Coluna: Verdugos ou caudilhos?

Nos últimos dias, em função do afunilamento do campeonato e do equilíbrio técnico das equipes, começam a surgir relatos sobre deslealdades que acontecem dentro de campo, longe dos olhos da torcida, dos árbitros e até das câmeras de TV. Sabe-se que determinados boleiros gostam de se impor pela força e alguns confundem isso com agressão pura e simples.
A prática não é muito comentada porque os próprios jogadores preferem respeitar o questionável “código de ética” dos gramados, que impõe silêncio absoluto sobre o que ocorre entre as quatro linhas. Acontece que, em função do exagero e da repetição continuada, a coisa começa a vir à tona – através das vítimas, claro.
O atacante Dentinho, do Corinthians, depois do clássico com o S. Paulo, reclamou de socos desferidos pelo zagueiro André Dias (ex-Paissandu) dentro da área. O corintiano disse com todas as letras que o beque é desleal e age desse modo para amedrontar atacantes franzinos.
Outro que andou criticando o comportamento de companheiros de profissão foi Fabrício, do Cruzeiro, que acusou o palmeirense Diego Souza de apelar para pontapés e outros golpes baixos nas disputas de área.  
Cabe dizer que nem sempre o estilo brucutu prevalece. Em boa parte das vezes, tem efeito contrário, pois gera um comportamento mais agressivo dos atacantes habilidosos, que partem para cima buscando o drible para motivar faltas que levem a um cartão amarelo ou vermelho.
Torcedores costumam ter uma posição ambígua quanto a esse tipo de jogador. Quando o ferrabrás é do time de coração a coisa muda de figura e ele ganha ares de herói vingador e é glorificado como caudilho. Alguns times têm até uma galeria especial para reverenciar esse tipo de jogador.
É o caso da célebre “barreira do inferno”, apelido da zaga vascaína formada por Orlando Lelé, Miguel e Renê? O trio batia na própria sombra. Abaixo da linha do pescoço valia qualquer golpe. Antes, o Vasco já havia sido guarnecido pelo duo Brito-Fontana, também bastante sarrafeiro.
O certo é que, para cada craque em atividade, existe pelo menos uma dúzia de verdugos, o que configura um verdadeiro milagre a sobrevivência do futebol como espetáculo.
 
 
No Pará, o Paissandu teve uma folclórica dupla de beques, nos anos 80, capitaneada pelo maranhense Admilton, cujo coadjuvante era Nad. Era uma zaga de respeito, que compensava as carências técnicas com muita autoridade e, digamos, disposição física.
Cansei de ver Admilton sair distribuindo tapas nos atacantes adversários, especialmente nos mais franzinos, enquanto a bola estava do outro lado do campo. Saiu sempre impune em função da tibieza dos bandeirinhas, que fingiam não ver as cenas de pugilato, talvez por receio de dedurar o zagueiro carniceiro.
Pode-se dizer que, na especialidade, foi legítimo sucessor de João Tavares, famoso nos anos 60 como xerife bicolor. O Remo também não ficava atrás, com os zagueiros China e Socó nos anos 60. A verdade é que todos os times já tiveram, em algum momento, seus brucutus de plantão. Mas, como quase tudo na vida, a chiadeira só vem quando eles estão do lado oposto.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 2)

10 comentários em “Coluna: Verdugos ou caudilhos?

  1. Minha família toda é bicolor e fanática pela pelota. Nas “bolas” da família tem um bordão, sempre que um zagueiro corta um lance: “Cheeeeeeegaaaaa, Victor Hugo!”
    O CR tinha um zagueiro meio malvadão também, um tal de Silvano.
    No Paysandu, os já citados Nad e João Tavares. Reza a lenda que o Nad jogou um atacante adversário no fosso do antigo Mangueirão… Hehehehe
    No Rio de Janeiro tinha um ditado: Zagueiro que se preze não ganha o Belford Duarte (* Prêmio para o atleta mais disciplinado)… Sinceramente? Faz sentido. Não gosto de nadar nessa maré do “politicamente correto”. Se continuar assim, daqui há pouco o zagueiro vai ter que pedir “desculpas” a cada falta cometida…
    Se continuar assim, vão enfim instituir a 18º regra do futebol: a leitura do livro “Chic” da Glória Kalil…
    O futebol tá ficando muito cheio de frescura…

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  2. Para fazer companhia a esses verdugos de plantão, também tivemos cracaços de bola como Gerson e Rivelino que também adoravam deixar uma sola de chuteira a espera de pés incautos. Nos tempos atuais temos o Cléber do Cruzeiro (ou Palmeiras?) que, a despeito do bom futebol, mantém viva a dinastia Brucutu.

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  3. Também acho, Matheus. Nem sempre virilidade é grosseria. Não acho o André, desleal. É um zagueiro viril que por conta de sua força física, muitas vezes exagera. No PSC nunca agiu com arrogância com ninguém, sejam companheiros ou jornalistas. O Dentinho em campo é provocador, faz cena e se acha um craque, aí quer que o zagueiro o trate com rapapés? Ser deleal também significa não respeitar o companheiro adversário e o clube oposto, com gracinhas, palhaçadas e provocações acintosas. Craque que é craque humilha adversário com drible, categoria, não com jogo de cena para a torcida e para a imprensa. Em relação às zagas, uma das que melhores vi em campo, foi a composta por Oscar e Daryio Pereira no São Paulo, por quase uma década. Eram zageueiros clássicos, mas também sabiam abrir ferramentas sem ser brucutus: por cima, o Oscar e por baixo, o uruguaio. Quem não lembra da excelente dupla de zaga remista (a melhor formada no Pará durante os anos 90) de Chico Monte Alegre e Belterra? Eram clássicos, mas também batiam e nunca foram desleais.

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    1. O Dentinho se acha mesmo… e por falar nele, o dito jogador não é nenhum “santo”. Ou alguém esqueceu da cotovelada desferida por ele em um defensor do Atlético PR pela Copa do Brasil? E não foi apenas essa não, neste Campeonato Brasileiro ele já deu umas e outras cotoveladas e nem por isso as “vítimas” o chamaram de desleal… isso é jogo de cena.

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    1. Poxa, amigo Ed, omiti realmente grandes expoentes da sarrafada: Abelão, Moisés, Jorge Corrêa, Márcio Rossini, Carvalhão, Cláudio Demônio… a lista é extensa.

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  4. Mas, olha Gérson, o Rondinelli não recebeu o título de “Deus da Raça” à toa. Que dia a canela do Dinamite. Rs. E lá em Baião, caro Gérson? Derruba vai, quem quebrou a perna do Saci, seu parceiro no ataque da máquina tocantinense? Rs.

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  5. ha ha ha ha ….lá em Sao Miguel amigo Ca´ssio, tinha um chamado Zé Manoel, nao é verdade Marcelo ? ha ha ha ha ha ah …ele e o Nena…ha ha ha ha

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  6. E em Marapanim, no timaço do “Bom Intento F.C”, tinha o “Pedro Corbota”, que na falta de bola de couro,usaca coco verde para fazer embaixada. Rs.

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