São Francisco x Paissandu (comentários on-line)

Campeonato Paraense – semifinais do 1º turno.

São Francisco x Paissandu – estádio Barbalhão, em Santarém, às 20h30.

Escalações:

São Francisco – Jader; Levy, Aldair, Thalys e Jaquinha; Boquinha, Diego Carioca, Caçula e Jeferson (João Pedro); Ricardinho e Eliélton. Técnico: Osvaldo Monte Alegre.

Paissandu – Zé Carlos; Pikachu, Diego Bispo, Raul e Rodrigo Alvim; Vânderson, Esdras, Djalma e Eduardo Ramos; João Neto e Rafael Oliveira. Técnico: Lecheva.
Na Rádio Clube, Geo Araújo narra e Carlos Castilho comenta. Reportagens: Dinho Menezes.

O fim de um tempo no jornalismo cultural

Por Flávio Moura

Faz pouco mais de um ano que Daniel Piza morreu. Lembro que ele foi um dos primeiros a comentar, em 2000, em sua coluna na “Gazeta Mercantil”, sobre o lançamento deste caderno cultural. Era uma observação crítica, como se a estampa “Eu&” que nomeia o suplemento contivesse algum vestígio de autoajuda. Em seguida, na mesma coluna, seguia com os livros e discos e filmes de praxe, comentando ainda, não faço a menor ideia do motivo, que tomava água Perrier todos os dias em taças de cristal.

Eu tinha 22 anos em 2000 e dava os primeiros passos como repórter cultural. Ler Daniel Piza – e não gostar dele – era, portanto, uma obrigação. Para quem tinha pretensões acadêmicas, vivia a entrevistar doutos professores universitários e considerava raso qualquer crítico cultural que não citasse Adorno, desdenhar daquelas colunas era um passo necessário para ser admitido nos círculos que me pareciam esclarecidos.

Secretamente, contudo, ficava a invejar o espaço de que ele dispunha para opinar sobre o que quisesse. Aquilo não teria sido conquistado sem algum mérito. Lia as matérias que ele escrevia e achava em geral pertinentes, sobretudo as que tratavam de literatura e artes plásticas. Não havia voos interpretativos, mas o texto era claro e bem informado. Tinha sempre mais fôlego que a média do noticiário e às vezes trazia boas provocações.

No inicio dos anos 1990, comprou briga com os artistas do grupo Casa Sete, já naquele tempo tratados como heróis pela imprensa cultural. Mais recentemente, foi dos primeiros a apontar a qualidade de Milton Hatoum como prosador e a revelar bons títulos do calendário literário estrangeiro, como “A Lebre dos Olhos de Âmbar”, que jornalistas menos atentos descartariam como mera prosa comercial. Era, em suma, jornalismo de bom nível.

Sua morte gerou um mal-estar difícil de definir. Aos 41 anos, tinha uma presença tão ubíqua – depois passou a escrever sobre futebol, a falar no rádio, em blogs, a publicar livros infantis e até a fazer uma biografia de Machado de Assis – que era difícil imaginar que não atuaria de forma regular na imprensa até a velhice, a exemplo de Paulo Francis, um de seus modelos profissionais.

Entrevistei Daniel Piza uma vez, em 2002, para um trabalho de mestrado. Ele me recebeu na sua sala no “Estadão” em meio a pilhas de livros. Queixou-se da falta de densidade da crítica cultural no Brasil – “kulturkritik”, segundo a expressão que usou naquele dia. E comparou a leitura que havia feito em coluna recente do quadro de Velázquez (“As Meninas”) às analises da mesma tela feitas por Foucault, de quem discordava.

Na mesma conversa, revelou seu projeto de um livro sobre Ayrton Senna (seria publicado no ano seguinte, pela Ediouro). A morte do piloto, ele argumentava, coincidia com um momento de virada na vida política brasileira – a estabilização econômica e o Plano Real – e, como tal, representava um modelo de país que tentava se modernizar.

A morte precoce de Piza sugere uma associação parecida. No fim de 2011, foi como se morresse com ele uma forma de fazer jornalismo da qual ele foi representante dileto. Piza gostava de reivindicar o legado de Francis, de quem fora pupilo no início da carreira. Francis referia-se com carinho ao colega mais novo, que chamou de “Schopenhauer” numa entrevista ao “Roda Viva”, pois o considerava “muito cansado da vida aos 23 anos”. Piza escreveu um livro sobre o mestre, publicado pela Relume Dumará em 2004.

As semelhanças eram muitas. O estilo provocador, a inclinação liberal-conservadora, a emulação de mestres do jornalismo americano, o tom personalista e fragmentado das colunas, a falta de modéstia, a inspiração em pautas de revistas estrangeiras, o escopo inesgotável de temas, o esnobismo cultural, a apuração nem sempre precisa das informações, a altíssima produtividade, a veleidade literária, todos esses atributos de Francis estavam presentes de algum modo no trabalho de Piza.

