Os perdedores

Por Aydano André Motta (*)

Jogadores do Flamengo viram risonhos garotos-propaganda de Bolsonaro, na contramão do aumento da consciência dos atletas mundo afora

No país que leva uma goleada do coronavírus, os ídolos do time mais popular – e rico – do Brasil dão-se ao desfrute de um convescote sorridente e público com o protagonista da tragédia. No encontro obsceno, se oferecem ao político acossado pela popularidade cadente. Milionários da bola, não enxergam que o jogo virou – e ganha quem tem consciência e, sobretudo, responsabilidade social.

É o tempo de Lebron James, Lewis Hamilton e sua luta antirracista; da vigilante solidariedade de Richarlison; da goleada de empoderamento de Megan Rapinoe. Mas os jogadores do Flamengo escolhem virar as costas à vida real, para um encontro com o capitão da covid-19. E acham a maior graça.

Em plena tarde escaldante da sexta-feira de janeiro, Jair Bolsonaro deu um bico no trabalho para visitar a delegação rubro-negra, aproveitando-se da estada do time em Brasília. Deixou de lado a vacina que não chega, os mortos que se multiplicam, a floresta que arde, a economia que não anda, para visitar jogadores felizes com uma vitória na véspera. Parece surrealista – mas o surrealismo anda levando de 7 a 1 da realidade.

O esquema de jogo se explica pelo diagnóstico do Datafolha, que constatou o esfarelamento da renitente popularidade do presidencial. A sufocante tragédia de Manaus, as trapalhadas na vacina e, sempre ela, a economia roeram um pedaço do prestígio presidencial. Bolsonaro acusa o golpe no primeiro aperto – e lá foi ele, em busca de um refúgio.

Emulou um de seus ídolos, o general-ditador Emílio Medici, que nos anos 1970 posava, radinho de pilha no ouvido, na tribuna do Maracanã diante do mesmo Flamengo, enquanto opositores da ditadura militar eram seviciados nos porões. Marketing político à antiga é a tática do capitão.

Para ele, jogo jogado. Lamentáveis são os jogadores – nos vídeos que circulam nas redes sociais, aparecem Filipe Luis, Diego Alves, Gabigol, Willian Arão, Pedro, Diego, Bruno Henrique e um empolgado Rogério Ceni, técnico da equipe, que cruza a imagem para esticar a mão aos visitantes, oferecido como político do Centrão. Aparecem ainda integrantes da comissão técnica, uniformizados, e o sorridente Marcos Braz, cartola que arrendou o prestígio futebolístico para se eleger vereador no Rio. Os símbolos do clube emolduram as cenas.

Em todas elas, alias, não há uma máscara sequer. Todo mundo de cara desavergonhadamente limpa, com a pandemia bombando. Os craques não postaram os registros em suas redes sociais, tampouco o clube. Mas o estrago está feito. Para boa parte da torcida, o evento vespertino ofuscou a recuperação da equipe no Campeonato Brasileiro.

“Enquanto em uma das cidades mais rubro-negras do Brasil, Manaus, falta até oxigênio aos pacientes — com criminosa contribuição do governo Bolsonaro e sua política negacionista para o enfrentamento do coronavírus -, causam assombro e indignação as imagens registradas hoje durante o treino do Flamengo em Brasília”, atacou o coletivo Flamengo da Gente.

Ofende a sucessão de imagens da conversa amestrada dos craques rubro-negros com o presidente dos esqueletos no armário. Nos diálogos, nem uma pergunta sobre a pandemia, questionamento sobre Manaus nem menção à vacina. Apenas a hospitalidade alienada a alguém em busca da popularidade alheia.

Jogadores de futebol – especialmente os brasileiros – precisam rasgar a fantasia de crianças grandes e virarem cidadãos, usando suas imagens poderosas a serviço do bem-estar social. Pouco importam preferências políticas, opções ideológicas, escolhas eleitorais. Ao se deixarem filmar com políticos ou outros caronas, os atletas avalizam posturas, atitudes, trajetórias.

As lições se multiplicam nos últimos tempos. Em 2017, quando se sagraram campeões da NBA, os jogadores e o técnico do Golden State Warriors recusaram-se a visitar o então presidente dos EUA Donald Trump, evento protocolar por lá. Lebron James bateu no republicano negacionista várias vezes nas redes sociais, sem negociar suas convicções. Na última temporada, liderou os companheiros na campanha “Vote”, de incentivo aos eleitores no país onde o voto é facultativo. Antes dele, Megan Rapinoe, a melhor jogadora de futebol do mundo, também garantiu vaga de titular na seleção dos craques cidadãos. Na Fórmula 1, o multicampeão Lewis Hamilton enfrentou os cartolas da categoria em nome de sua convicção antirracista.

