O que preocupa a presidência

Celso de Mello: o medo do presidente  - Reprodução

Por Thays Oyama, no UOL

Jair Bolsonaro não está nem um pouco preocupado com o inquérito que o STF abriu com o objetivo de apurar responsabilidades pelos atos pró-golpe militar de domingo. O inquérito, aberto a pedido do Procurador Geral da República, Augusto Aras, seria para “inglês ver”.

Primeiro porque Aras, indicado ao cargo pelo amigão do presidente, o ex-deputado Alberto Fraga, não incluiu Bolsonaro entre os investigados – o alvo são deputados federais que teriam apoiado e estimulado as manifestações que pediam a volta do AI-5, entre outras iniciativas não toleradas pela Constituição.

Depois, porque o presidente e assessores consideram que a investigação correrá em “ambiente seguro”. Por sorteio, o inquérito ficou a cargo do ministro Alexandre Moraes.

O que inquieta o Planalto de verdade é outra coisa: o mandado de segurança protocolado ontem pelos advogados Thiago Santos Aguiar de Pádua e José Rossini Campos do Couto Correa – o primeiro é ex-assessor da ministra do STF Rosa Weber e o segundo, ex-conselheiro da OAB.

A peça acusa o presidente de quebra de decoro, um crime de responsabilidade. Pede, entre outras coisas, que Bolsonaro seja impedido de promover aglomerações e que apresente seus exames de coronavírus. Solicita ainda que o presidente tenha transferidas para o vice, Hamilton Mourão, algumas competências, entre elas, a de nomear ministros, sancionar leis e decretar os estados de defesa e de sítio.

Além do bom acabamento da peça, fundamenta o receio palaciano o fato de ela ter caído nas mãos do ministro Celso de Mello, visto no Planalto como arqui-inimigo do presidente.

Caberá ao decano a decisão de aceitar ou não o mandado de segurança, em sua integralidade ou parcialmente.

Celso de Mello se aposenta no final do ano..

Moro reconhece que PT deu autonomia à PF e critica aparelhamento da polícia por Bolsonaro

Sergio Moro

No pronunciamento em que anuncia sua saída do ministério da Justiça do governo de Jair Bolsonaro, Sergio Moro paradoxalmente reconheceu a autonomia possibilitada pelo governo anterior, da ex-presidente Dilma Rousseff, às instituições responsáveis por investigações, como a Polícia Federal, assegurando assim o andamento da Lava Jato.

“Na Lava Jato, eu sempre tive um receio constante de uma intervenção do Executivo na Polícia Federal, como troca de superintendente. Mas isso não aconteceu e foi fundamental a manutenção da autonomia da PF para que os resultados fossem avançados”, afirmou, no início de sua fala, depois de lamentar o episódio de hoje, em meio à pandemia.

Em seguida, ressaltou que houve queda em índices de criminalidade e da corrupção, atribuindo isso à sua atuação, no passado, no comando da Lava Jato, e no governo. “Mudou o patamar de combate à corrupção no Brasil”. Contou então novamente a história do convite de Bolsonaro para que integrasse a equipe.

“Final de 2018 recebi convite do então presidente da República eleito Jair Bolsonaro, como já falei publicamente várias vezes, e fui convidado a ser ministro da Justiça e da Segurança Pública. O que foi conversado com o presidente foi que nós teríamos um compromisso com o combate à corrupção, crime organizado e criminalidade violenta. Foi-me prometido carta branca para nomear todos os assessores desses órgãos e da própria Polícia Federal”, recordou.

Moro então passou a discorrer sobre a interferência de Bolsonaro no comando da PF. “Em todo esse período, tive apoio do presidente Jair Bolsonaro, em outros nem tanto. A partir do segundo semestre do ano passado, passou a haver uma insistência de trocar o comando da Polícia Federal”, relatou.

Na coletiva de imprensa desta sexta (24), confirmando seu pedido de demissão do Ministério da Justiça, Sergio Moro revelou que só fez uma “exigência” a Jair Bolsonaro em troca de largar a magistratura para ser ministro da Justiça do governo de extrema-direita: pensão para a família, “caso algo me acontecesse”. O ex-juiz não deixou claro se falava de atentado à sua vida ou demissão.

“Durante 22 anos eu trabalhei como juiz e contribui para a previdência. E perdi quando saí da magistratura. Eu pedi que se algo me acontecesse, que minha família não ficasse desamparada sem uma pensão. Foi a única condição que coloquei para assumir essa posição específica no ministério da Justiça”, revelou.

Bolsonaro quer controlar investigações e blindar família, afirmam integrantes da Justiça e da PF

Da Folha:

Membros da Polícia Federal e do Ministério da Justiça, ouvidos pela Folha na condição de anonimato, afirmam que o movimento de Jair Bolsonaro que resultou no pedido de demissão feito por Sergio Moro (Justiça) tem como o pano de fundo a tentativa de o presidente controlar as ações e as investigações da corporação no país.

Para pessoas próximas ao ministro, os alvos são variados, mas o foco está em apurações que podem resultar em problemas para a família presidencial e para sua rede de apoio. E na falta de ações contundentes contra adversários políticos.

Como as que envolvem a disseminação de fake news por parte da rede de apoio bolsonarista. O presidente não tem acesso a informações do inquérito conduzido pelo ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e culpa por isso o diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, homem de confiança de Moro

Economia de guerra no futebol

POR GERSON NOGUEIRA

É sufocante a crise que se abate sobre o futebol profissional. Um balanço da situação dos clubes da Série A mostra que somente quatro dos grandes de Rio e São Paulo se comprometeram em pagar integralmente o salário dos jogadores referente a março. Flamengo, Botafogo, Palmeiras e Corinthians fizeram reuniões com os elencos e garantiram o pagamento, mas sinalizam que irão analisar o quadro em abril.

