Carta pro Velho

Por Renato Maurício Prado

Ele se foi há 21 anos, mas a saudade que deixou será sempre imensa, incomensurável. Se vivo fosse, teria completado 88 anos ontem. Era apaixonado por esportes, que desde cedo me ensinou a amar como lição de vida. E foi meu maior amigo, meu melhor exemplo, meu ídolo eterno. Essa crônica é pra ele: meu pai, meu herói. É “velho”, quanta coisa já aconteceu. Mas como esquecê-lo?
O dia 31 de janeiro ia se aproximando e você, com aquele sorriso maroto, começava a lembrar a toda a família que “um aniversário vinha chegando”. E nós ríamos de sua alegria quase infantil de comemorar mais um ano de vida. E com que prazer comprávamos os presentes, que você desembrulhava, feliz, olhos brilhando como criança. Tudo o que houve nesses 21 anos, pai, é impossível contar. Tentarei resumir o principal, numa espécie de “melhores momentos”.
Em primeiro lugar, como sempre foi sua prioridade, a família. Você ganhou mais um neto e um bisneto! Ambos de forma um tanto quanto insólita e que, com certeza, o levariam a dizer, batendo a mão na testa: “Barbaridade!” Mas, não tenho a menor dúvida, já estaria babando por ambos.
Seus nomes são Michael, meu filho colombiano (e, acredite, o seu neto mais velho!), e Eduardo, filho de Pedro Octávio, seu neto mais novo. Duas histórias rocambolescas, mas o que interessa é que ambos já se apossaram dos nossos corações, assim como arrebatariam o seu. De resto, fora a despedida da vovó, que está aí ao seu lado, contente por reencontrar o filho, todos vão bem, graças a Deus.
Nos esportes, nosso assunto tão comum, a seleção ganhou mais dois títulos mundiais, mas nos últimos tempos tem pagado cada mico… E ano que vem tem Copa no Brasil! Recordo-me das histórias que você me contava sobre 50. Periga a tragédia se repetir. A salvação pode estar nos pés de um menino talentoso que você adoraria ver jogar — embora, tenho certeza, detestaria seu cabelo moicano.
Quer saber do seu Mengo? Desde que você partiu o Mais Querido faturou dois Brasileiros, nove Cariocas (com dois tris!) e uma Copa do Brasil. Libertadores? Deixa pra lá. O que rolou de vexame… A grande notícia é que Zico (esse você lembra!) fará 60 anos, no dia 3 de março! É, “velho”, o tempo voa.
Nesse ínterim, o nosso vôlei, que você adorava e jogava tão bem, faturou seis ouros olímpicos! Em cada conquista, me lembrava de você e da turma da nossa rede, na praia de Ipanema! Em Atenas, Pequim e Londres, assisti tudo ao vivo. Como teria sido bom tê-lo ao lado ou, pelo menos, ao alcance de um telefonema, como aqueles que trocávamos após momentos mágicos do esporte. O voleibol brasileiro virou referência, “velho”! Mas é o único dos chamados esportes olímpicos em que somos potência. E as próximas Olimpíadas serão no Rio…
Ah, pai, Ayrton Senna se foi, dois anos depois de você. Deve estar aí por cima, conquistando poles, GPs e campeonatos num circuito celestial. Por aqui, sinto falta de nossos papos pós-corridas. Lembra a madrugada em que deixei um GP gravando, no videocassete, e quando começava a assisti-lo, sozinho, em casa, pela manhã, percebi um recado na secretária eletrônica, e era você me contando o resultado e estragando a surpresa? Só rindo. De lá pra cá? Rubinho e Massa: você não perdeu muito…
Ayrton morreu, mas, creia, três anos depois, o Brasil tinha novo herói nacional. No tênis! Você ia gostar do Guga! Tive a ventura de testemunhar in loco os três títulos dele em Roland Garros. Escrevi até livro sobre isso! E dediquei-o a você, claro. Pena que não pode lê-lo. E que a CBT não soube usar a era Kuerten para massificar o esporte por aqui.
Tanta coisa que eu gostaria que você pudesse ver, pai. Como a avalanche de esportes, atualmente, nas TVs a cabo. Claro que você ia passar o dia inteiro na poltrona, em frente a uma telona. Ora, se não ia. Pouco antes de sua partida, começaram aquelas transmissões meio piratas, em UHF e parabólica, e você vibrava com a NBA, em inglês! Imagina agora.
Avalanche que é até melhor você não estar vendo é essa da torcida do Grêmio, que quase provoca nova tragédia no Sul. Sim, “velho”, teve um incêndio brabo, numa boate por lá. Revoltado, fiquei pensando nas histórias que você me contava do fogo no circo, em Niterói, e de como um elefante enlouquecido rasgou a lona e ajudou a salvar muita gente. No mafuá gaúcho, seguranças impediam a saída pra cobrar a conta… E morreram mais de 230.
Bem, de política nem vou falar, pois sei que você não gosta. Prefiro me despedir contando a festa surpresa que minha filhota Luiza, sua neta, fez pra mim, esse mês, quando completei 60 anos. Lembra a que também armei pra você, na mesma ocasião? Só agora tive a dimensão exata da alegria que lhe proporcionei. E isso foi o meu maior presente.
Ah, ia me esquecendo: ontem, teve Flamengo x Vasco, pelo Campeonato Estadual. Quinta-feira à noite, começando às 19h30m, imagina! Não, pai, não dá pra explicar. Melhor nem falar… Parabéns, um abração e um beijo na vovó. Todos mandam lembranças. E, como eu, morrem de saudades.

