Economia de guerra no futebol

POR GERSON NOGUEIRA

É sufocante a crise que se abate sobre o futebol profissional. Um balanço da situação dos clubes da Série A mostra que somente quatro dos grandes de Rio e São Paulo se comprometeram em pagar integralmente o salário dos jogadores referente a março. Flamengo, Botafogo, Palmeiras e Corinthians fizeram reuniões com os elencos e garantiram o pagamento, mas sinalizam que irão analisar o quadro em abril.

Os demais clubes optaram por negociações. O Grêmio reduziu em 25% os salários do elenco. O São Paulo cortou pela metade. Fluminense e Santos ficaram na faixa de 30%, sendo que o Peixe tentou fazer um corte de 50%, mas aceitou a ponderação dos jogadores, deixando a possível redução para o mês de maio.

Palmeiras 1 x 1 Vasco - Campeonato Brasileiro 2019 rodada 12 ...

Para os grandes, o tombo tem sido mais traumático porque a Globo fechou a torneira e não pagou parcelas dos campeonatos estaduais e do Brasileiro, alegando falta de arrecadação e repasses de patrocinadores. Para piorar, os programas de sócio-torcedor também foram derrubados pela crise econômica que acompanham a quarentena pela covid-19.

Outro grande que enfrenta muitos problemas, bem antes até da pandemia, é o Vasco. Na mais difícil crise de sua história, o clube acumula dois meses de salários antes da quarentena. Os jogadores entraram de férias sem ter aprovado o corte salarial de 25% que a diretoria pretende aplicar.

Em Minas, o elenco do Atlético enfrenta atrasos nas gratificações prometidas e a diretoria pensa em redução de 25%, com  a concordância do técnico Jorge Sampaoli. Apenas dois dos 20 clubes da Série A, Coritiba e Bragantino, recém-saídos da Segunda Divisão, se comprometeram oficialmente em não baixar salários durante o isolamento social.

Sem jogos e com a perda de poder aquisitivo gerada pela pandemia, os sócios torcedores deixam de contribuir mensalmente, diminuindo ainda mais a receita mensal dos clubes.

Mesmo fora das principais divisões nacionais, a dupla Re-Pa também é impactada pelo tsunami desencadeado pela covid-19. O PSC decidiu não conceder férias coletivas, levando em consideração que alguns jogadores têm contrato de seis meses. Não há intenção de dispensas no elenco e ações de marketing estão em pauta, embora sem divulgação ainda.

O Remo antecipou férias dos jogadores, fez cortes pontuais, cortou contratos de prestação de serviços e, desse modo, enxugou a folha mensal, conseguindo deixar quase pela metade o chamado ‘custo Remo’, de R$ 650 mil para R$ 350 mil. Dois jogadores (Jackson e Nininho) rescindiram contrato e mais cinco devem sair amigavelmente.

Além disso, a diretoria não para de projetar cenários e buscar captação de receita. Uma das ideias foi o lançamento dos novos planos destinados à torcida. Há, ainda, a produção de máscaras com o escudo do clube e o projeto de uma camisa especial. Tudo, obviamente, para enfrentar a tempestade que ainda não tem prazo para acabar.

Batalha trabalhista pode travar a volta dos campeonatos

O entendimento de advogados e juristas especializados em direito do trabalho conflita com a pretensão manifestada pelos dirigentes de clubes, impacientes com a longa paralisação do futebol profissional no país. A questão é que, para fins de direito, o atleta que não se sentir confiante para voltar ao trabalho pode se recusar a treinar e a entrar em campo.

A CBF e as federações, pressionadas pelas emissoras de TV, clubes e patrocinadores, travam um quase improdutivo debate sobre as possibilidades de retomada do futebol. Acontece que qualquer atleta pode se valer do “direito de resistência ao trabalho” para evitar se expor ou correr risco de morte enquanto não houver segurança quanto a problemas ambientais e naturais, como é o caso da pandemia de covid-19.

Para os clubes paulistas a situação é ainda mais angustiante. São Paulo é o Estado com o maior número de pessoas contaminadas e lidera o quadro de óbitos. As UTI’s dos hospitais já estão com a capacidade máxima de uso.

Diante disso, os jogadores dificilmente concordarão em assinar o termo de consentimento para que as competições sejam reiniciadas. Como todos os trabalhadores, o contrato é regido pela CLT, que lhe assegura o direito de se recusar a jogar se não estiver convencido da segurança da atividade.

