Mês: janeiro 2021
Rock na madrugada – Jimi Hendrix, “Voodoo Child”
Papão em tempo de recomeço
POR GERSON NOGUEIRA
A chegada do novo executivo de futebol, Ítalo Rodrigues, profissional radicado há mais de uma década em Pernambuco, abriu oficialmente a nova temporada para o PSC. Finda a participação na Série C e encerrada a gestão Ricardo Gluck Paul, o clube tem que zerar tudo e partir para reformulações profundas, principalmente quanto ao elenco.
Quatro jogadores já deixaram a Curuzu. Alex Maranhão e Juninho, meias que não supriram as necessidades de criação, foram os primeiros a se desligar. O centroavante Jefinho, que não conseguiu ser titular, também já saiu. Por fim, Wellington Reis, volante resgatado no meio da Série C, que também não disse a que veio.
Alguns atletas têm contrato mais longo em andamento. É o caso de Bruno Collaço, Nicolas, Luiz Felipe, Paulo Ricardo e Tony. A grande maioria, porém, terá que negociar renovação a partir do dia 30 deste mês.
A situação permite que o time, mesmo sem técnico, seja escalado com a mesma base da Série C para a estreia na Copa Verde contra o Galvez (AC), na quinta-feira. A defesa estará completa, embora Perema, o melhor zagueiro do elenco, já esteja em conversas para renovar.
O meio-campo, problema de sempre, seguirá a atormentar corações e mentes no clube. Ítalo Rodrigues, que assumiu com um discurso pragmático e pé no chão, apostando na simplicidade de propósitos, terá que ir atrás de um meio-campista criativo, que seja o camisa 10 há muito tempo esperado. Aliás, desde Eduardo Ramos o Papão não tem um jogador digno das atribuições e responsabilidades da posição.
De todas as preocupações da diretoria a busca de um novo treinador é a mais urgente. Só com a chegada do comandante serão definidas as demais prioridades, principalmente quanto à formação do elenco.
Bolívar, Alexandre Gallo, Gilmar Dal Pozzo e Celso Teixeira são os nomes mais cogitados. Dal Pozzo, que deixou boa impressão na primeira passagem pelo clube, e Bolívar (ex-Vila Nova) estão à frente dos demais na bolsa de apostas.
Com base na produção dos jogadores durante a Série C, boa parte do elenco atual deverá ser descartada. Há insatisfação com alguns jogadores que ficaram de 2019 para 2020 a pedido de Hélio dos Anjos.
A permanência de Anderson Uchôa, que no momento é especulado como na mira dos azulinos, é um assunto que a nova diretoria não comenta. O clube tem interesse em manter o volante, embora haja o entendimento de que o custo-benefício foi negativo para o clube em vista da série de contusões que prejudicaram a atuação do jogador na Série C.
Um outro item volta à agenda bicolor: o investimento em jogadores formados na base. Nos dois últimos anos, essa política não criou corpo, talvez por força das opiniões e critérios dos treinadores. Alguns atletas – como Willyam, Alan Calbergue e Vitinho (já negociado) – chegaram a ser relacionados para jogos, mas raramente tiveram oportunidades.
A tendência é de que essa situação se altere drasticamente na gestão de Maurício Ettinger. A comissão técnica terá que investir no aproveitamento regular de jogadores revelados no próprio clube. A conferir. (Foto: Jorge Luz/Ascom PSC)
Como um menino, Abelão renasce e impulsiona o Inter
Comovente a alegria de Abel na vitória do Internacional sobre o Grêmio, domingo, quebrando uma escrita que já durava 10 jogos. Aos 68 anos, com longa folha de serviços prestados ao futebol, ele parecia um menino pulando na comemoração do gol colorado e do triunfo que garantiu ao time a liderança isolada do Campeonato Brasileiro.
O lance capital da partida deixou dúvidas quanto ao acerto do VAR. Achei que não houve falta. Ocorre que Abel, a essa altura do campeonato, dependia dessa vitória para se tranquilizar na competição, desgarrando-se do S. Paulo (2º) e do Flamengo (3º), justamente o ex-clube do treinador.
