Rio de Janeiro vai decidir o 2º turno

Por Rodrigo Vianna

Primeiro uma informação importante: não é verdade que levantamentos internos do PT tenham apontado, desde segunda-feira, que Aécio já estivesse à frente de Dilma na largada do segundo turno. Uma fonte, na direção petista, garante-me que a primeira pesquisa (feita por telefone) só ficaria pronta nesta quarta à noite. O mais provável: empate técnico. A essa altura, há uma guerra de informações. As pesquisas, no primeiro turno, erraram demais. Em alguns casos, podemos concluir que foi mais do que “erro estatístico”. Portanto, desconfiemos de qualquer pesquisa.

Agora, vamos aos fatos. A campanha tucana diz que Aécio ganhará porque a vantagem em São Paulo será avassaladora. A campanha petista diz que o Norte e o Nordeste vão equilibrar esse jogo, colocando Dilma bem à frente. Um dirigente petista chegou a me dizer que trabalha “com os mesmos mapas de 2010: Aécio vence em São Paulo, no Sul e no Centro-Oeste; Dilma ganha no Norte e Nordeste, abrindo vantagem”.

Na verdade, os dois lados têm parte da razão. Mas há nuances. Dilma sai de um patamar mais baixo dessa vez, enfrenta uma onda conservadora em São Paulo, e terá Marina colada em Aécio. Quadro mais difícil. É preciso debrucar-se sobre os mapas de votação em cada Estado, para entender o que está em jogo. Isso é mais importante do que apoios de “A” ou “B” no segundo turno.

O “Serviço de Inteligência do Escrevinhador” (sim, ele existe) dedicou-se a um levantamento exaustivo – Estado por Estado. E a conclusão é que a eleição vai-se decidir no Rio de Janeiro. Sim, ali está o eleitorado mais fluído, menos aecista e menos petista do que em qualquer outra parte. Vamos ao mapa – que indica uma eleição equlibrada e que pode ser decidida por um diferença inferior a um milhão de votos.

Para nossos cálculos, tomamos como pré-suposto que Marina transfira seus votos de forma desigual para Aécio, a depender da região. Em São Paulo, transferência enorme (beirando 80%). No Sul e no Centro-Oeste, na proporção de 65% a 35%. E no Nordeste/Norte, uma transferência da ordem de 60% (Aécio) a 40% (Dilma).

SÃO PAULO

O PSDB, dessa vez, colherá uma vantagem muito maior em São Paulo do que em 2010. No primeiro turno, Aécio teve 10 milhões de votos, contra quase 6 milhões de Dilma. Marina ficou com 5,7 milhões. Mesmo que Lula consiga recuperar um pouco da votação histórica do PT no Estado, a tendência é que Aécio fique com mais de 70% dos votos de Marina no segundo turno. O antipetismo e o ódio da classe média chegaram a patamares assustadores.

Calculamos que a diferença de votos a favor de Aécio em São Paulo pode chegar a 8 milhões(numa proporção de 65% a 35% na votação final no Estado).

SUL DO BRASIL

Aécio deve ampliar a votação que teve no primeiro turno. O que pode segurar um pouco a votação tucana são dois fatores: a campanha de Tarso no Rio Grande do Sul. E alguma resistência de Requião no Paraná. Mesmo assim, calculamos uma diferença de 2,5 milhões (para Aécio) – conquistada especialmente no Paraná e em Santa Catarina (Dilma venceu entre os gaúchos, mas no segundo turno Aécio deve crescer; para o PT, será lucro “empatar” ou perder de pouco na terra de Tarso Genro).

CENTRO-OESTE

Aqui o jogo é um pouco mais equlibrado. Mas Goiás e Distrito Federal tendem a dar boa vantagem ao PSDB. Calculamos vantagem de 1,2 milhões de votos para Aécio na região.

NORDESTE

Será a grande fortaleza de votos pró-Dilma. Na Bahia, por exemplo, Dilma deve colocar 3 milhões de votos sobre Aécio (mesma vantagem do primeiro turno). No Ceará e no Maranhão, a vantagem deve superar os 2 milhões de votos. A execeção deve ser Pernambuco. Calculando que a família Campos e Marina transfiram para Aécio uma esmagadora soma de votos (Marina teve 2,3 milhões no primeiro turno), ainda assim Dilma e Aécio devem chegar empatados (isso, na pior das hipóteses para a petista, já que Dilma fez 2,1 milhões de votos no primeiro turno).

