Sobre a impureza dos justos

Por Gerson Nogueira
Muito longe das querelas envolvendo o nosso sofrido futebol e seus dirigentes mequetrefes, por incentivo indireto do amigo cruzmaltino Elias Pinto, passei os últimos dias mergulhado em releituras de obras que fizeram minha cabeça de desportista e palpiteiro juramentado.
Nesse recolhimento feliz acabei por reencontrar em pérolas inesquecíveis de Nelson Rodrigues, cuja pena afiada rendeu glórias sem fim ao teatro nacional e bafejou com igual generosidade o até então insosso ir-e-vir do futebol brazuca.
Sim, antes de Nelson, pode-se dizer sem sustos que havia o nada. Prevaleciam os idiotas da objetividade, os homenzinhos tacanhos e suas ideias cartesianas. Com o genial recifense, deu-se a epifania da pátria em chuteiras.
bol_dom_070413_15.psForam suas palavras, jorradas aos borbotões, que permitiram que o futebol fosse finalmente lido no Brasil. Até então, era apenas uma peleja disputada a pernadas e rasteiras nos campos. Ou, do ponto de vista do torcedor, um jogo para ser visto das arquibancadas, ouvido pelas ondas do rádio ou espiado na incipiente transmissão televisiva.
Nelson concedeu ao nobre esporte a grandeza de ser traduzido (e explicado) pelo verbo escrito. Como os homens das cavernas e seus desenhos rudimentares, a geração pré-rodrigueana esgoelava-se e vomitava letras sem nada dizer.
Foi com ele, tricolor desde sempre, que o futebol entrou para o mundo dos livros. Já era arte, mas virou literatura. O que dizer deste breve introito com que Nelson saúda o não menos brilhante João Saldanha? Com meneios e ares de ourives, o cronista faz breve ensaio antes de ir ao ponto. Apreciemos:
“Quando quero elogiá-lo, escrevo: ‘Saldanha, o injusto’. Aí está uma sutileza, que sempre esclareço para evitar torpes explorações. O justo é um dos mais abomináveis tipos humanos que eu conheço. Se o leitor quer um conselho, dou-lhe um e de graça: nunca receba um justo em casa. O último que eu conheci parecia um padrão de virtudes deslumbrantes.
Quando ele passava, havia o cochicho maravilhado: ‘O justo! O justo!’ O sujeito, antes de sair de casa, ia ao guarda-vestidos e tirava de lá a pose mais perfeita, mais irretocável. Vestia a pose como um fraque e saía por aí. E, um dia, o justo cruza com uma cunhada no corredor. Não disse uma, nem duas. Saltou no pescoço da vítima e deu-lhe um beijo no cangote. Vejam vocês – não respeitava nem as cunhadas. Ainda bem que o João é injusto”.
A prosa vai além, mas pincei estes breves parágrafos para que a verve rodrigueana (perdoe, caro leitor, a apropriação indébita) possa se espraiar neste espaço. Antes que derramemos lágrimas de esguicho, com as melancolias de um campeonato desgraçadamente avacalhado, é saudável beber um pouco do otimismo inquebrantável do velho Nelson.
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Um embate entre verdes
Ainda sem saber ao certo se haverá o jogo entre Tuna e PFC, visto que a coluna é escrita na madrugada de sábado (por razões industriais), arrisco observar que os cruzmaltinos entram na disputa em óbvia desvantagem, mas têm encarado as adversidades com tamanho destemor que seria precipitado avaliar que o Paragominas é favorito absoluto.
Sob o comando de Cacaio, a Tuna tomou jeito e alcançou um improvável lugar nas semifinais do returno. É preciso dizer sempre que o elenco cruzmaltino é o mais limitado entre os semifinalistas. São 23 atletas, situação que deixa Cacaio quase sempre na obrigação de improvisar em posições fundamentais.
Por parte do PFC, que cumpre jornada meritória, Charles Guerreiro tem o time na mão, com peças que ajudaram a fazer com que o artilheiro Aleílson deixasse de ser a andorinha solitária. Aliás, nas últimas rodadas, o goleador se retraiu, acusando o fato de ser mais vigiado pelas defesas inimigas. Ainda assim, o ataque continuou produtivo. Sinal de que há entrosamento, organização e compromisso.
Batalha duríssima, seja onde for – Souza ou Mangueirão.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 07)