Vote no mico da semana

Escolha o seu…

1) Sai a tabela da Copa do Brasil e a dupla Re-Pa, pra variar, não tem o que comemorar. Penalizados com perda de mandos de campo, terão que amargar prejuízos técnicos e financeiros – principalmente o Remo, que calhou de enfrentar o Flamengo. Tudo por obra e graça da ação baderneira de falsos torcedores. 

2) Samuel Cândido (Tuna) e Mario Henrique (Santa Cruz) são os primeiros técnicos demitidos no Campeonato Paraense 2013. Campanhas medíocres no primeiro turno selaram a sorte da dupla. Samuel sai com um recorde: a Tuna ficou cinco rodadas sem vencer e sem conseguir marcar um golzinho sequer. 

3) CBF apresenta poster oficial da Copa do Mundo 2014 e recebe enxurrada de críticas de designers e especialistas: desenho simplório do cartaz é parecido com a marca de uma multinacional. Escolha final foi de Ronaldo Fenômeno, dirigente do Comitê Organizador.

Comitê internacional sai em defesa de jornalista

Nova York, 31 de janeiro de 2013 – A decisão que obriga o jornalista Lúcio Flávio Pinto a pagar mais de US$ 200.000 em indenização relacionada a um processo por difamação deve ser revertida por um tribunal de recursos brasileiro, disse hoje o Comitê para a Proteção dos Jornalistas. O repórter, que inicialmente foi considerado responsável no final de 2012, perdeu na apelação em uma decisão divulgada em 23 de janeiro.

No recurso, um juiz no estado do Pará determinou que Pinto, editor do jornal quinzenal Jornal Pessoal, deveria pagar ao empresário paraense Romulo Maiorana Júnior e a sua empresa, Delta Publicidade, a quantia de R$ 410.000 (US$ 205.000), segundo as informações da imprensa. As acusações sugiram a partir de artigo publicado no Jornal Pessoal em 2005 no qual Pinto alega que o grupo de mídia de Maiorana, ORM, usou sua influência para obter publicidade junto a empresas e políticos, segundo as informações da imprensa. Maiorana disse que Pinto prejudicou a honra e reputação da família Maiorana.

Pinto disse ao CPJ que amanhã vai apresentar dois recursos a tribunais superiores em Brasília, capital do país. Um recurso, ao Superior Tribunal de Justiça, vai argumentar que ele não foi autorizado a apresentar evidências relevantes ao seu caso, enquanto o outro, ao Supremo Tribunal Federal, alegará que seu direito à liberdade de expressão foi violado, explicou Pinto.

Pinto também é blogueiro no Yahoo e informa sobre tráfico de drogas, devastação ambiental e corrupção política e corporativa na região há mais de 45 anos. Ele foi agredido fisicamente, ameaçado e alvo de dezenas de ações civis e criminais por difamação como resultado de seu trabalho investigativo, segundo a pesquisa do CPJ. Em 2005, Pinto foi homenageado pelo CPJ com o Prêmio Internacional de Liberdade de Imprensa, um reconhecimento anual de corajosas reportagens.

O jornalista ainda enfrenta quatro ações civis por difamação impetradas por membros da família Maiorana, todas relacionadas a reportagens críticas. Processos criminais por difamação anteriores foram suspensos após a decisão de 2009 do Supremo Tribunal Federal de derrubar a infame Lei de Imprensa de 1967, que impunha duras penas por difamação e injúria.

“Esta decisão é parte de um padrão sistemático de perseguição legal contra Lúcio Flávio Pinto, que já enfrentou dezenas de processos de poderosos demandantes em uma tentativa de silenciar suas reportagens críticas”, disse o coordenador sênior do programa das Américas do CPJ, Carlos Lauría. “Apelamos aos tribunais federais que anulem a sentença para que Pinto possa continuar seu trabalho sem o temor de assédio legal”.