Calculamos que a candidata do PT pode conquistar uma vantagem de 10 milhões de votos no Nordeste.

NORTE

A vantagem pró-Dilma é enorme no Amazonas e no Pará. Mas não há um eleitorado tão volumoso. Acre e Roraima podem dar alguma vantagem para Aécio. Calculamos vantagem de 1,2 milhão de votos pró-Dilma. 

MINAS E ESPIRITO SANTO

Dilma venceu em Minas no primeiro turno. Mas Aécio pode reduzir a diferença com os votos de Marina, agora. A tendência, na pior das hipóteses para Dilma, é uma vitória por estreita margem para Aécio – algo próximo de um “empate” (lembrando que o Estado é também a terra natal de Dilma, e na sua porção norte vota fortemente no PT). Somando-se os votos pró-Aécio do Espírito Santo (ele já ganhou lá no primeiro turno), chegaríamos a uma vantagem de 500 mil votos a favor de Aécio nos dois Estados.

O cálculo até aqui indica:

São Paulo (8 milhões pró-Aécio), Sul (2,5 milhões pró-Aécio) Centro-Oeste (1,2 milhão pró-Aécio), Minas/ES (500 mil pró-Aécio) = 12,2 milhões de votos de vantagem para Aécio. 

x

Nordeste (10 milhões pró-Dilma) e Norte (1,2 milhões pór-Dilma) = 11,2 milhões de vantagem para a petista.

A conclusão é que o Rio de Janeiro fará a diferença. Ali, Dilma teve 3 milhões de votos no primeiro turno, contra 2,2 milhões de Aécio e 2,5 milhões de Marina. A grande dúvida é: para onde irá o voto pró-Marina no Rio? O Estado depende fortemente do Petróleo e do funcionalismo público. A tendência aqui é que Aécio não consiga vencer. Dilma precisaria abrir no Rio uma vantagem superior a 1 milhão de votos, para ganhar a eleição nacional.

Esse quadro geral indica que o segundo turno será decidido voto a voto. A não ser que se crie uma onda “pró-mudança” encabeçada por Aécio. Aparentemente, essa onda está avançando em São Paulo, de forma violenta. Mas a derrota do PSDB em Minas, a fortaleza petista no Nordeste e a lembrança dos anos FHC devem equilibrar o jogo.

Qualquer coisa diferente desse quadro extremamente equilibrado é manipulação estatística, ou torcida pura. A eleição será decidida com o eleitorado bastante consolidado em dois blocos São Paulo/Sul x Norte/Nordeste. Com Minas neutralizada, o Rio decidirá.

Crescimento meteórico de Aécio gera desconfiança

Por Bajonas Teixeira Junior, no Viomundo

Imagine-se que um grupo de especuladores do mercado financeiro se dispusesse a manipular a eleição presidencial brasileira. Supondo que isso seja tecnicamente possível, pelo menos a quem se disponha a investir alguns milhões de dólares para ganhar de volta algumas centenas, talvez sequer fosse percebido pelas antenas sensíveis do país. A julgar pela excitação infantil dos comentaristas da Globonews ontem enquanto avançava a apuração da eleição presidencial, a capacidade de dar uma braçada contra a maré ― não diremos nadar, o que seria pedir demais ― foi definitivamente extinta da mídia brasileira.

Ao invés de analisarem a situação, repetiram o mesmo mantra da “desidratação de Marina” e fingiram que Dilma não existia. Tudo parecia tão óbvio que dava para desconfiar. Na segunda-feira (6) posterior ao resultado do primeiro turno, a bolsa subiu quase sete pontos e o dólar caiu significativamente. O contrário tinha acontecido na semana passada, na segunda, 29 de setembro, com baixas febris em ações, incluindo bancos privados (o Unibanco caindo 7.03%, o Bradesco recuando 7,03%) e estatais, como a Eletrobrás e a Petrobras (essa liderou a queda com 11,7%). O Banco do Brasil também caiu, 8,54%.

Manipular nesse cenário, o da sétima economia mundial e um dos países com menor nível de controle e fiscalização, não promete pouco. As manipulações existem, ou melhor, as manipulações são a normalidade do nosso dia a dia. A imprensa, os partidos, os candidatos, os marqueteiros manipulam. O que foge à normalidade não é a manipulação, mas as grandes manipulações.

