Edmilson envia à Câmara projeto que institui programa de combate à fome

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O prefeito eleito de Belém Edmilson Rodrigues (PSOL) e o vice Edilson Moura (PT) tomaram posse nesta sexta-feira, 1º de janeiro de 2021, em cerimônia realizada na Câmara Municipal. Edmilson foi aclamado pelos presentes aos assinar o documento de posse e receber a faixa de prefeito. Em seguida, entregou ao presidente do Legislativo o projeto de lei que institui o programa de combate à fome “Bora Belém” e pediu o apoio dos vereadores para aprovação em regime de urgência.
A solenidade foi presidida pelo novo presidente da Casa Legislativa, Zeca Pirão, logo após a posse dos vereadores eleitos e da eleição da nova Mesa Diretora da Casa. Edmilson recebeu a faixa das mãos do ex-prefeito Zenaldo Coutinho e fez o discurso de posse. Devido às restrições sanitárias, a cerimônia teve acesso restrito e foi transmitida ao vivo pelas redes sociais do PSOL e pelo site da Câmara.
O “Bora Belém” será um programa de renda básica de até R$ 450,00 destinado a pessoas em situação de extrema pobreza, priorizando famílias lideradas por mães solo. A situação da vulnerabilidade é agravada pela pandemia. Edmilson informou que o programa terá o apoio do governo do Estado, parceria que se estenderá a programas emergenciais de limpeza de canais e bueiros da cidade, após colaboração acertada com o governador Helder Barbalho (MDB).
Edmilson estima investir pelo menos R$ 30 milhões no programa. “É importante que a gente faça essa política o quanto antes, é necessária. Pois, com o fim do auxílio emergencial, janeiro será um mês muito difícil, seja pelas fortes chuvas, com problemas de doenças e saneamento causado pelos alagamentos, seja também por conta da nova onda do novo coronavírus”, disse.
Em tratamento republicano com o Legislativo, Edmilson apresentou o projeto e pediu aos vereadores e vereadoras que o projeto tramite em caráter de urgência por se constituir um importante instrumento de atendimento da política assistencial do município, bem como pediu o empenho de todos para que aprovem a criação do programa. O projeto será formalmente protocolado na próxima segunda-feira, 4, e, no prazo de 48 horas, é possível fazer a convocação para votar o projeto na Câmara.
Em entrevista, o novo prefeito respondeu sobre a disposição do governador Helder Barbalho em firmar cooperação com a Prefeitura de Belém para ampliar o programa de auxílio. “Fiquei feliz em saber que o governador sinalizou cooperação, pois temos a possibilidade de conseguir mais recursos e atender mais famílias. Já foram feitos diálogos, já tem estudos realizados, inclusive, quantitativos de pessoas que estão dentro do Cadastro Único, mas não estão contempladas com nenhum tipo de auxílio e serão beneficiadas pelo projeto de lei”, explicou.
O objetivo do novo gestor é não apenas se basear no Cadastro Único, mas fazer o que ele chama de “busca ativa” de pessoas em situação de extrema pobreza nos bairros de Belém.