Aos trancos e barrancos

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Por Gerson Nogueira

Quando se fala em futebol de resultados a imagem é quase sempre negativa, pois os apóstolos da filosofia não costumam ligar muito para a qualidade do jogo. Afinal, a ordem é ganhar a qualquer preço. Com isso, a beleza do espetáculo fica em último plano.

bol_sex_010213_11.psCampeonatos regionais, porém, seguem a lógica da objetividade. O importante é acumular o máximo de pontos, jogando bem ou não. Os times acabam se comportando de acordo com essa cartilha. Certas vitórias mostram claramente essa preocupação.

Em Cametá, ontem, o Paissandu dançou conforme a música. Não conseguiu desenvolver seu jogo, errou passes em demasia e chegou a se atrapalhar com o adversário voluntarioso, mas no fim das contas atingiu seu objetivo. Venceu e se reabilitou na tabela, voltando ao segundo lugar.

Desde os primeiros movimentos, ficou claro que o maior prejudicado seria o torcedor que aprecia bom futebol. Tanto Paissandu quanto Cametá se posicionavam erradamente, com excesso de jogadores na marcação e quase ninguém preocupado em criar jogadas.

A honrosa exceção era Eduardo Ramos, solitário nas tentativas de lançamento e dribles no meio-campo. Quando percebeu que o jogo de forte marcação não combinava com seu estilo, deixou Alex Gaibu mais adiantado e passou a tentar organizar ações pelo lado direito, com Pikachu. Não foi bem sucedido porque o próprio Pikachu, inibido, não avançava como de outras vezes.

Ainda assim, depois que o Paissandu sofreu o gol de Américo, em chute forte que o goleiro Zé Carlos aceitou com muita facilidade, Ramos insistiu na sua cruzada particular para fazer a bola rolar no gramado. Chegou a dar uma bronca em Capanema, que baixava o sarrafo para parar jogadas.

Meio por acaso, acabou premiado ao marcar o gol de empate, aproveitando cruzamento que pegou a defesa do Cametá inteiramente desatenta. Com a bola dominada, mandou no canto esquerdo, sem defesa para Labilá. Um gol que ajudou a salvar o Paissandu, que não tinha produção ofensiva suficiente para envolver a atrapalhada defensiva adversária.

No segundo tempo, Lecheva cansou da inoperância da dupla Rafael-João Neto e botou Iarley e Héliton em ação. Depois, substituiu Gaibu por Djalma. E foi uma jogada iniciada por Héliton que acabaria resultando no gol da vitória, quando tudo indicava que a partida terminaria empatada, tal a desarrumação dos dois times. No lance, a zaga não conseguiu afastar e Eduardo Ramos deu o passe final, deixando Djalma na cara do gol. O chute saiu forte e rasteiro, no canto da trave.

Nada mais aconteceu de relevante depois disso. O Paissandu saiu satisfeito com os três pontos. Lecheva afastou, por ora, a ameaça dos corneteiros e terá alguns dias para ajustar a equipe. Terá trabalho para recuperar a sintonia exibida contra o Águia, que desapareceu no Re-Pa e afundou de vez no Parque do Bacurau. Ramos, porém, parece ter assegurado de vez um lugar no time. (Fotos: TIAGO ARAÚJO/Bola)

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A generosidade do dândi

A disposição anunciada de jogar apenas por puro prazer, sem ligar para o dinheiro, transforma David Beckham numa exceção no universo altamente mercantilista do futebol atual. Ao ser apresentado como novo reforço do Paris St. Germain, o badalado dândi inglês disse que destinará a grana do salário em instituições francesas de apoio à infância.

Gesto bonito, generoso e raro. Tenho cá minhas dúvidas, porém, é se o veterano Beckham ainda consegue jogar em alto nível, principalmente no competitivo futebol europeu. De qualquer maneira, o PSG terá um produtivo e requisitado modelo em ação.

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Um alto preço a pagar

A tabela da primeira fase da Copa do Brasil foi recebida sem maior entusiasmo pelos dois grandes da capital. O Remo recebe o Flamengo, cruzamento que seria sinônimo de alto faturamento, se não houvesse a perda de mando a ser cumprida em competições nacionais por ação direta dos vândalos dos estádios.

Sem poder jogar em Belém, restará ao Remo levar o confronto para Paragominas ou Santarém, com substancial perda de receita. No aspecto técnico, as chances são razoáveis de classificação, levando em conta o mau momento rubro-negro. Na fase seguinte, o adversário será Sampaio ou Campinense.

Já o Paissandu terá pela frente o Atlético-RR, jogando a primeira fora de casa, mas sofrendo o mesmo problema do Remo na volta, pois terá que cumprir punição semelhante. Deve passar sem dificuldades à segunda fase, quando enfrentará possivelmente a Portuguesa de Desportos.

