Marina pode atropelar os tucanos?

Por Rodrigo Vianna

Com o olhar compungido, Marina Silva surge numa sala apertada, para o primeiro pronunciamento depois da morte de Eduardo Campos. Não fala de temas eleitorais, oferece “apenas” conforto à família do candidato morto. Não tem pompa nem pose, não quer parecer uma “estadista”…

Assisto à cena na Redação. Uma colega, menos afeita aos temas da política, pergunta: “quando será que ela começa a campanha pra valer? Precisa esperar uns dias, né?”.

Outro jornalista, mais experiente, responde rápido: “a campanha dela já começou; isso aí que você tá assistindo é o primeiro pronunciamento de campanha”.

Poucas horas depois, converso com outro colega – raposa velha em coberturas eleitorais: “o que você achou da fala da Marina?”. E ele: “importa pouco o que ela disse; importa muito mais a maneira como aquilo foi dito”.

1502258_794210863975133_5046972747066374490_oMarina Silva não precisa falar de política pra fazer política. Essa é a grande força da candidatura dela. Não sei se Marina surgirá na faixa dos 15%, ou acima dos 20% na próxima pesquisa DataFolha (que será divulgada entre domingo e segunda-feira). Mas sei que ela tem uma boa chance de encampar o discurso da “não-política”. Um discurso que é – claro – tudo menos “não-político”.

Eduardo Campos enfrentava enorme dificuldade para conquistar esse eleitor desesperado por algo “novo”. Aécio, então, nem se diga…

Esse era o grande nó da campanha em 2014. Um terço dos eleitores está fechado com Dilma; outra parcela (bastante barulhenta, mas que reúne pouco menos de um terço do total) se dispõe a votar em qualquer um contra o PT; só que há ainda 30% dos eleitores que não querem PT mas também não topam PSDB. Esse é o eleitor desiludido “com tudo que está aí”.

Em 1960, esse clima de “mar de lama” terminou em Janio. Em 1989, a desilusão terminou em Collor.

Em 2014, Eduardo achou que poderia ser a terceira via, com um discurso moderado, a meio caminho entre PT e PSDB. Não entendeu, talvez, que esse terço “desiludido” dos eleitores não quer meio-termo, não quer meio do caminho. Quer alguém que seja (ou pareça) outro caminho.

Até duas semanas atrás, estava claro que a sorte de Dilma era ter uma oposição que não representava a “mudança”. Aécio é um político jovem, mas tem uma imagem precocemente “envelhecida”, até pelas companhias de palanque (Serra, FHC etc). Eduardo era uma liderança nova, mas também pesava contra ele a imagem de “político engravatado”.

Marina, não.

Comentaristas atucanados nem esperaram o corpo de Eduardo ser recolhido. Começaram a  espalhar que Marina é a candidata perfeita “para garantir o segundo turno”. Acham que ela repetirá 2010, quando os votos marineiros levaram de fato Serra ao segundo turno.

Só que no meio do caminho houve junho de 2013. A sociedade, ali, pareceu pedir mudanças mais profundas no sistema político. Dilma fez a leitura correta: propôs a Reforma Política e a Constituinte; estratégia barrada pelo PMDB. O mal estar se aprofundou desde 2013…

A oposição (com seus comentaristas gagos nas rádios e seus acadêmicos de segunda linha) não compreende por que o eleitor que pede mudança não vota no Aécio. Ora, a maioria do Brasil não quer andar pra trás… Um terço vai com Dilma. Outro terço quer mudança sem tucano nem liberalismo velho dos anos 90.

Marina pode ocupar esse espaço.

O sonho dos tucanos é que ela apareça forte na próxima pesquisa, mas que depois seja desidratada para abrir passagem a Aécio Neves. Falta combinar com os eleitores.

O mais provável é que, se a opção Marina prosperar no PSB (e tudo indica que vai prosperar), a eleição se decida entre Dilma e a ex-ministra do Meio Ambiente.

O que pode barrar Marina? O veto do empresariado, dos ruralistas e das empreiteiras preocupados com o discurso “anti-desenvolvimento” dela. Francamente, esse não é um obstáculo relevante do ponto de vista eleitoral…

Marina pode virar a candidata da “anti-política” (mesmo com apoio da Natura, Itaú, e de economistas liberais – que teriam o papel, justamente, de chancelar os compromissos dela com o chamado “mercado”). Até porque, isso é inegável, Marina carrega – legitimamente – as bandeiras de um novo ambientalismo e de uma juventude que esperam mais do que acordos com o PMDB para mudar o Brasil.

Mais que isso: ela vai carregar a imagem de Eduardo Campos Brasil afora. O jovem que queria “mudar o Brasil”. O apelo é forte.

Marina pode ser uma espécie de Janio de 2014? Ela é mais que isso, certamente.

Evangélica, verde, messiânica. Será que é nesse “novo” que o Brasil vai apostar?

Do outro lado, há Lula e um projeto em parte desgastado. Há uma militância que defende Dilma (sem empolgação) contra os tucanos. Mas terá a mesma disposição para enfrentar Marina? Com qual discurso?

Minha impressão é de que a candidatura Marina Silva tem boas chances de prosperar, e de tirar os tucanos do segundo turno.

Marina – se for de fato confirmada como candidata – pode ganhar de Dilma? Sim. Tem chances mais que razoáveis. Mas gostaria de ouvir a opinião dos internautas. Porque nesse tema não há certezas…

18 comentários em “Marina pode atropelar os tucanos?

  1. Campos era bom pros líderes nas pesquisas. Nunca ganharia. Mas poderia ser um rival de peso em 2018. Acho até que era isso que ele pretendia. Sabia que não tinha chances. Marina tem? Talvez, mas Campos nem isso tinha.

