativo. Elas apelidaram isso de “mercado”. Porém, embora com culpa inarredável, não teriam a facilidade que têm não fosse a extrema leniência, subserviência mesmo, que os jornalistas empregados nesses veículos inacreditavelmente demonstram. Falta honra, falta vergonha na cara para os jornalistas.

Claro que todos temos medo de perder emprego, lógico que precisamos do ganha-pão. Existem momentos, contudo, em que valores mais elevados do que a mera superação da incerteza se impõem. Não se imagina que possa um médico empregado realizar uma cirurgia com bisturi enferrujado sob o descabido argumento de que seu patrão mandou. Da mesma forma, não poderiam os jornalistas contratados estar compactuando, como em grande parcela estão, com uma ação confessadamente orquestrada pela grande imprensa no papel de oposição, o que violenta os mais elementares princípios da informação que deveriam pautar o jornalismo.

São cúmplices desse desvario político e serão, junto com seus patrões, culpados por toda e qualquer ruptura institucional ou social que eventualmente ocorrer. São co-autores desse crime de imprensa que está dirigindo a nação para conflitos impensados há poucos anos.

No mínimo, repúdios diários das associações e dos sindicatos de jornalistas deveriam ser publicados, a cada manchete nitidamente tendenciosa. Os professores e estudantes das faculdades de jornalismo deveriam mobilizar-se maciçamente em eventos públicos que demonstrassem, de forma inequívoca, que a classe não compactua com os objetivos das empresas jornalísticas.

Todavia, afora exemplos admiráveis de jornalistas desvinculados das grandes empresas, muitos atuando no que orgulhosamente chamam de “blogs sujos”, o que se vê é timidez, é silêncio da classe. Isso tem nome: trata-se de compactuar por omissão.

E e a partir dessa omissão, o Brasil, um país historicamente pacífico e reconhecido por essa natureza de tranquilidade social, aos poucos vai se metamorfoseando numa espécie de Bósnia da década de 1990 ou com outros países cujos profundos conflitos sociais resultaram em facções da população se auto-digladiando em busca do poder ao preço da própria destruição e da ruína do próprio país. Aos vencedores, os escombros.

Hoje, ainda nos encontramos num estágio mais brando. O que vemos é um indivíduo se achar no direito de vociferar agressões verbais a um ator que, na condição de pessoa comum e acompanhado de sua mulher, tentava fazer uma refeição num restaurante, somente porque esse ator declarou apoio a candidatura petista.

Nesse momento, a violência física chegou “apenas” à inacreditável agressão de um cadeirante que, nas ruas, exercia o seu direito constitucional de militar politicamente, sendo jogado ao chão por um descerebrado por usar um broche do partido no peito e uma bandeira na mão.

Ainda estamos num estágio incipiente (e insipiente) em que um artista, mais famoso por ter passagens na polícia do que pela arte que exerce, ao invés de simplesmente pedir votos para o candidato que apoia, entende-se no direito de atacar um colega de profissão, denominando-o de “marginal” e “acéfalo”, simplesmente por discordar da opção eleitoral do artista que agride.

Esse é o nível em que estamos atualmente. Amanhã, porém, petistas e anti-petistas poderão ser obrigados a se entricheirar em condomínios e quarteirões onde viverão livres da presença incômoda da democrática voz dissonante, mas presos no próprio espaço em que se confinaram.

Felizmente, ainda estamos longe disso. Por ora os conflitos ocorrem mais pesadamente em ambiente eleitoral. Porém, se lembrarmos que até pouco não era assim e que a escalada da violência vem progressivamente aumentando, já extrapolando do limite verbal para o físico, não há porque imaginar que um conflito interno mais grave não possa ocorrer no futuro.

Hoje agridem petistas, amanhã os petistas revidarão e isso conduzirá ao caos. Novamente invocando Marcelo Semer, o namoro com o estado policial pode ser entendido no presente como uma opção eleitoral, porém, sair dele no futuro, nunca será. Desse namoro resulta inescapável casamento compulsório do qual não se pode libertar sem muita dor, sem muito sofrimento, sem muita perda.Essa é a responsabilidade que imputo à imprensa e, principalmente, aos jornalistas.

