A imagem do dia

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Brasília, manhã de terça-feira, 7 de setembro. Bolsonaristas caminhando pelas ruas.

O muro em que não se bate

Por Victor Martins

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Talvez seja o texto mais desnecessário que saia desta lavra da qual não sai texto há algum tempo. Porque é tomar tempo das gentes quando o tempo tem sido escasso e vem em contagem regressiva para muitos.

Olho à direita – ainda sem contexto ideológico – e na TV vejo o desenrolar de uma CPI que ouve o presidente Latam de uma empresa farmacêutica. O dirigente, dentre outras coisas, garantiu que ofereceu milhões de vacinas ao Brasil num período de explosão de casos positivos para coronavírus ainda em 2020. Fosse um país minimamente civilizado e dentro da normalidade, o fascista presidente estaria enjaulado, seus vários asseclas idem, e já estaria em curso um julgamento por crimes contra a humanidade. Os experimentos humanos que foram feitos em Manaus são uma das provas infinitas para tal. Mas neste momento, o genocida está em Alagoas promovendo uma aglomeração para vociferar contra o relator da CPI, representante daquele estado.

Um dos motivos pelos quais esta administração atual é persistentemente contra a educação é porque povo com pouca cultura e capacidade de raciocínio é mais fácil de alienar e de tratar como gado – já com contexto ideológico. É porque conhecimento histórico e social do que somos hoje atrapalha nos planos de implementação do que justamente esta administração quer.

Não tem muito tempo que o BBB, um programa de fácil alcance nacional, trouxe questões profundas sobre racismo e injúria racial. O participante que cometeu o ato defendeu-se na base do desconhecimento do tema, definindo-se como chucro. Cantor e de vida ganha, o participante do programa tem pleno acesso à internet e pode, se quiser, inteirar-se por completo sobre o tema. Dias depois, o pai do glorioso preferiu usar usas redes sociais para ofender o colega do programa, alvo da injúria, que seria em breve eliminado. O filho curtiu a postagem. Curtir é endosso, neste caso. Injúria racial e racismo são crimes.

O microcosmo do automobilismo e de grande parte dos esportes brasileiros apresenta perfis muito similares à qualidade de vida do participante do Big Brother. Geralmente são pessoas que abandonaram os estudos na vida infantil para se dedicarem à prática, abrindo mão da cultura necessária para a formação ética, moral e intelectual. Assim, têm pouco conhecimento sobre black power, provavelmente nem se lembram da Princesa Isabel e só devem ter tido contato com a luta dos pretos nas recentes mortes nos EUA – e, no caso do automobilismo, pela campanha liderada por Lewis Hamilton.

Corto a bola, a direita, fora se não tem atleta que tenha achado o que aconteceu no BBB mimimi de quem sofreu o ato e se não tem piloto aqui que desdenhe do posicionamento de Hamilton. Quantos deles ajoelhariam para representar a campanha? Quantos deles sabem o significado de ajoelhar?

Saber, nos dias de hoje, está na palma das mãos. A mão que posta story, fotinho e vídeo e elenca hashtag é a mesma que pode buscar conteúdo válido e necessário para compreensão do momento que vivemos.

A vida de quem está no Brasil é o cronômetro que aparece no canto superior esquerdo da tela. Em vez do safety-car, tem medical-car. Tem muitos. Tem vários. São insuficientes para atender os vários acidentes. Resultam na bandeira vermelha – sem contexto ideológico – que levam à bandeira quadriculada. A paralisação leva ao fim. O fim. Não tem champanhe. Tem pódio: o país figura entre os três onde mais se morre por Covid-19.

Há evidências diversas do descaso na compra de vacinas, absolutamente primordiais para evitar que, na ponta final, o número de óbitos chegasse, oficialmente, a 430 mil pessoas – e contando. Se há neste ponto alguém antivacina, a resposta para isso, além da burrice embutida, é que ninguém estaria vivo até hoje se não tivesse tomado vacina quando criança. O desespero é tamanho que governadores e prefeitos tentam negociar com os fornecedores contratos que deveriam ser assinados pelo presidente. Logo – e espero ter sido claro já neste ponto –, a ausência dos produtos vitais são de completa (in)competência do presidente. No Reino Unido, por exemplo, já não há mais mortes; nos EUA, estados já liberaram vida social sem máscaras. Em ambos os países, houve uma maciça campanha pela vacina – no caso do último, claro, na gestão atual.

