Parazão: a rivalidade inflamada

POR GERSON NOGUEIRA

Nicolas x Eduardo Ramos: quem marcou o gol mais bonito do Re-Pa ...

Só é possível alterar campeonato já iniciado – e com regulamento aprovado pelos clubes – com a concordância unânime dos disputantes. A posição foi manifestada pelo representante da FPF, coronel Claudio, durante reunião extraordinária do congresso técnico do Parazão, ontem à tarde, convocada para projetar cenários para a competição paralisada no início de março.

Por videoconferência, os dirigentes dos 10 clubes e a diretoria da FPF discutiram, com direito a altercação verbal em alguns momentos, e o desfecho passou longe de um consenso. Pelo contrário. A velha rivalidade entrou em cena quando a proposta defendida pelo bicolores foi posta em discussão. O Papão quer encerrar o campeonato e ficar com o título de campeão pelo fato de liderar a fase de classificação.

Os remistas não admitem nem conversar a respeito, alegando que a competição não chegou ao final da etapa classificatória e que é inconcebível declarar campeão, vice e classificados às competições nacionais sem que o Parazão tenha prosseguimento em campo.

Para o presidente bicolor, Ricardo Gluck Paul, a competição tem que acabar agora. “Tem que haver solidariedade com o momento do futebol brasileiro, inclusive com a doação pela FPF do dinheiro para as despesas de logística”.

Em declaração feita após o congresso, Ricardo criticou duramente o fato de a FPF não ter aceitado validar a proposta e contestou a presença de assessoria jurídica para mediar a reunião. 

Ricardo argumenta que a crise econômica ocasionada pela quarentena de enfrentamento à covid-19 afeta os clubes e justifica a tese de encerramento da competição. “Ao perceber que a votação iria para um lado indesejado, a FPF escolheu o que poderia ser votado ou não, mostrando que tem um clube preferido. Não há compromisso com o futebol do Pará”, afirmou, observando que a votação iniciada garantiria o PSC campeão.

É natural e previsível que não haja unanimidade e que o rival Remo adote posição contrária. Caso a situação fosse favorável ao lado remista, os bicolores certamente reagiriam da mesma forma, contestando o término do campeonato.  

O encontro terminou sem proposta de mudança aprovada. Por ora, o campeonato deve ser mantido e jogado no gramado, como os demais regionais em disputa no país. 

A maioria das sugestões nem chegaram a ser explanadas porque o impasse ficou estabelecido com a proposta que beneficia diretamente o PSC, validando a classificação de momento do campeonato e encerrando a competição. Remo e Bragantino não aceitaram a proposta, outros clubes apoiaram o PSC e ainda houve abstenções.

Como nada ficou decidido, a FPF deve submeter todas as propostas aos patrocinadores e ao governo, que banca a competição com repasse de verbas através da TV Cultura (pela transmissão dos jogos) e Banpará, que paga as premiações.

O Remo, através do presidente Fábio Bentes, diz até concordar com o fim do Parazão desde que não haja declaração de título e nem rebaixamento.

Fábio alega, sempre com base no regulamento da competição (art. 70), que não há nada que ampare a simples entrega do título a um dos times num campeonato em andamento. “Se só o Remo tivesse sido contra, a proposta não teria sido aprovada. Mas não foi o caso, outros clubes também não aprovaram. O regimento interno da FPF diz que qualquer alteração no regulamento do campeonato só pode ocorrer com a unanimidade de votos”.

E complementa: “Definir na marra classificação e campeão, não rebaixamento, não vai colar comigo. Temos repaldo legal. Nossa lei, que é o regimento da FPF, está acima da vontade individual de cada clube. Topo discutir término do campeonato, mas sem proclamar campeão. Campeão só jogando nas quatro linhas, ganhar na marra jamais vai acontecer. O Remo vai brigar em todas as instâncias, se preciso até na justiça comum”.