O direito do profissional de esportes está exposto na Constituição. Além disso, questões impostas pelo isolamento social também resguardam os trabalhadores, que podem optar por não sair de casa para não correr riscos de contágio. O aspecto psicológico também deve ser considerado, pois há um abalo natural pela situação imposta por perdas de amigos e parentes.

Por outro lado, a CLT também impõe deveres aos atletas. Caso falte ao trabalho (recusando-se a jogar), pode ser advertido, em seguida suspenso e até mesmo demitido sem justa causa. Tal desfecho pode abrir caminho para uma batalha judicial.

Como de hábito no Brasil, nenhum jogador ou sindicato profissional se manifestou a respeito, mas os clubes se mobilizam para que os campeonatos reiniciem a partir da 2ª quinzena de maio, planejando se cercar de cuidados (testes de covid-19 para todos os envolvidos) para garantir a presença de seus jogadores em campo.

Sonhos de grandeza do Palmeiras incluem o velho Ibra

Ibrahimovic, o falastrão atacante sueco que vive como se fosse integrante da Legião Estrangeira, é o novo sonho de consumo do Palmeiras. No Milan, para onde retornou no final da temporada passada, o artilheiro não mostrou a garra e o oportunismo de sempre. O peso da idade é implacável.

Ainda assim, levando em conta o exemplo do Flamengo, que repatriou os veteranos Rafinha e Filipe Luiz, além de ressuscitar Gabigol, o Palmeiras ensaia abrir uma negociação com Ibra, cujos salários estão muito acima do nível dos maiores astros em atividade no país.

Como o alviverde paulista parece ter dinheiro a dar com o pau, a partir da sólida parceria com uma empresa de empréstimos, qualquer loucura parece ao alcance da mão. A conferir. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 24)

Bolsonaro não tem palavra e Moro deve sair, diz ex-procurador da Lava Jato

O ex-procurador da força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba, Carlos Fernando dos Santos Lima se pronunciou diante da possível troca do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Para o ex-decano da operação, o ministro da Justiça e Segurança, Sergio Moro, precisa sair do governo de Jair Bolsonaro. “Moro deve sair. Bolsonaro não é correto, não tem palavra, deixou o ministro sem qualquer apoio no Congresso tanto nas medidas contra a corrupção quanto durante o episódio criminoso da Intercept, e nunca foi um real apoiador do combate à corrupção”, publicou Carlos Lima em sua conta no Facebook.

Apesar de não querer comentar sobre a possível permanência ou saída de Sergio Moro, devido à ameaça de troca do comando, o presidente da Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Felix de Paiva, disse ao Congresso em Foco que o ministro Sergio Moro pode sair em descrédito nessa disputa.

“Em outros momentos ele tentou politicamente manter e manteve o diretor-geral. Só que tem certos momentos a situação não tem outra saída. A depender como acontecer, a saída do doutor Valeixo deixa o doutor Moro em descrédito, em desprestígio. Porque é um nome diretamente ligado a ele”, afirmou.

Parlamentares alinhados a Sergio Moro subiram no Twitter a hashtag #FicaMoro. Em tuíte apagado minutos depois, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) divulgou a hashtag e pediu: “Ministro @SF_Moro Por favor, fica!”. Em seguida, ela publicou outra mensagem afirmando que o ministro não deixará o cargo.

Para a ex-líder do governo no Congresso e atual líder do PSL na Câmara, Joice Hasselmann (SP), Bolsonaro tentou demitir o diretor-geral da Polícia Federal, mas voltou atrás. “A reação foi pesada e BOLSONARO AMARELOU. Moro é maior que Bolsonaro. Simples assim”, escreveu ela no Twitter.

A história de um homem mau

Por Deco Costa*

Dizem que o pré-julgamento é uma das formas mais arrogantes de se evidenciar a fraqueza humana da injustiça. Entretanto, no caso do presidente Jair Bolsonaro, tenho certeza, julgo com segurança: ele é um homem mau. A narrativa política no Brasil, com o avanço do coronavírus, trouxeram não só absurdos terraplanistas como verdades absolutas, mas o desprezo pela dignidade à pessoa humana.

Os idosos, para o governo atual, passaram a ser tão dispensáveis quanto os judeus na Alemanha de 1930. Aliás, o patrono das câmaras de gás, um certo Fuhrer, caso estivesse vivo, sentir-se-ia contemplado pelo colega dos trópicos. 

Desafiar o senso lógico e cultivar o ódio parece ser o seu lema. Enquanto o mundo brada pela pacificação e soluções coletivas, o presidente da República brasileira aposta no caos como pauta política e faz da vida das pessoas um mero número e cálculo de sobrevivência política eleitoral para se viabilizar no poder. Mesmo que as ruas do Brasil possam ganhar a companhia de urubus, assim como já tem ocorrido em cidades como Guaiaquil, no Equador.  