Tudo isso porque é projeto notório que, enquanto se come picanha, se deseja à morte do povo. Um pouco de conhecimento da história recente faria uma óbvia correlação deste presidente com Hitler e Mussolini e com outros tantos ditadores que só são vomitados aqui e ali quando se referem a Cuba e Venezuela. Quando aqui e em outros lugares se fala de genocídio, fascismo, nazismo e afins, trata-se disso: da tentativa em dizimar os nossos. Os nossos, em grande quantidade, têm classe social bastante clara: os pobres. Também aqui é compreensível encontrar uma correlação entre pilotos e demais atletas que estão bem de vida: eles não pertencem a este mundo e pouco se importam. Mas como não sabe contar dinheiro e não sabe virar à esquerda ou à direita, o vírus vai fazendo a rapa.

Que fique mais claro, pois: Bolsonaro e seu grupo têm um plano para matar. Assim foi com todos os nossos mais próximos: com a Ana Lúcia e com o Pedro, pai e mãe de minha amiga Débora; com o Boghos, pai do meu amigo Rodrigo; com Paulo Gustavo, Nicette Bruno e tantas outras personalidades da mídia; como tentou comigo, com meus pais, com meus amigos Juliana e Marcos; e também com o Berton e o Bruno – duas vezes –, meus amigos e colegas de Grande Prêmio. Sobreviver no Brasil, hoje, é resistir na base da sorte. Este hoje pode não ser amanhã.

Hoje, é evidente – como já era em 2016, diga-se, mas a pandemia entregou sem miopia – que estar ao lado de Bolsonaro é compactuar com o que é e pensa (?). Isso é algo muito acima de se posicionar à esquerda – que a classe pouco pensante resume a Lula e ao PT – e à direita. Na verdade, é algo muito à direita. É extrema-direita. O ditado alemão que fala sobre 10 pessoas reunidas à mesa e que ficam ali quando um nazista se chega, somando 11 nazistas, é completamente aplicável a Bolsonaro: qualquer um que defenda e se alie a este sujeito se equivale a ele.

Já havia sido com Emerson Fittipaldi e, agora, viu-se com Nelson Piquet. Como já tinha Giba e grande parte da patota do vôlei – que viveu às custas de dinheiro estatal. Piquet se prestou a aparecer com Bolsonaro na inauguração de uma ponte em Rondônia. Não há qualquer evidência de que tenha sido forçado a isso. E a partir do momento em que se presta a isso, adentra o submundo de quem resolve borrar sua história. Porque acima do esportista e do ídolo, está o cidadão e o humano. Tal qual o vírus, isso vale para todos: tricampeão, bicampeão, campeão, quase-campeão, não-campeão. Se você não ganhou nada relevante na vida, mas não defende quem está no poder, considere-se com um título; do contrário, você é um nada relevante.

Então, respeitosamente e com um português de acesso universal para chucros, caguei para o número de campeonatos conquistados e caguei para quem acha um acinte quando o Grande Prêmio ou seus jornalistas e demais membros se posicionem criticando quem quer que seja do meio do automobilismo. Nenhum de nós têm culpa do desprezo, sobretudo intelectual, que se tem aplicado desde a infância a questões muito mais relevantes que corridas de carros e motos. Milhares de seguidores perdidos, numa linguagem de internet universal, são, na verdade, limpeza social. Não são porra nenhuma perto do quanto já se perdeu de vidas. E não, não, não mesmo, aconteceria qualquer crítica se qualquer piloto aparecesse ao lado de FHC, Sarney, Alckmin ou Doria, porque, por mais que se tenha diferenças básicas com a conduta político-econômico-social, nenhum deles se oporia à compra de vacina e teria algum cuidado para que esta pandemia não representasse a dizimação de parte do nosso povo.

Prestes a virar 23 que parecem, na teoria, 40, poderia ter algo melhor a postar, mas lamentavelmente é o que se tem de necessário para hoje. Hoje somos um povo que não mais sabe do presente e do futuro. Mas eu, pessoa física, e o GP, jurídica, sabemos bem quem são os outros, com quem devemos andar – sem aglomerar –, quem devemos admirar – ídolo é Alex Zanardi, que transcende o ser-humano – e quais as bandeiras que devemos defender – descubra se tem contexto ideológico. Não sei se haverá 24 – ou 41 anos. Meus pais terão algo a mais, vacinados que estão. Mas quem está à deriva fica na angústia e lamenta – e xinga e deseja o pior e tem naturais instintos primitivos de raiva e de combate. Há um muro e lados bem claros.