Família de menino morto desmonta farsa de Marin

Do Blog do Paulinho

Em nenhum momento, nos protocolos que antecederam o amistoso entre Brasil e Bolívia, tocou-se no assunto “morte de Kevin”. Até porque, como já havia sido adiantado por esse espaço, o objetivo do jogo era outro, contribuir para a difícil situação financeira de ex-jogadores bolivianos dos anos 60. Cai por terra, oficialmente, a farsa montada por Jose Maria Marin, no intuito de pegar carona na tragédia de Oruro, para aparecer como benemérito. Fez bem o pai e toda a família do garoto, que ao perceber a manipulação do objetivo do jogo, feita pela CBF, recusou-se a comparecer ao estádio. Demonstração de dignidade, qualidade desconhecida por Marin.

FPF acata decisão do STJD e suspende rodada

Uma reunião envolvendo o vice-presidente da FPF, José Ângelo Miranda, e os diretores Antonio Cristino e Paulo Romano definiu na manhã deste sábado a suspensão da rodada prevista para o fim de semana, válida pelas semifinais do returno do Campeonato Paraense. A notificação do STJD, determinando que a rodada seja suspensa até que o mérito da ação movida pelo Santa Cruz seja julgada pelo TJD, chegou ontem à noite, depois do encerramento do expediente na casa. Diante do posicionamento do STJD, o tribunal paraense deve julgar o mérito do recurso do Santa Cruz, que exige a realização do jogo com o Paissandu válido pela sétima rodada do returno.

A bagunça institucionalizada

Por Gerson Nogueira

Na véspera do clássico-rei só não se falou de futebol em Belém. Perdeu-se tempo e energia discutindo as possibilidades de paralisação e, depois, a ameaça concreta de suspensão do campeonato. Depois das marchas e contramarchas da sexta-feira, cujo último ato da noite foi a decisão da Federação Paraense de Futebol de realizar as semifinais, pode-se dizer que não há mais limites para a avacalhação no futebol do Pará. Chegamos ao fundo do poço. Todos os recordes de lambança foram batidos na competição deste ano. Primeiro foi a mudança no local do jogo Santa Cruz x Paissandu, que levou ao W.O. ridículo, fora de época e sem sentido.

bol_sab_060413_11.psA partir daí, o campeonato entrou em terreno espinhoso, ameaçado pelas bravatas do Santa Cruz e a ameaça concreta de paralisação por força de recursos judiciais. Na tarde de ontem, a juíza de Salinópolis arquivou ação movida por um torcedor, reivindicando a interrupção do torneio.

Horas depois, o Ministério Público do Estado, vendo expirarem todos os prazos de tolerância, solicitou à Federação Paraense de Futebol a entrega dos laudos técnicos de verificação dos estádios Jornalista Edgar Proença e Francisco Vasques, palcos dos jogos da rodada do fim de semana. Como vem faz reiteradamente, a FPF silenciou e o MPE recomendou a paralisação do campeonato.

Os laudos cobrados pelo Ministério Público constituem a garantia de que o torcedor terá segurança e conforto ao comparecer às praças esportivas. Quando alguém, inadvertidamente ou por má fé, critica os promotores incorre em total injustiça, além de demonstrar desinformação.O papel do MPE é justamente o de cobrar e fiscalizar as ações de natureza pública, que digam respeito ao interesse direto da população, resguardando itens do Estatuto do Torcedor.

Na prática, o futebol paraense sobrevive como o mato que floresce na rua. Resiste e sobrevive por pura inércia. A desorganização é a norma, as datas não são respeitadas, os estádios são mal cuidados e inseguros. O Campeonato Estadual é uma farsa do ponto de vista financeiro, pois só se mantém vivo pela presença nos estádios dos torcedores de Remo e Paissandu.

Dirigentes da FPF costumam alardear um torneio estadualizado. Potoca. A coisa se resume aos dois gigantes, que arrastam multidões e bancam todos os custos. E, de quebra, ainda enriquecem muita gente que nunca chutou sequer uma bola de meia.

Do ponto de vista prático, o maior prejuízo causado por tanta incompetência está na perda de credibilidade. Depois do episódio do W.O. e das múltiplas escaramuças de ontem, o torcedor não terá como acreditar quando uma rodada for anunciada. Com toda razão, irá pensar duas vezes antes de comprar ingresso. O próprio jogo marcado para hoje, entre Remo e Paissandu, segue sob suspense, pois o STJD teria acatado um pedido de mandado segurança interposto pelo Santa Cruz, recomendando que as semifinais sejam suspensas até que o mérito do caso seja julgado.

