O locutor Ronaldo Porto (de barba e óculos), dr. Olímpio Andrade e Gandur Zaire Filho (blusa listrada). Anos 70. (foto enviada pelo baluarte Heleno Andrade)
Mês: agosto 2014
Cruzeiro massacra o Santa Rita
Golaço dá vitória ao Braga sobre Corinthians
Galo vence Palmeiras em S. Paulo
Ceará derrota Botafogo no Maraca
Ironias do cenário político brasileiro
Por Luiz Carlos Azenha (via Facebook)
1. Se o projeto político de Lula for derrotado pela ascensão social despolitizada que ele promoveu, “politizada” através de estatísticas apenas nas campanhas eleitorais, com aversão ao confronto de ideias; estou falando dos eleitores que tiraram proveito dos programas sociais mas se revoltam com a cobrança de impostos; que ganharam bolsa do Prouni e agora se orgulham de ler a Veja; que receberam energia pela primeira vez em casa e acreditam em tudo o que sai no Jornal Nacional. Tenho encontrado muitos destes, em todo o Brasil.
2. Se o projeto político de Lula for derrotado pelas consequências políticas da irupção de 2013; quando aconselhei blogueiros petistas a tentar entender o fenômeno, em vez de criminalizá-lo, perdi duas centenas de amigos no Facebook. Era gente que atribuia absolutamente tudo aos “coxinhas”, sem qualquer reflexão que pudesse resultar na formulação de uma resposta política ao que assistimos. E la nave va.
Coritiba aplica chocolate no Mengo
Mais reaças que o rei
Por Cynara Menezes
Entre todos os candidatos presentes ao primeiro debate entre os presidenciáveis na rede Bandeirantes, nem mesmo o pastor evangélico assumidamente de direita foi capaz de dizer que existe uma ameaça à democracia no Brasil sob o governo do PT. Nenhum deles falou que o PT defende censura à imprensa. Nem que os índios estão tomando a terra dos “brasileiros”. Quem fez isso foram dois jornalistas, Boris Casoy e José Paulo de Andrade, escolhidos pela emissora para fazer perguntas (ou editoriais disfarçados de perguntas) aos candidatos.
Casoy e Zé Paulo conseguiram ser mais reaças do que todos ali. Nunca vi, num debate, jornalistas se comportarem como opositores dos candidatos –no caso, Dilma Rousseff, do PT, e Marina Silva, do PSB, porque com o tucano Aécio Neves foram só levantadas de bola para ele cortar. Nunca vi, num debate, um jornalista fazer pergunta para um candidato criticando outro concorrente. Sobriedade mandou lembranças.
Mas o que mais me espantou é que nem Dilma nem Marina e nem mesmo Luciana Genro, do PSOL, candidatas mais à esquerda no espectro político, foram capazes de denunciar, de retrucar com veemência, posturas tão arcaicas quanto às demonstradas pelos dois jornalistas, certamente com o aval dos patrões.
Colhi algumas das pérolas da noite, confiram.
De José Paulo para Luciana com comentário de Dilma:
– A questão indígena, que até no Rio Grande do Sul se agrava, com índios essa semana fazendo policiais de reféns. Na Bahia, como ocorreu em Roraima com a Raposa Serra do Sol, brasileiros trabalhadores estão sendo expulsos da terra onde estavam há gerações. A crítica à Funai é que só antropólogos determinam a política indigenista. Recentemente, em audiência na Câmara, o ministro da Justiça falou em fortalecimento da Funai, mas até agora nada se fez. A pretexto de incluir os excluídos, exclui-se os incluídos. Candidata, somos ou não iguais em direito? Qual seria sua política indigenista?
(Luciana responde, mas poderia ter sido muito mais enfática: “Com todo respeito, o jornalista que fez a pergunta é que não entendeu o recado de junho”.)
De José Paulo para Aécio com comentário de Dilma:
– O governo federal criou por decreto o Conselho de Participação Social. É uma instância direta vista com apreensão por muitos setores: seria uma ameaça ao Congresso Nacional e consequentemente ao equilíbrio institucional. Seria uma bolivarização do Brasil nos moldes chavistas e agora a própria candidata acaba de lançar a ideia de um plebiscito para fazer a reforma política, o que, me parece, deixa de lado o Congresso Nacional. Como o candidato vê a movimentação dessas peças no tabuleiro político?