O abismo que está se aprofundando não resultou da queda de um imprevisível meteoro social. Ela é fruto inevitável do incansável trabalho da impensa na prática da escandalização de um lado só, das distorções da realidade, da manipulação da verdade, da ocultação criminosa de tudo que seja entendido como positivo, da disseminação da falsa ideia de que todos os problemas do Brasil possuem apenas um só nome e uma só coloração.

Enfim, o acirramento político e a escalada de violência que se testemunha é o filho degenerado de um posicionamento orgulhosamente assumido pela imprensa na voz da presidente da Associação Nacional de Jornais, Judith Brito, da Folha de São Paulo, que, em entrevista ao jornal O Globo, não teve qualquer pudor em confessar que, ante a fragilização da oposição no Brasil, cabia aos meios de comunicação ocupar a posição oposicionista no país.

É preciso que os ânimos sejam serenados e que os eleitores que não desejam o PT governando entendam, de uma vez por todas, que esse partido foi alçado e vem sendo mantido no poder através de eleições realizadas de forma absolutamente democrática e que, se tiver que sair do poder, e não tenham dúvidas de que sairá um dia, esse caminho necessariamente deve passar pelo mesmo itinerário do convencimento pacífico e democrático, necessariamente pela sufragação nas urnas.

Creiam, a opção é muito pior.

Os eleitores do PT já deram demonstrações sobejas de que são mais orgânicos e militantes do que os simpatizantes dos outros grandes partidos. Eles são milhões e representam uma parcela significativa do país, quase um terço, e não podem, simplesmente, ser calados, manietados ou impedidos de escolher pelo voto os mandatários da nação. Não cabe a pretensão elitista de silenciar os nordestinos ou os cidadãos que recebem benefícios sociais.

O regime político brasileiro ainda não é, e espero que nunca seja, totalitário, ditatorial, embora aparentemente muitos assim desejem. A cada cidadão um voto e que prevaleça a democracia. Essa é a única maneira de evitar uma convulsão social.

Esse deve ser o objetivo de cada jornalista brasileiro que entenda o poder que a manchete possui na estruturação do tecido social, no direcionamento da pauta de discussões públicas, na determinação dos sentimentos sociais capazes de conduzir para um lado, pacífico e desejado, ou para o outro, radicalizado e trágico. Até aqui, a irresponsabilidade dos jornalistas, entendidos como classe, imperou.

É por isso, jornalistas, que eu os acuso!

http://marciovalley.blogspot.com.br/2014/10/jornalistas-eu-os-acuso.html

Todos soltos, todos soltos, até hoje

Por Elio Gaspari, em O Globo

Nos debates medíocres da Bandeirantes e da SBT, em que Dilma Rousseff parecia disputar a Presidência com Fernando Henrique Cardoso, e Aécio Neves parecia lutar por um novo mandato em Minas Gerais, houve um momento estimulante. Foram as saraivadas de cinco “todos soltos” desferidas pela doutora. Discutia-se a corrupção do aparelho petista, e ela arrolou cinco escândalos tucanos: “Caso Sivam”, “Pasta Rosa”, “Compra de votos para a reeleição de FHC”, “Mensalão tucano mineiro” e “Compra de trens em São Paulo”. A cada um, ela perguntava onde estavam os responsáveis e respondia: “Todos soltos”. Faltou dizer: todos soltos, até hoje.

Não foi Dilma quem botou a bancada da Papuda na cadeia, foi a Justiça. Lula e o comissariado petista deram toda a solidariedade possível aos companheiros, inclusive aos que se declararam “presos políticos”. Aécio também nada tem a ver com o fato de os tucanos dos cinco escândalos estarem soltos. Eles receberam essa graça porque o Ministério Público e o Judiciário não conseguiram colocar-lhes as algemas. O tucanato deu-lhes graus variáveis de solidariedade e silêncio.

Pela linha de argumentação dos dois candidatos, é falta de educação falar dos males petistas para Dilma ou dos tucanos para Aécio. Triste conclusão: quando mencionam casos específicos, os dois têm razão. A boa notícia é que ambos prometem mudar essa escrita.