O fato é que a rivalidade permeia a dicussão. Argumentos técnicos acabam sufocados pela veia emocional. Paixões acaloradas não permitem ver que a solução mais simples e prática é esperar a situação clarear quanto ao próprio estágio da pandemia.

A CBF tem recomendado isso e algumas federações optaram por esperar mais um pouco. Por que no Pará o campeonato precisa logo de uma definição, sem esperar o resultado natural de campo?

De mais a mais, as seis datas para complementar o torneio podem ser perfeitamente encaixadas ao longo da Série C, aproveitando o intervalo entre uma rodada e outra do torneio nacional. Trata-se, obviamente, de questão de bom senso – e paciência.

Uma reunião nacional que tem consequências estaduais

No plano nacional, o debate continua intenso. A reunião da Comissão Nacional de Clubes, promovida pela CBF na terça-feira, com 37 clubes das Séries A e B, avançou quanto a cenário para a retomada e normalização do calendário nacional. Prevalece entre os dirigentes o consenso de que, sem datas, não há receita possível.

Ficou acertado que o mundo do futebol vai contatar representantes da comunidade médica para estudar a forma segura de antecipar a volta das atividades. Isso deve resultar  em um período de pelo menos dois meses de jogos com portões fechados e protocolos rígidos: testes nos atletas estão em debate, assim como a realização de jogos com presença de 20 a 30 pessoas (no máximo), além dos 22 jogadores em campo.

O plano é estabelecer um diálogo com autoridades, inclusive com o Ministério da Saúde, para não divergir das políticas de combate ao coronavírus. Haverá reuniões de clubes com as federações para começar a traçar um planejamento. Por ora, os jogadores ficam de férias até 21 de abril.

É importante notar que as federações não estão paradas e já esboçam protocolos de conduta. A Federação do Rio defende que cada clube elabore lista de até 40 profissionais fundamentais para o trabalho em dias de jogos e corre para garantir testes rápidos da covid-19 para os dias 27 a 30 de abril.

Por outro lado, finalizar os estaduais é prioridade. A CBF já garantiu que eles devem ser priorizados no calendário para quando ocorrer a normalização das atividades. Clubes do Pará devem ficar particularmente atentos a essa questão, acatando o que se corporifica como consenso nas deliberações nacionais. 

(Coluna publicada na edição do Bola de quinta-feira, 09)

Quem é Braga Netto, o presidente operacional do Brasil

Por Homero Fonseca

Os inéditos, frenéticos e surrealistas acontecimentos políticos dos últimos dias  confirmaram duas coisas:

1 – Os militares assumiram o poder de fato.

2 – Bolsonaro não acatará quieto a usurpação.

A pandemia causada pelo coronavírus, além do tremendo impacto sobre a saúde e a economia, teve um inesperado efeito político: rompeu a aliança entre as elites e a extrema direita, com aval dos chefes militares, que levou o obscuro deputado Jair Bolsonaro à presidência da República, no vácuo produzido pela Operação Lava Jato. O arranjo devia durar pelo menos até 2022, cabendo a Bolsonaro o papel de bufão que alimentava suas bases com doses cavalares de ideologia rudimentar e distraía as oposições à esquerda numa eterna guerra verbal, enquanto Paulo Guedes e seus chicagoboys tocavam o que interessava: a política econômica ultraliberal. Ao escancarar o despreparo e o desequilíbrio do ex-capitão, a Covid-19 explodiu esse pacto político.  Os donos do poder real se deram conta de que o fanatismo ideológico do chefe do governo e sua entourage podia ser uma ameaça a seus próprios interesses (o contraproducente confronto com a China é só um exemplo). Editorial do Estadão expôs o sentimento da elite conservadora a respeito: “Para os que ainda julgavam possível que Bolsonaro, ante a gravidade da crise, enfim tomasse consciência de seu papel e passasse a atuar como chefe de Estado, e não como chefe de bando, deve ter ficado claro de vez que o ex-deputado do baixo clero jamais será o estadista de que o País precisa. 