A passagem pela Gávea é um ponto que incomoda Abel. Ele foi escorraçado pela diretoria, acusado de incompetência para montar um time de estrelas. Ficou célebre o episódio da barração de Arrascaeta, que depois encaixaria como luva no time supercampeão de Jorge Jesus.
Por tudo isso, a caminhada do Inter representa um desagravo público da carreira de Abel. Poucos conseguem o que ele está em vias de conquistar. Um profissional descartado de forma desumana sempre sonha com a volta por cima, coisa rara de ocorrer principalmente quando a idade avança.
No próprio Inter, Abel foi de certa maneira afrontado pelo acerto do clube com o espanhol Miguel Ángel Ramirez, ex-técnico do Independiente Del Valle. Abel é, por assim dizer, um vingador de todos os que sentiram o gosto amargo da rejeição. Que leve a cabo essa cruzada vitoriosa.
Uchôa interessa ao Remo, mas lesões ameaçam o negócio
Fazia tempo que um jogador pertencente a um dos rivais não entrava na prateleira de cobiça do adversário. Anderson Uchôa, nome improvável acaba de entrar para esse seleto clube, que nos últimos anos quase não foi alterado. A última grande travessia foi a de Eduardo Ramos, trocando a Curuzu pelo Baenão, caminho inverso ao de Vélber, em 2002.
As especulações foram confirmadas por pessoas ligadas ao volante. Ele teria uma proposta do Remo para disputar a Série B. Uchôa segue lesionado. Aliás, não joga desde a etapa de classificação da Série C.
Do lado remista, a informação é de que a oferta partiu do jogador. Ele está no PSC desde 2019, tendo disputado 45 jogos. A confiabilidade técnica nunca esteve em discussão. O problema é a parte física.
No final de 2019, ficou 80 dias ausente dos gramados em recuperação de uma cirurgia no pé. No ano passado, uma contusão na coxa direita logo na partida de abertura do quadrangular da Série C, contra o Ypiranga-RS, tirou o volante dos demais jogos.
Oriundo do Paraná Clube, o jogador ganhou destaque no PSC pela qualidade do passe e a capacidade de executar a transição ofensiva, quase um meia disfarçado de volante.
O trauma com as sucessivas lesões de Wallace e com o baixíssimo aproveitamento do lateral esquerdo Dudu Mandai, contratado ao São José (RS), pode indiretamente atrapalhar a contratação de Uchôa.
(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 26)
Bastidores do rock
O dia em que a Rainha Elizabeth conheceu quatro reis do rock inglês – Eric Clapton, Jimmy Page, Jeff Beck e Brian May.
Perguntas necessárias
Para reflexão
Eugenia
Por Jorge André Silva (Belém/PA)
Ele não negava que queria nos matar.
Nunca negou.
Sempre aproveitou oportunidades para afirmar como governaria e que negras, negros, indígenas, mulheres, pobres, e quem quer que os defendessem, seriam tratados como inimigos. E exterminados.
Essa é sua visão de mundo, de relações humanas, de postura política e de gestão do Estado.
Jair Messias Bolsonaro já desejava nos matar antes de ser presidente e vem tentando muito nos matar utilizando-se da presidência para isso.
Queria militares nas ruas para nos matar.
Queria fogo nas florestas para nos matar.
Queria o fechamento do STF para nos matar.
Queria armas nas ruas para nos matar.
Queria o desmonte do SUS para nos matar.
Na cara de pau, desejava que tudo isso não lhe provocasse punições ou consequências. Ele não poderia desejar um método mais eficiente de realizar seu objetivo central do que deixando o vírus “trabalhar em paz”.
Vem não apenas “matando uns 30 mil”. mas principalmente atingindo de forma letal, eficiente, barata, sem esforço e sem penalização alguma a fração mais fragilizada da sociedade identificada com os “inimigos” que o psicopata na presidência escolheu para perseguir.
E exterminar.
Com a pandemia, estão nos matando por ação e omissão através de um vírus que nos outros países é combatido e no Brasil está tendo a proliferação incentivada de todas formas. Ao mesmo tempo em que vemos sabotados procedimentos proteção e saúde que salvariam exatamente os mais vulneráveis.
