Ao limite da ética

Por Cássio de Andrade

“A vida como bem supremo”. Com essa assertiva, a pensadora Hannah Arendt conclui um belo tratado acerca da condição humana na passagem do homo faber ao animal laborans contemporâneo. Penso nesse debate de Arendt, quando busco entender a irracionalidade proveniente da barbárie que envolveu a morte do jovem boliviano semana última.

Acreditei que os limites da indignação coletiva tivessem alçado à fronteira dos valores éticos e morais presentes na repulsa à violência e à exaltação impune da cultura da morte. Em pouco tempo, ruiu o castelo de areia da justiça e da boa vontade.

Após o assassinato do garoto boliviano, unem-se a mídia, o Corinthians, os corinthianos e todos os guardiões da barbárie para a construção de um fato: a invenção da culpa. A vida deixou de ser a bandeira da ética. Seu limite, a certeza da impunidade.

De qualquer forma, pequenas luzes brilham ante o universo do oportunismo e da inconformidade indigna. A punição ao Corinthians representou um pequeno passo à retomada da ética.

O que assusta não é a medida da punição que impunifica, mas da não punição exigida em nome da justiça, da equidade e dos valores das maltas. No território sem fronteira das redes sociais não há limite à contravenção, ao apoio ao menor convertido, à testemunha que zomba da dor. Ares insuspeitos se movimentam em areias insuspeitadas e na áspera cor laranja dos dentes brancos da menina-deboche, não nos faz pensar Serraut, nem os impressionistas. Surrealistas, talvez, contradizendo Veloso.

Ah, o Deus que pune dos antigos hebreus! Os demiurgos já seriam suficientes.

Estamos em março, o mês de José, de San Jose das altitudes, da modesta rede de homens de bens. Quem sabe, aponta Dêmocles sua flamejante arma aos incautos. E, assim, sonhamos, o bom senso volte a reinar, onde reine o império da lei no coração de timoneiros e náufragos.

Que Assim Seja!

18 comentários em “Ao limite da ética

  1. Esqueçam, não existe mais uma sociedade, o que há é um mercado. Não há mais cidadãos, só consumidores. Nem há mais torcedores, e sim, animais. Não somos contribuintes, somos otários. O que explica tamanha falta de bom senso? O excesso consumidores e a falta de cidadãos; o excesso de um mercado, e a falta de uma sociedade; a materialidade da vida, agora, a torna um bem. A vida não é o bem mais valioso, a vida nem é um bem. A vida em si não é patrimônio. A vida é a vida e não precisa ser mais nada, e nem pode ser.

  2. O foco,na realidade,deveria ser voltado à melhoria das condições de segurança a torcedores e cidadãos honestos em eventos esportivos,no caso,o futebol, face a este terrível incidente que culminou com a morte do jovem,além de inúmeros falecimentos que o antecederam e sucedaram-se ao transcorrer dos anos,justamente pela falta de leis mais rígidas e eficazes.

    O dinheiro,no capitalismo atual,infelizmente,para nós,pessoas de bem,em muitas situações ,está acima da vida para uma boa parte da sociedade.

  3. Talvez se o amigo fizesse esse texto amanhã incluiria alguma linha sobre o triste fato de 4 pessoas usando de seus conhecimentos profissionais de advocacia, conseguiram com um apoio de um juíz “FURAR” ( bem brasileiro) a lei e assistir na maior tranquilide o jogo.

    Amanhã (hoje) serão mostrados na tv e se acharão a última bolacha do pacote de biscoito.

    Como bem disse amigo Cássio, o Charles em seu comentário, em vez desse episodio gerar uma repulsa contra essa violencia desenfreáda e espalhada em todo o Brasil, há pessoas que indiferente a isso, preferem como sempre olhar apenas os seus interesses, e fazer valer a sua arrogancia.

    Sabemos que o Corinthians está tendo seus prejuízos, mas o que está faltando nessa história é um pouco de dignidade que vale muito mais do que qualquer quantia em dinheiro.