A doutora Dilma listou os cinco escândalos tucanos, todos do século passado, impunes até hoje. Vale relembrá-los.

Caso Sivam

Em 1993 (governo Itamar Franco), escolheu-se a empresa americana Raytheon para montar um sistema de vigilância no espaço aéreo da Amazônia. Coisa de US$ 1,7 bilhão, sem concorrência. Dois anos depois (governo FHC), o “New York Times” publicou que, segundo os serviços de informações americanos, rolaram propinas no negócio. Diretores da Thomson, que perdera a disputa, diziam que a gorjeta ficara em US$ 30 milhões. Tudo poderia ser briga de concorrentes, até que um tucano grampeou um assessor de FHC e flagrou-o dizendo que o projeto precisava de uma “prensa” para andar. Relatando uma conversa com um senador, afirmou que ele sabia “quem levou dinheiro, quanto levou”. O tucano grampeado voou para a embaixada do Brasil no México, o grampeador migrou para o governo de São Paulo, e o ministro da Aeronáutica perdeu o cargo. Só. FHC classificou o noticiário sobre o assunto como “espalhafatoso”.

Pasta Rosa

Em agosto de 1995, FHC fechou o banco Econômico. Estava quebrado e pertencia a Angelo Calmon de Sá, um príncipe da banca e ex-ministro da Indústria e Comércio. Numa salinha do gabinete do doutor, a equipe do Banco Central que assumiu o Econômico encontrou quatro pastas, uma das quais era rosa. Nelas, estava a documentação do ervanário que a banca aspergira nas eleições de 1986, 1990 e 1994. Tudo direitinho: 59 nomes de deputados, 15 de senadores e dez de governadores, com notas fiscais, cópias de cheques e quantias. Serviço de banqueiro meticuloso. Havia um ranking com as cotações dos beneficiados, e alguns ganharam breves verbetes. No caso de um deputado registravam 43 transações, 12 com cheques.

Nos três pleitos, esse pedaço da banca deve ter queimado mais de US$ 10 milhões. A papelada tornara-se uma batata quente nas mãos da cúpula do Banco Central. De novo, foi usada numa briga de tucanos, e deu-se um vazamento seletivo. Quando se percebeu que o conjunto da obra escapara ao controle, o assunto começou a ser esquecido. FHC informou que os responsáveis pela exposição pagariam na forma da lei: “Se for cargo de confiança perdeu o cargo na hora, se for cargo administrativo será punido administrativamente”. Para felicidade da banca, deu em nada.

A compra de votos para a reeleição

Em maio de 1997, os deputados Ronivon Santiago e João Maia revelaram que cada um deles recebera R$ 200 mil para votar a favor da emenda constitucional que criou o instituto da reeleição dos presidentes e governadores. Ronivon e Maia elegiam-se pelo Acre e pertenciam ao PFL, hoje DEM. Foram expulsos do partido e renunciaram aos mandatos. Ronivon voltou à Câmara em 2002. De onde vinha o dinheiro, até hoje não se sabe.

O mensalão tucano mineiro

Em 1998, Eduardo Azeredo perdeu para o ex-presidente Itamar Franco a disputa em que tentava se reeleger governador de Minas Gerais. Quatro anos depois, elegeu-se senador e tornou-se presidente do PSDB. Em 2005, quando já estourara o caso do mensalão petista, o nome de Azeredo caiu na roda das mágicas de Marcos Valério. Quatro anos antes de operar para o comissariado, ele dava contratos firmados com o governo de Azeredo como garantia para empréstimos junto ao Banco Rural (o mesmo que seria usado pelos comissários.) O dinheiro ia para candidatos da coligação de Azeredo. O PSDB blindou o senador, abraçou a tese do “caixa dois” e manteve-o na presidência do partido durante três meses. Quando perdeu a solidariedade de FHC, Azeredo disse que, durante a disputa de 1998, ele “teve comitês bancados pela minha campanha”. Em fevereiro passado, o Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia do procurador-geral contra Azeredo, e ele renunciou ao mandato de deputado federal (sempre pelo PSDB). Com isso, conseguiu que o processo recomeçasse na primeira instância, em Minas Gerais. Está lá.