Mesmo entre os brasileiros, há (poucos) exemplos. Richarlison, o capixaba revelado pelo América-MG que hoje brilha no Everton, da Inglaterra, ensina, aos 23 anos, como muito marmanjo deve proceder. Sensível aos inúmeros dramas sociais de seu país, divulga campanhas humanitárias e dedica parte de seus ganhos a ações solidárias.

E o Flamengo? Ao aceitar a visita no meio da jornada de trabalho dos seus atletas, acumula mais um capítulo na proximidade com a extrema-direita, desmoralizando o item estatutário de que não tem preferência política.

A covid-19 deveria ser um trauma para a instituição que perdeu um funcionário com quatro décadas de clube, o massagista Jorge Luiz Domingos, o Jorginho. Quase todos os jogadores das imagens com Bolsonaro padeceram no surto que varreu o elenco no meio da temporada, ainda em 2020. Nada disso foi lembrado no baile da sexta-feira.

Surpresa zero, para o clube que apostou tudo na gestão glacial da maior tragédia de sua história. Quase dois anos atrás, dez meninos foram incinerados vivos num contêiner no Ninho do Urubu, o centro de treinamento rubro-negro, na Zona Oeste carioca. Quando as chamas se apagaram, os cartolas aferraram-se ao código frio das contingências corporativas e, desde então, postergam processos, apertam o torniquete das negociações com as famílias e evitam menções e homenagens aos adolescentes martirizados. Optam pela proximidade da morte – como o presidente recebido na tarde da sexta.

Cartolas e políticos são assim mesmo – mas os atletas precisam aprender que o jogo virou. O esporte está, enfim, mostrando cartão vermelho à alienação, o que torna ainda mais anacrônica a cena risonha do treino rubro-negro.

Maior derrota.

(*) Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

Uma grande Copa Verde

POR GERSON NOGUEIRA

ESPORTE - Equipes goianas conhecem os adversários na Copa Verde 2020

Tudo faz crer que teremos finalmente uma Copa Verde digna da força popular dos nossos clubes. A edição de 2021 é daquelas feitas sob medida para a dupla Re-Pa brilhar. Explico: pela primeira vez, por força das mudanças impostas pela pandemia ao calendário do futebol brasileiro, os dois velhos rivais têm a chance de chegar à competição com elencos reforçados e reais possibilidades de brilhar no torneio.

A situação é particularmente auspiciosa para o Remo, que conquistou o acesso à Série B e vai reformular o elenco nas próximas semanas, podendo avançar e chegar às etapas decisivas com o time mais forte que já conseguiu apresentar na competição.

Sonho antigo dos azulinos, que bateram na trave na edição de 2015, a Copa Verde já registra duas conquistas do PSC, campeão em 2016 e 2018. O Cuiabá, que acaba de chegar à Série A, também ganhou duas vezes – 2015 e 2019. Brasília (2014) e Luverdense (2017) levaram as outras edições.

Na sempre cabalística sétima competição, é bem provável que o campeão seja paraense, apesar de uma concorrência cada vez mais diversificada – presenças de Atlético-GO, Cuiabá (atual campeão) e Vila Nova. A rigor, só depende de planejamento e seriedade.

O Leão, que estreia no próximo fim de semana, tem uma trajetória errante na CV, com direito a vexames inesquecíveis, como a eliminação para o Santos-AP, nas quartas de final de 2017. Ao todo, foram 32 jogos, 15 vitórias, 7 empates e 10 derrotas, com 55 gols marcados e 40 sofridos.

O Papão, bicampeão do torneio, fez 47 jogos e obteve 29 vitórias, 13 empates e 5 derrotas. Foram 89 gols marcados e 38 sofridos. Os bicolores souberam aproveitar a condição de disputantes da Série B para impor superioridade em duas edições, chegando a cinco finais e a uma semifinal.

A responsabilidade maior em relação à Copa Verde é indiscutivelmente dos remistas, pois a competição foi sempre encarada com certo relaxamento, sem constituir-se em prioridade, lá pelas bandas do Evandro Almeida.

O bônus também vale o esforço. Apesar de ter diminuído o valor da recompensa, a CBF dá como prêmio ao campeão a classificação automática à terceira fase da Copa do Brasil, o que garante uma verba em torno de R$ 2 milhões.