O discurso negacionista é a construção ideológica de uma postura que os próprios negacionistas não adotam. Desejam provocar mortes, mas não desejam morrer.
A ameaça de imposição de um Estado de Defesa, no momento em que ganha força o clamor popular pelo impeachment, reforça a certeza de que não há um chefe de Estado a frente de uma nação, mas um obsecado executando um projeto genocida sem interesse algum de largar o osso do poder.
O governo do Brasil sob comando deste miliciano nazista está realizando um projeto de EUGENIA contra o nosso povo. CONTRA NÓS.
Até quando?
Fora Bolsonaro, já!!
Leão recupera atletas para buscar vitória e despedida digna da Série C

Depois da goleada diante do Vila Nova, ainda em Goiás, o executivo Carlos Kila falou sobre os próximos passos e a preparação do Remo para a partida final da Série C, sábado, em Belém. Ele observou que os desfalques de jogadores e também da comissão técnica acabaram impactando no rendimento do time na apresentação de sábado.
“Tivemos a perda de 13 jogadores, vários membros da comissão técnica, hoje quem colocou o time em campo foi o preparador físico e o treinador de goleiros. Isso qualquer grupo sente. O nosso objetivo é ganhar o último jogo. Acho que é fundamental. Teremos a volta dos profissionais da comissão técnica. A maioria deve voltar, assim como a maioria dos jogadores. Então é o que temos para colocar para nosso torcedor no momento”, explicou.
Kila destacou que o clube azulino conseguiu alcançar os objetivos traçados, como o acesso para a Série B e as duas vitórias sobre o PSC na fase quadrangular. “Nós queremos destacar que os nossos objetivos traçados foram cumpridos. Conseguimos o acesso, vencemos nosso adversário duas vezes, demonstra que o planejamento foi no caminho correto. Chegamos à final, gostaríamos de ter chego no jogo em uma condição melhor”, afirmou.
O executivo prometeu que o time vai buscar a vitória na segunda final, a fim de garantir uma despedida digna da Série C. A maioria dos 13 atletas que desfalcaram o Remo para o jogo de sábado devem estar presentes no próximo confronto. Salatiel, Mimica, Carlos Alberto, Gelson e Augusto devem reaparecer, reforçando o time.
Nesta quarta-feira (27), no Mangueirão, o Remo estreia na Copa Verde enfrentando o Gama-DF, às 16h.
Rock na madrugada – Prince, “Whole Lotta Love”
A tragédia anunciada
POR GERSON NOGUEIRA

O Remo esperou 15 anos para disputar um título nacional. Alcançou isso ao cabo de brilhante campanha na Série C, que garantiu o também mui esperado acesso à Série B. Pois bem. Em apenas 90 minutos, toda a festiva expectativa criada pelo bicampeonato nacional acabou reduzida praticamente a pó. Consequência direta dos excessos na comemoração do acesso, há duas semanas.
A acachapante goleada de 5 a 1 frente ao Vila Nova, além de se constituir em ducha de água fria após a classificação para a 2ª Divisão, frustrou a torcida azulina, que acreditava na conquista da taça. Sem esquecer que, depois de 2005, o Remo não ganhou nenhum título de expressão nacional.
Cabe ressaltar que, para o primeiro jogo da decisão, as previsões não eram das melhores. Com 12 desfalques no elenco (11 após o surto de covid-19), o Leão viu-se obrigado a montar um time mesclado, com sérias fragilidades ofensivas e quase nenhuma opção no banco de suplentes.
O desastre estava anunciado. Só não se esperava que fosse tão retumbante e categórico. Depois de um começo até animador, marcando um gol logo aos 9 minutos, em cabeceio do zagueiro Gilberto Alemão, o time foi entrando no esperado processo de recuo e queda técnica.
Aguentou até os 24 minutos, quando em lance confuso e irregular, o Vila empatou. Talles, adiantado, recebeu a bola que resvalou na zaga. Bateu para as redes, sem que Júlio Rusch conseguisse bloquear o arremate.
