Ao limite da ética

Por Cássio de Andrade

“A vida como bem supremo”. Com essa assertiva, a pensadora Hannah Arendt conclui um belo tratado acerca da condição humana na passagem do homo faber ao animal laborans contemporâneo. Penso nesse debate de Arendt, quando busco entender a irracionalidade proveniente da barbárie que envolveu a morte do jovem boliviano semana última.

Acreditei que os limites da indignação coletiva tivessem alçado à fronteira dos valores éticos e morais presentes na repulsa à violência e à exaltação impune da cultura da morte. Em pouco tempo, ruiu o castelo de areia da justiça e da boa vontade.

Após o assassinato do garoto boliviano, unem-se a mídia, o Corinthians, os corinthianos e todos os guardiões da barbárie para a construção de um fato: a invenção da culpa. A vida deixou de ser a bandeira da ética. Seu limite, a certeza da impunidade.

De qualquer forma, pequenas luzes brilham ante o universo do oportunismo e da inconformidade indigna. A punição ao Corinthians representou um pequeno passo à retomada da ética.

O que assusta não é a medida da punição que impunifica, mas da não punição exigida em nome da justiça, da equidade e dos valores das maltas. No território sem fronteira das redes sociais não há limite à contravenção, ao apoio ao menor convertido, à testemunha que zomba da dor. Ares insuspeitos se movimentam em areias insuspeitadas e na áspera cor laranja dos dentes brancos da menina-deboche, não nos faz pensar Serraut, nem os impressionistas. Surrealistas, talvez, contradizendo Veloso.

Ah, o Deus que pune dos antigos hebreus! Os demiurgos já seriam suficientes.

Estamos em março, o mês de José, de San Jose das altitudes, da modesta rede de homens de bens. Quem sabe, aponta Dêmocles sua flamejante arma aos incautos. E, assim, sonhamos, o bom senso volte a reinar, onde reine o império da lei no coração de timoneiros e náufragos.

Que Assim Seja!

O futebol, a vida e a dignidade

Por Jorge Luiz Souto Maior (*)

A morte do jovem boliviano de 14 anos, Kevin Espada, em uma partida de futebol, após ser atingido por um sinalizador naval, que tem a capacidade de atingir 300 metros em 3 segundos, impõe-nos a produção de uma racionalidade que reconheça o total absurdo da situação, que foge de qualquer parâmetro de civilidade, e que conduza o convívio nos estádios a outro patamar. A identificação dos culpados diretos, atribuindo-lhes uma punição, com respeito aos preceitos jurídicos da ampla defesa, é essencial, mas não é o bastante, pois, há de se reconhecer, não se trata de um fato isolado ou da ação exclusiva de um ou de alguns poucos torcedores. A atitude de uma pessoa de levar a um estádio de futebol um artefato como o que gerou a tragédia está integrada ao contexto da grave distorção que se instalou nos estádios de futebol (e fora deles) no sentido de que a violência, individual ou coletiva, está justificada pelo impulso do ato de torcer.

Do ponto de vista específico, é importante consignar que ninguém pode ser condenado sem a plena possibilidade de se defender, exigindo-se a necessária apuração dos fatos, mas é impossível não deixar de destacar a enorme afronta à convivência humana que constitui a conduta de conduzir um artifício daquela natureza a um estádio de futebol.

Visualizando a questão por um ângulo mais amplo, o mais relevante é a produção de uma racionalidade que possa nos conduzir à superação do problema da violência gratuita que se pratica em nome do futebol.

Nessa busca, mesmo reconhecendo a relevância do futebol na vida econômica e na construção da identidade cultural, como se dá, ademais, com diversas outras práticas sociais, ainda que ligadas ao aspecto restrito do lazer, há que se fixar o pressuposto de que o futebol sucumbe quando contraposto a outros valores fundamentais. No caso em concreto, fica muito evidente a fragilidade da importância do futebol diante do valor vida.

