
“Bolsonaro muda a postura: ‘a minha preocupação sempre foi salvar vidas’”, estampa o jornal português Expresso. “Bolsonaro aposta na negação”, crava o norte-americano Financial Times. “Acabou o termo ‘gripezinha’?”, questionou o francês France24. “Bolsonaro é ignorado pelos governadores”, satiriza o britânico The Guardian.
A repercussão do discurso de Jair Bolsonaro na noite desta terça-feira (31), o segundo alvo de grandes polêmicas, atravessou o mundo expondo a dupla crise que o Brasil enfrenta com o avanço do coronavírus: ser o país que lidera o número de casos na América Latina e o ceticismo de um presidente que, após minimizar a maior pandemia dos últimos tempos como “gripezinha”, corre atrás para não aumentar ainda mais os altos níveis de impopularidade.
“Na mente de Jair Bolsonaro, a manutenção dos postos de trabalho (e a proteção da economia do Brasil) parecia ter o mesmo nível de importância que salvar vidas”, introduziu Fábio Monteiro, para o diário português Expresso.pt.
Ao tratar do discurso de Bolsonaro nesta terça à noite, Monteiro descreveu que “sem deixar de lado o impacto do surto no desemprego”, é a primeira vez que o mandatário do Brasil mostrou-se preocupado com a saúde dos brasileiros.
Por outro lado, destacou que ao citar trecho do discurso do diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom, Jair Bolsonaro omitiu o que o líder da organização apontou ser a responsabilidade dos governos neste momento da pandemia.
“Os governos precisam garantir o bem-estar das pessoas que perderam a fonte de rendimento e que estão a necessitar desesperadamente de alimentos, saneamento e outros serviços essenciais”, foi a fala do diretor da OMS.
O noticiário francês France24 introduziu com uma pergunta: acabou o termo ‘gripezinha’?”. “Cerca de 201 pessoas morreram com o vírus no Brasil, um país de 210 milhões de pessoas, onde as autoridades alertaram que o pico da epidemia não seria atingido antes do final de abril”, destacou o jornal, depois de dizer que o presidente do Brasil “admitiu” que se trata “do maior desafio” atual.
Mas ressaltou a postura contraditória: “Jair Bolsonaro subestimou continuamente a magnitude da pandemia de coronavírus e criticou as medidas de contenção tomadas em todo o mundo e pela maioria dos estados brasileiros, opondo-se à necessidade de preservar a economia e o emprego. ‘Temos uma missão: salvar vidas sem esquecer os empregos’, disse ele durante seu discurso na noite de terça-feira.”
O jornal dos Estados Unidos Financial Times também ressaltou a tardia reação de Jair Bolsonaro frente ao coronavírus: “Quando o Brasil entrou em sua terceira semana de quarentena, o presidente Jair Bolsonaro começou a ficar impaciente”.
Na publicação desta terça (01), o periódico deu destaque à reação popular e ao isolamento que o presidente brasileiro está sofrendo, tanto de governadores, congressistas e da população, que vem se manifestando com os panelaços e pedindo a sua renúncia ou impeachment.
“A violação das diretrizes internacionais do presidente – para não mencionar as políticas de seu próprio ministro da Saúde – o coloca entre um número cada vez menor de líderes internacionais (…). Mas o comportamento de Bolsonaro também provocou uma reação que poderia ameaçar seu futuro político e a estabilidade da maior democracia da América Latina”, alertou o FT.
Completando: “A maioria dos governadores do país, incluindo aliados de outrora, se separou publicamente do presidente. O Senado e seu ministro da saúde o contradizem. Enquanto isso, os habitantes em quarentena das maiores cidades do Brasil começaram os panelaços noturnos – um protesto que envolve bater panelas e frigideiras para expressar descontentamento com o manejo da crise.”
Para o jornal estadunidense, o comportamento de Jair Bolsonaro foi descrito como “presidente de crise ambulante”, que vem “provocando reações entre aliados”.