(Aécio, é claro, surfa na onda da “preocupação” em “garantir a democracia”, mas Dilma dá uma boa resposta: “É estarrecedor que se considere plebiscito algo bolivariano. Então a Califórnia pratica o bolivarianismo.”)
De Boris para Marina com comentário de Aécio:
– Setores da economia criticam o que classificam, candidata, de seu “radicalismo ambientalista”. Segundo eles, esse tipo de posição tem criado obstáculos para o desenvolvimento da economia do país. Citam o exemplo da usina de Belo Monte, que poderia produzir 11 mil megawatts e, por exigências ambientais consideradas exageradas, só vão produzir 4 mil. Como a senhora responde a essas críticas?
De José Paulo para Everaldo com comentário de Aécio:
– Os candidatos de oposição temem perder votos com posições que não sejam favoráveis à manutenção dos programas sociais do governo, que acabam sendo cabos eleitorais importantes, e nisso exageram, prometendo aumentar os benefícios que no fim vão pesar na carga tributária já elevada, como é o caso da Poupança Jovem do candidato Aécio. Se há uma justificativa a curto prazo para incluir os brasileiros menos favorecidos, quando é que vamos ensiná-los a pescar?
(Até o Aécio acha Zé Paulo reaça demais neste momento.)
De Boris para Eduardo Jorge com comentário de Dilma:
– Por considerar um assunto importante e grave, que envolve a liberdade no país, vou voltar à questão do controle social da mídia. O partido da presidente, o PT, insiste num plano de censura à imprensa, que eufemisticamente chama de democratização da mídia. A bem da verdade, a presidente Dilma, a candidata Dilma, não adotou, criou uma barreira, não tem colocado em prática, apesar da insistência do partido, essa ideia. Eu queria perguntar: se eleito, o candidato Eduardo Jorge vai levar esse plano adiante?
(Eduardo Jorge, para riso geral, diz concordar com Dilma.)
Quando vejo os planos dos coronéis da mídia para o Brasil, transmitidos por seus funcionários em um debate supostamente jornalístico e “imparcial”, percebo o quão diferentes são minhas críticas ao governo Dilma das deles. Percebo o quanto minha ideia, meus sonhos de País, se diferenciam dos proprietários dos meios de comunicação como a Rede Bandeirantes.
Critico a Dilma porque ela precisava ser mais atenta à questão indígena e à ambiental –a mídia acha que Dilma precisava ser ainda mais permissiva com os fazendeiros e o grande poder econômico (e o mesmo desejam de Marina).
Critico a Dilma por não ter concretizado a democratização da mídia, pondo fim à propriedade cruzada dos meios de comunicação, por exemplo, proibida em vários países. Isso nada tem a ver com censura –eufemismo quem usa são eles, ao dizer que democratizar a mídia é censurar. Os donos da mídia não querem a democratização porque temem perder seu poder, derivado do fato de que menos de uma dúzia de famílias (como os Saad, da Band) detém a maioria dos meios de comunicação no País.
Aplaudo o PT pelos programas sociais que incluíram milhões de brasileiros e acho que deve haver cada vez mais inclusão –a mídia acha os programas sociais, assim como as cotas nas universidades, desnecessários e excessivos.
Critico o PT por não ter batalhado mais pela reforma política e aplaudo a iniciativa de propor um plebiscito para fazê-la –a mídia aponta o plebiscito como “antidemocrático”, sendo que ouvir a população sobre este tema seria justamente o contrário. Curioso é que eles são contrários a ouvir a população sobre a reforma, mas foram a favor de plebiscito para dar direito às pessoas de terem armas… No fundo, não querem a reforma política porque são contra o financiamento público de campanha. A mídia sabe que o financiamento privado favorece os candidatos com maior poder econômico –os seus–, e portanto é melhor que continue assim.
O País dos reaças da mídia não me interessa. Ele é pior do que o que temos hoje. Mais injusto, mais desigual, mais concentrado nas mãos de poucos. Exatamente como a própria mídia.
Um ano perdido para Alan
Por Adriano Wilkson e Karla Torralba
Do UOL, em São Paulo
No dia 2 de setembro de 2012, o Estádio Olímpico de Londres se calou por um momento ao ver um novato derrotar o grande ídolo paraolímpico Oscar Pistorius na final dos 200 m para homens com as duas pernas amputadas. O responsável pela arrancada nos segundos finais da prova tinha 20 anos. O ouro inédito para o Brasil levou Alan Fonteles, até então desconhecido no país, à condição de fenômeno da categoria.
