Por Roberto Andrés, na Piauí
O séjour alemão botou o pequeno vilarejo na mídia. Logo na largada, uma foto do time na balsa foi capa da Folha de S.Paulo. Imagens cotidianas da vila ganharam o mundo. Mais de 200 jornalistas alemães estiveram em Santo André, o que representa um quarto dos moradores. Um centro de mídia foi montado para coletivas de imprensa. Antenas de celular e rádio foram instaladas pela DFB.
Junto com os jogadores, aportou um time de policiais. A vila, com índices de criminalidade quase inexistentes, não tem posto policial. E boa parte dos moradores parece preferir a vida assim. Reclamaram sobretudo da velocidade com que as viaturas passavam pelas ruas – estreitas, sem calçadas e cheias de crianças. Uma associação local pintou e distribuiu placas indicando velocidade máxima de 20 quilômetros por hora.
A rua em frente ao Campo Bahia virou território da Fifa, vigiado por policiais que impediam a passagem dos sem-crachá. Nos primeiros dias, alguns pais não conseguiram buscar as crianças na escolinha, situada dentro da área cercada. Com o transcorrer da Copa, o ímpeto dos guardas foi arrefecendo e entrou em vigor a manjada lógica do jeitinho e do privilégio. A rua continuou cercada, mas caucasianos e amigos tinham mais chance de transitar.
Como Santo André é constituída basicamente por uma rua longitudinal e várias transversais, quem era barrado precisava dar a volta e caminhar pela estrada de asfalto e sem acostamento, que segue rumo ao norte. Numa tarde de junho, o carro da Sorveteria Sabor Capixaba foi forçado a se desviar de seu trajeto habitual. O sorveteiro vai à vila toda terça-feira, vende quatro bolas a 1 real. O desvio o fez perder clientes fiéis e obrigou Maicon e Marlon, habitantes do perímetro cercado, a correr para o asfalto atrás de sorvete.
Mas os garotos não tiveram só infortúnios. Como moram em frente à entrada do resort, vira e mexe acabavam topando com os atletas e abiscoitaram camisas de treino autografadas, tênis e bonés. Maicon vendeu uma camisa por 50 reais e teve outra roubada. Ainda conserva uma terceira, “com autógrafo de todos os jogadores”, que não vende “nem por mil reais”, segundo informou a um possível comprador num Vectra cinza.
Os impactos imediatos na economia local são concentrados. Jogadores e comissão técnica ficaram a maior parte do tempo no Campo Bahia. Os jornalistas, alojados no Costa Brasilis – onde se alocou o Centro de Imprensa, com um McCafé e cerveja grátis –, costumavam almoçar por lá. Algumas pousadas receberam mais hóspedes, mas a diferença em geral não foi significativa. No setor de restaurantes, quase nada mudou. Os taxistas tampouco lucraram, uma vez que os jornalistas, maioria do público, haviam fretado carros.
Já o Costa Brasilis, cuja diária sai por cerca de 500 reais, alugou seus 120 quartos e o restaurante esteve sempre lotado. O Campo Bahia não divulga quanto recebeu da DFB por suas 65 suítes. Como costuma acontecer em megaeventos e, em especial, nos da Fifa, a distribuição dos prejuízos foi bem maior do que a dos lucros.
Era uma manhã de temperatura amena em Santo André, mar límpido, céu azul, areia branquinha. Uma escuna trazia turistas de Cabrália quando Joachim Löw e alguns jogadores iniciaram uma caminhada pela praia. Houve um pequeno alvoroço. Enquanto o treinador se deixava fotografar, perguntei-lhe o que seu pessoal estava achando do lugar. Ele abriu um sorriso raro e ergueu o polegar em sinal de positivo. A Alemanha havia passado das oitavas de final na tarde anterior, num jogo difícil contra a Argélia. Técnico e jogadores estavam descalços, alegres e relaxados.
Nenhum outro time parece ter tirado maior proveito da estada nos trópicos. Os companheiros de Neuer iam aos treinos correndo pela praia, tomavam água de coco, nadavam e passeavam de barco. Regressavam sempre na mesma noite em que haviam jogado. “Toda vez que entrávamos na balsa, tínhamos a sensação de estar voltando para casa”, comentou Bierhoff. Turistas habituais da vila costumam dizer o mesmo.
Houve quem tenha se lembrado das histórias da Seleção Brasileira na Suécia, em 1958, quando Garrincha e companhia desfrutavam da liberdade sexual do país nórdico, divertiam-se e jogavam bola em grande medida. Mas para a turma de Joachim Löw, com seus atletas patrocinados, a vida privada serve ao marketing e a simpatia produz ótimos virais. As páginas dos principais jogadores alemães no Facebook são patrocinadas pela Adidas, e é para lá que vão as fotos da doce vida praiana, da interação com os índios e das brincadeiras no hotel.
Em A Vida Descalço, o escritor argentino Alan Pauls comenta “a prodigiosa capacidade midiática da praia”, sua espetacularidade e sua capacidade de realçar a imagem. Os alemães parecem ter percebido isso. Uma foto postada por Kroos com a vista da janela do quarto teve 21 092 curtidas. Hummels na praia, 61 505. Neuer e Schweinsteiger na areia com o professor de dança, 99 414. Neuer oferecendo banana a um macaquinho, 227 856. Schweinsteiger mostrando a língua enquanto Podolski dorme, 406 977. Uma foto de Podolski com moradores de Santo André teve 31 826 curtidas, mas Oliveira, um senhor de 68 anos e pele enrugada que posou ao lado do alemão, nunca chegou a vê-la.