Não adianta bater nele para manipular o curso das coisas, tentar vencer e dizer que foi levado a isso. O muro sempre vai existir para quem quis se posicionar do lado errado e aceitar o posto de escada de genocida. Nós é que vamos bater.

Presepada internacional

POR GERSON NOGUEIRA

A papagaiada ganhou ares de mico internacional. Não há registro na era moderna de interrupção de um clássico entre duas seleções de primeira linha pela ação de fiscais da vigilância sanitária. Brasil e Argentina entraram em campo, domingo à tarde, mas o jogo foi paralisado quando Neymar, Messi e seus companheiros começavam a trocar passes.

O que veio depois só acrescentou mais bizarrice à situação. Iniciou-se um balé de explicações fajutas envolvendo CBF, Conmebol, AFA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e até a Polícia Federal.

A curiosa roupa que Messi vestia quando foi conversar com Neymar e Tite | O  Futbolero Brasil Eliminatorias Catar 2022

Chamou atenção, obviamente, a razão da demora da Anvisa para enquadrar os quatro jogadores argentinos que burlaram o protocolo existente no Brasil para pessoas vindas de países como a Inglaterra, onde eles atuam. Como a delegação argentina chegou ao país na sexta-feira, 3, os agentes da Vigilância Sanitária tiveram tempo suficiente para agir.

O papel da Anvisa, como o nome diz, é o de manter vigilância sobre situações que envolvem a segurança sanitária da população, embora no Brasil da pandemia tenha feito vista grossa para os recorrentes atos de desrespeito e deboche do próprio presidente da República em relação aos cuidados básicos de prevenção contra a covid-19.

No afã de mostrar serviço, a Anvisa meteu os pés pelas mãos extrapolando seu papel. Invadir o campo para interromper uma partida internacional válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo foi um ato inusitado, que poderia ter sido facilmente evitado.

Caso chegasse ao estádio 30 minutos antes, a equipe da agência teria tido acesso aos jogadores da Argentina, que faziam tranquilamente o aquecimento no gramado de Itaquera. Só esse detalhe faz ruir todas as explicações sobre resistência dos argentinos em atender ao protocolo.

Há, ainda, o episódio mal explicado e que compromete diretamente a Anvisa. No sábado, 4, agentes do órgão estiveram no hotel para reunir com dirigentes e a chefia da delegação. Saíram de lá sem tomar qualquer atitude mais drástica, reforçando a versão argentina quanto a um arranjo que teria sido costurado para garantir a presença dos jogadores na partida.

Vale lembrar que, caso houvesse de fato interesse em fazer valer o protocolo, os quatro atletas não poderiam nem ter entrado no país. Precisariam ficar em quarentena, obrigatoriedade prevista para estrangeiros que tenham passado pelo Reino Unido, Irlanda e Índia.

A impressão final é de que a Anvisa concordou em “deixar passar” a irregularidade, mas resolveu agir somente na hora do jogo, talvez como forma de dar um exemplo público. Se procedeu assim, errou duplamente, pois negligenciou seu papel institucional e permitiu que outras pessoas ficassem expostas a risco grave de contaminação no hotel e no estádio.

Uma lambança de alto calibre que reforça a impressão de que o futebol brasileiro é gerido por dirigentes despreparados e que até a Agência de Vigilância Sanitária é sensível a impulsos de vaidade.

Papão consegue reforço; Japiim ganha problema

O meia William Fazendinha foi apresentado ontem como reforço do PSC para o restante da disputa da Série C do Campeonato Brasileiro. Uma aquisição providencial, pois o time sofre com o crônico problema de falta de organização e criatividade no meio-de-campo. Ao mesmo tempo, a transferência enfraquece o Castanhal em momento crucial da Série D.

Aos 28 anos, Fazendinha é um sobrevivente, como tantos jogadores talentosos que o futebol do Pará produz e nem sempre sabe aproveitar. Surgiu em clubes emergentes e vivia sua melhor temporada como titular do Castanhal.