Natural de Marabá, no Pará, Alan ganhou a atenção da imprensa ao competir de igual para igual com Pistorius, e até superá-lo com alguma folga. A vitória de Alan provocou a fúria do rival.
Depois de Londres, o brasileiro consolidou sua hegemonia na categoria. No ano seguinte, quebrou o recorde mundial dos 200 m que pertencia a Pistorius. Venceu também nos 100 m do Open de Berlim, com novo recorde. O sucesso fez Alan sonhar em expandir as fronteiras de sua limitação. Ele chegou a anunciar que tentaria disputar competições com atletas sem deficiência, como Pistorius fizera nas Olimpíadas de Londres.
No auge, o brasileiro seria a grande esperança de medalhas para o Brasil nos Jogos do Rio, em 2016.
Seria. Sua trajetória ascendente deu uma guinada para baixo, e Alan Fonteles acabou se afastando do esporte a partir do fim de 2013, depois de quebrar os recordes mundiais. Ele faltou a treinos e compromissos, o que resultou em perda de parte de seu patrocínio. Até mesmo a disputa do Troféu Brasil, principal torneio do país para atletas sem deficiência, acabou deixada de lado. Ele já decidiu que não participará.
“Fiquei parado, dei um descanso para esses três anos que estão para vir”, disse Alan à reportagem. “Tentei a aproveitar a minha vida, ao lado da minha esposa. Eu ia bastante ao cinema, ficava em casa, saía para hotel-fazenda. Mas não fiquei totalmente parado, sempre ia à pista fazer algo. Quando você é atleta deixa muitas coisas por conta dos treinamentos. Eu procurei estar junto com os amigos.”
O afastamento trouxe consequências ao corpo dele. Alan está fora de forma, acima do peso ideal. “Ele estava fora das metas estipuladas pela comissão técnica para ele neste ano”, comentou o coordenador da seleção brasileira de atletismo paraolímpico Ciro Winckler.
O UOL Esporte conversou com outros atletas paraolímpicos, que disseram que Alan está gordo e faltou a treinos. Eles afirmam que isso diminui suas chances de medalha em 2016.
Meses depois de chegar ao topo do pódio olímpico, o corredor se envolveu em um acidente de trânsito que destruiu o carro que ele dirigia, em Belém. O teste do bafômetro constatou que havia álcool acima do limite permitido em seu sangue. Alan não se feriu com gravidade e chegou a admitir que estava errado.
Bafômetro, chocolate e carne
De lá para cá, ele descuidou da rígida dieta exigida a um atleta de ponta e foi pouco visto nas pistas de atletismo. Em uma entrevista ao jornal “O Globo”, depois de seis meses parado, admitiu que estava comendo mais chocolate e carne do que é permitido a um atleta de ponta.
Mas ele acredita que estar acima do peso não vai influenciar no tempo que pode fazer na pista. “Isso não está influenciando nos resultados. Eu estou retomando, preparando o corpo para o ano que vem. Em 1º de janeiro, fevereiro já estarei competindo em alto nível. Já estarei fazendo resultados. Eu estando bem para correr não diferencia em nada.”
Mas a interrupção do treinamento já se refletiu no bolso. Alan perdeu o contrato com o Time São Paulo, uma equipe de alto rendimento mantida pelo governo de São Paulo e gerida pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB).
“A não renovação foi uma decisão da própria Secretaria de Estado do Direito à Pessoa com Deficiência, após as ausências do atleta nos treinos e alguns compromissos contratuais, como eventos com o governador do Estado”, explicou o CPB via assessoria de imprensa.
“Foi uma surpresa para mim”, disse Alan. “Eu acredito que não teve um motivo para ter caído. Mas isso está resolvido. Eu saí do Time São Paulo e consegui outros patrocínios. Isso ficou no passado.”
Alan, também neste ano, perdeu uma bolsa do governo do Pará, porque, como mora em São Paulo, não tem mais vínculo com as instituições de seu estado de origem.
Ciro Winckler confia na capacidade de superação de seu atleta e afirma que ele conseguirá entrar em forma a tempo. Mas o tempo não para de correr. Se quiser chegar ao Rio ainda favorito, precisará ser ainda mais rápido do que naquela arrancada impressionante de Londres, em 2012. Ele está treinando em dois períodos, de segunda a sábado, para recuperar o tempo perdido.
“Este é um ano de trabalhar para o próximo. Em fevereiro ou março [de 2015] eu vou estar no meu melhor”, afirma ele.
