Sim, é possível golear times retrancados
Uma Copa que apresenta resultados bizarros e deixa apreensivas algumas torcidas tradicionais teve finalmente seu dia de bonança. Portugal disparou a maior goleada da competição, aproveitando-se da categoria, velocidade e da boa pontaria de seus atacantes. Até aí nenhuma novidade porque goleadas dependem basicamente disso: superioridade técnica e finalizações certeiras. O problema é que neste mundial raramente se consegue ver essas virtudes postas lado a lado. Quando há amplo domínio, daqueles avassaladores, faltam chutes corretos. E vice-versa. Pode-se dizer que os times chegaram ao torneio precisando treinar mais fundamentos.
O mais interessante do massacre lusitano de ontem foi a maneira inteligente como dobrou um adversário cuja principal característica é o forte bloqueio defensivo. A Coreia do Norte se fecha em campo mais ou menos como seu ditador fecha o regime vigente no país. Pois os portugueses, com velocidade no passe e deslocamentos permanentes, arranjaram um jeito de furar esse duríssimo bloqueio. Já no primeiro tempo, quando marcou apenas um gol, a seleção de Carlos Queiroz mostrou-se engenhosa na estratégia de ataque. Cristiano Ronaldo, muito visado, afastou-se da grande área, abrindo espaços para nomes menos conhecidos, como Hugo Almeida, Simão, Tiago e Raul.
O craque recuou para a intermediária, mas sempre acompanhava as triangulações em torno da área norte-coreana. Deram chance e ele apareceu como um raio para disparar um arremate que beijou o travessão. Depois, como um verdadeiro líder em campo, participou ativamente das articulações que conduziram aos gols que conduziram ao acachapante placar. No final, ganhou de presente um gol, após uma sucessão de falhas da defesa da Coreia. Consciente da importância de suas atitudes para a seleção, abriu mão da honraria de melhor em campo, atribuída pela Fifa, e dedicou-a a Tiago, autor de dois gols e incansável nas ações ofensivas.
Para quem acompanha futebol com os olhos distraídos a inspirada atuação portuguesa pode parecer irrelevante porque o adversário não tem credenciais. Menos, menos. Este mesmo time norte-coreano, há uma semana, enfrentou o Brasil com a mesma postura tática conservadora e criou imensas dificuldades ao time de Dunga, que não encontrava meios de furar a retranca. Mais que isso: teve a pachorra de se lançar à frente nos instantes derradeiros, fazer um gol e ainda criar um punhado de lances preocupantes. Na justificativa para o apertado escore, o treinador brasileiro repetiu Zagallo e disse que é muito difícil superar adversários muito fechados (um discurso que se repete, conforme as conveniências, desde que Bellini levantou a taça pela primeira vez, naquele estádio sueco). Pois Portugal mostrou, com disciplina e rapidez, que a tarefa é mais do que possível.
Falsa história de Davi contra Golias
Ouvi ontem, de uma pessoa acima de qualquer suspeita, que medíocres são sempre perigosos. Por vaidade cega, buscam enfiar goela abaixo dos
outros suas crenças, quase sempre vendendo uma imagem positiva de si mesmos. Ai de quem atravessar seus caminhos. Lembro disso quando o
comportamento do técnico da Seleção Brasileira é motivo de tantas discussões. Nas últimas horas, falou-se mais sobre os xingamentos e destemperos verbais do treinador do que da preparação para o importante jogo de sexta-feira contra Portugal. Não acompanhei o incidente porque, no momento da entrevista coletiva, estava na tribuna de imprensa analisando a partida para a Rádio Clube do Pará. Sei dizer, porém, das outras entrevistas de Dunga aqui em Johanesburgo. Garanto que não é um trabalho recomendável para almas sensíveis. O técnico adota uma postura claramente hostil desde que pisa na sala de entrevistas. Reage a qualquer pergunta com sarcasmo, quando não tenta intimidar jornalistas. Beneficia-se da subserviência
de um determinado grupo, que por receio de ficar “marcado” junto à cúpula da Seleção, direciona perguntas simpáticas, sob encomenda para levantar a bola do irascível Capitão do Mato. Quando surgiu a história de que parte da imprensa torce contra o escrete – tema de uma das primeiras colunas enviadas aqui da África -, fiz questão de marcar posição sobre o meu trabalho. Jornalistas não torcem, pelo menos não estão aqui com essa finalidade. Como têm sentimentos, podem também torcer, mas seu papel não é esse. Estão aqui imbuídos de uma missão: informar sobre a Seleção Brasileira da maneira mais verdadeira e fiel aos fatos. O impasse surge quando, pela primeira vez em 18 Copas, o técnico da equipe declara um boicote à imprensa. Há quem saia em defesa de Dunga, comparando-o a Davi em luta contra um hipotético Golias (simbolizado pela Globo). Lamento desapontar, mas não é bem assim. Ao usar essa suposta desavença com a rede de TV, o técnico espertamente desvia o foco da discussão. O problema é que aqui em Johanesburgo as hostilidades se dirigem a todos os profissionais, não apenas aos de uma emissora. A grosseria, os maus modos e a truculência verbal são usados contra jornalistas, indistintamente.