Apenas 11 minutos depois, veio a virada. O mesmo Talles aparou um rebote propiciado pela defesa azulina e chutou no canto direito de Vinícius. A essa altura, era visível a precariedade da marcação à frente da zaga e a falta de força do meio-campo. Felipe Gedoz e Eduardo Ramos, que deveriam ser ofensivos, participavam do esforço para tentar marcar o afiado trio ofensivo goiano – Talles, Henan e Alan Mineiro.
Quando o jogo se encaminhava para o término da primeira etapa, aconteceu o lance capital, que teria reflexo direto no infortúnio remista em Goiânia. No afã de desarmar Alan Mineiro na meia-lua da grande área, o capitão Lucas Siqueira derrubou o meia-atacante.
Dali, para o camisa 10 do Vila, é quase pênalti. E foi assim que aconteceu. A barreira ainda contribuiu, não pulando para dificultar a passagem da bola, que se encaminhou à gaveta direita da meta de Vinícius. Com 3 a 1 no placar, os goianos desceram aos vestiários com a vitória encaminhada e os paraenses saíram sabendo da árdua tarefa que o 2º tempo reservava.
Curiosamente, minutos antes, Gedoz teve chance igual em cobrança de falta contra o arco de Fabrício. Mas, ao contrário de Mineiro, meteu uma rosca e a bola subiu muito. A diferença nos dois lances é que a barreira alvirrubra avançou alguns passos e pulou para dificultar a cobrança. A do Remo se manteve respeitosa e inerte, como fila de escoteiros.
Sem opções de reposição que permitissem uma reação, o Remo voltou do intervalo no mesmo ritmo, devagar quase parando. Com a boa vantagem estabelecida, o Vila cozinhava o galo, tocava para os lados, fazia o tempo passar. Não parecia nem disposto a forçar muito o jogo.
Mas, aos 13 minutos, o meia Pablo recuperou bola no meio, foi em frente e percebeu a marcação em linha dos zagueiros. Deu, então, um passe perfeito em profundidade para Henan receber e encobrir o goleiro Vinícius.
Como alternativa para tentar fazer um gol que reduzisse o grau de dificuldade para o segundo confronto, o auxiliar Renan lançou Wallace no lugar do inoperante Eron. Não adiantou muito, não havia quem criasse jogadas. Desgastado, Ramos pouco participava das jogadas.
O mesmo Pablo, minutos depois, pegou uma bola pela direita do ataque e foi avançando em direção à área. Como não encontrou resistência, arriscou um disparo forte e a bola, caprichosamente, esbarrou na cabeça de Henan e entrou no canto direito do gol remista fechando a tampa do caixão: 5 a 1.
Podia ter sido mais. Gilsinho ainda teve boa oportunidade nos acréscimos – que o árbitro potiguar decretou com requintes de crueldade. O Remo não tinha forças nem para ultrapassar a linha de meio-campo. Gedoz sentiu a perna e ficou se arrastando até ser substituído pelo garoto Pepê. Wallace desarmou um ataque agudo do Vila e acabou se lesionando.
Obrigação de despedida digna
O massacre de Goiânia foi muito mais grave que o vexame frente ao Brusque há dois anos. Desta vez, o Remo tinha muito mais a perder. O que se viu sábado foi um filme com final desenhado desde a estripulia irresponsável das comemorações na Doca entre jogadores e torcida, após o triunfo no Re-Pa e o acesso conquistado.
Um resultado desastroso causado pelas circunstâncias desfavoráveis, que deveriam ter sido previstas e evitadas. Quando está em jogo um título nacional, é inaceitável permitir tanto amadorismo e negligência com os protocolos de cuidados que a pandemia impõe.
Todo mundo sabe que o Remo foi goleado porque não tinha um time em condições de disputar a primeira final contra um adversário de qualidade. Para a segunda partida, sábado, em Belém, só resta buscar forças e dignidade para uma despedida honrosa.
Os anais do futebol estão repletos de histórias de viradas épicas, mas o Remo, ainda cambaleante em consequência dos efeitos da covid no elenco, teria que operar um milagre para reverter a situação. Não é missão impossível, mas é pouco provável que aconteça.