A compra de trens em São Paulo

Assim como o Caso Sivam, o fio da meada da corrupção para a venda de equipamentos ao governo paulista foi puxado no exterior. O “Wall Street Journal” noticiou em 2008 que a empresa Alstom, francesa, molhara mãos de brasileiros em contratos fechados entre 1995 e 2003. Coisa de US$ 32 milhões, para começar. O Judiciário suíço investigava a Alstom e tinha listas com nomes e endereços de pessoas beneficiadas. Um diretor da filial brasileira foi preso e solto. Outro, na Suíça, também foi preso e colaborou com as autoridades. Um aspecto interessante desse caso está no fato de que a investigação corria na Suíça, mas andava devagar em São Paulo. Outras maracutaias, envolvendo hierarcas da Indonésia e de Zâmbia, resultaram em punições. Há um ano, a empresa alemã Siemens, que participava de consórcios com a Alstom, começou a colaborar com as autoridades brasileiras e expôs o cartel de fornecedores que azeitava contratos com propinas que chegavam a 8,5%. Em 2008, surgiu o nome de Robson Marinho, chefe da Casa Civil do governo de São Paulo entre 1995 e 2001, nomeado ministro do Tribunal de Contas do Estado. Em março passado, os suíços bloquearam  uma conta do doutor num banco local, com saldo de US$ 1,1 milhão. Ele nega ser o dono da arca, pela qual passaram US$ 2,7 milhões (Marinho tem uma ilha em Paraty). O Ministério Público de São Paulo já denunciou 30 pessoas e 12 empresas. Como diz a doutora, “todos soltos”.

Aviso aos navegantes: Gaspari não é petista – muito pelo contrário rss…

Hora de enfrentar os barões da Vênus Platinada

Por Paulo Fonteles Filho

Um odioso cerco se abate contra as mudanças no Brasil. Tal assédio, sempre estimulado pelos latifundiários da mídia hegemônica, procura, como em 1964, criar um ambiente de medo como base numa provável ‘cubanização’ do país; além, é claro, do mofado discurso de que somos governados por gangsteres comunistas, corruptos e malfeitores da pior espécie.

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Editorialistas da estirpe mais reacionária se reúnem, ao redor de fantasmagóricas figuras como Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia, Lobão, Ronaldo Caiado e Marcos Feliciano, para que, como numa esquizofrênica cruzada salvacionista, pavimentar a eleição de seu candidato, Aécio Neves. Os instrumentos, para tal intento, se baseiam na lavagem cerebral do noticiário dos jornalões e em seu subproduto mais perigoso: o ódio contra tudo que for popular, progressista e, em última instância, brasileiro.