Uma instituição centenária
Por Gerson Nogueira
Desde meus tempos de moleque lá em Baião atinei para o fato de que existia uma hierarquia do futebol muito bem desenhada no Brasil, quiçá no mundo. Esse quadro incluía algumas poucas instituições reconhecidamente importantes naqueles tempos, o glorioso final dos anos 60, de bom futebol e rock melhor ainda.
Além dos óbvios Santos e Botafogo, havia o Cruzeiro e o Palmeiras. Dos alvinegros que encabeçavam a lista não é preciso dizer muito, pois a própria história se encarrega de falar por eles. Lembro perfeitamente de uma velha capa da revista Cruzeiro, ainda digna da fama, com o Cruzeiro de Raul, Dirceu Lopes, Natal e Tostão. Camisa belíssima, com estrelas flamejantes a vesti-la.
Nesse mesmo período, meu pai José falava o tempo todo da Academia. Cheguei inicialmente a pensar que era alusão à universidade ou algo do gênero. Não, era um time de futebol. Um baita time que ganhava quase tudo, embora prejudicado em São Paulo pela glória do Santos de Pelé.
Com dois homens iluminados atuando no meio-campo, segundo as palavras do meu velho, com o devido reforço das narrações entusiasmadas do nobre Fiori Gigliotti. E havia ainda o suporte dos acordes luxuosos do hino palestrino, cujo início fala do “alviverde imponente”.
Alguns anos depois, já estudando em Belém, revendo jogos daquele Palmeiras sensacional, entendi que ele se referia à dupla Ademir da Guia e Dudu. Ou o contrário, como manda a etiqueta futebolística. Dudu & Ademir estão para a história palmeirense como Lennon & McCartney para a música ou o Gordo e o Magro para a comédia.
É, portanto, baseada em dois artífices da bola, a minha memória do Palmeiras vitorioso dos anos 60/70. Que teve ainda Valdir, Eurico, Rosemiro, Valdemar Carabina, Leão, Leivinha, Luís Pereira, Edu, César Maluco. E depois contou com Veloso, Marcos, Evair, César Sampaio, Djalminha, Zinho, Edmundo.
Sempre me impressionou a força que o Palmeiras tinha em São Paulo, quase sem repercussão maior no resto do Brasil. Ao contrário do que se pensava aqui de fora, o clube não se restringia aos amores da colônia italiana. Era (e continua a ser) uma instituição paulista por excelência. A ausência de grandes títulos depois de seus timaços montados na era Parmalat coincidiu com a explosão do futebol televisionado para todo o país e com a ascensão do rival São Paulo, logo secundada pelos êxitos do arquirrival Corinthians.
A penúria pós-Parmalat levou a duas quedas seguidas para a Segunda Divisão, fatos que tornaram o torcedor palmeirense ainda mais apaixonado, como é próprio da tradição do futebol. E não nos iludamos: é esse amor incondicional que está sendo comemorado nesta semana, pois só o amor de uma legião de adeptos é que faz um clube ser realmente grande.
Parabéns, Palmeiras!
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Mais um estranho negócio da bola
O lateral Douglas do São Paulo foi anunciado oficialmente ontem como negociado com o Barcelona. A transação despertou espanto geral quando foi revelada, pois estamos falando de um jogador desconhecido e sem maior brilho, além de ostentar um histórico sem grandes atuações. Há dois anos no Tricolor paulista, oriundo do futebol goiano e nada mais, nunca foi craque da rodada, não há lembrança de crônicas saudando seu futebol.
Estranho que o Barcelona venha lá de longe pagar quase R$ 11 milhões por esse lateral quase anônimo. Mais estranho é que ninguém questione neste Brasil que já foi bom de bola.
Só não é surpreendente se levarmos em conta que Daniel Alves teve um caminho mais ou menos parecido com o de Douglas e até hoje é reconhecido, pelo menos até a última Copa, como grande jogador.
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Paraenses que brilharam no Botafogo
Recebo do amigo alvinegro Ronaldo Passarinho um oportuno e esclarecedor recadinho: “Caro Gerson, paraenses que atuaram no Fogão além dos citados na coluna de hoje: Mimi Sodré (Almirante Benjamin Sodré), Nilo Braga (pai da atriz Rosamaria Murtinho), Otávio de Moraes (filho de Eneida), Quarentinha (o maior artilheiro do Glorioso). O detalhe interessante é que todos foram atacantes. Como é bom torcer pelo Botafogo”.