A resposta de Bolsonaro, como se viu, foi radicalizar na direção de uma ruptura institucional, na intenção de implantar a ditadura repressiva dos seus sonhos.

Os generais em seu labirinto

Os generais se alarmaram quando perceberam que haviam se encalacrado no labirinto que ajudaram a construir: a absoluta incompetência do governante diante do enorme desafio à sua frente ameaçava o esforço de combate à pandemia, podendo desembocar numa convulsão social de grandes proporções – fantasma que ronda as forças armadas em seus pesadelos recorrentes. A evidente radicalização do chefe do governo somente piorava o quadro. E havia os panelaços, que preocuparam o general Villas Boas, “padrinho” do presidente[2], e o isolamento internacional (seus aliados Trump, Boris Johnson, o indiano Narendra Modi, o húngaro Viktor Orban, toda turma da direita, se viram obrigados a curvar-se à orientação da OMS). Até Twitter, Facebook e Instagram bloquearam o presidente da República! Os generais enfim agiram, no silêncio das decisões opacas.

No primeiro dia deste mês, o portal Defesa.net, espécie de porta-voz informal do militarismo, noticiou: “Gen. Braga Neto Assume o Estado-Maior do Planalto”, numa “complexa construção, (…) produto de um “acordo por cima, envolvendo ministros e comandantes militares e o próprio presidente da República”. A ideia seria “reduzir a exposição do presidente, deixando-o ‘democraticamente’ (…) se comportar como se não pertencesse ao seu próprio governo”. E acrescentou no mais puro jargão militar: “Essa deliberação já foi comunicada, com os devidos cuidados, aos ministros e às principais autoridades dos Três Poderes. Pelo menos enquanto a grave situação de crise perdurar, o general será o ‘presidente operacional’ do Brasil”.[3]

Outra informação importante consta num documento do Ceeex (Centro de Estudos Estratégicos do Exército), apoiando a linha do Ministério da Saúde – sem citá-lo expressamente –, defendendo, no campo político, “um consenso a  ser construído de forma urgente” e arrematando de forma enigmática, mas expressiva:  “Não parece razoável uma quebra de governabilidade num momento tão crítico“.[4] Em outras palavras, recomenda apoio à política de Mandetta, mantendo Bolsonaro onde está. Todos os movimentos e falas dos chefes militares confirmam essa direção.

Juntando-se as pontas, depreende-se que os excessos de Bolsonaro, sabotando a ação do seu próprio Ministério da Saúde e dos governos de vários Estados, levaram os comandantes militares a irem além da tutela pura e simples e assumir o poder, mantendo porém a aparência de “normalidade”.

Mas o incontrolável ex-capitão prosseguiu em sua linha de provocação, cujo auge surrealista (até o momento) se deu na inesquecível segunda-feira (6/04): a novela da demissão que não houve. Depois de protagonizar uma das falas mais patéticas jamais ditas por um chefe de governo (“Não tenho medo de usar a caneta”), Bolsonaro convocou o ministério e vazou que demitiria Mandetta (O Globo chegou a publicar na internet a “barriga” de que Mandetta estava demitido).[5]

Finda a reunião, ao invés de o presidente comunicar à imprensa a demissão do auxiliar, foi o próprio Mandetta que fez um pronunciamento dizendo que continuava ministro, endereçando várias indiretas ao presidente. Foi a repetição surrealista do “Dia do Fico”.