Com a eleição de Lula em 2002, mais candidatos a herdeiro de Francis obtiveram destaque. Diogo Mainardi virou a estrela dos colunistas da “Veja”. Reinaldo Azevedo transferiu-se para as hostes da mesma revista. Na “Folha de S. Paulo”, João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé ganharam colunas e começaram a exercitar um tipo de provocação cultural e política que passou a repercutir. Revistas de ensaios de corte liberal e católico ganharam voz e apoio de arautos em posição de destaque.

Claro que não formavam um bloco homogêneo. Mainardi era o mais estridente e ferino, com a vantagem de que caprichava na autoironia. Azevedo assumiu a linha de frente da indignação moral com a corrupção. Coutinho trouxe leituras de liberais ingleses e afetava uma superioridade dândi capaz de irritar os leitores mais serenos. Pondé veio com sua teologia à moda antiga temperada por Dostoiévski e citações de filósofos de prestígio.

Em 2005, com o mensalão, esses nomes vieram ao proscênio e engrossaram a linhagem de jornalismo “à Paulo Francis” que Daniel Piza era dos únicos a encarnar até ali. Os escândalos políticos e o desmanche moral de quadros importantes do PT conferiram um rosto, deram combustível e legitimidade a esse grupo, que acabou respondendo por uma parte importante da identidade assumida pelo jornalismo brasileiro na segunda metade dos anos 2000.

A morte de Piza serve de emblema para o fim dessa era. Ao cabo de 2011, o governo Dilma encerrava seu primeiro ano. Não havia muito a celebrar, mas tampouco escândalos. O PT no poder federal era uma realidade ainda mais inegável que após a reeleição de Lula. A figura de Dilma, menos personalista, não despertava tanta antipatia quanto a do antecessor. (Francis, lembre-se, referia-se a ele como “o sapo barbudo”. Azevedo, como “o apedeuta”. Mainardi deu a um de seus livros o título “Lula é Minha Anta”).

A saída de Lula do centro do poder dissolveu o grupo. A competição para lançar petardos ao mandatário e ao que ele representava perdeu sentido. A resistência do Brasil à crise de 2008 e a queda nos índices de desigualdade social se tornaram trunfos fortes. E a entrada em cena na “nova classe C” trouxe um elemento aos quais os dirigentes da imprensa não podiam ficar indiferentes.

Com o fim do governo Lula, Mainardi deixou sua coluna na “Veja”. O jornalista Mario Sabino, que ao lado dele e de Azevedo imprimia o tom ácido da revista, também abandonou a publicação. Coutinho e Pondé continuam em seus postos, mas suas colunas não repercutem como naquele período. Jornais e revistas fizeram reformas gráficas para ganhar apelo visual, os textos ficaram menores, caderno cultural de perfil acadêmico foi extinto, portais de internet assumiram estética popularesca. Agora a ordem é descobrir a fisionomia e a linguagem do novo leitor da classe C.

Nos últimos anos de atuação, Piza seguia a praticar um tipo de jornalismo que começava a sair de cena. Defesa da alta cultura, ecletismo e topete liberal perderam espaço nesse novo cenário. Ninguém parece seguro sobre o que colocar no lugar. Mas o fato é que a leitura dos jornais de domingo perdeu parte da graça sem a presença de Daniel Piza.