Perante uma situação como a que se verificou na Bolívia, o maior problema que pode advir se situa na tentativa de se encontrarem razões que minimizem o valor vida em prol do prosseguimento normal do esporte, ou, mais ainda, da continuidade incólume dos negócios do futebol. É um grande desserviço à humanidade pautar-se pela necessidade exclusiva de dar seguimento ao show, valendo-se, para tanto, de retóricas que tendam a transformar o ocorrido em mero incidente, expressando argumentos como os de que “uma pessoa sozinha não representa a torcida corinthiana”, que “o ato do torcedor não deve ser transferido ao clube”, que “não é a primeira vez nem será a última que alguém morre em um estádio de futebol”, que “uma punição ao Corinthians só seria válida se outros clubes envolvidos em fatos análogos já tivessem sido punidos” etc…

Bem ao contrário, a postura essencial para a extração de aprendizados evolutivos sobre o fato inicia-se com o reconhecimento de que a beleza do esporte, a relevância de torcer coletivamente por um clube e o exercício legítimo da competição em palco específico valem infinitamente menos que uma vida. Em nome do futebol não se podem justificar quaisquer violências contra a condição humana.

Esse reconhecimento impõe uma racionalidade que não acomode a situação e sim que afirme a sua gravidade e que busque soluções para a superação do contexto em que a violência se insere, independentemente da punição penal que se apresente ao responsável direto pela situação. É necessário, para todos e em especial para os torcedores do Corinthians, até para que não assumam a visão negativista da expressão “bando de loucos”, rechaçar todos os argumentos que, em prol da continuidade do show e dos negócios do futebol, vislumbrem transformar o fato ocorrido em um nada ou em um fato normal.

Os loucos pelo Corinthians e pelo futebol devem ser, antes de tudo, loucos pelo respeito aos valores humanos. Assim, cumpre reconhecer que a busca do título dessa Libertadores perdeu toda significação e independentemente de punição externa o Corinthians deveria deixar a competição, além de efetivar um gesto mínimo de ofertar indenização à família de Kevin Espada.

Convenhamos, seguir em frente, participando da competição como se nada tivesse ocorrido, é completamente sem propósito. Seguir, cumprindo a punição de jogar sem torcida, só tem o sentido da satisfação dos compromissos econômicos, pois jogar sem a torcida, do ponto de vista da lógica do esporte e da sua representação social, é, por si, um desvirtuamento pleno de sentido.

Mas, em vez disso, o Corinthians recorreu da decisão punitiva, que já era, vale destacar, bastante branda, rejeitando sua responsabilidade e, por conseqüência, minimizando a relevância social e humana da tragédia. E, de repente, surge uma versão que tem a sua coerência e os seus fundamentos, mas que também é bastante eficiente não apenas dar continuidade ao negócio esportivo como também para transformar o fato em uma circunstância isolada, advinda da ação de um “menimo” inconseqüente, favorecendo a manutenção das coisas exatamente como estavam, evitando punições e acreditando no rápido esquecimento…

Aos seres humanos corinthianos resta a postura mínima de dar adeus, expressamente, à Libertadores de 2013, sendo que se, por acaso, vier a ser demonstrado que a versão apresentada para o fato foi fruto de uma grande farsa, envolvendo pessoas e instituições (assumida, por óbvio, a presunção de que seja plenamente verdadeira, mas que em nada altera as conclusões anteriores), em vez de simplesmente desistir do futebol, como preconizou, com bastante dose de razão (e paixão), o jornalista, Juca Kfouri, já que um esporte que não respeita a vida e a dignidade das pessoas perde o sentido, será preciso, antes, exigir a punição de todos os que nela estejam envolvidos, pois que constituiria, por si, mais uma gravíssima violência.

(*) Professor da Faculdade de Direito da USP.

Um artilheiro no paredão

Por Gerson Nogueira

Quase todo mundo hoje tem uma boa causa a defender. Muitos lutam contra a extinção de baleias e pinguins. Outros bradam pela extinção das abelhas africanas. Algumas moças desnudas protestam contra o extermínio de marmotas. E agora há também os que pregam contra a escalação de Rafael Oliveira no ataque do Paissandu.

Em comum com os outros militantes, os críticos de Rafael também são movidos por boas intenções. O problema é a rabugice dos que, através do fogo cerrado contra o artilheiro, aproveitam o embalo para tentar desmerecer o trabalho do técnico Lecheva.

bol_qua_270213_15.psPara entender a novela artificial criada em torno de Rafael é aconselhável ir por partes. Depois da bem-sucedida campanha na Série C 2012, Lecheva começou os trabalhos no Campeonato Paraense, efetivando como dupla de ataque Rafael-João Neto.

Apesar do tropeço inicial diante do S. Francisco na Curuzu, Lecheva não mudou de planos. O duo foi mantido e correspondeu à confiança do treinador, marcando 17 dos 28 gols do Papão na competição. Rafael fez nove (juntamente com Aleílson, do PFC) e Neto balançou as redes inimigas em oito ocasiões.