    Tá faltando ética
    Tá faltando respeito
    Tá faltando o Silêncio
    E não apenas 1 minuto de silêncio quando a bola volta a rolar.

  4. Para parte da imprensa e torcedores, o mártir deste triste episódio de violência não foi o menino boliviano, mas o Corinthians.

  5. Acho incrível como se inverte situações em nome de uma pseudônimo moral que só existe para consumo próprio ou de uma pequena Malta sedenta de vingança.O corinthians agora virou o mártir de uma sociedade hipócrita.Não era o mandante do jogo, não era responsável pelo policiamento, não é responsável jurídico pela sua torcida organizada, não cabe a ele vigilância a venda de sinalizadores a menores, porém deve de forma individual responder por todas as mazelas que se realizam em campo de futebol.évdificil realmente conter a inveja e o ranço a uma instituição futebolística de tanto sucesso atualmente, ainda mais sabendo de sua origem vinculada aos trabalhadores humildes de Sao Paulo que ousaram à época desafiar o esporte de uma elite retrograda e hoje desafia falsos moralistas e pseudos intelectuais.Não se iludam esse embrolho não retirara o clube de seus momentos de gloria.Morreu um menino lamentamos todos, agora atribuir culpa disso a quem não tem é absurdo.
    Obs:Jogo do corinthians , quarta feira, 10. Horas da noite, a maior audiência de futebol dos últimos tempos , quem diz é o Ibope.Como dizia o colunista : Os cães ladram e a caravana passa.

  6. Engraçado que aceitam a punição quando objetos são atirados pra dentro do gramado, como que assumindo o mau comportamento deliberado de sua torcida diante das câmeras de tv. E quando pelo mesmo motivo um torcedor morre é esse esperneio. Caramba, não foi um radinho ou um sapato que nem acertou o árbitro! Foi um objeto letal no olho de um garoto! Ah, mas no paulista ou no brasileiro o prejuizo é menor, claro que é isso.

  7. Sérgio, eu poderia lhe qualificar como um insano, um idiota, talvez um bárbaro em seus ideais, mas não, acho que na realidade tu és um ingênuo. E como tal, és vítima. Foste envolvido pela rede que se contrapõe às virtudes mencionadas pelo Édson, e pelo bem maior valorizado pelo Cássio, em face das irresponsabilidades pragmáticas dos engenheiros do capital, tal qual um inseto nas teias da aranha. E muito fácil argumentares com a paixão de torcedor, como a sentença fatal de que fazem grande injustiça ao time que torces. Difícil mesmo, será enxergar a verdadeira bárbarie em que estão transformando os “espetáculos” do futebol por nossas bandas. Chegaste ao estado de alucinação, de cegueira. Isto é sintoma. O mal maior lhe apoderou do bom senso. Mas há tempo para te livrares dele.
    abs

  8. Entendo que não houve barbárie na Bolívia. O termo é bem utilizado quando em situação de confronto direto, numa batalha, por exemplo, onde haja muitos em combate. O ocorrido no Couto Pereira após o rebaixamento do Coritiba, foi uma barbárie. O confronto entre torcedores no Pacaembu, naquela final da Copa São Paulo de juniores, também foi uma barbárie. O massacre de Eldorado dos Carajás, aquilo sim foi uma barbárie. Barbárie para o caso da Bolívia é um exagero. Acho que covardia, insensatez até, burrice, ignorância, ou tudo isso junto, é mais apropriado. Barbárie faz pensar que muita gente se envolveu numa pancadaria generalizada. Não foi isso. O comportamento da torcida corinthiana é inadequado: chegou à casa do adversário, hostil, intimidando, com gritos de ordem, bandeiras, e sinalizadores. Isso tem mesmo a intenção de assustar, intimidar. E não se viu confronto entre os bolivianos e os brasileiros. O que se viu foi um imbecil disparar contra um adolescente. Será que em San José não tem assalto? O crime parece mais um assalto que uma batalha. A falha na segurança é gritante, desde o Brasil até a Bolívia e, de fato, nenhum dos clubes tem poder de polícia. Não diminuiria nem a culpa do San José, nem a do Corinthians, mas a ampliaria aos governos dos dois países. Entendemos, no fundo, como justiça feita a punição dada ao Corinthians porque a agremiação falhou num requisito que julgamos ser sua missão, ou parte dela: ensinar o valor do respeito ao próximo pelo esporte, pelo “fair play”. Nós punimos o clube pela sua inabilidade de ensinar valores morais que desejamos: a civilidade, a fraternidade, a paz…