No Brasil, basta lembrar as bombas nas torres de transmissão de Furnas Centrais Elétricas em setembro de 1998. Em escala internacional, e incomparavelmente mais sofisticada, tivemos em abril de 2013 a invasão da conta do Twitter da agência norte-americana Associated Press (AP) e a informação de que a Casa Branca sofrera um atentado, e que Barack Obama estaria entre os feridos.

O índice Dow Jones chegou a perder 130 pontos, e foram atingidos também o S&P 500 e o índice Nasdaq. Com o desmentido da Associated Press, as ações voltar a subir. Quem comprou na baixa e vendeu na alta, no breve espaço entre a notícia e o desmentido, obteve lucros astronômicos.

“Quem toma a sério a ideia de que, numa reta final sem novidades, o pacato e sorridente Aecinho poderia passar de 15% para 33,5% em três semanas?”

Penso que quem admitir, por hipótese, uma manipulação nas eleições brasileiras acreditará menos em milagres do quem tomar a sério a ideia de que, numa reta final sem novidades, depois de debates sem sobressaltos, na ausência de escândalos e comoções, o pacato e sorridente Aecinho poderia dar um salto tão extraordinário, mais que dobrando suas intenções de voto, e passando de 15% em 12 de setembro para 33,5% em 5 de outubro.

Uma bagatela de 18,5 pontos a mais em coisa de três semanas.

Quem algum dia apostaria em tamanho despautério? O panteão reunido das entidades sobrenaturais mineiras – O Chupacabra, a Mula sem Cabeça e o Zé Arigó ― não seria capaz de produzir tal prodígio. Ainda mais que não ungiram Aécio nem em seu próprio estado, onde Dilma ganhou.

Antes de entrar na análise propriamente dita, me parece interessante observar que o termômetro mais sensível que temos para a eleição, o seu impacto sobre o Facebook, não mostrou qualquer alteração em benefício de Aécio.

No domingo, constava que na última semana Dilma apareceu nele com quase 11 milhões de menções (46%), Marina, com pouco mais de 6,5 milhões (28%), e Aécio com quase 6 milhões (26%). Nas últimas 24 horas antes da eleição, que poderia ter mostrado fortíssima oscilação em favor de Aécio, também nada de excepcional se verificou: Dilma teve 4 milhões de menções (49%), Marina 2,2 milhões (27%), e Aécio 2 milhões (24%).

Se algo pode ser deduzido daí, é que Dilma cresceu 24 horas anteriores à eleição, enquanto Marina e Aécio mostraram uma discreta imobilidade. Nunca, porém, que Aécio disparara em uma velocidade tão grande que não deixaria digitais, rastros ou qualquer marca no Facebook. Podemos aproximar mais a linha do tempo, reduzindo as margens para analisar melhor o paradoxo aeciano.

Na pesquisa Datafolha do dia 30 de setembro, Aécio apareceu com 20% das intenções de voto. Bastante distante do resultado final de 33,5%. Um crescimento de 20 para 33,5 pontos percentuais em uma semana certamente é coisa raríssima nos anais da crônica de eleições pelo mundo.

Talvez na derrota de Cidadão Kane nas eleições em que era favorito absoluto. Mas ali tem o escândalo de uma vedete dentro do armário, que os inimigos vão buscar. E, como dizem os franceses, foi preciso fazer só o óbvio: cherchez la femme. Mas aqui estamos Muito além de cidadão Kane. Nada disso ocorre. Não há vedete nem dançarina, nenhum escândalo, nenhuma revelação chocante.

A situação desafia todos os cânones da fria razão. Recapitulemos brevemente os dados mais significativos sobre a evolução dos candidatos.

Na pesquisa do Datafolha de 10 de setembro, tínhamos Dilma com 36%, Marina com 33% e Aécio com 15%. Já dois dias depois, em 12 de setembro, na pesquisa do Ibope, Dilma subiu para 39%, Marina caiu para 31% e Aécio continuou com seus 15%. Nova pesquisa do Datafolha em 19 de setembro mostrou que essa tendência se confirmava: Dilma 37%, Marina, 30%, e Aécio, 17%. Dentro da margem de erro, Dilma poderia estar com 39, dois pontos para mais. Aécio com 19, e Marina, com 28. Seria o esperado.