Quando o castigo vem a galope
Depois do entusiasmo pela vitória meio acidental sobre o Palmeiras no meio da semana, a torcida rubro-negra soltou fogos, fez fanfarras. No sábado, os jogadores e a cartolagem receberam o palmeirense Bolsonaro. A torcida reunida ali perto vaiou a presepada, mas a comitiva interrompeu festivamente o treino. Sem máscara ou compostura.
Ontem, a dura realidade. Caiu a ficha: o time de Rogério Ceni voltou ao padrão normal e caiu para o Furacão, em Curitiba. O acalentado sonho do bicampeonato fica novamente sob séria ameaça. Ninguém troca impunemente abraços e cumprimentos com um visitante indesejável.
(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 25)
Emoção diante da realeza do rock
Aaron Urbina, um roqueiro chileno, saiu pelas ruas de Londres buscando um jeito de encontrar endereços de lendas do rock britânico. Ao lado de um amigo, foi bater na porta da mansão de Jimmy Page. Enquanto ali, uma surpresa. Ele mesmo conta como foi: “Juntamente com o Bustle Puppets nos apresentamos no maior festival de Rock da Inglaterra (Download Fest) e para comemorar que tudo deu certo decidimos ficar por alguns dias para conhecer alguns lugares-chave da história do Rock na Europa. Uma das visitas foi à casa do guitarrista do Led Zeppelin, que surpreendentemente veio da premiação da revista Kerrang, junto com o Metallica entre outros. Uma disposição muito boa para dizer olá e trocar algumas palavras conosco”, descreve. Nas imagens finais, a emoção da dupla, ainda sem acreditar que havia visto, cumprimentado e falado com Page, um dos maiores guitarristas de todos os tempos.
Os perdedores
Por Aydano André Motta (*)
Jogadores do Flamengo viram risonhos garotos-propaganda de Bolsonaro, na contramão do aumento da consciência dos atletas mundo afora
No país que leva uma goleada do coronavírus, os ídolos do time mais popular – e rico – do Brasil dão-se ao desfrute de um convescote sorridente e público com o protagonista da tragédia. No encontro obsceno, se oferecem ao político acossado pela popularidade cadente. Milionários da bola, não enxergam que o jogo virou – e ganha quem tem consciência e, sobretudo, responsabilidade social.
É o tempo de Lebron James, Lewis Hamilton e sua luta antirracista; da vigilante solidariedade de Richarlison; da goleada de empoderamento de Megan Rapinoe. Mas os jogadores do Flamengo escolhem virar as costas à vida real, para um encontro com o capitão da covid-19. E acham a maior graça.
Em plena tarde escaldante da sexta-feira de janeiro, Jair Bolsonaro deu um bico no trabalho para visitar a delegação rubro-negra, aproveitando-se da estada do time em Brasília. Deixou de lado a vacina que não chega, os mortos que se multiplicam, a floresta que arde, a economia que não anda, para visitar jogadores felizes com uma vitória na véspera. Parece surrealista – mas o surrealismo anda levando de 7 a 1 da realidade.
O esquema de jogo se explica pelo diagnóstico do Datafolha, que constatou o esfarelamento da renitente popularidade do presidencial. A sufocante tragédia de Manaus, as trapalhadas na vacina e, sempre ela, a economia roeram um pedaço do prestígio presidencial. Bolsonaro acusa o golpe no primeiro aperto – e lá foi ele, em busca de um refúgio.
Emulou um de seus ídolos, o general-ditador Emílio Medici, que nos anos 1970 posava, radinho de pilha no ouvido, na tribuna do Maracanã diante do mesmo Flamengo, enquanto opositores da ditadura militar eram seviciados nos porões. Marketing político à antiga é a tática do capitão.
Para ele, jogo jogado. Lamentáveis são os jogadores – nos vídeos que circulam nas redes sociais, aparecem Filipe Luis, Diego Alves, Gabigol, Willian Arão, Pedro, Diego, Bruno Henrique e um empolgado Rogério Ceni, técnico da equipe, que cruza a imagem para esticar a mão aos visitantes, oferecido como político do Centrão. Aparecem ainda integrantes da comissão técnica, uniformizados, e o sorridente Marcos Braz, cartola que arrendou o prestígio futebolístico para se eleger vereador no Rio. Os símbolos do clube emolduram as cenas.