SEM INFORMAÇÕES
A Comissão de Transição do ex-prefeito Zenaldo Coutinho não cumpriu a obrigação legal de informar à nova gestão antes de assumir o mandato, conforme determina a Instrução Normativa nº 16 /2020, do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). “Eu sei que ontem entraram R$ 12 milhões (no caixa da prefeitura), referente à Lei Kandir, que eu, inclusive, ajudei a aprovar como deputado federal. Mas eu não tinha esse dado porque a Comissão de Transição não recebeu essas informações”, contou Edmilson.
“Mesmo no que diz respeito às operações de crédito, não nos foram dadas as contas para ver exatamente como cada operação está, o que foi feito em termo de obra. Há muita incerteza, mas espero que a gente supere os problemas e seja qual for a realidade, não vamos ficar chorando sobre o leite derramado”.
Diante da incerteza sobre a política nacional de vacinação, a Prefeitura de Belém já está tratando com o governo do Estado também uma estratégia de imunização conjunta para ser implementada até o final de janeiro.
O Congresso aprovou o crédito extraordinário de R$ 20 bilhões para a compra da vacina, pelo governo federal, o que vai aliviar os investimentos municipal e estadual, mas, caso necessário, a prefeitura vai ajudar a adquirir os insumos para a vacinação. No entanto, a principal colaboração do município de Belém será a logística para realizar a vacinação nas unidades básicas de saúde, casas do programa Saúde da Família, hospitais e policlínicas espalhados pelos bairros e distritos, os quais estão preparados com servidores de saúde capacitados para aplicar a vacina.
Preocupado com o aumento de casos de covid-19 em Belém, Edmilson anunciou que a nova gestão já está trabalhando preventivamente para ampliar o número de leitos de UTI e de atendimento clínico. Para isso, na semana que vem vai tratar da ampliação de leitos no hospital D. Vicente Zico e, ainda, firmará convênio com a Universidade Federal do Pará (UFPA) para a seção de mais 30 leitos, sendo 10 de UTI, no Hospital Universitário João de Barros Barreto.
“Esperamos não ter que usar esse aparato (novos leitos). Há uma fé com a expectativa da vacinação começar. Um apelo que faço por amor a Belém e por amor ao nosso povo, quem puder ajudar, use máscara e evite aglomerações”, pediu Edmilson.

COMPROMISSO COM O POVO

No primeiro pronunciamento como prefeito de Belém, assim que tomou posse na Câmara Municipal, Edmilson Rodrigues ressaltou que permanecerá fiel ao projeto escolhido pelo povo ao elegê-lo. Mesmo sem os números reais sobre as dívidas da prefeitura, o prefeito inicia o mandato apresentando o projeto de lei que institui o “Bora Belém”, o programa de transferência de renda para o combate à fome, compromisso de campanha do novo gestor.
Edmilson ficou emocionado ao relatar os sentimentos juvenis e a honra em retornar ao governo de Belém para a terceira gestão depois de 16 anos. Ele relembrou as gestões anteriores, de 1997 a 2004, e listou os projetos e realizações conseguidos à época. Apontou que muitas dessas conquistas foram deixadas de lado ao longo desses anos e que hoje, os desafios se mostram tão grandes quanto à época.
O prefeito falou ainda sobre as incertezas a respeito da quantidade exata de dívidas herdadas. “Não sabemos a real situação do caixa da prefeitura para honrar os gastos feitos pelo governo que sai e que não foram pagos, deixando essas dívidas para serem pagas a partir deste ano. E não sabemos a realidade porque, infelizmente, o governo que hoje deixa a Prefeitura não informou à nossa Comissão de Transição sobre esses números”, apontou.
A primeira fala do prefeito também deu ênfase a escolha feita pelo povo nas urnas, que rejeitou um projeto autoritário e apontou o reforço do exercício da democracia: “O povo de Belém declarou nas urnas o desejo por uma cidade que respeite os diferentes e combata as desigualdades. E é isso que vamos fazer, independente das dificuldades herdadas”.
O prefeito também reforçou a importância da participação popular neste mandato, com olhar para a cidade e os cidadãos, com serviços que alcancem a todos e não apenas uma parcela da população. Ao declarar essa urgência, Edmilson pediu que a Câmara aprove o projeto de Renda Básica às famílias em maior vulnerabilidade social. “Neste primeiro dia como prefeito de Belém, começamos a colocar em prática o programa, encaminhando a esta Casa um projeto de lei para a sua implementação. E aproveito, desde já, para pedir o apoio de todos os vereadores e vereadoras para a sua aprovação assim que os trabalhos legislativos iniciarem”, conclamou os vereadores, reconhecendo a importância destes no processo de tomada de decisões.
O prefeito também não esqueceu do momento pelo qual o mundo passa e se declarou totalmente ciente da importância de uma rede básica de atendimento à saúde que possa acolher todos os munícipes no momento tão esperado da vacinação contra o coronavírus. “Assim como faremos na área da saúde para enfrentar a pandemia do coronavírus, fortalecendo a rede de municipal de saúde, construindo o Centro para o tratamento de pessoas vítimas da covid para reduzir as possíveis sequelas da doença e preparando a cidade para o recebimento e aplicação das vacinas”, se comprometeu.
Além disso, o discurso também contemplou as ações urgentes de cuidado com a cidade, como a limpeza de canais e recolhimento e destino do lixo. “Medida que adotamos em regime de urgência, da mesma forma que trataremos o combate às enchentes e alagamentos – em cooperação com o governo do Estado, desenvolvendo ações de limpeza e desassoreamento de rios e canais”, disse.
Concluiu o discurso pedindo para a população se unir à administração para cuidar da cidade e das pessoas, reforçando a importância da participação de todos na construção de uma cidade mais justa, sustentável, acolhedora e principalmente convocando a população a ter esperança. (Com informações de Enize Vidigal/foto: Mácio Ferreira)