Nessa conjuntura, a principal organização política da direita brasileira, a Rede Globo, porta-voz e apoiadora de tudo aquilo que é antinacional, truculento e reacionário no país tupiniquim nos últimos 50 anos, precisa ser duramente combatida.
Se assim não o fizermos, poderemos ver um importante ciclo político e democrático – iniciado por Lula e continuado por Dilma – ser derrotado pelas mesmas penas e baionetas que apearam João Goulart do poder presidencial e instalaram, por mais de vinte anos, um regime medularmente corrupto, de terror, com censura, demissões em massa, torturas, mortes e desaparecimentos forçados.
O que essa gente quer senão decretar o fim de toda uma experiência histórica?
O diapasão do tempo, nossos últimos 30 anos, ensejaram lutas memoráveis que uniram o país, desde as “Diretas Já!” — memorável contenda pela redemocratização do Brasil — até os dias atuais, onde o país está mais independente e tem opinião própria, sempre de acordo com seus interesses, onde a fome e o desemprego são duramente enfrentados porque, dentre outras medidas, deixamos de ser lacaios dos interesses dos grandes impérios mundiais, em especial o estadunidense.
E esse tempo foi um tempo, sobretudo, de acumulação de forças. Soma-se a esse esforço o fato de que essa gente, hoje aecista, quebrou o país e nos deixou o legado da insolvência.
Acumulamos força porque conseguimos, depois de muitas derrotas, ganhar o imaginário dos brasileiros para um projeto mudancista, distante da premissa ultraliberal, de privatizações, desemprego e arrocho contra os trabalhadores, que marcaram os anos regressivos de Fernando Henrique Cardoso.
Não se mata uma ideia. A grande fixação dos direitistas é sempre matar uma ideia. Toda ideia é subversiva para um recalcitrante.
Tudo que é diferente dá trabalho. Tudo que é mestiço é anticolonial. Tudo que é popular é ignorante, aliás, não foi esse o recado do mais emplumado dos tucanos, Fernando Henrique Cardoso?
Definitivamente não se mata uma ideia, mas a velhacaria um dia desaparece, aliás, apodrece.
E o latifúndio da mídia é a estrutura da sociedade brasileira que mais nos remete ao obscurantismo, porque, dentre outras, destila na consciência social o barbarismo onde tudo se resolve com linchamentos públicos e a redução da maioridade penal. Porque, sabemos, é melhor construir presídios a escolas.
O enfrentamento a esses barões, principalmente os da Vênus Platinada, é uma tarefa que se impõe nesta e nas futuras batalhas pela consciência e pelo poder político no Brasil.
A questão central, para eles, é que o povo não pode ter direito e futuro. Tolstói sempre haverá de nos ensinar com sua célebre passagem que “os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas”.
Acontece que essa gente, mais tucana é impossível, não estava acostumada a ver pessoas do povo vivendo com o mínimo de dignidade, porque, afinal, só são dignos os nascidos nas meritocratas famílias tradicionais, não é verdade?
Dinheiro público apenas para as pançudas barrigas acostumadas a Miami, nunca para quem nasceu nas ribeiras amazônicas ou no sertão piauiense, não é verdade?
Universidades para o povo? Nunca.
Para que, se eles têm Harvard para aprender a sociologia branca estadunidense e jamais para compreender as grandes deformações da sociedade brasileira e, com isso, engendrar políticas públicas capazes de emancipar milhões da pobreza no sentido de assegurar a prosperidade material e espiritual do conjunto do povo brasileiro e, assim, alimentar nossas vidas de humanidade e felicidades.
O problema dessa turma é o povo e, concomitantemente, quem representa e organiza o povo para enfrentar os desafios do futuro.
Por isso é que o Lula e a Dilma são tão odiados pelos ricaços e os nortistas e nordestinos ganharam o nefasto “posto” – na verborragia de FHC – de ignorantes ou desinformados.
Para eles as massas devem estar em silêncio, desorganizadas, desunidas, dependentes de políticos desonestos.
O próprio jornal que eles escrevem pode ser perigoso porque, por eles, só a casta deveria ler como na Idade Média. E, como tal, preparam enormes fogueiras.
O perigo da façanha deste clubinho seleto é o de estar pavimentando a liquidação do Estado Democrático de Direito.
Conheço há muito esta ladainha e não posso calar-me.
Aliás, onde estavam os redatores dos editoriais da Rede Globo quando a tortura era oficializada no gabinete da Presidência da Republica?
Decerto comungavam, como inimigos das liberdades públicas, da mercurial frase que condenou uma geração aos porões na edição do AI-5: “Às favas os escrúpulos da consciência”.
Falo isso porque nasci na prisão, sei bem da história.
Quem dá guarida ao ódio ceva infames ideólogos das quarteladas, das noites de medo e do pau-de-arara.
Para levar a cabo o que pensam eles dizem ter pavor e devem mesmo ver ou escutar fantasmas, talvez pelos gritos daqueles que foram torturados e desapareceram, seja nas matas do Araguaia ou na Barão de Mesquita.
Limito-me a dizer que estes editorialistas são os sanguinários da palavra, espécimes de pensadores muito em voga em tempos onde assistimos, na vida nacional, a ascensão daqueles que sempre foram humilhados, seja pelo abandono, seja pela fome ou o preconceito.
Poderiam, pelo menos, ter uma pena mais elegante e mirar-se em Paulo Francis. Poderiam, pelo menos, utilizarem-se da linguagem subliminar e apetrecharem-se da discrição. Mas não, são afoitos.
Às vezes percebo que é por puro desespero, afinal, o governo atual, da Presidenta Dilma, pode avançar para finalmente não lhes servir mais. Assim se coloca na ordem do dia a democratização dos meios de comunicação e o fim do reinado dos Marinhos e Civitas.
O que eles querem é a inquisição. Para isso se apetrecham do lacerdismo como fonte inspiradora e repetindo o passado anseiam sugerir o futuro. Perigoso, não?
O problema dos sanguinários da palavra é que eles infundem de convicção outros sanguinários. Falo isto porque certa vez, meu pai, num pronunciamento na Assembleia Legislativa do Pará, nos longínquos anos oitenta, afirmou que “preferia perder a própria vida que a identidade”.
Depreendi desta lição que há dois tipos de morte, a moral e a física. O que os editorialistas pretendem é, certamente, encorajar um desastre que pode ensejar isso sim, um sério dano para a nossa vida democrática.
Essa contenda tem dimensões históricas e se projeta no leito caudaloso na brutal, porém extraordinária formação social do povo brasileiro, como nos ensinou Darcy Ribeiro.
Alguns, mesmo na esquerda, creem que tudo é tragédia e não é. O povo brasileiro venceu a preagem indígena, os navios negreiros, até os brancos aqui, os iniciais, eram degredados.
E tudo foi se gestando de tal forma que somos diferentes de tudo que há no mundo, um povo novo, uno, e nossa unidade foi fazer com que esse imenso território, essas florestas pulmonares, estes rios que se perdem na paisagem, os litorais do sem-fim, as multitudinárias esperanças, nossos bichos, enfim, tudo desta civilização brasileira é obra da nossa capacidade criativa de resistir através dos séculos.
Para os convivas da casa grande nada mais ameaçador que os batuques da senzala.
O povo brasileiro é obra de um milagre que a elite jamais entenderá, por isso que devemos travar o bom combate, quem não entende, quem não desvenda, domina por certo tempo, mas não domina por todo o sempre.
Aqui termino com a convicção de que vivemos numa batalha de dimensões históricas e a eleição de Dilma, passa, sobretudo, pela capacidade e ousadia de enfrentar aqueles que ainda se julgam donos das mentalidades e das almas do povo brasileiro.
Vencer a Rede Globo, elegendo Dilma, será nosso passaporte para manhãs ensolaradas e colocará, em definitivo, o Brasil no rumo do progresso e da prosperidade social.