Flávio Moura é jornalista, editor de livros e doutor em sociologia pela USP

Tudo se decide no meio

Por Gerson Nogueira
Na abertura das semifinais do primeiro turno, São Francisco e Paissandu entram em campo hoje à noite, em Santarém, com boas campanhas a defender. O confronto reúne ingredientes para ser um dos melhores do campeonato até aqui. Na primeira rodada, os dois times ainda em formação jogaram em Belém e empataram em 2 a 2. Aquele resultado sinalizou para os méritos da equipe santarena, até então pouco cotada entre os participantes do campeonato.
Um jogador em especial chamou atenção naquela manhã, na Curuzu. O Paissandu estava melhor, estabeleceu vantagem e parecia com o jogo sob controle. Mas, sem sofrer marcação, o meia Caçula jogou à vontade organizando o meio-campo do São Francisco, lançando os companheiros e sempre ameaçando com chutes certeiros de média distância. Num desses disparos, já no segundo tempo, marcou o primeiro gol de seu time, iniciando a reação que levou ao empate.
COLUNA DO BOLA DE QUARTAContra o Remo, Caçula voltou a mostrar qualidades e se impor como um dos destaques do turno. Liderou o São Francisco, quase marcou seu gol e foi fundamental para manter o time sempre em cima, não permitindo que o Remo tomasse conta da partida. Ponto de equilíbrio do esquema montado por Osvaldo Monte Alegre, Caçula já havia feito boa figura no Parazão do ano passado, tendo a companhia de Balão Marabá na armação da equipe. Neste ano, assume papel de protagonista e vem dando conta do recado.
Sem vigilância maior, Caçula controla o ritmo do São Francisco e faz com que os laterais sejam sempre acionados. É um sistema simples, mas que funciona. Duvido, porém, que Lecheva o deixe atuar tão livremente como naquele jogo na Curuzu. Vale dizer que esta não é a única arma do Leão santareno. O time tem um bom goleiro (Jader), uma defesa bem montada e uma postura agressiva, dentro e fora de casa. Curiosamente, os melhores resultados foram obtidos como visitante, o que é uma boa notícia para o Paissandu.
O rendimento irregular como mandante tem uma explicação: o São Francisco executa uma transição rápida entre defesa e ataque, recurso que se aplica mais à tática do contra-ataque. Quando é agredido, o time sabe se recompor e sai pelos lados, explorando bem os espaços que encontra no meio.No Barbalhão, a situação se inverte. Apoiado pela torcida, é obrigado a tomar a iniciativa e acaba vítima de seu próprio veneno, cedendo o contragolpe aos visitantes.
Como o Paissandu já provou – em Paragominas e Cametá – que sabe explorar a empolgação de seus adversários, a noite promete ser empolgante em Santarém. Se Monte Alegre tem Caçula, Lecheva conta com Eduardo Ramos em fase de ascensão. Nos dois jogos citados, Ramos foi fundamental para a conquista de vitórias importantes. Tomou conta do setor de criação e é responsável pelo toque de bola que o Paissandu passou a exibir. Se antes o time dependia muito de Pikachu, hoje precisa mais do passe e da capacidade de organização de Ramos. Graças a ele, a bola chega com mais facilidade aos atacantes Rafael Oliveira e João Neto e até o jovem Djalma vira opção ofensiva.
Por tudo isso, pode-se prever um duelo de bom nível entre Caçula e Ramos, fazendo da meia cancha o território a ser disputado nesta primeira semifinal.
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Dois velhinhos do barulho
Dois veteranos de 36 anos, Álvaro Recoba e Sebastián Loco Abreu, saíram do banco de reservas para empatar um jogo que o Nacional de Montevidéu perdia por 2 a 0 para o Barcelona de Guaiaquil, ambos estreando na Libertadores. Torcida em cima, cantando apaixonadamente do começo ao fim, time cambaleante, mas a fibra uruguaia elevada ao mais alto grau. Um jogo empolgante nos minutos finais, com direito a catimba generalizada e pênalti reclamado pelos equatorianos. No primeiro tempo, houve até cena romântica com o meia Diaz beijando a mulher no alambrado para festejar o golaço de abertura.
Loco, menosprezado por Osvaldo de Oliveira no Botafogo, mostrou toda a sua utilidade marcando de cabeça um gol típico de Loco Abreu que incendiou a partida. Em cobrança de escanteio, fingiu-se de desinteressado, postando-se ao lado do goleiro para enganar a marcação. Quando a bola veio, recuou quatro passos e recebeu livre para testar direto para as redes. Ainda se envolveu numa confusão na área, cavando expulsão de um beque do Barcelona. O empate saiu de um perfeito lançamento de Recoba, para desvio do ataque na pequena área.
Não sei por vocês, mas sempre vou defender que um time tenha atacantes decisivos, mesmo que fiquem na reserva à espera do momento certo para resolver as coisas. Loco Abreu é um desses caras, daí a certeza de que o Botafogo fez péssimo negócio, deixando-o partir para prestigiar um técnico que não sabe conviver com ídolos da torcida.
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Livre para namorar
Neymar assume namoro com atriz global e o mundo quase veio abaixo. No terreno pantanoso que mistura boleiros, atrizes, modelos e sub-celebridades a hipocrisia está sempre à espreita, pronta a entrar em cena, muitas vezes sob o patrocínio entusiasmado de setores da imprensa. A rigor, ninguém tem nada a palpitar sobre a vida do craque santista. Seus relacionamentos são de interesse exclusivo seu. O que importa mesmo é o seu rendimento em campo. Se continuar a fazer gols, jogando bem, tudo certo.
Nesse departamento, deixo os mexericos de lado e prefiro a célebre sentença de João Saldanha. O indomável comunista, que montou aquele timaço para a Copa de 70, costumava dizer que não ligava para o comportamento extracampo de seus jogadores, afinal não queria ali ninguém para casar com sua filha. Só queria que jogassem bola.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 13 de fevereiro)