Jair Bolsonaro saiu desmoralizado do episódio. A grande imprensa minimizou o fato, na linha de aparentar normalidade, como desejam os generais. Bolsonaro perdeu uma batalha. Mas, não perdeu a guerra. Os chefes militares cercaram o vírus político que ajudaram a criar, mas não o exterminaram – afinal comungam da mesma ideologia. Bolsonaro, além do apoio de uma base até agora inabalável, tem um trunfo demoníaco: se a pandemia trouxer o caos sanitário e social, conforme previsto e apesar dos esforços para contê-la, ele poderá berrar: “Eu não disse?”, acusando a opção pelo isolamento geral, que ele mesmo sabotou,  como a  culpada. Será ouvido? Por quem? Qual o estado de espírito da população no meio destruição da pandemia? Os generais devolverão o poder governamental a Bolsonaro ou seguirão na tutela (“sem quebra de governabilidade”, como está no estudo do Ceeex)? Mais fácil é a tarefa dos meteorologistas.

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Vídeo do Meteoro Brasil, divulgado nesta quarta (8/4), lembra quem é o general Braga Netto.

Hoje na Casa Civil do governo Bolsonaro, funcionando como um presidente operacional que enquadra o ex-capitão em seus momentos de desatinos, Braga Netto foi o interventor nas favelas do Rio de Janeiro durante o governo Pezão. Praticamente, foi o governador quando o assunto era segurança pública, comandando todas as forças do Estado.

No Planalto, o general “reduziria Bolsonaro a uma peça decorativa de mau gosto”.

As notícias de intervenção de Braga Netto no governo em meio à crise do coronavírus pode ser um “balão de ensaio”, afirma o Meteoro, para testar a temperatura da sociedade quanto à possibilidade de escantear Bolsonaro até o final do mandato. Um governo militar em caráter informal.

Está na hora de Babus Santana vencerem, dentro e fora do BBB

Por Nathalí Macedo, no DCM

“Quando foi que falar em BBB virou militância?” 

Eu não gosto de BBB, mas gosto ainda menos dos pseudointelectuais que agem como se falar de BBB fosse proibido, um atestado de burrice e futilidade, contra os princípios da comunidade intelectualóide da internet, me dá uma preguiça sem fim. 

Primeiro porque não existem assuntos proibidos: de tabu o mundo tá cheio, e não pode ser a comunidade progressista a primeira a contribuir com isso. Segundo porque falar de BBB é falar das milhões de pessoas que ainda falam de BBB, ainda votam no BBB, ainda afirmam suas convicções e preferências acompanhando um reality show de péssima qualidade transmitido por uma emissora que não merece a audiência que tem. 

Então, hoje, eu vou falar do BBB, e das questões adstringentes, para dizer o mínimo, que esse programa tem refletido. Ao longo das vinte edições, teve de tudo: estuprador estuprando ao vivo, estuprador confessando ao vivo que havia estuprado, estuprador saindo do programa pra prestar depoimento, loira racista levando o prêmio pra casa, preto perseguido, viado humilhado, machismo estampado, toda sorte de desgraças que a gente vê todo dia nas nossas esquinas estampadas na tela da plimplim. 

É por isso que, quando falamos de BBB, não é sobre a Globo que falamos, é sobre nós. 

Nessa edição, Babu Santana é o assunto principal.  Além de negro, é gordo e artista do morro. Passou a metade do programa indo pro paredão. As sinhazinhas chegaram a confessar sem pudor diante das câmeras que não tinham justificativa nenhuma pra votar nele. Eu arrisco uma: racismo velado. 

Thelma, a única mulher preta, foi chamada de “planta” por outra participante, a quem eu chamaria seguramente de capitã do mato. Por quê as mulheres pretas são, tão frequentemente, “plantas”? 

Porque sua autoestima foi minada a ponto de não conseguirem se expressar. Porque vivemos ainda em um país escravocrata e provinciano que convence essas mulheres de que ninguém se interessa por elas, e que, portanto, a melhor escolha a fazer é ficar caladinha e imóvel. Ou isso, ou você é a preta metida, o preto rancoroso que milita demais, o coitadista. 

Toda edição é a mesma coisa: ou os pretos são militantes mimizentos e rancorosos, ou são inúteis, ou são simplesmente indesejáveis. Na edição passada, foram eliminados um a um e a participante mais racista da casa – que dizia coisas como “preto com cara de bandido” e “cabelo ruim” pra se referir a cabelo crespo –  levou o prêmio. 

