Holanda renega Laranja Mecânica
Por vezes, fico a matutar que mistérios o futebol ainda pode reservar nesses tempos de incontáveis plataformas digitais de comunicação, que deixam a vida literalmente sem segredos. Penso nessa Holanda, que o mundo andou deixando de lado nas últimas Copas, desinteressado de seu futebol pouco efetivo e nada brilhante. Avalio que os holandeses sofrem por serem reféns daquela revolução de 1974, capitaneada por Cruyff, que não levou o caneco mas deixou um rastro de admiração entre os boleiros mais inquietos. A marcação em bloco e a a arrancada em bando rumo ao ataque são legados da Laranja Mecânica, que entrou para a história pela capacidade de surpreender e inovar. Depois dele, nada mais foi inventado. Pelo contrário, tudo que se cria tem sempre um pé no passado e nem sempre se inspira nos bons exemplos.
Pois a Holanda está cansada de sua herança histórica e resolveu romper os laços com o estilo quase sul-americano de jogar. Manteve o belíssimo tom da camisa, mas agora quer, acima de tudo, vencer, conquistar títulos. Chega de bater na trave, como em 1974 e 1978. Com a melhor geração desde que Kluivert, Bergkamp, Davids e Cocu saíram de cena, o time é surpreendemente parcimonioso. Pedi ingresso para ver a estreia contra a Dinamarca, no Soccer City, crente de que veria uma senhora apresentação da melhor seleção europeia. Ledo engano. Com menos de 15 minutos, percebi que minhas expectativas não seriam atendidas. Errei de palpite – e de geração. O time que sonhava ver não existe mais. A cartilha agora é outra.
O técnico Bert Van Marwijk, de maneira corajosa, avisou antes da Copa que seu time seria pragmático. Jogar bonito não é prioridade, o importante é avançar até as finais. O planejamento tem sido cumprido.
Sem encantar, a Holanda derrotou todos os seus adversários – nenhum especialmente forte, diga-se. Tem, como a Argentina, campanha 100% vitoriosa. E tem, acima de tudo, um quarteto de jogadores diferenciados. Wesley Sneijder, Arjen Robben, Robin Van Persie e Dirk Kuyt. Sneijder é o articulador, o maestro do time. Van Persie é o segundo atacante, projetando-se na área, embora ligeiramente fora das funções que exerce brilhantemente no Arsenal, como atacante mais recuado. Kuyt é o centroavante típico, mas com lampejos de técnica nas tentativas de buscar jogo. E Robben é um misto de bailarino e toureiro. Um atacante à moda brasileira, embora seu tipo físico não denuncie tanta virtude.
Há quatro anos, todos que foram à Alemanha apostavam na “Copa de Robben” e ela não aconteceu. À época, escrevi duas crônicas a respeito, atribuindo a não explosão do jovem ponteiro às hesitações táticas do time. Esta talvez ainda seja a sua Copa, apesar das dores que o perseguem. Contra Camarões e Eslováquia, exibiu suas características mais marcantes: a capacidade de fazer gol e as fintas quase impossíveis de neutralizar.
Vejo semelhanças entre holandeses e brasileiros nesta Copa. Os dois times comportam-se como se não houvesse platéia a esperar encantamento. Quando o resultado já está feito, até concedem alguns minutos de improviso. A Holanda foi quase sempre burocrática no cumprimento de sua missão na África do Sul. Coube a Robben fugir ao script e propiciar dribles interessantes, comprovando que sempre é possível unir eficiência e talento. Frustra, porém, ver que, após construir o placar que lhe interessa, o time se recolhe aos passes laterais e improdutivos, quase no ritmo da Seleção de Dunga na primeira fase da Copa.
A esperança, para nós, está na súbita redescoberta do prazer de atacar insistentemente, que o Brasil apresentou contra o Chile. A Holanda não joga assim e, ao que parece, não está muito interessada em apressar o andamento. Com velocidade nos passes e insistência nas tabelinhas entre Kaká, Robinho e Luís Fabiano é possível superar o esquema defensivo de Marwijk, que se baseia no forte apoio que os volantes De Jong e Van Bommel dão aos zagueiros. A lei natural das coisas diz que não há como resistir a ataques sucessivos de jogadores habilidosos.
Elano praticamente fora da Copa
Como a coluna informou, Elano está praticamente fora da Copa. A contusão na perna evoluiu para um edema ósseo, que provoca dores e impede que o volante volte a treinar. Na coletiva de ontem, na concentração de Randpark Golf Clube, em Johanesburgo, os jornalistas já se preparavam para a notícia do corte, mas o jogador falou de sua esperança na recuperação, emocionando-se em diversos momentos. Ao seu lado, o médico José Luiz Runco explicou a natureza da lesão, sempre num tom otimista. Confirmou-se, então, a impressão de que, mesmo que não jogue mais nesta Copa, Elano não será cortado. Ele é da “família” Dunga.
A caminho de Porto Elizabeth
Começamos na manhã de ontem a viagem até Porto Elizabeth para a cobertura do jogo da Seleção. A ausência de vaga nos voos entre Johanesburgo e a cidade obrigou a equipe DIÁRIO/Rádio Clube a pegar a estrada. Serão 1.200 quilômetros na vastidão das savanas sul-africanas. Se o cansaço afeta a todos há, como compensação, a oportunidade de conhecer paisagens deslumbrantes de um país que o mundo ainda não descobriu por inteiro. Pelo caminho, belas cidades e favelas monumentais. Contrastes próprios da velha África. Pernoitamos em Bloomfontein para retomar viagem assim que o dia amanhecer. O encanto da Copa do Mundo está justamente em permitir que os jornalistas mergulhem, de verdade, na vida do país-sede.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 1)
Essa Holanda é menos, menos que uma canção, diria Chico Buarque. Para contrariar, Felipe Melo melhora e Elano na mesma.
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