Em todas elas, alias, não há uma máscara sequer. Todo mundo de cara desavergonhadamente limpa, com a pandemia bombando. Os craques não postaram os registros em suas redes sociais, tampouco o clube. Mas o estrago está feito. Para boa parte da torcida, o evento vespertino ofuscou a recuperação da equipe no Campeonato Brasileiro.
“Enquanto em uma das cidades mais rubro-negras do Brasil, Manaus, falta até oxigênio aos pacientes — com criminosa contribuição do governo Bolsonaro e sua política negacionista para o enfrentamento do coronavírus -, causam assombro e indignação as imagens registradas hoje durante o treino do Flamengo em Brasília”, atacou o coletivo Flamengo da Gente.
Ofende a sucessão de imagens da conversa amestrada dos craques rubro-negros com o presidente dos esqueletos no armário. Nos diálogos, nem uma pergunta sobre a pandemia, questionamento sobre Manaus nem menção à vacina. Apenas a hospitalidade alienada a alguém em busca da popularidade alheia.
Jogadores de futebol – especialmente os brasileiros – precisam rasgar a fantasia de crianças grandes e virarem cidadãos, usando suas imagens poderosas a serviço do bem-estar social. Pouco importam preferências políticas, opções ideológicas, escolhas eleitorais. Ao se deixarem filmar com políticos ou outros caronas, os atletas avalizam posturas, atitudes, trajetórias.
As lições se multiplicam nos últimos tempos. Em 2017, quando se sagraram campeões da NBA, os jogadores e o técnico do Golden State Warriors recusaram-se a visitar o então presidente dos EUA Donald Trump, evento protocolar por lá. Lebron James bateu no republicano negacionista várias vezes nas redes sociais, sem negociar suas convicções. Na última temporada, liderou os companheiros na campanha “Vote”, de incentivo aos eleitores no país onde o voto é facultativo. Antes dele, Megan Rapinoe, a melhor jogadora de futebol do mundo, também garantiu vaga de titular na seleção dos craques cidadãos. Na Fórmula 1, o multicampeão Lewis Hamilton enfrentou os cartolas da categoria em nome de sua convicção antirracista.
Mesmo entre os brasileiros, há (poucos) exemplos. Richarlison, o capixaba revelado pelo América-MG que hoje brilha no Everton, da Inglaterra, ensina, aos 23 anos, como muito marmanjo deve proceder. Sensível aos inúmeros dramas sociais de seu país, divulga campanhas humanitárias e dedica parte de seus ganhos a ações solidárias.
E o Flamengo? Ao aceitar a visita no meio da jornada de trabalho dos seus atletas, acumula mais um capítulo na proximidade com a extrema-direita, desmoralizando o item estatutário de que não tem preferência política.
A covid-19 deveria ser um trauma para a instituição que perdeu um funcionário com quatro décadas de clube, o massagista Jorge Luiz Domingos, o Jorginho. Quase todos os jogadores das imagens com Bolsonaro padeceram no surto que varreu o elenco no meio da temporada, ainda em 2020. Nada disso foi lembrado no baile da sexta-feira.
Surpresa zero, para o clube que apostou tudo na gestão glacial da maior tragédia de sua história. Quase dois anos atrás, dez meninos foram incinerados vivos num contêiner no Ninho do Urubu, o centro de treinamento rubro-negro, na Zona Oeste carioca. Quando as chamas se apagaram, os cartolas aferraram-se ao código frio das contingências corporativas e, desde então, postergam processos, apertam o torniquete das negociações com as famílias e evitam menções e homenagens aos adolescentes martirizados. Optam pela proximidade da morte – como o presidente recebido na tarde da sexta.
Cartolas e políticos são assim mesmo – mas os atletas precisam aprender que o jogo virou. O esporte está, enfim, mostrando cartão vermelho à alienação, o que torna ainda mais anacrônica a cena risonha do treino rubro-negro.
Maior derrota.
(*) Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!