http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/paulo-fonteles-filho-hora-de-enfrentar-os-baroes-da-venus-platinada.html

Para rejuvenescer o futebol

Por Gerson Nogueira

Propor mudanças nas regras do futebol é como mexer em vespeiro. As instâncias do International Board, excessivamente conservadoras, não costumam abrir espaço para ideias reformistas. Remonta à década de 70 a adoção dos cartões como sinalizadores de punição aos atletas.

As substituições também só passaram por mudança nos últimos 30 anos, quando a Fifa permitiu aumentar de dois para três a troca de atletas nos 90 minutos. A mais recente novidade foi a proibição do recuo de bola com os pés para o goleiro, que era uma das principais causas de anti-jogo.

Michel Platini, cracaço da França na década de 80, está propondo algumas modificações que podem arejar o futebol. No recém-lançado livro “Falamos de Futebol”, ele sugere que a ampliação de três para cinco substituições por jogo e a instituição de um cartão branco, sem prejuízo dos já existentes.

unnamed (65)As duas substituições extras ocorreriam exclusivamente no intervalo dos jogos, permitindo que os técnicos reformulassem as escalações sem queimar trocas que seriam necessárias na reta final da partida. Platini observa que os elencos dos clubes estão cada vez mais numerosos, o que permite contar com mais atletas ao longo dos 90 minutos.

Há lógica nesse raciocínio, pois os clubes costumam ter hoje elencos com até 35 jogadores, sendo que só aproveitam um terço disso nas partidas. Além de favorecer as coisas para os técnicos e reduzir a fadiga da equipe, a medida iria contribuir para qualificar ainda mais o esporte, tornando-o mais competitivo e interessante como espetáculo.