Desconfio de uma tática (a exemplo de Enzo Bearzot com a Itália, em 1982) pensada para unificar os jogadores em torno das ideias do comandante. Se for isso, o fim pode ser justificável, mas os meios são deploráveis. Respeito é fundamental, em qualquer nível de relacionamento.
Fúria vence, mas não parece um time
Fernando Torres, goleador consagrado na Europa, teve três chances de ouro para estufar as redes hondurenhas ontem, no estádio Ellis Park. Para surpresa geral, se atrapalhou e desperdiçou todos os lances. Saiu de campo no começo do segundo tempo, depois que Vicente Del Bosque cansou de vê-lo perder oportunidades. David Villa marcou os dois gols espanhóis, mas perdeu outros três (incluindo o pênalti sofrido por Jesus Navas). Do festival de desperdícios proporcionado pela Fúria ficou a impressão de um time desnorteado, sem um líder em campo e que facilmente esquece sua condição técnica superior. Diante da fraquíssima Honduras, a defesa chegou a fraquejar em vários momentos, denunciando insegurança e falha de posicionamento. Com a vitória, a equipe fica a depender de uma outra vitória sobre o Chile na última rodada. Normalmente, não seria tarefa complicada, mas a Espanha de hoje tem a incrível capacidade de complicar situações fáceis. Daí que a batalha contra o time de Bielsa se prenuncia das mais tensas e imprevisíveis.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 22)
Nunca foi impossível golear times retrancados. Torna-se mais mais fácil quando o retrancado é mediocre. Tabelinhas e jogadas de linha de fundo são remédios ainda com validade, recursos indisponíveis, às vezes.
” O melhor jogo desta Copa foi mostrado pelo Brasil contra C. Marfim “., quem afirma é Tostão que ontem comemorava em Africa os 40 anos do Trí. Trí conquistado pela melhor seleção brasileira de todos os tempos . Como Zagalo era o técnico em 70, há quem prefira 82 ou 86 . Telê deixou muitas “viuvas”.
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Caro Tavernard, minha referência às dificuldades de superar retrancas tem a ver, obviamente, com a célebre peleja com a Coreia do Norte, que quase parou nosso escrete na estreia. Ontem, os portugueses mostraram como se desmonta um ferrolho.
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Aliás, Gerson, essa história de dizer que é difícil furar uma retranca, está parecendo por aqui, quando Remo e Paysandu montam times ruins e, ficam colocando a culpa em Baenão e Curuzu, dizendo que são campos pequenos e, qualquer time que vem aqui, se retranca e torna o jogo de qualquer um dos dois,mais difícil. Engraçado, só para reforçar, ainda mais, é que o Paysandu já foi Bi Campeão brasileiro, jogando na curuzu. Te dizer, mas penso que isso já é desculpa pronta, quando vc não tem um bom time, ou ele é mal treinado. Te contar.
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A postura da Coreia do Norte contra o Brasil foi diferente, embora defensiva e o Brasil não foi eficiente como os lusos. Aquele gol marcado pelos coreanos empolgou o time que resultou em chugar mais vezes a meta portuguesa desguarnecendo a defesa. Depois dos 4 a sova ficou por conta do desânimo.
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Gerson, acabo de assistir pela BANDSPORT opinião das mais lúcidas (jovem reporter William ?) referindo-se ao relacionamento Imprensa/Dunga.
Reconhece os exageros do técnico tanto quanto as vaidades irreverenciais da imprensa. O desejo do furo leva quase sempre a provocar desinteligencias. No caso Julio Cesar, acabou-se de ouvir a palavra do médico para em seguida publicar foto sugestiva de dúvida quanto ao estado do jogador. Ahí meu caro Gerson sai o equilibrio da informação para a entrada da desinformação (para não dizer outra coisa).