Por incrível que pareça, apesar da expressiva média de quase um gol por jogo, Rafael é questionado sem tréguas. Sofre críticas de todos os lados. Ressaltam seu talento para marcar gols apenas contra times pequenos e acentuam seu jejum no clássico Re-Pa.

Curiosamente, a opção de Lecheva por João Neto, vice-artilheiro do time, permanece imune a reparos dos detratores. Neto parece estar sendo poupado unicamente pelo belo gol anotado no último Re-Pa, apesar de ter sido improdutivo no primeiro.

Outro beneficiado pela bem-aventurança de marcar no choque-rei é Iarley, meia-atacante que ainda não se firmou o suficiente para ser titular, mas que teve a sorte e a categoria de estufar as redes azulinas na 4ª rodada.

Detalhe interessante é que no lance do gol de Iarley contra o Remo a bola chegou a ser chutada por Rafael Oliveira, mas só se encaminhou para o barbante depois do arremate do veterano atacante. Para azar do camisa 9 de Lecheva, essa – digamos – inibição no Re-Pa está sendo cobrada com virulência cada vez maior.

Até a comentada fase boêmia de Rafael é relembrada para reforçar as restrições ao jogador. Que se saiba, o atacante vive período de entrega aos treinos e grande dedicação profissional, atitudes que ajudam a explicar sua excelente performance no Parazão.

No aspecto técnico, a escolha de Lecheva se justifica não só pelos gols de Rafal, mas pelo papel de pivô que ele executa e nenhum outro avante do elenco é capaz de fazer. João Neto, que também gosta de estar na área, não tem o físico apropriado para o embate com zagueiros. Foi visível, no último domingo, a carência que se abateu sobre o ataque do Paissandu depois que Rafael foi substituído por Iarley, a pedidos da torcida.

Em consequência disso, a zaga remista passou a ter menos trabalho na marcação e deu-se ao luxo de liberar um dos seus para se juntar aos atacantes no esforço pelo empate – que veio, coincidência ou não, pelos pés do zagueiro Zé Antonio.

Rafael pode não ser o mais brilhante dos atacantes, mas cumpre bem a missão de fazer gols. Certíssimo em manter o jogador, Lecheva paga o preço de ser o técnico que garantiu o acesso à Série B, contrariando maus presságios de várias pitonisas.

Diante dos exageros da cruzada contra Rafael fico a me perguntar onde estavam os críticos de hoje quando o badalado Adriano Magrão passou um campeonato inteiro (2012) sem fazer um golzinho sequer.

———————————————————–

Impunidade cria maus hábitos

A furiosa reação corintiana à punição imposta pela Conmebol, depois da morte do garoto Kevin na Bolívia, é a típica manifestação de quem se acostumou com a impunidade. O Corinthians parece não acreditar que a desacreditada Conmebol teve peito de impor uma suspensão de 60 dias, durante os quais o time terá que jogar com portões fechados.

Além da manobra de apresentar um menor de 17 anos para assumir a autoria do disparo fatal em Oruro, no afã de salvar a pele de 12 integrantes da facção Gaviões da Fiel, o clube agora desfia argumentos absurdos, tentando provar que o modesto San José também teve culpa pelo ocorrido, merecendo a mesma sanção.

No fundo, a irritação talvez tenha origem no episódio de 2005 no estádio do Pacaembu, quando o jogo Corinthians x River Plate registrou um festival de badernas, envolvendo confronto entre torcidas e tropas da PM. No fim das contas, a punição saiu no melhor estilo tabajara: o único condenado foi o estádio.

———————————————————–

Galo altivo e superior

Com atuações brilhantes de Ronaldinho Gaúcho e Bernard, o Atlético-MG de Cuca realizou ontem à noite exibição de alto nível contra o Arsenal por 5 a 2, em Sarandi, e deixou claro que está entre os times credenciados a brigar pelo título da Taça Libertadores.

Sofreu o primeiro gol, mas partiu com altivez para uma virada incontestável. Ainda se deu ao luxo de desperdiçar um penal (com Gaúcho) aos 41 minutos do 2º tempo. O adversário não é tradicional, mas tem um time arrumadinho, que equilibrou as ações no começo da partida.

———————————————————–

Por eles, sempre

Dedico as mal traçadas linhas de hoje aos meus velhos, Benedita Nogueira e José Dias Rodrigues, e aos filhotes Pedro e João.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 27)