Os clubes que fazem a roda girar deveriam, há muito tempo, ter tomado as rédeas do negócio. Dirigentes de Remo e Paissandu, que se curvam aos desmandos da FPF, não podem levantar a voz porque se submetem, cruzando os braços diante do descalabro.

Enquanto não houver uma tomada de posição por parte das diretorias da dupla Re-Pa todos serão penalizados, pois a FPF já deixou claro, com atitudes e equívocos sem conta, não ter o menor compromisso com o futebol do Pará. Todos têm conhecimento da bagunça, mas ninguém age. A apatia e o silêncio dos clubes começam a indicar comprometimento com a incúria. Depois disso, restará a falência absoluta. Não se está muito longe disso.

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Re-Pa com leve favoritismo bicolor

Sobre o esquecido clássico, caso realmente ocorra, a expectativa é de um certo equilíbrio, depois que o Remo reeditou contra o Flamengo o espírito guerreiro do primeiro turno. A dúvida é se o confuso esquema tático será mantido ou reformulado para encarar o tradicional rival.

O Paissandu, que entra em vantagem (podendo empatar as duas partidas), passou os últimos 15 dias treinando e descansando. Terá o time completo, liderado pelo meia Eduardo Ramos. Em situação normal de temperatura e pressão, a balança pesa para o lado bicolor. 

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Atrasos podem inviabilizar campeonato

Pelo ritmo do pagode, o Parazão 2013 pode passar de mico monumental a imbróglio jurídico de proporções tsunâmicas. Além da ausência de laudos dos estádios, o torneio corre o risco ainda de vir a ser interrompido por força de deliberação judicial.

O Santa Cruz, que tentou brecar as semifinais, planeja ir aos tribunais superiores e até mesmo à Justiça Comum. Pelo perfil do clube, surgido há um ano como parte de um projeto político e sem nada a perder, tudo pode ocorrer.

Caso os pleitos do Santa Cruz sejam acatados, a sétima rodada terá que ser refeita, com possibilidade de mudanças na ordem de jogos das semifinais. Há, também, a perspectiva de adiamento dos jogos até que os laudos dos estádios sejam entregues.

A situação tende a ficar ainda mais séria porque os atrasos comprometem o calendário, pois as competições nacionais (Séries B, C e D) começam no próximo mês, exigindo definição de representantes estaduais para que as tabelas sejam confirmadas.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 06)

Vote no mico da semana

Escolha seu King Kong e defenda-o, com unhas e dentes.

1) Fifa mete o bedelho na construção do novo estádio de Brasília e proíbe que o nome seja uma homenagem a Mané Garrincha, um dos três maiores craques de todos os tempos. É algo assim como proibir que, na música, se preste algum tributo a Frank Sinatra ou Jimi Hendrix.

2) Santa Cruz usa torcedor para tentar paralisar o campeonato, mas Justiça não acata liminar. Ministério Público recomenda suspensão por falta de laudas dos estádios. STJD determina paralisação até que recurso do Santa Cruz seja julgado. FPF mantém silêncio e confirma rodada. Torcedor não sabe no que acreditar. É o futebol do Pará voltando ao tempo das carroças.

3) Argentinos do Arsenal provocam sururu em Belo Horizonte depois de levarem um baile do Atlético-MG. Na briga, trocam sopapos com a polícia e atingem radialistas que estavam às proximidades. Conmebol, como é praxe, nada faz para coibir os abusos. 

Por falta de laudos, campeonato está paralisado

Reviravolta nas semifinais do returno do Parazão 2013. A rodada está cancelada. O Ministério Público cobrou os laudos dos estádios Jornalista Edgar Proença (palco do Re-Pa) e Francisco Vasques (onde jogariam Tuna x PFC) e a Federação Paraense de Futebol não atendeu o pedido. A última solicitação ocorreu na quinta-feira. Como a exigência legal não foi atendida, os jogos não poderão ser realizados. Mais um transtorno para avacalhar de vez com o Campeonato Estadual, que já havia sofrido um tremendo desgaste com o episódio do W.O. no jogo Santa Cruz x Paissandu. A FPF não se manifestou ainda a respeito do cancelamento da rodada e é provável que faça isso apenas na segunda-feira. Um show de incompetência e menosprezo pelo futebol no Pará.