Coluna: Jornalista não é torcedor

A cada novo show de grosserias da dupla Dunga-Jorginho reforço a convicção de que o ritual, cumprido com evidente prazer, integra a manjada estratégia do tipo “todos contra nós”. A ideia não é nova e já deu resultados interessantes em Copas, embora nunca tenha sido muito útil para as aspirações brasileiras. Seleções que saem do país contestadas costumam se fechar e adotar a hostilidade explícita como forma de protesto.

Foi assim na Copa de 1974, quando Zagallo empreendeu uma cruzada contra os críticos de seu mal-ajambrado e envelhecido time até ser atropelado pela máquina holandesa de Cruyff. Quatro anos depois, na Argentina, o capitão Cláudio Coutinho optou por uma relação amuada com a imprensa, que contestava duramente sua opção por Chicão em detrimento de Paulo Roberto Falcão.

Nas duas situações, o enfrentamento comprometeu o noticiário sobre a Seleção, mas não significou nenhum benefício dentro de campo. Retratos de um período político conturbado, os times não deixaram saudade e seus comandantes ficaram marcados apenas pelas declarações polêmicas.  

Cabe dizer, porém, que a pressão sobre Dunga e Jorginho não chega nem perto da oposição a Sebastião Lazaroni, técnico da Seleção na Copa de 90 na Itália. Célebre pelo pensamento confuso e as frases sem sentido (“galgando parâmetros” é um de seus clássicos), Lazaroni montou um time a partir dos volantes Alemão e Dunga, cujo estilo brucutu terminou por batizar aquela era. Mas, apesar da pressão, o técnico sempre manteve a cordialidade.

Mesma postura de Carlos Alberto Parreira, em 1994. Combatido pelo esquema defensivista e a proverbial preferência por volantes, o técnico conseguiu conduzir as coisas sem maiores altercações com os jornalistas. Esse papel de confrontação era exercido pelo auxiliar Zagallo, sempre intolerante em relação a críticas.

Dunga, capitão daquele time, parece ter assimilado bem as lições do Velho Lobo. Indignado com o que considera uma campanha orquestrada contra seu trabalho, não baixa a guarda em nenhum instante. Recebe toda pergunta como se fosse um tiro e apela à verborragia patrioteira do auxiliar Jorginho como reforço.

Ontem, aparentemente de alma lavada pela inebriante vitória sobre a equipe semi-amadora do Zimbábue, Jorginho resolveu partir para o ataque, instigando (sem nominar) repórteres que estariam torcendo contra a Seleção. Chamou para a briga os “que metem o pau na gente”, sob risinhos da claque que morre de medo do espírito vingativo da dupla.

Descontando o linguajar rasteiro, cometeu um duplo equívoco: superestimou a importância do amistoso e confundiu jornalista com torcedor. Repórteres e cronistas não viajaram à África do Sul para torcer. Podem, eventualmente, até torcer nas horas vagas, mas estão ali para trabalhar, o que significa buscar informação, doa a quem doer. 

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 4)

10 comentários em “Coluna: Jornalista não é torcedor

  1. Avatar de ADERSON - Hepta Paraense/Tri-Invicto (73/74/75)/Penta com 33/Campeão 100%/BI do Norte (68/69)/Campeão Norte-Nordeste (71)/Legítimo Campeão Brasileiro/O MAIS QUERIDO (IBOPE) ADERSON - Hepta Paraense/Tri-Invicto (73/74/75)/Penta com 33/Campeão 100%/BI do Norte (68/69)/Campeão Norte-Nordeste (71)/Legítimo Campeão Brasileiro/O MAIS QUERIDO (IBOPE) disse:

    O Dunga se defende por antecipação com a estupidez característica dele, para compensar uma provável derrota do trabalho dele na copa.

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    1. Como compensando? Ele só estaria dando munição aos críticos. Assim ele demonstra confiança no título pra depois ter motivo pra deitar e rolar em cima dos do contra. Tinhas que ser azulino mesmo…

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  2. Gerson!
    Você é brilhante em seus comentários inteligentes além de conhecedor profundo da língua portuguesa. É sem dúvida, uma revelação de comentarista esportivo.
    É isso aí meu caro Gerson.

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  3. Olha, também é difícil hoje em dia encontrar alguém que leve atividade estressante na esportiva, tirando a política, onde o fundamental é ser esperto e enganador e tem que saber dar e levar tapinha nas costas. Além do mais, essa relação treinador (não necessariamente da seleção)-imprensa sempre foi e será fonte de brigas, determina reações nervosas e, de uma maneira geral, favorece quem pode passar despercebido, anônimo, se defendendo e atacando à vontade atrás do microfone, do notebook ou da caneta.

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  4. As resposta tortas e as vezes mal criada de nosso treinador agora mais recente do auxiliar técnico da seleção, dão um tom que os jornalista adoram. Já pensou se fossem tudo as mil maravilas, jornalista elogiando (igual a Globo) e o Dunga retribuindo os elogios… uma rasgação de cedo de ambos os lados. Não teria nenhuma graça as entrevistas coletivas da Seleção. Tudo isso é promossão, marketing. Essas “brigas” chamam câmeras para , chamam chamadas em sites, assim os patrocinadores da seleção que estão sempre a mostra aparecem mais. Os Jornalistas estão entrando na corda da comissão técnica.

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  5. Eu discordo caro Gerson, desse seu título. Pois você sabe que tanto Brasil a fora, quanto aquiem nossa capital. Todos os jornalistas tem seus preferidos times, ou times de coração. Sendo que alguns demonstram tais afinidades mais que os outros. Por exemplo todos sabemos que Guilherme Guerreiro, e bicolor roxo, mais e um cara bem comedido e imparcial, assim como você tamém torce para um time que euseu mais nãoirei falar qual, hehehehehehe.
    Mais tem outros tipo o Jones Tavares, que chega a ser conselheiro remista, que fico ate surpreso quando o mesmo as vezes, chega a elogiar em seus comentários o paysandu, é muito das vezes mete o pau, no seu leão.

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  6. Quem dera que o título fosse de fato real. Nós leitores sabemos que muitos agem como torcedores, sim. Ou será que aqueles que ficam pulando de alegria atrás do gol nas imagens de tevê não são jornalistas que estão trabalhando e…torcendo???

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