Patrícia Campos Mello repete 2019 e é a mais premiada Jornalista do Ano

Pela segunda edição consecutiva, o Ranking dos +Premiados da Imprensa Brasileira, iniciativa promovida desde 2011 por Jornalistas&Cia, com o apoio deste Portal dos Jornalistas, apontou a repórter especial e colunista da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello como a jornalista mais premiada do ano no Brasil. Foi a primeira vez, não apenas de forma consecutiva, que um profissional repetiu a liderança da pesquisa.

No total, ela conquistou 150 pontos, cinco a mais do que em 2019, a partir de três prêmios de jornalismo. Dentre eles, destaque para o Maria Moors Cabot, mais antiga premiação de jornalismo do mundo, concedido pela Universidade Columbia, de Nova York. Ela também faturou neste ano o Mulher Imprensa de Contribuição ao Jornalismo e o Prêmio Folha, na categoria Reportagem, pelo especial Desigualdade Global.

Estes reconhecimentos são fruto do excelente trabalho investigativo que Patrícia vem realizando nos últimos anos. Em 2018, após publicar a reportagem Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp, que denunciava investimentos não declarados de R$ 12 milhões por apoiadores do então candidato Jair Bolsonaro, ação vedada pela Justiça Eleitoral, ela passou a receber inúmeros ataques e ameaças nas redes sociais. Ainda como desdobramento desse trabalho, em fevereiro deste ano ela foi alvo de insultos de cunho sexual durante a CPMI das Fake News por parte de membros do governo.

Paredão do Leão é empossado vereador de Belém

Goleiro do Remo é empossado vereador de Belém - Crédito: Reprodução/TV Grão Pará

Depois de ser eleito com mais de sete mil votos nas eleições municipais de 15 de novembro, embalado no prestígio junto à massa torcedora do Leão, o goleiro Vinícius tomou posse nesta sexta-feira (01) como vereador de Belém. Titular absoluto do gol azulino e ídolo do Fenômeno Azul nos últimos três anos, ele terá que conciliar nos próximos quatros anos a carreira de jogador com as obrigações de parlamentar.

Aos 36 anos, Vinícius foi eleito pelo partido Republicanos como o 11º vereador mais votado do município. Logo depois da eleição, o goleiro prometeu recompensar “com muito trabalho” o apoio dado pelos torcedores nas urnas. “A toda população de Belém, em especial ao Fenômeno Azul: muito obrigado!!! Foram 7.079 votos de confiança, para que eu possa trabalhar por essa cidade que acolheu a mim e a minha família de maneira tão calorosa. Tenham certeza que me dedicarei exaustivamente para recompensar com muito trabalho todo esse apoio. Obrigado!!!”, postou em uma rede social. 