AI-5, para os fundamentalistas seguidores do presidente Bolsonaro, merece ser tão festejado quanto o sábado de carnaval. Reprimir e silenciar quem pensa diferente é o fetiche do momento para pessoas que somente a psicanálise pode ajudar. Sim, porque aplaudir quem defende o derramamento de sangue e a tortura são posturas incivilizatórias intoleráveis. 

O coronavírus mundo afora dizima conceitos estabelecidos de teorias de estados mínimos, mãos invisíveis e exige um esforço coletivo para termos um estado que implemente políticas eficientes na contenção dessa pandemia espalhada por todas as línguas, crenças e lugares.  

Enquanto o confinamento, o isolamento horizontal é defendido nos mais diversos idiomas, aqui o déspota da irresponsabilidade faz pouco caso das determinações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e se utiliza de aparições em locais públicos entre os seus lunáticos simpatizantes, numa clara afronta às determinações científicas. No ópio da bestialização, pessoas são capturadas pela roleta russa do vírus.

Agora não são mais questões de indícios. São fatos concretos que o leva ao banco dos réus de crimes praticados contra a humanidade. Toda semana o inominável presidente brasileiro desafia o coronavírus numa disputa de quem fará mais vítimas pelo país, ele ou o vírus. Infelizmente está uma disputa acirrada. Os dois já demonstraram ter uma capacidade de letalidade considerável. 

As instituições brasileiras não podem mais esperar. Talvez o que somente falte é a conveniência política e a coragem de afastar o maior algoz da história republicana democrática desde o golpe militar de 1964. A legitimidade de ter sido eleito não traz a legitimidade para agir contra a democracia. A jurisprudência de Hitler não permite relativizar o perigo. Certamente será menos difícil lutar contra o coronavírus, quando não tivermos mais de lutar contra Bolsonaro.    

*Deco Costa, advogado e professor, mestre e doutorando em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

As ligações perigosas do ministro do STJ que tem (muita) pressa em botar Lula na prisão

Por Joaquim de Carvalho

Se havia alguma dúvida sobre o caráter político do julgamento às pressas no STJ dos embargos de declaração da defesa de Lula, agora não há mais. Ao retornar da licença médica, o ministro Felix Fischer, relator do processo sobre o triplex, incluiu o processo na pauta, e o o julgamento já começou.

Os demais ministros têm até o dia 26 para depositarem seu voto e, depois disso, o resultado será anunciado.

O que reforça o caráter político do processo é que a milícia digital de Bolsonaro, em movimento sincronizado, fez subir no Twitter a hashtag que pede a prisão de Lula.

Poderia ser coincidência? Sim, se se desconhecesse quem é o ministro que colocou o processo em julgamento sem ao menos avisar a defesa de Lula e lhe dar chance de apresentar memoriais.

Além disso, contrariando manifestação dos advogados do ex-presidente, Fischer ignorou que tramita no STF o HC sobre a parcialidade de Moro. Esse HC começou a ser julgado em dezembro de 2018, na Segunda Turma do Supremo. Em resumo, a defesa de Lula aponta fatos que comprovam a parcialidade do então juiz.

Além de negar acesso a arquivos da Odebrecht e indeferir a oitiva de testemunhas, como Rodrigo Tacla Durán, Moro aceitou convite para ser ministro da Justiça do governo que ajudou a eleger, com a condenação e a prisão do ex-presidente.

Por enquanto, apenas Cármem Lúcia e Edson Fachin votaram e, como era esperado, negaram o HC a Lula. O julgamento foi interrompido pelo pedido de vistas de Gilmar Mendes. 

Em junho do ano passado, depois que foram vazadas as mensagens privadas da Lava Jato, o ministro cogitou recolocar a ação na pauta, mas acabou mudando de ideia, com o argumento de que o voto dele era longo e precisava de mais tempo para a sua leitura.

Era o último dia antes do recesso do meio do ano. Gilmar Mendes anunciou que o HC seria julgado em agosto, na volta dos trabalhos. Mas isso não ocorreu. Perguntado, disse que o julgamento ocorreria até o final de 2019, o que também acabou não acontecendo.

Lula foi solto depois do julgamento que resgatou o princípio constitucional da presunção de inocência. Mas a liberdade é provisória, já que, encerrados os recursos no STJ, haverá pressão para que seja novamente preso.

Se concluído o julgamento do HC, esse risco estaria afastado, já que o processo do triplex seria anulado. É importante lembrar que a indicação dos ministros que ainda não votaram — além de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Celso de Mello — é no sentido de conceder o HC.