Invicto ao longo dos 14 jogos da fase de classificação, o Castanhal deve muito de sua estrutura ofensiva ao trabalho desempenhado por Fazendinha. Pecel, Kanga e Leandro Cearense devem muito a ele como construtor de jogadas para os atacantes da equipe.

É incerto o aproveitamento imediato do armador pelo técnico Roberto Fonseca. Como é típico de técnicos forasteiros, ele não demonstra muita simpatia por valores nativos. Danrlei, o centroavante baionense, que o diga. Apesar do bom desempenho, entra sempre no final dos jogos. É suplente de atacantes que não mostram qualidade e nem fazem gols.

Fazendinha corre esse risco e o Castanhal também se arrisca a ter problemas justamente na etapa mais importante da Série D, quando enfrentará os jogos de mata-mata. A perda de Fazendinha foi mais lamentada porque a direção do clube foi escanteada da negociação entre o PSC e o jogador. As regras (não escritas) de boa vizinhança foram deixadas de lado.

Baixas atrapalham busca de estabilidade no Remo

O Remo se prepara para o quarto jogo no returno da Série B com responsabilidade redobrada. Precisa quebrar a sequência de três jogos sem vitórias diante de um adversário encrespado, que luta para se recuperar no campeonato. O Vitória, que ainda está no Z4, começa a esboçar uma reação e encara a partida de sexta-feira como decisão.

Para os azulinos, o jogo também é decisivo, afinal o time não venceu ainda no returno. A comparação é amarga. Nos três primeiros jogos do turno, foram quatro pontos conquistados, com empate diante do CRB e vitória sobre o Brasil. Nas rodadas iniciais do returno, apenas um ponto foi conquistado, no empate com o Brasil em Pelotas.

O tempo para recondicionar jogadores talvez seja o maior aliado de Felipe Conceição nesta semana. O time sofre com as seguidas ausências de titulares. Contra o Botafogo já retornaram à equipe o meia Mateus Oliveira e o lateral Tiago Ennes.

Para sexta-feira, é certo o retorno de Kevem e Renan Gorne. O problema é que o time não terá seu melhor atacante: Victor Andrade, suspenso. As baixas comprometem os planos de Felipe para conquistar a sonhada estabilidade na competição. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 07)

Rock na madrugada – Ave Sangria, “Sob o Sol de Satã”

Democracia e luta por direitos sociais

NOTA PÚBLICA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA (ABED) REFERENTE AO SETE DE SETEMBRO

Nos últimos cinco anos a sociedade brasileira mergulhou em um lamaçal profundo, marcado pela destruição dos poucos direitos sociais conquistados, pelo desemprego, pela retomada da carestia dos preços dos bens básicos e por uma crescente escalada de autoritarismo e violência social. Os interesses de classe da burguesia brasileira estabeleceram o recrudescimento da superexploração dos trabalhadores brasileiros, intensificando suas condições de fragilidade e vulnerabilidade, fatores que levam a um mercado de trabalho crescentemente precário e empobrecimento da nossa população.

Os números revelam um cenário de continua crise econômica, mantidas elevadas taxas de desemprego e crescente pobreza, sendo que nos últimos dados divulgados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar, IBGE) quase quatorze milhões de brasileiros estão desocupados e a grande maioria dos mesmos (40,7% da população ocupada) vive na chamada informalidade, sendo que 26,9 milhões de brasileiros são subutilizados e estão sob condição de desalento, ou seja, não conseguem as condições de ocupação básica que possibilitem uma renda mínima necessária para sua sobrevivência.

Esse quadro de agravamento do desemprego e de formas precárias de ocupação levaram o Brasil a retornar para o mapa da fome: cerca de 116,8 milhões de brasileiros convivem com algum grau de insegurança alimentar e, destes, 43,4 milhões não dispõem de alimentos em quantidade suficiente e 19 milhões de brasileiros(as) enfrentam a fome (conferir Relatório da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar – REDE PENSSAN, 2021).

O agravamento do quadro econômico e social se torna ainda mais funesto quando se observa a disparada dos preços dos produtos básicos, consolidando uma espiral inflacionária que não se observava desde o final do governo Collor de Mello. Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) o preço da cesta básica de alimentos aumentou em todas as capitais onde é pesquisado pela instituição. No acumulado dos 12 meses encerrados em junho de 2021, esse aumento correspondeu, em Brasília, a 29,9%; em Porto Alegre, a 25,3%; e em Belém, a 18,52%. Na capital paraense o valor da cesta básica chegou em julho de 2021 ao valor de R$ 522, 66 (quinhentos e vinte e dois reais e sessenta e seis centavos), representando mais que 51% do salário-mínimo vigente.