Na madrugada deste sábado, 2, Vinícius embarca para Erechim (RS) com a delegação do Remo para enfrentar o Ypiranga pelo quadrangular final da Série C. A partida será domingo, 3, às 20h, no estádio Colosso da Lagoa. 

Feliz genocídio novo

Por Gustavo Conde

Acordaram bem? Cheios de esperança? Ressaca? Ressaca cheia de esperança?

Lamento – ou celebro – dizer o seguinte: preparem-se.

Quem não tomar posição política consistente e pública em 2021 será tragado pela mediocridade.

Até os maiores covardes deste país – os jornalistas e colunistas da imprensa familiar tradicional – estão tentando tomar posições, ainda que de maneira constrangedora.

Ver Nelson Motta e William Waack, dois analfabetos políticos, falando de centrão e de Bolsonaro, é de embrulhar o estômago.

Mas eles estão ao sabor do vento – e o vento exige tomada de posição.

Diante da letargia pública, do trauma, do espanto de assistir a democracia morrer como quem assiste a um filme, a história per si vai ‘tomando’ a linha de frente das ações.

Quem faz a história são os sujeitos, diria o nosso querido Karl, mas devo dizer que, ao sabor da inépcia dos sujeitos de turno, a história agirá sozinha.

Como pouquíssima gente nesse mundo consegue sair da pistolagem coletiva das lacrações e liçõezinhas vagabundas de moral, o rearranjo discursivo-ideológico será feito à nossa revelia.

Em outras palavras: a inconsistência dos discursos, a fragilidade da comunicação pública e a precariedade da informação global constituíram um sujeito histórico tão fraco, mas tão fraco, que a memória coletiva dos sujeitos do passado – mais fortes e mais atuantes (e que devem se envergonhar de todos nós das profundezas de suas tumbas e valas coletivas) – dá pistas de que tomará o protagonismo para tirar a humanidade desta fraude neoliberal regada a nazismo e a desinformação.

O eco subjetivo do passado é mais atuante que a inépcia coletiva do presente.

Quando vejo pessoas ‘comemorando’ o “ano novo” me vem esse sentimento terrível de desterro, de não pertencer a essa lógica – consumista, facilitada, egocêntrica – de ostentar o vazio.

Isso sempre esteve claro a quem costumava pôr os neurônios para trabalhar nas horas vagas. Mas também sempre as concessões lhe foram abertas e generosas: “deixe eles brincarem”, “deixe eles se divertirem”.

Infelizmente, o mundo mudou drasticamente nos últimos 5 anos, sobretudo para nós, brasileiros. E quando o mundo muda, mudam os sentidos das palavras, mudam os contextos, mudam os sujeitos, mudam as identificações.

Quando vemos milhares de jovens de classe média se amontoando em festas organizadas em locais chiques e caros pelo país, estamos apenas vendo o prolongamento de nossa ingenuidade em levar a sério celebrações envelhecidas que só servem – a rigor e para quem tem ainda alguma cifra de alteridade no peito – para fazer a manutenção do horror que se alastra pelo mundo a partir dos “primeiros de janeiro”.

O ano novo é neoliberal.

Poderíamos ficar sem essa, reconheço. Fazer vista grossa à realidade que nos esmaga faz parte de nossa economia psíquica.

Mas habitar essa ferida gigantesca que é nossa infame contemporaneidade exige uma atitude menos passiva diante das convenções cansativas de um mundo em decomposição simbólica.

O ano novo deveria ser um momento para novas significações, não para as significações de sempre. O voto mais condizente com nossa capacidade de desejar o sentido seria: por um ano com novos e insubmissos processos de significação.

A história espera ansiosa por novos sentidos para as palavras ‘democracia’, ‘esquerda’, ‘soberania’, ‘meio ambiente’, ‘política’, ‘socialismo’.

Não sejamos prepotentes: os sentidos destas palavras apodreceu. Estamos todos perdidos buscando nos equilibrar em um novo discurso que jamais virá se não operarmos um processo robusto e técnico de significação dos conceitos e das palavras.