Onde estavam os progressistas antirracistas? Na internet dizendo que BBB é coisa de gente fútil.

Ontem Babu, invicto nos paredões para os quais foi mandado pelas pessoas brancas que o perseguem sem nenhum motivo, venceu Marcela, uma sinhazinha loira e rica, médica e famosinha na internet, com todas as oportunidades e privilégios que uma médica loira famosinha goza. O ator preto descoberto no projeto “Nós no Morro”, que fez diversos filmes, mas sempre como o bandido, o motorista ou o cara mal-encarado fora de contexto, que cria os filhos sozinho e precisa do prêmio pra viver com dignidade, foi, enfim, o escolhido. 

O antirracismo – que antes parecia estar apenas nas redes sociais, como se passar o dia militando no Instagram fosse menos fútil que ver BBB – se manifestou no horário nobre e eu me senti vencendo junto com Babu. Isso significa que vencemos o racismo? É claro que não, não me venha com graça. Mas conseguimos transmitir o nosso recado em um programa com a audiência do BBB: o racismo não pode continuar a ser tolerado e, mais do que isso, enaltecido em horário nobre. 

“BBB não é programa de caridade”, disse Pyong, um dos racistas dessa edição (aquele que largou o filho recém-nascido nas costas da mãe pra viver seu sonho de subcelebridade). Não é, mesmo, muito menos um programa de justiça social (o nome disso é ProUni e Bolsa Família). 

BBB é programa de sensacionalismo, palco de nossas piores mazelas, reflexo do mais feio de nossa cultura, e talvez valha a pena fazer existir, nesse microverso, o país que a gente quer construir aqui fora: um país em que Babus são exaltados e sinhazinhas modernas são jogadas na cova de desprezo que cavaram com o próprio racismo.

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Nunca foi uma gripezinha

Do bolsonarista Nizan Guanaes, hoje*

Saí da quarentena. Tive o vírus, mas não tive sintomas. Teoricamente, estou imune. Mas te digo: não é uma gripezinha. Foram 14 dias de insônia. Como será que eu vou acordar amanhã?

Quero mudar radicalmente a minha vida quando tudo voltar ao normal. Porque tudo não vai voltar ao normal. Posso estar imune ao vírus, mas meu filho mora em Nova York. Não estou imune ao vírus.

O mundo vai mudar depois dessa pandemia, como mudou nas antecedentes. As mudanças de comportamento e de consumo serão duradouras. Será que vamos frequentar lugares públicos e eventos da mesma forma? Acho que não.

Os dados são tão novos e não param de mudar. Ainda não temos software para decifrá-los, mas eles já estão rodando no sistema. Se fosse uma empresa, chamaria antropólogos, filósofos, cientistas sociais, engenheiros de comportamento para entender o que aconteceu e acontecerá.

Depois que fiquei doente, decidi mudar o padrão de consumo. Vou doar ou descartar metade das minhas coisas. Quero comprar saúde, conhecimento.

Já estou perdendo dois amigos para o vírus. E sei que vou perder mais. Meus três médicos foram infectados. Não tem mimimi. Estamos em guerra. Chega de divisão. Vamos deixar pra brigar em outubro. Tá marcado?

Mas, agora, eu torço pelo ministro Mandetta, eu torço pelo Paulo Guedes, eu torço pelo João Doria. E acho importante o bumbo que eles estão tocando: fique em casa!

Já estou perdendo dois amigos, ou será que a esta altura do texto serão três? A Covid-19 fica cada vez mais dramática no Brasil porque ela está ganhando rostos e números, que crescem rapidamente.

Brigar ideologicamente neste momento é um crime contra a humanidade. O Brasil nunca passou por uma guerra como esta. Eu não vou torcer contra. Eu torço para dar certo.