Para a torcida, há a chance de dois confrontos entre Leão e Papão, visto que o clássico só está mesmo garantido no Campeonato Estadual. No Brasileiro, ambos não se cruzarão em 2021.

Bola na Torre

O programa tem o comando de Guilherme Guerreiro, com participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Começa logo depois do jogo da NBA, na RBATV, por volta de 00h20.

Em pauta, a final da Série C e o começo da Copa Verde. Premiações e participação do telespectador. A direção é de Toninho Costa.

Após campanha brilhante, Dourado chega à Série A

Com o empate entre CSA e Brasil-RS, na sexta-feira, o Cuiabá tornou-se o terceiro time a garantir acesso para à Primeira Divisão do Brasileirão. A campanha espetacular do Dourado na Série B foi iniciada sob a batuta de Marcelo Chamusca e prosseguiu, brilhantemente, com o desconhecido Alan Aal, que havia sido dispensado pelo Paraná Clube.

O clube sobe pela primeira vez à Série A com apenas 20 anos de existência. De quebra, fará com que a Arena Pantanal, “elefantes branco” construído para a Copa de 2014, finalmente seja usada à altura no principal campeonato nacional. Bem melhor que Manaus, cuja arena é mais utilizada em peladões.

O clube foi fundado por Gaúcho, ex-ídolo do Flamengo, em 2001. O atacante morreu em 2016, mas o trabalho inicial prova ter sido bom: o Dourado é um grande case de sucesso.

Volante evita mico e salva dignidade rubro-negra

No vídeo sobre marqueteira visita de Bolsonaro ao treinamento do Flamengo em Brasília, o volante Gerson salvou a honra rubro-negra. Aparece claramente desconfortável em meio ao convescote (sem máscaras), cruzando os braços e se apoiando num papo qualquer com o segurança para não entrar na rodinha oba-oba dos outros jogadores.

Consciência é tudo. Gerson agiu bem, preservou a dignidade que resta ao clube mais popular do país nesse esforço ridículo para se aliar ao poder. O volante foi vítima há algumas semanas de xingamento racista em jogo com o Bahia. Fez a denúncia e o caso tramita na Justiça.

É claro que jamais poderia ser incoerente. Afinal, como se sabe, o atual presidente nunca perdeu a oportunidade de manifestar desconforto, ironia e deboche em relação a negros, antes e durante o mandato.

E o Flamengo deveria, apesar de ter um cartola intimamente afinado com as ideias do governante, manifestar empatia com as 215 mil vidas perdidas para a covid no país. Pandemia que foi alvo de gracinhas e atitudes irresponsáveis por parte de quem teria que liderar o combate a ela.

É justo registrar que os torcedores repudiaram com vaias e palavrões a manobra oportunista, compensando a empolgação bovina de jogadores como Gabigol, Pedro e William Arão, que conversaram com Bolsonaro.

Nem foi a primeira vez que Jair Bolsonaro, que se diz palmeirense, dá um jeito de surfar na popularidade do rubro-negro. Já se reuniu em duas ocasiões com o presidente do clube, Rodolfo Landim. Uma delas com a impressionante pauta de garantir o retorno do futebol em meio à pandemia. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 24)

Presidente e 4 jogadores do Palmas morrem em acidente de avião

O futebol brasileiro está de luto. Neste domingo, um acidente aéreo vitimou Lucas Meira, empresário e presidente do Palmas, os atletas Lucas Praxedes, Guilherme Noé, Ranule e Marcus Molinari, e o comandante Wagner. O avião de pequeno porte caiu logo depois de decolar, no final da pista da Associação Tocantinense de Aviação, em Palmas, e não houve sobreviventes.

Todos viajavam para Goiânia, onde o Palmas enfrentaria o Vila Nova nesta segunda-feira pelas oitavas de final da Copa Verde. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deverá adiar o jogo.

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Ranule
27 Anos
Goleiro
Tem passagens por clubes como Atlético-ES, Resende e Portuguesa-RJ. Conquistou o acesso com o Sampaio Corrêa-RJ para a elite do estadual deste ano.

Lucas Praxedes
23 anos
Lateral-esquerdo
Tem passagens por clubes como Capivariano, São José e Marília.

Guilherme Noé
28 anos
Volante
Formado nas categorias de base do Corinthians, Osasco Audax e Internacional. Estreou como profissional em 2011, pelo Colorado. Tem passagens por clubes como Tupi, São Bernardo e Ipatinga. Essa era a segunda passagem dele pelo Palmas.

Marcus Molinari (foto)
23 anos
Meia
Passagens por clubes como Santos sub-23, Tupi e Ipatinga.