O mundo precisa de um recall de significação.

Celebrar um fechamento de ciclo para a abertura de um outro teria obrigatoriamente por conceber essa renovação estrutural, não o besteirol das renovações superficiais, cínicas, repletas de autoviolência subjetiva (sabemos que nos enganamos e gostamos).

O próprio ‘cinismo’ e a própria ‘hipocrisia’ estão defasados semanticamente. Porque – não sejamos hipócritas – eles também são essenciais para nossa atividade psíquica e social.

Mas o dilema é que chegamos a um ponto de inflexão que não será operado por nós.

A célebre frase de Augusto Comte nunca foi tão verdadeira: “os vivos são sempre, e cada vez mais, governados pelos mortos; tal é a lei fundamental da ordem humana”.

E antes que alguém pense que terminarei minha pensata com uma evocação positivista, alerto que irei me apropriar da frase, ao invés de apenas citá-la como intelectuais de necrotério.

Os mortos poderão nos governar e tirar dessa catástrofe política porque os vivos (nós todos) estamos mais mortos que os próprios mortos.

Quem subestima um vírus letal com seu egocentrismo e brinca com a vida humana celebrando a si próprio com celular em punho na cafonice das aglomerações, só pode já estar morto.

E antes que os mortos protestem por esta comparação impiedosa, antecipo: é apenas o bom e velho jogo de significações para ver se os falsos vivos ressuscitam.

Desejar “feliz ano novo” para quem tem o que comer, onde morar e, certamente, terá direito a uma vacina anti covid, é automático e, em um certo sentido, “tragável.”

Um desejo digno de seu tempo, no entanto – e emprestando a vivacidade guerrilheira dos mortos -, seria: feliz significação nova.

É isso que o sistema mais teme: novas significações.

Tentemos, ao menos, assustar o sistema neoliberal e colaborar com a história social na consagração da repulsa a Bolsonaro, à Globo, ao machismo, ao racismo, ao genocídio e às facilitações dos ratos de imprensa que correm para se agarrar aos troncos argumentativos que deixamos pelos escombros náufragos que também acostumamos a chamar de “opinião pública”.

Ano novo, significação nova – e insubmissão eterna, se possível.

Já vai tarde, 2020!

Por Juca Kfouri

Difícil achar um motivo que seja para ter saudade do mais desgraçado dos anos

Mais algumas horas e 2020 acaba. Infelizmente não há por que lembrá-lo e nem há motivo para imaginar que 2021 será muito melhor, embora a vacina acenda esperanças.

Em meio à tragédia da pandemia, o mundo do esporte perdeu dois gênios como Kobe Bryant e Diego Maradona.

O astro do basquete logo no começo do ano, em 26 de janeiro, com apenas 41 anos.

O do futebol em 25 de novembro, aos 60.

No intervalo de dez meses entre uma e outra morte, 1,5 milhão de vítimas fatais pela Covid-19.

Sem que console, principalmente os próximos aos dois extraodinários esportistas, pôde-se dizer que ambos cumpriram com rara excelência suas missões e deixaram legado para alegrar gerações.

Cada um de nós teve também perdas irreparáveis, a maioria vítimas da pandemia, mas não só.

Estádios e ginásios vazios, calendário esportivo atropelado, dizem que os seres humanos se adaptam a tudo e que é a vontade de viver que permite a sobrevivência por pior que seja a situação.

Somos até capazes de nos distrair e saborear chupar bala com papel, beber cerveja sem álcool, sublimar arquibancadas desertas.

Tudo fica mais difícil quando nos cabe viver num país como Brasil, onde a maior parte da população teve roubada a possibilidade de se educar e por isso é racista, machista, homofóbica e se deixa enganar até por um fascistinha posto para fora do exército por terrorismo, ou por playboys marqueteiros.

Aí nos vemos diante da encarnação da desumanidade, a que diaboliza vacinas ou que faz delas palanque eleitoral.