Como é bom ter leitores bem informados.
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Só o pênalti faz o bom goleiro
Em entrevista na TV, ontem, o ex-goleiro Marcos fez uma observação curiosa, mas pertinente. Segundo ele, a fórmula de disputa do Campeonato Brasileiro, sem mata-mata ou decisões extras, dificulta a formação de grandes goleiros no país. Faz sentido.
Lembrou seu próprio exemplo. Marcão foi um goleiro que se notabilizou pela facilidade para defender penalidades, pois era muito testado no Palmeiras em competições que incluíam decisões nos penais. Por essa qualidade acabou chegando à Seleção, onde se consagrou em 2002.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 27)
Capa do Bola, edição de quarta-feira, 27
Antes um Aécio na mão que duas Marinas voando
Por Luis Nassif
A aposta em Marina Silva é de alto risco por várias razões. Dilma Rousseff e Aécio Neves representam forças claras e explícitas e são personalidades racionais. Dilma defende um neo-desenvolvimentismo com uma atuação proativa do Estado e Aécio a volta ao neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso.
Em 2011, o pânico em relação à inflação tirou Dilma do prumo. Mas ela tem ideias claras sobre o país e sobre o que quer: política industrial, investimentos em infraestrutura, aprofundamento do social.
Podem ser apontados inúmeros vícios de gestão, mas também tem feitos consagradores, como a própria política do pré-sal, a construção da indústria naval, o Pronatec, Brasil Sem Miséria e um conjunto de obras – especialmente na área de energia.
Mesmo sua teimosia mais arraigada não chega perto do risco da desestabilização – apesar do terrorismo praticado por parte do mercado.
***
Com Aécio, a economia será submetida novamente a uma política de arrocho fiscal. Haverá refluxo na atuação do BNDES, fim das políticas de incentivo fiscal, redução da ênfase nas políticas sociais, interrupção no processo de reaparelhamento técnico do Estado. Se venderá novamente o peixe da “lição de casa” e do pote de ouro no fim do arco-íris.
Assim como FHC, Aécio estará ausente do dia a dia. Mas certamente se cercará de um Ministério de primeira grandeza e há uma lógica econômica por trás de suas propostas.
Até onde pretenderá chegar com o desmonte do Estado social, é uma incógnita. Mas age com racionalidade.
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Já Marina é uma incógnita completa.
Primeiro, pelos grupos que a cercam e que querem um pedaço desse latifúndio. E ela não tem um grupo para chamar de seu, a não ser para o tema restrito do meio ambiente.
Haverá uma disputa dura para saber quem a levará pela mão: economistas de mercado, os grandes empresários paulistas, ambientalistas radicais, os egressos do PSB e – se Marina se consolidar – os trânsfugas do PSDB paulista.
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O segundo dado é o mais confuso: a personalidade de Marina que nunca foi de admitir ser conduzida por ninguém.
Os que conviveram com Marina no governo reforçam algumas características:
Dificuldade em entender economias industriais.
Baixo pique operacional. Praticamente não conseguiu colocar de pé nenhuma de suas propostas à frente do Ministério do Meio Ambiente.
Jogo de cintura nenhum.
Tudo isso seria contornável, não fosse um aspecto de sua personalidade: teimosia e voluntarismo exacerbados. No governo Lula era quase impossível a outros Ministros definir pactos com Marina. Nas vezes em que era derrotada, costumava se auto-vitimizar.
Os empresários paulistas que apoiaram sua candidatura estavam atrás do símbolo político, o Lula de saias, o Avatar dos novos tempos. Vice de Eduardo Campos seria o melhor dos mundos, pois o presidente asseguraria a racionalidade do governo.
Colocaram como seus porta-vozes economistas, importaram o brasilianista André Lara Rezende, que encontrou a melhor síntese para casar o livre mercadismo com as propostas ambientalistas de Marina: o país não pode crescer para não comprometer o equilíbrio do meio ambiente mundial. Quem chegou, chegou, quem não chegou não chega mais.
***
Experiências recentes do país indicam que o componente pessoal, a psicologia individual é um ponto relevante na análise de figuras públicas.
Resta saber se o país está disposto a pagar para ver.
Para os mercadistas: aguardem um mês de campanha antes de iniciar a cristianização de Aécio, para poder entender melhor a personalidade de Marina.
É preferível um Aécio na mão que duas Marinas voando.