O atual (des)governo nada faz para enfrentar as causas da atual crise econômica, assim como, quanto a crise sanitária do Covid-19 sua atuação foi de propagar o vírus, como mostram estudos divulgados e a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid-19, sendo que alcançamos quase 600 mil pessoas vitimadas por uma doença que poderia ser evitada e tratada.

A ABED considera que tanto o quadro de crise econômica, quanto de crise sanitária são em grande medida resultantes de um (des)governo cujo único propósito é o empoderamento do autoritarismo e de setores comprometidos com as milícias, corrupção e destruição da soberania nacional brasileira. A ABED conclama neste 7 de Setembro toda sociedade brasileira, aqueles e aquelas comprometidos com a democracia e com o Estado Democrático de Direitos a se oporem ao atual governo Bolsonaro e exigimos seu imediato impeachment.

Como se fosse ontem…

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Jean-Paul Belmondo fotografado na Brasília recém-inaugurada, em 1960.

7 de Setembro: Alexandre Moraes ordena bloqueio de contas e prisão de golpistas

Na véspera dos atos pró-governo Bolsonaro marcados para o dia 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes ordenou a prisão preventiva de duas pessoas acusadas de ameaçar integrantes da Corte. O magistrado também bloqueou contas bancárias de investigados por organizarem protestos “criminosos e violentos” marcados para o feriado.

As decisões foram tomadas entre anteontem (4) e ontem (5), após pedidos da PGR (Procuradoria-Geral da República), dentro do inquérito que “apura a convocação da população, por meio das redes sociais, a praticar atos criminosos e violentos de protesto, às vésperas do feriado de 7/9/2021, durante uma suposta manifestação e greve de ‘caminhoneiros'”, diz Moraes nas decisões.

APOIO - Alexandre de Moraes: no STF, ministros também se dividem entre os candidatos -

Os alvos das prisões preventivas são Marcio Giovani Niquelatti, um professor de Santa Catarina que apoia Bolsonaro e é conhecido nas redes sociais como Professor Marcinho; e Cássio Rodrigues de Souza, ex-policial militar de Minas Gerais. Moraes também determinou operação de busca e apreensão em domicílios de Gilmar João Alba, prefeito de Cerro Grande do Sul (RS), que foi flagrado no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com R$ 505 mil em dinheiro na bagagem.

Em uma rede social, Marcio Niquelatti disse que um empresário estaria oferecendo dinheiro pela “cabeça” do ministro Alexandre de Moraes, “vivo ou morto”. Citou também que existiria um agrupamento de pessoas que iria atrás do ministro do Supremo. Responsável por uma série de investigações contra Bolsonaro no STF, Moraes deverá ser um dos principais alvo das críticas do presidente e de simpatizantes nas manifestações de terça-feira.

O ministro ainda ordenou à PF (Polícia Federal) que colha esclarecimentos do prefeito sobre o valor apreendido. Segundo os agentes, o dinheiro estava armazenado em caixas de papelão dentro da bagagem de mão, que pegava um voo fretado com destino a Brasília.

O ministro mandou bloquear as chaves PIX e contas bancárias da Aprosoja Nacional (Associação Brasileira dos Produtores de Soja) e da Aprosoja de Mato Grosso (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso), entidades investigadas sob suspeita de financiarem a realização de manifestações antidemocráticas no feriado de 7 de setembro. Também foram bloqueados saques de eventuais fundos em que os CNPJs dessas duas entidades tenham participação. (Com informações do UOL)

O passado é uma parada

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Coutinho, Ney Blanco, Pelé e Tite em torno de um piano de hotel durante uma das muitas excursões do Santos nos anos 60.

A História não é feita por grandes homens

Por André Forastieri

A História não julgará. Se julgar, não condenará. Se condenar, o criminoso não pagará.

Erasmo Dias morreu em liberdade, aos 85 anos de idade. Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa. Era um criminoso, inimigo do Brasil e da liberdade. Houvesse justiça em nosso país, teria morrido na cadeia.