Os demais clubes optaram por negociações. O Grêmio reduziu em 25% os salários do elenco. O São Paulo cortou pela metade. Fluminense e Santos ficaram na faixa de 30%, sendo que o Peixe tentou fazer um corte de 50%, mas aceitou a ponderação dos jogadores, deixando a possível redução para o mês de maio.

Palmeiras 1 x 1 Vasco - Campeonato Brasileiro 2019 rodada 12 ...

Para os grandes, o tombo tem sido mais traumático porque a Globo fechou a torneira e não pagou parcelas dos campeonatos estaduais e do Brasileiro, alegando falta de arrecadação e repasses de patrocinadores. Para piorar, os programas de sócio-torcedor também foram derrubados pela crise econômica que acompanham a quarentena pela covid-19.

Outro grande que enfrenta muitos problemas, bem antes até da pandemia, é o Vasco. Na mais difícil crise de sua história, o clube acumula dois meses de salários antes da quarentena. Os jogadores entraram de férias sem ter aprovado o corte salarial de 25% que a diretoria pretende aplicar.

Em Minas, o elenco do Atlético enfrenta atrasos nas gratificações prometidas e a diretoria pensa em redução de 25%, com  a concordância do técnico Jorge Sampaoli. Apenas dois dos 20 clubes da Série A, Coritiba e Bragantino, recém-saídos da Segunda Divisão, se comprometeram oficialmente em não baixar salários durante o isolamento social.

Sem jogos e com a perda de poder aquisitivo gerada pela pandemia, os sócios torcedores deixam de contribuir mensalmente, diminuindo ainda mais a receita mensal dos clubes.

Mesmo fora das principais divisões nacionais, a dupla Re-Pa também é impactada pelo tsunami desencadeado pela covid-19. O PSC decidiu não conceder férias coletivas, levando em consideração que alguns jogadores têm contrato de seis meses. Não há intenção de dispensas no elenco e ações de marketing estão em pauta, embora sem divulgação ainda.

O Remo antecipou férias dos jogadores, fez cortes pontuais, cortou contratos de prestação de serviços e, desse modo, enxugou a folha mensal, conseguindo deixar quase pela metade o chamado ‘custo Remo’, de R$ 650 mil para R$ 350 mil. Dois jogadores (Jackson e Nininho) rescindiram contrato e mais cinco devem sair amigavelmente.

Além disso, a diretoria não para de projetar cenários e buscar captação de receita. Uma das ideias foi o lançamento dos novos planos destinados à torcida. Há, ainda, a produção de máscaras com o escudo do clube e o projeto de uma camisa especial. Tudo, obviamente, para enfrentar a tempestade que ainda não tem prazo para acabar.

Batalha trabalhista pode travar a volta dos campeonatos

O entendimento de advogados e juristas especializados em direito do trabalho conflita com a pretensão manifestada pelos dirigentes de clubes, impacientes com a longa paralisação do futebol profissional no país. A questão é que, para fins de direito, o atleta que não se sentir confiante para voltar ao trabalho pode se recusar a treinar e a entrar em campo.

A CBF e as federações, pressionadas pelas emissoras de TV, clubes e patrocinadores, travam um quase improdutivo debate sobre as possibilidades de retomada do futebol. Acontece que qualquer atleta pode se valer do “direito de resistência ao trabalho” para evitar se expor ou correr risco de morte enquanto não houver segurança quanto a problemas ambientais e naturais, como é o caso da pandemia de covid-19.

Para os clubes paulistas a situação é ainda mais angustiante. São Paulo é o Estado com o maior número de pessoas contaminadas e lidera o quadro de óbitos. As UTI’s dos hospitais já estão com a capacidade máxima de uso.

Diante disso, os jogadores dificilmente concordarão em assinar o termo de consentimento para que as competições sejam reiniciadas. Como todos os trabalhadores, o contrato é regido pela CLT, que lhe assegura o direito de se recusar a jogar se não estiver convencido da segurança da atividade.

O direito do profissional de esportes está exposto na Constituição. Além disso, questões impostas pelo isolamento social também resguardam os trabalhadores, que podem optar por não sair de casa para não correr riscos de contágio. O aspecto psicológico também deve ser considerado, pois há um abalo natural pela situação imposta por perdas de amigos e parentes.

Por outro lado, a CLT também impõe deveres aos atletas. Caso falte ao trabalho (recusando-se a jogar), pode ser advertido, em seguida suspenso e até mesmo demitido sem justa causa. Tal desfecho pode abrir caminho para uma batalha judicial.

Como de hábito no Brasil, nenhum jogador ou sindicato profissional se manifestou a respeito, mas os clubes se mobilizam para que os campeonatos reiniciem a partir da 2ª quinzena de maio, planejando se cercar de cuidados (testes de covid-19 para todos os envolvidos) para garantir a presença de seus jogadores em campo.

Sonhos de grandeza do Palmeiras incluem o velho Ibra

Ibrahimovic, o falastrão atacante sueco que vive como se fosse integrante da Legião Estrangeira, é o novo sonho de consumo do Palmeiras. No Milan, para onde retornou no final da temporada passada, o artilheiro não mostrou a garra e o oportunismo de sempre. O peso da idade é implacável.

Ainda assim, levando em conta o exemplo do Flamengo, que repatriou os veteranos Rafinha e Filipe Luiz, além de ressuscitar Gabigol, o Palmeiras ensaia abrir uma negociação com Ibra, cujos salários estão muito acima do nível dos maiores astros em atividade no país.

Como o alviverde paulista parece ter dinheiro a dar com o pau, a partir da sólida parceria com uma empresa de empréstimos, qualquer loucura parece ao alcance da mão. A conferir. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 24)