Concordo também com o Ruy Osterman quando afirma que a metade dos que assistem os treinos não entende o que estávendo
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Tavernard, com a experiência de duas Copas e vários torneios envolvendo a Seleção, concordo que existem exageros de parte a parte, mas até hoje não ouvi em nenhuma entrevista coletiva nenhum tipo de pergunta ofensiva à moral de alguém ou com intenções de prejudicar este ou aquele. Perguntas devem ser respondidas ou não. E caso o entrevistado sinta-se atingido por um repórter tem todas as razões para se abster da resposta, isso ocorre em qualquer lugar do mundo. Quando vejo algumas figuras analisando a atual crise, observo um esforço imenso para driblar a polêmica e abraçar o equilíbrio, o que é bom, desde que contenha verdade. Quanto aos treinos, não é preciso que sejam inteiramente abertos. O que fotógrafos e cinegrafistas reclamam é da completa proibição para filmar a movimentação, coisa que nenhuma outra seleção faz. Imaginemos que as táticas maravilhosas do nosso Dunga sejam dignas de mistério, mas não custa ele parar por algum tempo a prática estratégica e mandar seus jogadores ficarem dando chutes a gol ou correndo pelo gramado para efeito de filmagem. Quanto ao episódio do Júlio César, posso falar de cátedra, pois estava na concentração do Brasil neste dia e publiquei a foto da área do campo de golpe que impede qualquer aproximação, mesmo visual, dos treinos do Brasil. Alguém conseguiu fotografar à distância o goleiro saindo com as mãos nas costas do treino. Ele estava afastado do time justamente por dores nas costas e aí surgiu a especulação. Em jornalismo, aprendemos que a ausência de informação acaba levando muitas vezes à especulação, o que é uma prática perigosa. Mas, no caso do Brasil, a ausência de informações e de qualquer fonte a ser consultada leva a esse tipo de comportamento de alguns. Aí temos a piada perfeita para o filósofo Dunga. Ele proíbe acesso a informações sobre a Seleção, uma notícia sai sob forma de especulação e ele vem depois dar lições aos jornalistas. Ora, tenhamos santa paciência. Seleção é assunto sério, que interessa a milhões de brasileiros. Os jornalistas cumprem uma missão social, que é levar informação a essa gente toda. São profissionais, têm falhas como quaisquer outros, mas merecem respeito quando exercitam seu ofício.
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Video e audio da entrevista não bastaram à FIFA e Dunga não será punido. O comportamento de Maradona com periodistas argentinos foi diferente e daí a punição imposta.
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Querem prova de delito mais convicente?
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O Brasil depende muito do Kaká e Luís Fabiano. Se ambos estiverem mal como na estréia, qualquer retranca é difícil de ser vencida. Mas se for o contrário, ninguém os segura, até porque as retrancas só duram até tomar o primeiro gol.
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Tvarrnard, não há como medir diferenças nas formas ofensivas. Dar “cotoco”, “”fazer banana”, “mandar chupar” e chamar palavrões em público é a mesma coisa. Todas, formas grosseiras e ofensivas no tratamento com profissionais. Todos sabemos o quanto a Globo se torna insuportável em sua arrogância, mas essa relação estabelecida entre Dunga e os profissionais da emissora beira o ridículo. A subserviência comercial e ladina da imprensa com a CBF gera esse tipo de coisa, pois em outro país, esse tipo de coisa geraria pelo menos uma nota de desagravo. O problema é que a maioria dos que ali estão são “jornalistas esportivos” sem diploma e pouco atentos à defesa da dignidade e até de solidariedade corporativa. Ali o que vale é a competição, o tal do “furo” e a boa relação com a cúpula da CBF imposta pelas emissoras. Acho até que a Globo foi demaism tolerante com Dun ga e vi no Fantástico uma indignação quse que forçada nas palavaras do Tadeu. Alex Escobar não merecia esse tipo de tratamento, até por que tem demonstrado um bom humor em sua profissão, muito distante do achincalhe e foi aberta e policialescamente admoestado por Dunga. Triste a postura dos profissionais da Band domingo quando, ao passar a coletiva ao vivo, ainda suavizaram a postura de Dunga que recebeu elogios do Mílton Neves e do Datena. Se fosse com algum profissional da Rede, não tenho dúvidas que teria até palavrões do Neto. É esse tipo de postura subserviente e omissa (e isso cabe também a Globo) das emissoras por conta de competição e audiência, que gera esse tipo de fantasma autoritário entronizado na figura de Dunga. Os profissionais, por sua vez, vão à reboque…
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Concordo com suas palavras, Cássio, e já me referi a esse servilismo forçado nas relações de alguns profissionais da mídia esportiva com coordenadores da comissão técnica. Há um claro receio em melindrar o técnico e os jogadores, todos pisam em ovos. Qualquer perguntinha mais atravessada (raríssima nas circunstâncias) é interpretada como crime de lesa-pátria como se os entrevistados fossem intocáveis. O pior é que essa claque domina as entrevistas coletivas e tem preferência para formular perguntas. Quem foge ao script, acabo limado nas coletivas seguintes. Isso ocorre há muito tempo, mas ficou mais visível sob a gestão Dunga, que não tolera perguntas inconvenientes. Ora, se não aceita pressão, então que vá ser técnico de Honduras, Ilhas Maurício ou Luxemburgo.
