A História não é feita por grandes homens

Por André Forastieri

A História não julgará. Se julgar, não condenará. Se condenar, o criminoso não pagará.

Erasmo Dias morreu em liberdade, aos 85 anos de idade. Seu corpo foi velado na Assembléia Legislativa. Era um criminoso, inimigo do Brasil e da liberdade. Houvesse justiça em nosso país, teria morrido na cadeia.

Seus crimes não foram poucos nem pequenos. Só de ter fundado a Arena, partido da ditadura militar, e sido secretário de segurança de São Paulo no governo de Paulo Egydio, 74-79, já não merecia perdão.

Sua barbaridade mais notória foi comandar a invasão da PUC em 1977. Os universitários faziam o ato de refundação da UNE, União Nacional dos Estudantes. Sem armas, sem nada. Erasmo Dias cercou a universidade com tropas e tanques e depois invadiu.

Erasmo Dias em frente ao Batalhão Tobias Aguiar, após autorizar a invasão da PUC. 

Os milicos desceram o pau, cassetete, porrada. Jogaram bombas de fósforo nos universitários. Muitos ficaram queimados para sempre. 700 estudantes foram presos e levados à sede da ROTA, depois 92 para o Dops, e 39 foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, no artigo 39, que previa 10 a 20 anos de prisão. Pelo menos um, todo mundo conhece: o ator Edson Celulari.

Com a abertura política, Erasmo Dias se elegeu vereador e deputado. Era figurinha fácil em programas de tevê, “debatendo”. Debatia nada. Sugeria um buldogue raivoso, espumando contra os comunistas, os hippies, os bandidos, a bagunça etc. Eu também espumava de ver este cara à solta e se dando bem.

De vez em quando alguém faz algum esforço para que se abram de vez os arquivos da ditadura militar. E que se responsabilize quem pisou na bola. É batata quente. Nunca vai acontecer. Porque é o tipo de coisa que não dá para fazer pela metade. Dilma fez um barulhinho sobre isso e virou a inimiga número um da pátria.

E se você quiser responsabilizar MESMO quem teve parte naquela porcaria toda, não adianta só pegar o peixinho pequeno, o sargento que dava choque nos genitais da meninada. Tem que pegar os mandantes, a cúpula da ditadura.

Muitos ainda estão por aí em posição de poder e influência e são peças-chave do establishment, às vezes do governo. Que governo? Todos desde a redemocratização. Seria irônico se não fosse trágico.

Agora, os participantes estão morrendo de velhos. Os que restam, Sarney, Delfim etc. escaparão da punição merecida. Como Erasmo Dias, que simbolizou tudo que havia de pior na ditadura militar, até a chegada de seu mais ilustre discípulo, nosso presidente.

Perto da sangue que Bolsonaro tem nas mãos, Erasmo Dias era um anjinho barroco. Conhecendo o Brasil, Bolsonaro há de seguir ilustre e influente até o caixão e jamais pagará por seus crimes.

Nunca será esquecido, e nunca será perdoado.

O BRASIL SEGUNDO IVAN

O mesmo Brasil que pariu estas pústulas deu a luz ao dolorosamente realista Ivan Lessa. 

Você pode ler uma entrevista com ele aqui.

Lembrei de Ivan, impiedoso e cômico, nestes dias em que o mundo enfrenta talibãs de lá e de cá. O trecho abaixo está no livro “Eles Foram Para Petrópolis”, que registra a correspondência virtual entre Ivan e Mario Sergio Conti, no UOL, no longíquo 2000:

“Vi a retirada israelense do sul do Líbano e me lembrei da retirada norte-americana do Vietnã. Saigon, 1975. Aquela correria, aqueles helicópteros… Gritos, balas, bandeiras. Quanto vexame, quanta tristeza, quanto desperdício…

O Brasil é nosso Líbano. O Brasil é nosso Vietnã. Somos Estados Unidos, somos Israel. Não poderemos vencer este conflito.

Veja os dados: 110 milhões de brasileiros ganham menos de dois salários mínimos… é questão de tempo – e pouco tempo – eles se darem conta que a vitória final está logo ali adiante, na esquina de uma quadra em Brasília.

Lutemos o bom combate, companheiros. Tentemos conter esta gente toda, esse bando de analfabetos, cambada de vagabundos, legião de safados e pilantras que fica aí se reproduzindo mais que barata.

A história, sublime mestra, talvez registre que, um dia, dois amigos, mais meia dúzia de sonhadores, tentaram trazer do ar e fincar na terra um impossível castelo habitado por quimeras.

Agora, é tarde. Nosso Líbano, nosso Vietnã se avizinham. Beba mais uma taça da champanha, pague a rodada com o platinum card e, depois, já sabe: embaixada e helicóptero.”

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