Já o cartão branco teria a finalidade de punir aquelas infrações mais brandas, como reclamações à arbitragem. Platini avalia que isso conteria mais a onda de críticas dos jogadores aos árbitros, uma das pragas do futebol mundial. O cartão teria efeito temporário. O jogador advertido ficaria 10 minutos fora do jogo, mas voltaria em seguida e a punição seria zerada.

Apesar de interessante, a proposta do cartão branco poderia ser adaptada a outra, que várias vezes foi sugerida sem sucesso aos velhinhos da Fifa: a suspensão temporária de jogadores que cometam cinco faltas seguidas. Seria um verdadeiro golpe no rodízio de faltas, autêntica epidemia no futebol moderno. Hoje só recebem advertência as infrações mais violentas, mas a repetição quase sempre termina impune, apesar de prejudicar bastante o andamento dos jogos.

Não dá para prever se as sugestões de Platini serão acatadas, mas elas têm o mérito de suscitar um debate saudável sobre o aperfeiçoamento do jogo.

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Talisca sobe como foguete

A adaptação ao futebol europeu não é tarefa simples para jogadores brasileiros. Zico levou um ano para conseguir jogar na plenitude pela Udinese. Junior também sofreu. Rivaldo e Geovani, idem. Sócrates nem se adaptou. Os motivos são variados. Condições climáticas, esquemas diferentes dos praticados no Brasil, hábitos culturais.

Pois um garoto baiano chegou a Portugal na cara e na coragem e em poucas semanas virou ídolo da exigente torcida do Benfica. Anderson Talisca, projetado pelo Bahia, marcou seis gols em dez partidas e candidata-se a ídolo na Catedral da Luz.

Desembaraçado, Talisca destaca-se pela velocidade nas arrancadas e excelente aproveitamento nas finalizações. Ninguém sabe ao certo se é mais um caso de ascensão meteórica que se frustra após algum tempo. Por enquanto, porém, Talisca vai muito bem.

Tão bem que já desperta a cobiça do Arsenal de Arsène Wenger. O clube londrino estaria a fim de negociar o alemão Podolski para contratar Talisca por cerca de R$ 52 milhões. Ponto de partida para jogadores brasileiros no rico futebol da Europa, os clubes portugueses vêm se especializando em faturar como revendedores de brazucas bons de bola.

A curiosidade é quanto ao aproveitamento de Talisca na Seleção Brasileira. Na atual carência de nomes para o ataque, suas chances crescem bastante. Ou será que Dunga vai repetir Felipão, que não botou fé em Diego Costa e acabou jogando o artilheiro nos braços de Vicente Del Bosque? A conferir.

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Eleições (ainda) em ritmo republicano

Apesar do episódio Roni, não totalmente esclarecido pelos dirigentes e pelo jogador, a campanha eleitoral no Remo avança em tons civilizados, pelo menos publicamente. Nas internas, sabe-se que a amizade que unia os dirigentes já não tem a mesma solidez.

A chapa de oposição Pedro Minowa/Henrique Custódio, que ganhou sustança com a eliminação do time na Série D, faz insistentes promessas de modernização que incomodam a cúpula dirigente.

Por ora, a chapa da situação se mantém discreta, aparentemente apostando no abrandamento do debate. Apesar da visibilidade alcançada pela oposição, Zeca Pirão segue como favorito absoluto no pleito.

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Direto do Instagram

“Cada dia um problema a mais no Botafogo. Agora estão criando caso com o Jefferson. Isso sem pagar salários. Vamos ficar sem onze pra jogar. Tô vendo a hora que vou ter que entrar em campo. O problema é que se eu jogar bem posso ser demitido!”.

De Hélio de La Peña, humorista (Casseta) e botafoguense juramentado.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta, com participações de Giuseppe Tommaso, Rui Guimarães e deste escriba de Baião. Em pauta, a primeira partida do mata-mata entre Papão x Tupi na Série C. Começa por volta de 00h15, depois do Pânico na Band.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 19)