O resultado do julgamento seria 3 a 2 pela parcialidade do ex-juiz, hoje ministro de Bolsonaro. Se o STF demonstra não tem pressa, o mesmo não acontece com Felix Fischer, e isso torna necessário apontar as ligações dele com o próprio Moro.

O ministro é do Paraná e tem três filhos magistrados, um deles ex-advogado nomeado pelo quinto constitucional, na gestão do governador Beto Richa, Octávio Campos Fischer.

Octávio chegou a ser citado em um escândalo sobre compra de sentenças no Judiciário, mas a investigação sobre o caso, de responsabilidade da Vara de Sergio Moro em Curitiba, não avançou no que diz respeito a ele.

Felix Fischer, até bem pouco tempo atrás, era assessorado nos assuntos da Lava Jato por outro paranaense, o juiz Leonardo Bechara Stancioli, cuja nomeação foi cercada de muito polêmica.

Ele foi flagrado em uma conversa telefônica com seu sogro, o então ministro do STJ Paulo Medina, que era investigado por venda de sentenças à quadrilha de caça-níqueis comandada por Carlinhos Cachoeira.

Na conversa, Stancioli ouve o sogro dizer que já estava pronto o esquema destinado a fraudar o concurso da magistratura no Tribunal de Justiça do Paraná, para lhe garantir uma vaga. Desde 2018, o DCM tem denunciado a presença de Stancioli no STJ como o verdadeiro autor dos votos de Fischer.

Há alguns meses, depois que a ministra Laurita Vaz, na condição de presidente da corte, renovou a nomeação de Stancioli no gabinete de Fischer, ele deixou o STJ e assumiu um posto na Justiça estadual do Paraná.

Laurita Vaz fez carreira jurídica em Goiás, Estado do ex-senador Demóstenes Torres, cassado depois que foi descoberto que ele recebia vantagens do bicheiro Carlinhos Cacheira, que, por sua vez, era beneficiado pelas sentenças compradas junto a Paulo Medina.

Tudo boa gente, como se vê, cidadãos de bem, como Fischer, agora empenhado em colocar Lula no noticiário de novo em situação negativa, o que deu combustível para a milícia digital de Bolsonaro agir.

Moro pede demissão, Bolsonaro tenta reverter

O presidente Jair Bolsonaro comunicou o ministro da Justiça, Sergio Moro, nesta quinta-feira (23) que pretende trocar a diretoria-geral da Polícia Federal, hoje ocupada por Maurício Valeixo, diz a Folha.

Bolsonaro informou o ministro que a mudança deve ocorrer nos próximos dias. Moro então pediu demissão do cargo, e Bolsonaro tentar reverter a decisão.

Valeixo foi escolhido por Moro para o cargo. O atual diretor-geral é homem de confiança do ex-juiz da Lava Jato. Desde o ano passado, Bolsonaro tem ameaçado trocar o comando da PF. O presidente quer ter controle sobre a atuação da polícia.

Felipão defende Jesus das críticas de técnicos brasileiros

Por conta do grande desempenho com o Flamengo na temporada passada, o técnico Jorge Jesus é um forte candidato se tornar treinador da Seleção Brasileira caso Tite saia. Contudo, há quem o rejeite no comando do Brasil devido a sua nacionalidade portuguesa.

Em entrevista à Fox Sports nesta quarta-feira, o técnico Felipão revelou que não concorda com essa ideia. O ex-Palmeiras destacou que um treinador bom é capaz de trabalhar em qualquer parte do mundo e que os brasileiros deveriam dar exemplo de receptividade.

“Não concordo com o pensamento de alguns campeões do mundo. Técnico bom e com qualidade não tem nacionalidade. Se o Jesus for escolhido em uma oportunidade para ser o técnico da Seleção Brasileira, ele o será com muito trabalho, com muita boa vontade e dedicação, como ele fez e faz nos seus clubes, lá em Portugal e agora no Flamengo. Eu acredito que um técnico bom pode trabalhar em qualquer parte do mundo”.

“Eu pelo menos trabalhei em sete países e sempre fui muito bem recebido, e espero que meus colegas, se tiverem alguma pequena rusga com técnicos estrangeiros, que deixem de lado, porque nós brasileiros quando saímos somos muito bem recebidos em qualquer parte do mundo, então deveremos dar como exemplo também a receptividade. E todos os técnicos, independente de serem portugueses, ou qualquer outra nacionalidade, sendo bons, tem lugar em qualquer ambiente”, concluiu Felipão.