O povo? O povo que se exploda, como dizia o deputado corrupto Justo Veríssimo, criado pelo gênio de Chico Anysio.

O humor retrata a realidade melhor que muitos tratados sociológicos, haja vista o prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu, o Bem-Amado, personagem de Dias Gomes que sabotava vacinas para inaugurar o cemitério da cidade, precursor da necropolítica entre nós, brasileiros.

Como olhar para 2021 com otimismo?

Estamos a quantos dias da marca tétrica dos 200 mil mortos, grande parte por incúria dos governantes desmascarados e incapazes de planejar o necessário mutirão da vacinação?

Os gols continuarão a acontecer, as cestas, mas, e as fichas, quando cairão as fichas capazes de mudar a percepção das pessoas e os rumos do país?

O que aconteceu com a nossa indignação, aquela que levou tanta gente às ruas para exigir Diretas Já!, em 1983/84, ou para protestar contra tudo e contra todos em 2013?

Cadê os que foram às ruas para reclamar da corrupção quando temos a família presidencial atolada até o pescoço em mar de lama, milícias e rachadinhas?

Que povo somos nós?

Povo letárgico diante do morticínio de jovens negros, do feminicídio, da fome, da perseguição aos gays?

Que naturaliza um palhaço macabro ao imitar arminhas com as mãos sujas de sangue e milhões de reais?

Quanto tempo mais será preciso para que olhemos para a nossa cara, como queria Cazuza, e comecemos a mudá-la radicalmente?

Ou você acredita no “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”? Adolf Hitler dizia o mesmo, só mudava o nome do país que veio aqui mais tarde, e alegremente livre dele, nos enfiou 7 a 1, muito mais que o resultado de um jogo, apenas metáfora de dois países.

Porque, como Caetano, “eu não tenho pátria, tenho mátria. E quero frátria”.

Com tudo isso, desesperar, jamais!

  • Juca Kfouri
    Jornalista, autor de “Confesso que Perdi”. É formado em ciências sociais pela USP.

Fonte: FSP 31/12/2020

A história por trás da canção – “Conversa de Botas Batidas” (Los Hermanos)

“Um prédio de cinco andares, localizado na Rua do Rosário, desabou na tarde do dia 25 de setembro de 2002. Nesse caso, a tragédia só não foi maior porque foram ouvidos estalos na estrutura cerca de 20 minutos antes do desabamento, possibilitando que os hóspedes e empregados do Hotel Linda do Rosário, que funcionava no local, fugissem a tempo. Tudo isso aconteceu devido a uma reforma mal executada em um restaurante no térreo, que abalou a estrutura do prédio, construído há quatro décadas. No entanto, nem todos escaparam a tempo.

O porteiro do Linda Rosário, Raimundo Barbosa de Melo, estava com a mulher na recepção do hotel e, ao som do primeiro estampido, avisou aos demais funcionários que saíssem do prédio imediatamente. No momento em que descia as escadas, lembrou das duas pessoas que ocupavam um quarto. ‘Interfonei e cheguei a bater na porta, mas não responderam’, contou. Dois dias depois, os bombeiros encontraram dois corpos em meio aos escombros. Ele, professor, tinha 71 anos. Ela, bancária, tinha 47. Seus corpos foram reconhecidos por suas respectivas famílias no dia seguinte.

O filho do professor não quis que o nome do seu pai fosse divulgado, segundo matéria do Terra, “em virtude das circunstâncias que envolveram sua morte, que poderiam denegrir sua imagem”. Uma reportagem publicada no jornal ‘O Dia’ revelou o motivo desse pedido: a bancária e o professor estariam vivendo um romance secreto, que acabou sendo revelado por causa do desabamento do hotel Linda do Rosário. Os corpos foram encontrados nus e abraçados sobre os restos de uma cama. Agora ouça a música com essa nova perspectiva e perceba a sensibilidade na descrição do diálogo”. (Por Vilmar Martins)