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  2. Pode parecer loucura ou pura teoria conspiratória, mas um acidente que vitima um presidenciável com menor apelo popular que o seu vice é muito suspeito.

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  3. Marina é uma viúva de Chico Mendes e, agora, de Eduardo Campos também. É uma herdeira de Lula e da época da boa imagem do PT. Ela vem sabiamente acumulando bons adjetivos, e se desvinculando dos maus, mas tem um discurso fraco. Ela é ambientalista, socialista, e pró-trabalhador, além de evangélica, que se alinham facilmente e lhe conferem força política. Com essas características, tem tudo mesmo para seduzir o eleitorado. O problema todo é que não é preciso muito para ganhar votos num país onde o voto é obrigatório e a maioria prosaicamente não tem lá muito interesse nos rumos do país, e sim em pagar as contas no fim do mês e botar comida na mesa. O brasileiro não é um crítico político politizado. Marina foi produzida, como já disse antes, pensando nesse perfil de política. Ela foi uma terceira força na última eleição, não há dúvida, e seu comportamento e postura diz muito sobre seu objetivo de chegar ao poder a todo custo, deixando para trás as más impressões que poderiam ter lhe custado o título de presidenciável.

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  4. Marina é forte candidata a presidência, isto é fato. Quem a critica, de modo especial os ultra-petistas, esquece que a mesma nasceu e cresceu na luta com nada menos que Chico Mendes e o próprio PT do ex-presidente Lula e atual presidente Dilma.

    Alfabetizada aos 19 anos, Marina tem a história parecida com o de muitos brasileiros (tal como Lula) que venceram e vencem inúmeras dificuldades na vida (inclusive doenças).

    Sim. Amigos. Ela é uma via que foge a mesmice. Como Lula era em 1989. Marina é esperança de algo diferente. Pode dar certo? Pode. Pode dar errado? Pode. O mundo é assim. Para brilhar é preciso arriscar, quem não arrisca não dá o salto necessário.

    Amigos, eu voto em Marina. Eu faço parte dos que estão descontentes com o atual governo. Eu faço parte dos que sabem que Aécio é retrocesso.

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  5. Marina é forte candidata a presidência, isto é fato. Quem a critica, de modo especial os ultra-petistas, esquece que a mesma nasceu e cresceu na luta com nada menos que Chico Mendes e o próprio PT do ex-presidente e atual presidente.

    Alfabetizada aos 19 anos, Marina tem a história parecida com o de muitos brasileiros (tal como o ex-presidente) que venceram e vencem inúmeras dificuldades na vida (inclusive doenças).

    Sim. Amigos. Ela é uma via que foge a mesmice. Como o ex-presidente era em 1989. Penso que Marina é esperança de algo diferente. Pode dar certo? Pode. Pode dar errado? Pode. O mundo é assim. Para brilhar é preciso arriscar, quem não arrisca não dá o salto necessário.

    Amigos, eu voto em Marina. Eu faço parte dos que estão descontentes com o atual modelo. Eu faço parte dos que sabem que Aécio é retrocesso.

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  6. Apesar de optar por Marina, tenho o total respeito pelos que mantem o voto na atual mandatária nacional, bem como pelos que votam em Aécio, pois, democracia é viver nas diferenças…

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  7. Concordo Celira. Dilma ou Marina, mesmo o nada confiável Aécio. Uma pena o E.Campos ter ”partido” prematuramente, pois acho que em 2 ou 3 eleições, com esta, ele poderia chegar à Presidência.

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  8. Mariano, tá faltando esclarecer a questão das caixas pretas que não gravaram nada do que conversar os pilotos nas duas horas de vôo da aeronave. Ainda espero uma explicação, pela “mudez” das caixas, mas não creio nem de longe em sabotagem. Até mesmo a hipótese do sinistro ter decorrido de uma fatalidade com os drones que estariam circulando próximo eu acho remota.

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  9. Pois é Antônio Oliveira, os especialista dizem que um acidente aéreo só acontece após uma sequência de falhas e este não foi diferente.

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  10. Ops: *gravaram ** nas duas últimas horas de vôo.
    Quanto às falhas Mariano, segundo o noticiário esta aeronave já havia apresentado defeito em junho e um dos pilotos já declara se ressentir de cansaço, pelas redes sociais. No entanto, ha um áudio da base em terra que registra a conversa do piloto com os operadores na hora que o aviao tentou arremeter e mostra o piloto calmo e sereno. Isto é, parecia que além da impossibilidade do pouso imediato não havia nada de extraordinariamente problemático.

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  11. Continuarei no nulo, Oliveira. Nossa política vive de troca de favores, uma suruba imoral (e existe suruba moral? Rss). Marina pra garantir “governabilidade” fará acordo até com os velhos diabos da política, não nos iludamos. Tá no DNA da política brasileira, que precisa de uma verdadeira reforma, e não dessas leis que não mudaram nada: ficha limpa, fidelidade partidária etc

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  12. Maurício, eu te compreendo. E dependendo de como ficar o cenário dos candidatos após o sinistro, posso também anular meu voto, como já iria fazê-lo mesmo. Mas, na hipótese da Marina vir, vou alterar meus planos iniciais. Ela ter sido praticamente expulsa do partido do governo a deixa com uma certa margem de credibilidade comigo.

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  13. Marina não teria condições de governar o Brasil.
    Dilma só aguentou o tranco, pq sempre teve por perto a proteção orientadora de Lula.

    O Mazola pioneirizou o sistema, depois veio o sistema da copa verde, depois o da copa do mundo, depois o da copa do Brasil, e agora o da queda do avião do Campos, tá sobrando pra pobre da Marina, que por sinal é evangelica.

    Ahhhhhhhhhhhh sistema desgraçado!!!!!!

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