É quase o que se tem na pesquisa do Datafolha de 23 de setembro: Dilma aparece com 38%, Marina 29% e Aécio 19%. Assim, verifica-se uma tendência à queda de Marina, refletindo os tropeços que trouxeram luz sobre as inconsistências da candidatura. Até aqui, salvo a virada messiânica que fez Marina ascender às grimpas, explicável numa população supersticiosa que se alimenta de novelas há tanto tempo, tudo é bem plausível.

Até mais que isso, a queda de Marina parecia refletir uma guinada em direção à realidade contra o encantamento do mundo. O surto, tudo indicava, tinha dado lugar à lucidez meridiana. Para confirmar esse diagnóstico, tivemos duas pesquisas atestando a mesma tendência, ambas divulgadas no sábado dia 4, ou seja, um dia antes da eleição do domingo, 5.

A pesquisa Ibope, dava Dilma com 46% dos votos válidos e Aécio com 27% e o Datafolha apurava 44% dos votos válidos para Dilma e 26% para Aécio.

Desprezando o fato de que as pesquisas não tratam ambas de votos válidos, mas ficando apenas na proporcionalidade que indicam, Dilma foi de 37 a 46, entre 19 de setembro e 04 de outubro, subindo 9 pontos. Aécio, foi no mesmo período de 19 a 27, ganhando 8 pontos. Nada, portanto, que fugisse ao script da nossa vã filosofia e da clarividência científica. Artigo sobre a pesquisa no G1 começava com as seguintes palavras:

“Pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas neste sábado (4) mostram que a candidata Dilma Rousseff (PT) continua na liderança isolada na disputa pela Presidência da República, mas ainda não tem pontuação suficiente para vencer no 1º turno.”

Note-se que é dito que Dilma ocupa a “liderança isolada”. Por mais que o movimento fosse de ascensão para Aécio, não chegava a ser um movimento vertiginoso e irrefreável. Tanto mais que Dilma movia-se também em sentido ascendente. Portanto, a subida de Aécio não se explica por uma brusca queda de Dilma. Agora, a passagem de Aécio, tomando os dados do Ibope, de 19% no dia 2 de outubro para 33,5% no dia 5, desafia toda sanidade.

São as leis do mundo reais, tridimensional, movido por causas e efeitos, que são vilipendiadas. Em suma, a subida de 14,5 pontos em três dias, 72 horas, é ridícula. Nem Marina, com a hecatombe da morte de Eduardo Campos, passou por uma virada tão estrambótica. Há ainda o agravante de que no caso de Aécio, nada de comovente ocorreu. Nenhum fenômeno (natural ou sobrenatural) que pudesse abalar, chocar, desestabilizar uma parte do eleitorado foi verificado.

Foram debates mornos, nada eletrizantes. Como é possível que, em condições tão sóbrias e mundanas, tão contidas dentro das rédeas da previsibilidade, o cavalo do imprevisível tenha desembestado?

aecio-e1391877324109Aécio não teve nenhum desempenho brilhante nos debates. Nem Dilma foi submetida a qualquer rolo compressor. Nada ocorreu fora do riscado. Tudo normal. Ora, a natureza não dá saltos. E como explicar tanta bananada para tão pouca banana, como dizia minha avó? Se trata de um efeito sem causas? Mas não existem efeitos sem causas, assim como não existe mula sem cabeça. Até a mágica, que parece não ter causas, é feita a partir de truques de manipulação muito concretos.

Se o empate técnico de Marina e Aécio só foi registrado na pesquisa divulgada na quinta-feira dia 2, vamos crer que na data da eleição, três dias depois, Aécio estaria com 34% dos votos e Marina com 21%, ou seja, uma diferença de 13 pontos percentuais em 72 horas? E logo Aécio, tão pacato, tão pouco dado a arroubos e sobressaltos.

Como seria ele capaz de provocar esse estouro da boiada? Isso é absurdo. Por mais que o Brasil esteja habituado, faz muito tempo, às formas mais variadas de demência, despautério, despropósito, alucinação e o mais, não se deve aceitar passivamente uma situação tão despropositada. Seria o cúmulo da ingenuidade correr para dizer que os institutos de pesquisa erram quando, para qualquer observador sereno, são os fatos, em especial as percentagens, que se mostram suspeitos.