  9. Caro amigo Jorge Alves, aceite o contraditório e a opinião inversa a sua. Idiota ou insano é quem se acha o rei da verdade e fica arrotando uma justiça social caolha que só serve aos seus interesses. O Corinthians não teve judicialmente envolvimento aigum com o desatino do menor que de forma culposa(sem intenção) arremesou um objeto em direção a torcida adversária. Não a liame subjetivo algum entre a ação do menor e o Corinthians que não o de ser um torcedor sem ingerência nos atos do clube. Fique tranquilo entendo que na falta de argumentos legitimos você optou pelo ofensa barata. Já diz o ditado”Não espere bons modos de quem só possui rancor e inveja no coração”.

  10. PERFEITO COMENTÁRIO CASSIO DE ANDRADE,

    Acima de tudo tem de ficar a lição da tragédia EM QUE mesmo modo que ocorreu o assassinato do torcedor boliviano dentro de estadio de futebol na longínqua Bolivia, poderia ter ocorrido em qualquer lugar do mundo ou do BRASIL CONTIGO, COMIGO COM MEU FILHO, COM TEU FILHO, COM QUALQUER ENTE QUERIDO NOSSO OU DE QUALQUER UM DESSES ANTIETICOS QUE ESTÃO QUERENDO MARTIRIZAR OU TORNAR VITIMA O CORINTHIANS E A TORCIDA CÔCÔRINTIANA E TORNAR VILÃO DA HISTORIA O JOVEM ASSASSINADO, porque a violencia não livra cara de ninguém, independente de classe, cor, status ou religião.

  11. Uma ideia morta produz mais fanatismo do que uma ideia viva; ou melhor, apenas a morta o produz. Pois os estúpidos, assim como os corvos, sentem apenas o cheiro das coisas mortas.

  12. Sergio não querendo polemizar com vc, e também não querendo ser sensacionalista ou algo parecido, mas neste caso da morte do boliviano é necessário que venhamos tirar nossa camisa de clube e quem sabe também nos colocarmos no lugar do pai do garoto, irmão.

    Domingo depois de ver que houve uma organização no ReXPa passado levarei meus filhos ou quem sabe só um pra assistir esse de domingo agora.

    Cara quando era solteiro eu ia só pensando no jogo, hoje quando saio de casa sozinho saio pensando neles, na minha esposa e leva-los pela primeira vez a um jogo como esse, dobra minha responsabilidade.

    A gente sempre vai crendo que vai dar tudo certo, mesmo que o nosso time venha a ter perder ( tá amarrado!), mas a responsabilidade é muito grande!

    Por isso amigo, eu lhe digo com toda tranquilidade, o Corinthians tem que agradecer pela punição que lhe foi dada, pois num caso desses onde houve uma morte o certo mesmo era ele ser suspenso por uns dois anos das competições da Comenmbol.

  13. Lopes, a barbárie não reside no ato em si, mas na aceitação e no oportunismo de vários interresses que estão por trás dos desdobramentos no Brasil. É a cultura da barbárie que está em questão.

  14. Mandou muito bem Cássio, inclusive com um texto primoroso.

    O pior que é cultural amigo Cássio, temos sim que lutar e tentar descontinuar a vontade maciça de um povo que só pensa no próprio umbigo.

    Falta amor, falta carinho nos lares, faltam as idas aos cultos, faltam as idas à missas, falta Deus, falta “palmada”, falta respeito, falta isso começar em casa e a cada mau exemplo mostrarmos aos nossos filhos o verdadeiro caminho, pelo menos naquilo que consideramos ético.

    RRamos

Deixe uma resposta para adriano Cancelar resposta