Para os interioranos, situações distintas. O Águia, que cruza com o Nacional-AM, tem boas possibilidades. Na fase seguinte, deve pegar o Coritiba. Já o Cametá terá caminho mais ingrato. Pelas próprias carências atuais, dificilmente passará pelo Atlético Goianiense.

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Repercussão do acordo

Em contato com a coluna, Ronaldo Passarinho, cuja saída do Jurídico do Remo até hoje é lamentada, fez questão de elogiar o trabalho desenvolvido pela equipe do Paissandu, à frente o advogado Alberto Maia, que logrou êxito na espinhosa situação envolvendo os ex-jogadores Jobson e Arinélson.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 01)

Os muitos desafios da língua falada

Por Sírio Possenti (*)

A propósito do acordo ortográfico (cuja vigência foi adiada – nem quero discutir!), um leitor da Folha de S. Paulo escreveu (02/01/2013): “Se for para simplificar (alguém tinha sugerido isso), eu incluiria uma regra básica: todo “s” com som de “z” deveria ser grafado como se fala e não como se escreve. Assim, todos escreveriam mais corretamente, pois bastaria seguir a pronúncia e não a etimologia”.

Escreveríamos com “z” palavras como “caza” (casa), além dos casos (cazos?) do tipo “zebra” (zebra). Provavelmente, ele incluiria escrever “ezemplo” (exemplo), eu penso. A regra produziria uma simplificação incrível. Supondo que aceite extensões, que o caso mencionado seja só um exemplo, escreveríamos com “s” palavras como “saco” (saco), “naseu” (nasceu), “nasa” (nasça), “casado” (caçado / cassado), “sego” (cego), eseto (exceto), “felis” (feliz) – ninguém pronuncia “feliz”.

Mas “feliz” já oferece um problema. Na verdade, dois. Qual seria a vantagem de escrever “felis” com “s”, se o plural é “felizes”? Talvez o leitor admitisse levar em conta a morfologia, excluindo ainda a etimologia. Esse é o primeiro problema, que resolveria também casos como “papeu” (papel), que poderia continuar escrito com “l”, já que existem palavras como “papelaria / papelucho” etc., nas quais o “l” volta.

Mas como resolver o outro problema de “feliz”, já que muita gente pronuncia “filiz” (como pronuncia “mininu” / “leiti” etc.)? Haveria uma campanha para uniformizar as pronúncias? E quem fala “leitchi”, como escreveria “leite”? Deveria pronunciar “leite”? Como o leitor não explicitou se a simplificação se aplicaria apenas aos “s” com som de “z” ou a todos os casos similares, fica-se na dúvida sobre a extensão da proposta (como se escreveria a sílaba final de “extensão”?). Se fosse mais audacioso, poderia propor que acabasse também a dupla grafia x / ch (escreveríamos sempre com x, digamos, “xoxo / xeque (ambos) coxa /  xuxu / xapéu etc.). “Tóxico” se escreveria “tócsico” e “táxi”, “tácsi”?  “Sexo” seria “secso” ou “séquisso”, conforme a pronúncia?

Da mesma forma, passaria  a haver grafias alternativas como “Ricifi” em alguns lugares, “Recife” em outros e até “Récife/i” ainda em outros? E escreveríamos “festa”, com “é” (acentuado), já que na primeira sílaba ocorre uma vogal aberta, que teria que ser diferenciada do “e” de “feira”, fechado?

E como escrever “campo” e “dando” (e todas as sílabas similares à primeira dessas palavras)? Com uma vogal seguida de nasal ou com uma vogal com til? (“campo” ou “cãpo”?). Atualmente, escrevemos “mandaram” e “mandarão” (apesar de a pronúncia da sílaba final ser a mesma, havendo apenas diferença de tonicidade). A escrita simplificada seria a mesma para as duas formas? E se adotássemos “mandaram”, também escreveríamos “lam” (lã)? Lembremos que se escreve “quem”, “alguém”, palavras cuja sílaba final é um ditongo, e não uma vogal seguida de consoante nasal…

Nordestinos como o ex-vice-presidente Marco Maciel (um sujeito culto à beça), que fala “puque u pudê”, escreveria assim mesmo essa sequência ou escreveria “porque o poder”? Diante de tantos casos a serem decididos (de que os mencionados são pequena amostra), não é muito mais óbvio pensar que, qualquer que seja o sistema adotado, o problema não está nele, mas no tempo dedicado à escrita, começando pela escola, sem que a questão se restrinja a ela?

Finalmente, qual seria o problema de aceitar (ou fechar um pouco o olho) certos casos de grafia divergente, dando a eles apenas a importância que têm, ou seja, considerando que a compreensão de um texto é menos prejudicada por problemas de grafia do que por outros, bem mais complexos e, em geral, mais graves?

(*) Possenti é linguista e professor na Unicamp.