Esperanças de redenção

POR GERSON NOGUEIRA

Venho manifestando aqui e na Rádio Clube a convicção de que o futebol vai ressurgir remodelado após o período de quarentena de proteção contra a pandemia. Ao que parece, não estou sozinho nesta maneira de pensar. Até Gianni Infantino, da Fifa, já se posicionou a respeito. Carlo Ancelotti também falou e expressou a mesma expectativa.

Penso que, num cenário ideal, passaremos a ter uma perspectiva diferente quando for iniciado o período de recuperação de clubes e reinício de campeonatos. Tudo o que se perdeu ao longo dos últimos anos, quanto às raízes do futebol, poderá ser pelo menos parcialmente resgatado.

É quase certo que haverá um freio na gourmetização, materializada na maneira elitista com que os clubes passaram a lidar com suas torcidas, criando serviços e mordomias caras, acessíveis a adeptos endinheirados.

Muitos clubes, até mesmo alguns dos nossos, perderam um pouco da essência e do apelo popular ao cair na tentação fácil do marketing de resultados, responsável pelo apartheid de torcidas a partir de preços proibitivos para segmentos mais populares.  

Promoções risíveis passaram a ser vendidas como soluções inovadoras. Em termos práticos, pouquíssimos torcedores passaram a ter acesso às dependências dos clubes numa ruptura que deixou marcas profundas.

Chega-se então ao que foi vendido como maná dos céus: os programas de sócio-torcedor. Difundidos no Brasil todo, chegaram por aqui nos últimos seis anos, contribuíram para abrir um fosso entre o torcedor comum e os clubes. Até a permissão para acompanhar treinos passou a delimitar as “classes sociais” dentro das torcidas.

O resultado é que nem se conseguiu a explosão de venda de planos de ST entre torcedores e não se ampliou a participação do torcedor “avulso” – pelo contrário, houve uma diminuição. Nossos clubes mais populares nunca ultrapassaram a casa de 10 mil sócios adimplentes.

Como a relação se restringe a uma simples troca de benesses, os torcedores deixam de contribuir quando o time de futebol não vai bem em campo. Foi o que ocorreu com o PSC em 2018, após a queda para a Série C.

No rico e evoluído futebol europeu, a instituição do ST representou um avanço em relação ao sistema de carnês vendidos às torcidas para compra de bilhetes para um campeonato inteiro. A base do novo sistema é o comprometimento com o futuro do clube, sem ligação com o imediatismo.

Do jeito como o sistema foi implantado aqui, o torcedor foi levado a entender que era a solução para os problemas financeiros do clube e que o dinheiro reaplicado em investimentos levaria naturalmente a vitórias e títulos. Sabemos que as coisas não são bem assim.

A necessidade de reinvenção a partir do pandemônio da Covid-19 levará a mudanças nos programas ST e a um obrigatório reordenamento da relação com a torcida. É preciso cativar e atrair o principal ativo do clube, coisa que ficou meio em segundo plano nos últimos tempos.

Há, também, a convicção de que os clubes de maneira geral irão passar a trabalhar de maneira mais austera, evitando gastos desnecessários e agindo conforme as leis básicas de economia doméstica, que aconselham a não contrair despesa acima da receita possível.

Ficam descartados salários extravagantes para a realidade regional, acima de R$ 50 mil, como a dupla Re-Pa praticou há até bem pouco com atletas de produção pífia (Walter foi o caso mais recente). Acima de tudo, será preciso fazer contas com mais rigor e responsabilidade.

Wallace

Expectativa de oportunidades para jovens valores

Dos jovens revelados pelo Remo nos últimos tempos, Wallace é provavelmente um dos mais brilhantes no aspecto técnico. Surgiu em meio a uma geração de grande qualidade, estando no mesmo nível de Hélio Borges, Rony (que já deixou o clube), Warley e Ronald.

Com 20 anos, Wallace é um atacante de excelente finalização, coisa rara entre jovens jogadores locais. Por isso, faz muitos gols e sabe trabalhar em conexão com o meio-campo. Teve chances no período de preparação do time antes do Parazão, sob o comando de Rafael Jaques.

Fez quatro gols nesse período, mas depois foi ignorado pelo técnico. Apareceu rapidamente na partida contra o Independente, 0 a 0, no Evandro Almeida, último jogo do Remo antes da interrupção do campeonato, quando Mazola Junior já era o comandante.

A atuação foi muito superior à dos demais atacantes azulinos na partida. Wallace entrou pela faixa direita, partindo com a bola dominada para cima dos marcadores e tabelando com os companheiros. Deu três chutes a gol e quase marcou o gol salvador. Deixou boa impressão.

Entregue à rotina de treinos caseiros, ele deu entrevista nos últimos dias demonstrando confiança em obter oportunidades com Mazola e a disposição para render em alto nível. É uma boa maneira de ver as coisas.

Pelo cenário que se desenha, com vários desligamentos previstos no elenco azulino, Wallace e Hélio devem ter boas chances de entrar no time titular na retomada do Parazão. Precisam estar preparados para o desafio.