“Nos lugares em que se esperaria uma maior maturidade da classe média, ela se mostrou o segmento social mais perdido”

Da minha parte, não sei por que o silêncio paira tão espesso sobre fatos tão óbvios, e ninguém levanta a voz para dizer que o rei está nu. Talvez isso se deva ao fato de a classe média brasileira, o locus de onde costuma sair aquilo que se chama opinião pública, tenha perdido de vez a capacidade de refletir. Dificilmente essa eleição deixará de entrar para a história brasileira como um ponto de mutação.

Não evidentemente da política, que continuará marcada pela força do latifúndio (agronegócio), das empreiteiras e da corrupção. O que se cristalizou com uma força assustadora foi o completo esvaziamento do senso da classe média ― não estou falando em senso crítico, mas apenas na modesta capacidade de julgamento normal, médio, de qualquer cidadão.

Esse déficit parece ter sido mais sentido nos centros mais urbanizados onde, pelas teorias clássicas da sociologia, seria menos esperado. Ou seja, nos lugares em que se esperaria uma maior maturidade da classe média, ela se mostrou o segmento social mais perdido. Certamente essas eleições se desenvolveram como Janus, com duas faces, uma muito marketizada, colorida e sorridente, e outra tenebrosa, pontuada pela desesperança e pela cruel constatação da falta de opção.

O eleitor se viu emparedado entre o deserto e a miragem, e talvez, no fim, tenha preferido mergulhar no delírio. Basta analisar minimamente o perfil dos candidatos para ver que “grandes são os desertos”. Raspando um pouco a maquiagem colorida, os candidatos aparecem como figuras essencialmente retrógradas e exemplos muito límpidos da velha tradição da política brasileira. A tradição dos herdeiros e apadrinhados.

Dilma, evidentemente, sem nunca ter ocupado cargo eletivo, nem de vereadora, chegou à presidência por milagre emanado de Lula. Aécio, que também nunca precisou fazer força pelo voto, embora tenha sido eleito várias vezes, é o neto ungido pelo avô Tancredo. Na verdade, é quase um sarcófago vivo que carrega as cinzas e as relíquias de prestígio do antepassado.

Marina (a única para quem a alcunha de herdeira seria forçada, ao menos até sua parceria com a herdeira do Itaú) é a fiel depositária de vontade póstuma de Eduardo Campos que, por sua vez, foi o delfim do avô, Miguel Arraes, e, por fim, Luciana Genro, que aparece na rabeira, é filha de Tarso Genro, governador, ex-ministro da Educação, ex-ministro das Relações Institucionais, ex-ministro da Justiça, ex-presidente nacional do PT.

Nesse quadro, ainda mais considerando a falta quase completa de programa inovador dos partidos, não se vê nada que pudesse apontar alguma luz no fim do túnel. Em torno desses personagens com clara fixação nas modalidades antigas de identidade política, uma classe média tresloucada se viu chamada a decidir. Ela poderia ter sido o fiel da balança, mas foi na verdade o biruta de aeroporto, aquela touca sem cabeça que indica para onde apontam os ventos.

Assim, essa cabeça de vento, sem peso, sem decisão, sem lastro, apontou em diversas direções, subindo e descendo à força das imagens construídas pelo momento, pelas ênfases da mídia ou pelo pânico de boiada. Extremamente gelatinosa e volúvel, essa classe média migrou de Aécio para Marina, por motivos messiânicos logo depois da morte de Eduardo Campos.

O avião que caiu dos céus seria a estrela cadente, sinal celeste seguro de que Marina era a eleita do senhor. Agora é ver se o resultado das eleições será aceito por todos os brasileiros, como se o país fosse formado por milhões de aloprados espalhados por vasto território. Quem cala consente e aceita. O mais provável é que o fetichismo da modernidade cosmética, das urnas eletrônicas hermeticamente lacradas e da infalibilidade dos tribunais superiores, como a antiga infalibilidade do papa, já de antemão tenham vacinado o eleitorado contra qualquer fagulha reflexiva.

Mas se até os Estados Unidos não se vexou de proceder a uma recontagem de votos, reconhecendo que através dela se conferia legitimidades às eleições presidenciais, não se vê motivos que impediriam de colocar a questão para o Brasil.

* Bajonas Teixeira de Brito Junior é doutor em Filosofia, duas vezes premiado pelo Ministério da Cultura por seus ensaios sobre o pensamento social e cultura no Brasil, professor universitário e escritor.