Seus crimes não foram poucos nem pequenos. Só de ter fundado a Arena, partido da ditadura militar, e sido secretário de segurança de São Paulo no governo de Paulo Egydio, 74-79, já não merecia perdão.

Sua barbaridade mais notória foi comandar a invasão da PUC em 1977. Os universitários faziam o ato de refundação da UNE, União Nacional dos Estudantes. Sem armas, sem nada. Erasmo Dias cercou a universidade com tropas e tanques e depois invadiu.

Erasmo Dias em frente ao Batalhão Tobias Aguiar, após autorizar a invasão da PUC. 

Os milicos desceram o pau, cassetete, porrada. Jogaram bombas de fósforo nos universitários. Muitos ficaram queimados para sempre. 700 estudantes foram presos e levados à sede da ROTA, depois 92 para o Dops, e 39 foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, no artigo 39, que previa 10 a 20 anos de prisão. Pelo menos um, todo mundo conhece: o ator Edson Celulari.

Com a abertura política, Erasmo Dias se elegeu vereador e deputado. Era figurinha fácil em programas de tevê, “debatendo”. Debatia nada. Sugeria um buldogue raivoso, espumando contra os comunistas, os hippies, os bandidos, a bagunça etc. Eu também espumava de ver este cara à solta e se dando bem.

De vez em quando alguém faz algum esforço para que se abram de vez os arquivos da ditadura militar. E que se responsabilize quem pisou na bola. É batata quente. Nunca vai acontecer. Porque é o tipo de coisa que não dá para fazer pela metade. Dilma fez um barulhinho sobre isso e virou a inimiga número um da pátria.

E se você quiser responsabilizar MESMO quem teve parte naquela porcaria toda, não adianta só pegar o peixinho pequeno, o sargento que dava choque nos genitais da meninada. Tem que pegar os mandantes, a cúpula da ditadura.

Muitos ainda estão por aí em posição de poder e influência e são peças-chave do establishment, às vezes do governo. Que governo? Todos desde a redemocratização. Seria irônico se não fosse trágico.

Agora, os participantes estão morrendo de velhos. Os que restam, Sarney, Delfim etc. escaparão da punição merecida. Como Erasmo Dias, que simbolizou tudo que havia de pior na ditadura militar, até a chegada de seu mais ilustre discípulo, nosso presidente.

Perto da sangue que Bolsonaro tem nas mãos, Erasmo Dias era um anjinho barroco. Conhecendo o Brasil, Bolsonaro há de seguir ilustre e influente até o caixão e jamais pagará por seus crimes.

Nunca será esquecido, e nunca será perdoado.

O BRASIL SEGUNDO IVAN

O mesmo Brasil que pariu estas pústulas deu a luz ao dolorosamente realista Ivan Lessa. 

Você pode ler uma entrevista com ele aqui.

Lembrei de Ivan, impiedoso e cômico, nestes dias em que o mundo enfrenta talibãs de lá e de cá. O trecho abaixo está no livro “Eles Foram Para Petrópolis”, que registra a correspondência virtual entre Ivan e Mario Sergio Conti, no UOL, no longíquo 2000:

“Vi a retirada israelense do sul do Líbano e me lembrei da retirada norte-americana do Vietnã. Saigon, 1975. Aquela correria, aqueles helicópteros… Gritos, balas, bandeiras. Quanto vexame, quanta tristeza, quanto desperdício…

O Brasil é nosso Líbano. O Brasil é nosso Vietnã. Somos Estados Unidos, somos Israel. Não poderemos vencer este conflito.

Veja os dados: 110 milhões de brasileiros ganham menos de dois salários mínimos… é questão de tempo – e pouco tempo – eles se darem conta que a vitória final está logo ali adiante, na esquina de uma quadra em Brasília.

Lutemos o bom combate, companheiros. Tentemos conter esta gente toda, esse bando de analfabetos, cambada de vagabundos, legião de safados e pilantras que fica aí se reproduzindo mais que barata.

A história, sublime mestra, talvez registre que, um dia, dois amigos, mais meia dúzia de sonhadores, tentaram trazer do ar e fincar na terra um impossível castelo habitado por quimeras.

Agora, é tarde. Nosso Líbano, nosso Vietnã se avizinham. Beba mais uma taça da champanha, pague a rodada com o platinum card e, depois, já sabe: embaixada e helicóptero.”