Jogo da Vida faz torcida bicolor recordar maior conquista

A torcida alviceleste terá neste sábado, às 14h, a oportunidade de rever a conquista da Copa dos Campeões de 2002, maior título da história do clube. A final diante do Cruzeiro será transmitida na página do Papão no Facebook. Os internautas terão acesso a conteúdos inéditos, com narração da rádio do clube e o Samba Papão como atração musical. 

Como contribuição, o torcedor poderá comprar um ingresso virtual ao preço de R$ 7,00. O ingresso será enviado por e-mail aos bicolores que efetuarem a compra. Parte da renda será revertido em produtos a serem doados a uma instituição de caridade. Batizada de “Jogo da Vida”, a ação visa incentivar a permanência dos torcedores em casa.

O Papão conquistou a Copa dos Campeões com vitória de 4 a 3 sobre o Cruzeiro no tempo normal e por 3 a 0 na disputa de penalidades. A conquista assegurou vaga para a participação inédita na Libertadores 2003. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 17)

A frase do dia

“Bolsonaro explicando que demitiu o ministro da Saúde porque “a linha dele… era voltada quase exclusivamente para a questão da vida” e isso “não afinava com a ideia do presidente” é uma metáfora perfeita desse governo. O presidente, sabemos, é “voltado para a questão da morte”.

Petra Costa, cineasta

“Pulse” abre série de lives do Pink Floyd

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O Pink Floyd anunciou que irá transmitir ao vivo, às sextas-feiras, pelo YouTube, shows lendários e filmagens raras da carreira. O início foi nesta sexta, 17, com o filme do icônico show “Pulse”, às 13h (horário de Brasília).

O grupo anunciou o lançamento de uma série de performances inéditas ou raras da banda no YouTube, que serão disponibilizadas semanalmente durante a quarentena.

Pulse foi lançado em 1995 e traz a gravação da performance da banda em Londres, na ocasião que marcou o primeiro registro ao vivo de The Dark Side of the Moon na íntegra.

Nas redes sociais, o Pink Floyd também revelou que os próximos materiais a serem disponibilizados serão Live At Pompeii, com shows do Pink Floyd e do David Gilmour, e An Hour With Pink Floyd, a transmissão de 1970 de um show em São Francisco pela emissora KQED.

Imprensa alemã diz que bolsonarismo é seita que arrasta o Brasil para o abismo

Matéria do jornal alemão Deutsche Welle diz que A extensão da irracionalidade é aterrorizante e ameaça arrastar o Brasil para o abismo. Para a sua disseminação, há um motivo: o bolsonarismo. Esse nome se deve a um homem cujo livro favorito foi escrito por um torturador. Por conseguinte, o bolsonarismo tem correspondentes ideias para a sociedade: violentas, autoritárias, sem empatia, anti-intelectuais e pseudorreligiosas”

Segundo o jornal, “o bolsonarismo assumiu agora todas as características de uma seita cujos membros estão dispostos a seguir seu líder incondicionalmente, até a morte. Esse culto à morte está se tornando cada vez mais evidente nas manifestações dos bolsonaristas. Um caixão é carregado alegremente; no meio de uma pandemia, expõe-se a si mesmo e a outros ao perigo de um contágio e se grita: ‘A covid-19 pode vir. Estamos prontos para morrer pelo capitão.'”

“Como em todos os cultos religiosos, as contradições são ignoradas. O bolsonarista sempre acha que sabe mais que os outros ‒ mesmo que os outros sejam o mundo inteiro. Ele não segue as estrelas da razão e do conhecimento que fizeram a humanidade avançar ao longo dos séculos (apesar dos inúmeros retrocessos). O norte na bússola do bolsonarista é a satisfação de seu ego insultado”, aponta a publicação. 

“O bolsonarista odeia o conhecimento quando este contradiz sua visão de mundo. Ele é como um motorista que anda na contramão na autoestrada e ouve no rádio que há um motorista na contramão e depois grita: “A mídia mente! Não é um motorista, são milhares!”A extensão da irracionalidade é aterrorizante e ameaça arrastar o Brasil para o abismo. Para a sua disseminação, há um motivo: o bolsonarismo. Esse nome se deve a um homem cujo livro favorito foi escrito por um torturador. Por conseguinte, o bolsonarismo tem correspondentes ideias para a sociedade: violentas, autoritárias, sem empatia, anti-intelectuais e pseudorreligiosas.”, acrescenta. 

A publicação também alerta que “o bolsonarismo assumiu agora todas as características de uma seita cujos membros estão dispostos a seguir seu líder incondicionalmente, até a morte. Esse culto à morte está se tornando cada vez mais evidente nas manifestações dos bolsonaristas. Um caixão é carregado alegremente; no meio de uma pandemia, expõe-se a si mesmo e a outros ao perigo de um contágio e se grita: ‘A covid-19 pode vir. Estamos prontos para morrer pelo capitão.””