Leia também:

Bráulio Pedrosa, em resposta ao lixo que atacou nordestinos: “Imagine se o Nordeste ficar independente”

A pesquisa desmoralizada

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa

Os dois institutos de pesquisa mais acreditados pela imprensa aceleraram muito no final de semana, mas perderam a corrida rumo à boca da urna. Nem o Ibope, nem o Datafolha, chegaram sequer perto de detectar a maré de adesões que levou o candidato do PSDB, Aécio Neves, ao segundo turno.

BzY74wFCQAIwrWQO conservadorismo do eleitorado paulista superou a desconfiança que o ex-governador de Minas sofre em seu próprio Estado, a presidente Dilma Rousseff continuou onde sempre esteve, com pouco mais de 40% dos eleitores, e Marina Silva viu mais uma vez o voluntarismo desmanchado pela máquina de colher votos.

Por que os pesquisadores não conseguiram detectar o crescimento da onda conservadora que se ergueu por trás da proposta de mudança?

Talvez os analistas estivessem ocupados demais em provar suas próprias teses e não perceberam que a polarização nunca deixou o campo do jogo: Marina Silva apenas encarnou, durante menos de dois meses, uma opção capaz de abrigar ex-petistas saudosos da inocência perdida e anti-petistas que não acreditavam nas chances de Aécio Neves.

A fragilidade da ex-ministra do Meio Ambiente convenceu os oposicionistas de que o senador mineiro seria mais competitivo.

Os jornais do final de semana refletiam o desencontro dos números, e os textos demonstravam mais claramente o desejo de seus autores do que argumentos em favor deste ou daquele cenário.

Diante do imponderável, que ainda apontava alguma possibilidade de Marina Silva vir a disputar o segundo turno, o stablishment da mídia parecia desconfiar de que Aécio Neves não teria o estofo de um José Serra para encarar um confronto com a máquina petista.

O noticiário e as opiniões de sábado e domingo registram um momento de insegurança da imprensa hegemônica.

No domingo, o fato jornalístico mais relevante foi a declaração de voto do jornal O Estado de S. Paulo, que pedia explicitamente a eleição do senador mineiro.

O texto patético, sem qualquer compromisso com a realidade exterior ao campo definido pela própria imprensa, repete bordões e preconceitos que são levados ao público pelos pittbulls contratados para atacar diariamente o governo.

Vale-tudo na imprensa

Nesta segunda-feira (6/10), o estado de espírito dos principais diários de circulação nacional é de euforia contida. O teor geral das análises é a volta da polarização, como se ela tivesse se ausentado durante a campanha do primeiro turno.

A maioria dos analistas parece crer com todas as forças que a grande massa dos eleitores de Marina Silva irá apoiar Aécio Neves, sem considerar a ampla aliança que conduziu a candidatura da ex-ministra, onde se juntaram desde militantes do movimento ambientalista até representantes do conservador Partido Democratas.

O Globo e o Estado de S. Paulo apostam, em suas manchetes, que a mágoa de Marina Silva por conta dos ataques que sofreu nas últimas semanas será determinante para que ela se empenhe em evitar a reeleição da atual presidente.

A Folha de S. Paulo também registra a primeira manifestação da ex-ministra em favor da oposição, mas sabe-se que seu partido já era um saco de gatos antes que ela se associasse ao ex-governador Eduardo Campos para compor a chapa do PSB.

Portanto, mesmo que ela vá para um lado, nada garante que seus eleitores a seguirão.

Os analistas convergem para a ideia de que o segundo turno será decidido por uma margem estreita de votos, e curiosamente ignoram os dois ou três pontos porcentuais agregados pelos partidos de menor expressão eleitoral.

Os mais de 1,6 milhão de votos de Luciana Genro, do PSOL, por exemplo, podem fazer grande diferença num cenário com muitas abstenções, como o que é previsto pelos mesmos especialistas.

Da mesma forma, os simpatizantes de Eduardo Jorge, do PV, mesmo invisíveis para os institutos de pesquisa, podem puxar apoios entre os que demoraram a se definir no primeiro turno.

Não se pode prever, portanto, o que irá ocorrer nas três semanas que nos separam da votação final.

Ou melhor, não se pode adivinhar para onde penderá o eleitorado, mas neste espaço onde se observa o comportamento da mídia, pode-se afirmar que o segundo turno da eleição presidencial deverá registrar o melhor do pior que a imprensa é capaz de produzir.

O editorial do Estado, declarando explicitamente o voto em Aécio Neves, é uma espécie de salvo-conduto para o vale-tudo que vem aí.