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Sim, é possível golear times retrancados, mas, convenhamos, é bem mais difícil. E com a bolinha que o Brasil jogou contra a África do Norte a dificuldade triplicou. Mas, independentemente de goleada, o importante mesmo é vencer bem como fez o Brasil contra os marfinenses. Noutro giro, uma coisa acredito que mereça registro no bom futebol que resultou na expressiva goleada aplicada por Portugal: os Norte Coreanos se permitiram ir bem mais à frente contra os portugueses e em pelo menos três gols falharam clamorosamente. E se soltaram mais, não sei se porque não confiaram no potencial dos lusos ou porque precisavam da vitória ou por ambos os motivos. Outro registro impositivo é que já contra os marfinenses (que são bem mais qualificados, inclusive na retranca e na violência) se deu o oposto: o Brasil marcou três belos gols e os lusitanos não conseguiram marcar nenhum, o que talvez sinalize na direção de que a ansiedade da estréia também tenha lá o seu grau de influência no rendimento dos jogadores, sejam eles experientes ou estreantes. Mas o embate entre as nações ditas irmãs vai esclarecer quem é o melhor, pena que não sendo eliminatório para nenhuma das duas, o combate fatalmente vai perder um pouco em intensidade.
Quanto ao Dunga, não obstante, no atacado, eu tenha uma opinião um tanto diferente daquela que isola o treinador como o único culpado pelos entreveros, dentre outros aspectos estou de acordo que alguns segmentos do jornalismo esportivo são um tanto subservientes mesmo, não sei se por puro medo ou se para tentar obter algum espaço. No entanto, há um fato que já parece alcançar foros de consenso: de há muito havia um escancarado privilégio dado pela CBF à Globo, moléstia que foi extinta com a chegada do Dunga. Todos os sites, blogs e colunas que se dedicam a falar sobre as grosserias do Dunga são unânimes em confirmar. Pena que além de muito amargo o remédio trouxe efeitos colaterais algo desnecessários e desagradáveis.
No mais, mesmo torcendo pelo Chile, acho que a Espanha vai encontrar seu verdadeiro futebol e vencer a partida.
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nesse episodio imprensa x dunga a imprensa quer ter sempre razao a imprensa esportiva brasileira e blindada a globo queria uma entrevista exclusiva com alguns jogadores e o dunga vetou o reporter da globo na hora da coletiva balançava a cabeça discordando do dunga sera isso falta de respeito mas ninguem comenta nao adianta alguns jornalistas quererem botar o povo contra o dunga o povao ta com o dunga parece ate que a imprensa esportiva brasileira so tem santinho faça-me o favor
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Eu não tô com a imprensa e nem com o Dunga. Ambos estão pisandio na bola, e não é na Jabilani.
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Bom…, pelo menos o Brasil superou a Costa do Marfim, Portugal nem isso.
Acho q pelo enfiar 3 gols em um time com algumas estrelas européias (diferente da Coréia do Norte), e considerado o melhor da África, é equivalente, ou melhor, q golear um time fraquíssimo q jogou bem mais aberto contra Portugal q contra o Brasil.
Ñ acho q ninguém tenha ensinado nada à nossa seleção, mas caso eu esteja errado, penso q o Brasil deva ter ensinado bem mais em seu segundo jogo.
Depois querem acusar o Dunga de agir sem razão.
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