Quando você está com o vírus, a perspectiva é pragmática: cura. Eu posso estar imune ao vírus. Mas meu filho mora em Nova York. Eu não estou imune. Você acha que eu assisto ao jornal como? Com o coração na mão.

Não tive sintomas, mas tive insônia, medo, costas travadas. É óbvio que a preocupação de as empresas quebrarem é muito legítima. Não existe essa dicotomia. Estamos vivendo uma pandemia econômica também. Vamos tratar das duas.

O medo será um bom conselheiro. Ele vai dizer aos homens: chega! Chega de querer ter razão. As UTIs estão cheias, os médicos começam a ficar doentes como seus pacientes, as ruas estão vazias, pessoas e empresas estão quebrando. Isso não é hora de fazer política.

Na Primeira Guerra Mundial, numa noite de Natal, alemães e ingleses pararam a luta insana e jogaram bola para celebrar a data. O medo, as mortes e as falências vão chamar a gente à razão. Você acha que Churchill e Roosevelt eram amigos de Stálin? Não. Mas foram aliados contra um inimigo comum e devastador para estarmos aqui hoje.

Perdi dois amigos, ou à altura deste texto serão quatro? Esta hora pede de nós grandeza, compaixão. Reze pelo meu filho. Eu rezo pelo seu.

Falar de política virou terreno pantanoso. Este texto não é sobre política. Ele é sobre doença, dor, morte, desespero —uma Guernica viral.

Então o que eu proponho é trégua ideológica e união nesta luta. Este é o único desejo da filha de um senhor de 75 anos sentindo muita falta de ar, mas que não consegue quarto para interná-lo.

Porque, enquanto você lia este texto, eu e você já perdemos amigos. E a morte, minha cara leitora, meu caro leitor, é suprapartidária.

Nenhuma menção direta ao genocida do Planalto…

Acuado e tutelado

Por Hélio Doyle

O presidente Jair Bolsonaro arriscou tudo, e está perdendo. Sua postura irresponsável e politizada diante da pandemia que assola o planeta levou-o ao isolamento político, a sofrer queda de popularidade e a ser vítima de escárnio em todo o mundo. Difunde-se, inclusive, a hipótese — não suficientemente comprovada ainda — de que não mais governa de fato, sendo tutelado por ministros militares que têm gabinete no Palácio do Planalto.

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Qualquer presidente razoavelmente inteligente teria feito o contrário do que fez Bolsonaro: veria na pandemia a oportunidade de se impor como liderança no combate ao vírus e na defesa da população diante das inevitáveis agruras econômicas. Um político experiente faria o discurso de unidade de toda a nação para enfrentar o “inimigo” e, após derrotá-lo, reconstruir o país. Tomaria imediatamente as medidas necessárias, nos campos sanitário, social e econômico.

O deputado Rodrigo Maia, presidente da Câmara, disse que Bolsonaro, ao contrário do que pensam, é inteligente. Não, não é, ao contrário do que pensa ou diz pensar Maia. O presidente da República tem dado demonstrações cotidianas de falta de inteligência. Isso, porém, não quer dizer que Bolsonaro seja bobo, não pense politicamente e não tenha um projeto de poder. Tem, ainda que, delineado sob inspiração do guru Olavo de Carvalho, seja um projeto rasteiro e simplista, sem qualquer sofisticação intelectual. Mas é um projeto, factível e realizável.

A atuação de Bolsonaro diante da pandemia é coerente com esse projeto: mantém fortemente unida e fiel a parcela do eleitorado que lhe assegura a passagem para o segundo turno em 2022 ou, se as circunstâncias favorecerem, lhe possibilita dar um autogolpe para acumular mais poderes. É para esse segmento, que vai da classe A+ à E-, da alta classe alta aos extremamente pobres, que Bolsonaro fala e age. Não lhe interessam consensos, concessões e coalizões. É sempre “nós” contra “eles”.