INVENCIONICES E CASCATAS
A Alemanha ganhou a Copa e o título de seleção mais simpática, este último em parte provocado pela imagem de turistas felizes e bons moços. Por ocasião da vitória acachapante sobre o Brasil, muito se disse que o clima entre eles era de constrangimento. Em Santo André, corre que naquela noite os rapazes voltaram cabisbaixos. Funcionários do resort relatam, com certo orgulho, que o dia seguinte foi de poucas brincadeiras.
Além do jogo de bola com crianças, do hino do Bahia entoado com torcedores locais e da dança com os pataxós, abundaram na mídia e nas redes sociais notícias das benesses que os alemães teriam proporcionado ao pequeno vilarejo. Dentre elas, a reforma do campo de futebol, a entrega de um veículo para uma aldeia indígena, a doação das bicicletas usadas pelos atletas, além do financiamento do turno integral de uma escola, para a qual também comprariam carteiras.
Considerável também foi a imprecisão na cobertura do legado. Na manhã de 14 de julho, a paulista Patricia Farina, diretora da escola municipal, conversava com uma jornalista da Rede Globo. Apesar do tom tranquilo, a diretora emanava irritação: reclamava de uma matéria do dia anterior, em que o repórter Pedro Bassan, da mesma emissora, afirmara que a DFB estaria bancando o turno integral na escola. De fato, prometeram a doação de 20 mil euros anuais por quatro anos, mas o projeto ainda não está firmado e o dinheiro só vai cobrir dois dias de período integral por semana.
Alguns jornais também noticiaram que as carteiras da escola haviam sido doadas pela DFB. Cascata. As carteiras estão lá desde o ano passado e foram adquiridas por meio de uma campanha entre moradores. “A escola é apoiada pelos moradores daqui. A ajuda dos alemães é muito bem-vinda, mas daqui a pouco vão pensar que estamos ricos e parar de doar”, comentou Patricia, franzindo a testa. Ela implorou à jornalista que passasse as informações corretas.
O campo de futebol da vila está sendo gramado, mas não por uma gentileza da DFB, como foi divulgado. A reforma foi uma das contrapartidas acordadas entre os empreendedores do resorte a prefeitura. Sete bicicletas foram de fato doadas pela DFB à escola. Enormes e acompanhadas de capacetes, foram entregues pessoalmente por Oliver Bierhoff, que afirmou custar 1 500 euros cada uma. Em seu último dia na vila, Bierhoff também passou às mãos do cacique Piki, da aldeia Coroa Vermelha, um cheque simbólico no valor de um carro. Na aldeia vivem 800 pessoas e não há nenhum veículo. O cacique havia pedido o automóvel para levar pessoas a hospitais e postos de saúde. Ele conserva o cheque gigante, no estilo Faustão, num lugar seguro, “enquanto o dinheiro vivo não chega”.
Nas redes a invencionice reinou. A notícia falsa de que o resort seria doado à comunidade bombou tanto quanto as matérias que a desmentiram, no dia seguinte. “As casas do condomínio já estão à venda”, disse-me Tobias Junge, que se absteve de divulgar os preços. No site do Campo Bahia, porém, pode-se reservar hospedagem. A 900 reais a diária na baixa estação, o “resort esportivo” oferece a possibilidade de escolher “a suíte de seu jogador preferido, com uma grande sala de estar compartilhada”.
No dia da final da Copa, muita gente em Santo André vestia camisas de treino da Alemanha, e havia um senso comum de que a vitória dos rapazes seria benéfica para o povoado. Quem destoava era a colônia argentina, a segunda maior do vilarejo. No mesmo bar em que Viviana e suas camareiras se divertiam na noite anterior, um grupo assistia à partida. O clima era de rivalidade. Os argentinos estavam à flor da pele, e os brasileiros abusavam da gozação. “Esse é o Brasil, amigo!”, dizia Galvão Bueno diante da imagem do Cristo Redentor sobre o Maracanã.
Quando o jogo começou, a atmosfera ficou ainda mais tensa. O bordão “Haja coração”, repetido mecanicamente pelo narrador global ao longo da partida, ali fazia algum sentido. Depois de intermináveis 120 minutos, quase no final da prorrogação, o golaço de voleio de Götze levou ao desespero os argentinos a meu lado. Poucos no bar repararam que a dança dos vencedores em volta do troféu era uma homenagem ao povo Pataxó. O som da tevê já estava baixo e começou a tocar uma música.
Com o caneco nas mãos e a pele bronzeada, os alemães desfilaram em Berlim. Em Santo André, a rua voltou a ser pública e o carro de sorvete pôde retomar seu trajeto. Viviana Romero voltou para Arraial D’Ajuda e vai viver um tempo com o dinheiro amealhado. A diretora da escola pensa em leiloar as bicicletas pela internet. A aldeia Coroa Vermelha já organiza uma vaquinha para manter abastecido o veículo por chegar.
Schweinsteiger postou em seu Facebook um último selfie praiano, direto do Leblon, e teve 1 254 915 curtidas.


Em alguns meses, os 7a1 irão virar cascatas,por conta das invencionices de gente que segue buscando pistas falsas para encobrir a vergonhosa lavagem.
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