Tacanha e picareta, um retrato de nossa elite

Por Paolo Colosso, no GGN

A crise de saúde pública tem nos colocado a todas e todos num estado de alerta constante. Como a pandemia é um mal invisível e difuso, que aplaca a sociedade como um todo – mas obviamente muito mais as camadas vulneráveis — a orientação coletiva das ações se sobrepõe necessariamente às iniciativas individuais. Por conta também desse estado de emergência, atitudes antes tidas como normais se mostram inaceitáveis.

Esta semana um CEO de uma rede de shoppings em Santa Catarina enviou uma proposta ao governador do Estado na qual expunha que, se pudesse abrir seus shoppings, doaria 12 respiradores e faria atendimentos nos estacionamentos de seu estabelecimento.

No documento o empresário ainda se pronuncia como se sua ação tivesse um espírito público. O que faz na realidade é pressionar para que o governador flexibilize a política de isolamento defendida pela OMS, pelo ministro da Saúde e consensuada em outros estados da federação.

O CEO fala como se soubesse o que é melhor como política de saúde pública, mas não tem condição de avaliar se o estrago gerado pelas aglomerações será maior do que os benefícios. Ele assume o risco de aumentar exponencialmente o contágio e produzir mortes.

Se essa norma valesse pra todos os shoppings, provavelmente teríamos um caos sanitário, mas o CEO quer algo exclusivo e diferenciado pra ele, que pode pagar. Em termos mais concretos, o nome de sua prática é assédio e chantagem política. Mas o objetivo desse texto não é pessoalizar as críticas, mas sim tornar visível quais atores sociais podem ou não contribuir para superarmos essa crise que é a maior do século XXI.

Vivemos uma catástrofe sem precedentes, um trauma coletivo. Ninguém tem culpa tampouco escolheu estar nessas condições. Trata-se de uma situação que nos coloca em instabilidade, insegurança. Seria de se esperar que as figuras sociais que no cotidiano se consideram lideranças assumissem uma postura de garantir estabilidade mínima às pessoas mais vulneráveis de seu entorno profissional e social. Mas nem sempre isso tem acontecido.

Diversos empresários têm vindo a publico dizer que estão sendo obrigados a demitir. Pronunciam-se como se vivessem de salário, como se vendessem almoço pra comprar janta. Esperam gerar sensibilização de autoridades políticas – talvez por estarem acostumados a ser salvos pelo Estado nacional – e, com isso, apequenam-se publicamente. Mostram, na realidade, que tem muito pouca disposição para construir saídas pactuadas.

Poucos ou talvez nenhum desses tenha dito que, antes de demitir funcionários, reduziram lucro dos acionistas ou os salários dos altos cargos. Até onde se sabe, não há impedimento nenhum que a pessoa física dos proprietários passe bens e capitais para a pessoa jurídica das empresas, entretanto não há muitos registros de que essas lideranças, diante de um mal excepcional, estejam abrindo mão de seus caprichos pessoais de pouco uso. As lanchas que custam R$ 50 mil/mês na marina pagariam muitos funcionários que estão indo para casa. Não se desfazem de uma pequena parte da coleção de carros e motocicletas. Tampouco avaliam que, com as fronteiras fechadas, vai sobrar o dinheiro que não gastarão com roupas de gosto duvidoso em Miami e Dubai.

A realidade é que, quando tudo vai bem, tais figuras pedem a palavra pra falar em coletividade. Chamam seus funcionários de colaboradores e a empresa de família. Nos primeiros sinais de instabilidade, apressam-se por transferir os ônus do mal coletivo nas pessoas que julgam descartáveis. Tais figuras se comportam como heroicas para contar suas histórias passadas e no momento em que o retorno de capital está assegurado, mas não exatamente desse modo no presente.

E é fato que tais figuras se sentem à vontade para se pronunciar e se posicionar de tal modo porque no mais alto cargo do país há alguém com comportamentos muito semelhantes. Estão avalizados por um “líder” que, no momento adverso, exime-se de sua responsabilidade como liderança, repete uma retórica que o mantém numa zona de conforto. Não por acaso, há similaridade nos recursos discursivos e também proximidade política entre estes atores. Isto porque reforçam-se mutuamente num ciclo de autoconvencimento e apequenamento.

Os momentos de crise são dolorosos, mas deles retiramos lições importantes. Primeiro, esses empresários sabem fazer dinheiro e sabem coisas específicas: administrar restaurantes e lojas, bem como fazer marketing. Mas não tem condição de analisar a realidade social, de dizer o rumo de um país. Nem mesmo tem condições de dizer se reabrir o comércio reativará a economia no médio prazo, nos dias depois de amanhã, porque estão presos às perdas imediatas. É preciso que a sociedade deixe de idealizar essas figuras que se autodeclaram lideranças sociais e pagam publicidade para emplacar como tal. Reconstruir o país exigirá mais de nós.

Há inúmeros outros atores sociais que tem mostrado como é possível formar redes de ação coletiva e solidariedade no combate à pandemia. São essas pessoas e energias mais anônimas que tem colocado o país no rumo necessário de convergência e cooperação. O mundo pós-covid não será mais o mesmo de antes. É destas figuras que devemos estar perto, com elas construir espaços de trabalho e no cotidiano.