Moro das lamentações: a tragédia do juiz que pensava ser um deus

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POR SALAH H. KHALED JR.

Feche os olhos e imagine por um instante que você detém os poderes de uma divindade. Você narra a partir de um ponto de vista privilegiado, que consegue discernir com clareza incomparável a complexidade da realidade e sua conexão com a normatividade. Suas decisões não fazem mais do que refletir os fatos de forma perfeita e acabada, sem qualquer nível de distorção: são simples meios de exteriorização de uma convicção que jamais conhece qualquer falibilidade. Essências são extraídas de coisas e pessoas com incomparável facilidade: realidade e alteridade se curvam diante de seu método de revelação da verdade.

Você é firme e obstinado em seu propósito. Enviado pelos céus e movido por energias extraídas do além, sempre mantém os olhos fixos no grande prêmio e jamais se desvia da trajetória inicialmente delineada. Para você, a magistratura é sacerdócio; uma profissão de fé conduzida pelo mais nobre dos propósitos: extirpar o mal do mundo, em nome do bem da sociedade.

Sua vida é cruzada. Seu ritual é uma prática continua de zelo pelo bem comum. Senhor de todas as certezas, lorde de todos os soldados, você faz do trabalho diário um empreendimento de enfrentamento constante contra o mal. Higienizar o país é seu destino e o triunfo, algo certo e inevitável. Palavra da salvação: toda honra e toda glória, agora e para sempre.

Você é objeto de louvor alheio. As pessoas ostentam seu nome em camisetas, adesivos e cartazes. Seu estandarte tremula de Norte a Sul do país: você é reconhecido como salvador e extrai energias de seus devotos. Obtém deles forças para intensificar ainda mais o combate contra o inimigo. Seu poder cresce a cada dia que passa. Ele faz de você uma divindade onipotente e, logo, capacitada para erradicar a maldade que aflora no mundo. Não é de se estranhar que você aprecie cada vez mais a atenção que lhe é dada. Opinião pública e opinião publicada parecem ter por você uma irrefreável paixão, absolutamente profunda e massivamente sedimentada. Você se sente tocado por ela e faz questão de manifestar seus sentimentos para todos que incansavelmente o bajulam. Nem por um instante sequer você considera que possa estar equivocado. Que alguém insinue que você atua como veículo para difusão de ódio é logicamente uma leviandade.

Mais do que um mero mortal, sua existência transcendeu o plano terreno: as regras aplicáveis aos demais não valem para você. Continuamente estimulado e jamais coibido, você saboreia a delícia do poder ilimitado que lhe é conferido. De fato, você acredita que um juiz pode voar: nem mesmo o céu é limite para a sua audácia. Sua vaidade atinge patamares gigantescos: nem mesmo a segurança de seus próprios devotos parece lhe importar. Você propositalmente desconsidera qualquer limite normativo ou ético que possa comprometer o fim que lhe é caro. Utiliza sem o menor pudor os meios que lhe são conferidos para divulgar a irrecusável verdade de sua palavra. Caso venham a ocorrer, danos colaterais não serão nada mais do que perdas aceitáveis para a consecução da meta perseguida. Sua onisciência não permite qualquer vazio. O interesse público lhe é transparente: não pode ser nada além de um reflexo de sua própria vontade, que, ao final, subjugou completamente a realidade.

E assim seria, se ele, o limite, não promovesse uma alucinada reviravolta no roteiro previamente estabelecido por sua santidade. De forma inesperada, uma vertigem democrática surge no horizonte para usurpar o frágil solo moral no qual assentava sua autoridade, destruída como castelo de cartas por um relâmpago de legalidade.

Sua onipotência não era mais que delírio e devaneio. Complexo de grandeza e abuso de autoridade. Possível prática de crime e flagrante ilegalidade. O destino parece ter lhe pregado uma terrível peça: suas razões não são mais do que pálidos reflexos de uma contaminada subjetividade. Vitimada pela própria arrogância, cai por terra a insustentável identificação com o bem da sociedade. Tragédia até então impensável. Quem dizia que falava por todos falava por si mesmo: refém da própria e indevidamente atribuída discricionariedade.

Resta o lamento dramático e a entrega narrativa da própria dignidade, corroída pelo esforço impossível de legitimar uma indefensável ilegalidade. Esgotada sua serventia, desvelada a humanidade, resta a você o papel de cordeiro: passível de ser sacrificado no altar do próprio autoritarismo, ainda que mostre incredulidade diante dessa possibilidade. Talvez a sorte seja generosa e você apenas caia na obscuridade. Lamento de um Moro, Moro das lamentações. Equivocado até o final, ainda lhe escapa a ideia de impessoalidade. A Tragédia de um Moro é a morte metafórica de uma pseudodivindade. Que ela descanse em paz. A democracia agradece.

Salah H. Khaled Jr. é Doutor e mestre em Ciências Criminais (PUCRS), mestre em História (UFRGS). Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Escritor de obras jurídicas. Autor de A Busca da Verdade no Processo Penal: Para Além da Ambição Inquisitorial, editora Atlas, 2013 e Ordem e Progresso: a Invenção do Brasil e a Gênese do Autoritarismo Nosso de Cada Dia, editora Lumen Juris, 2014 e coordenador de Sistema Penal e Poder Punitivo: Estudos em Homenagem ao Prof. Aury Lopes Jr., Empório do Direito, 2015. 

Mexeram com a fera. Lula começa a percorrer o país

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POR FERNANDO BRITO – no blog Tijolaço
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Publico, abaixo, a íntegra do discurso do ex-presidente Lula que reuniu 60 mil pessoas hoje em Fortaleza. Sábado, dia da família, muita gente perdeu a transmissão ao vico – eu, inclusive – e não viu o mar de gente a quem Lula disse que, caindo a liminar de Gilmar Mendes no Supremo, na próxima quinta-feira será o Ministro da Casa Civil para “ajudar Dilma a mudar: “Tem que dar a volta por cima, mudar a economia, gerar emprego e renda pra essas pessoas”, disse. Leia o que Lula falou aos cearenses, na Praça do Ferreira, neste sábado.
“Mesmo se não tivesse esse ato aqui, só a chuva que Deus mandou a partir de ontem já valeria a pena estar aqui no Ceará. Não é todo dia que a gente vê o chão molhado, o agricultor dando risada.
Estou estranhando um pouco o que tá acontecendo no nosso País. Completei 70 anos de idade. Vivo nesse País fazendo política há 50 anos e nunca vi o clima de ódio estabelecido agora neste País. Parece que neste País tem duas coisas: aqueles que amam a democracia, aqueles que gostam de fazer política, que são do PT, do PCdoB, das centrais sindicais, e aqueles que são contra nós. Aqueles que têm as revistas, os jornais, a televisão, que são na verdade os responsáveis por esse clima de ódio que está estabelecido neste País.
Eu, querido Camilo, fui oposição a vida inteira. Perdi três eleições seguidas e vocês nunca viram eu chamar o PT pra ir pra rua, pra derrubar governo, agente fazer manifestações pra que esse País não desse certo. Na verdade, essa gente que vinha pra rua, tentando usar verde e amarelo, pra dizer que são brasileiros, precisava ter trabalhado o tanto que nós trabalhamos. 
Esse povo que está aqui, que está na rua, é um povo trabalhador, ordeiro, que paga suas contas. E é um povo que quer apenas que eles respeitem a coisa mais elementar, que é universal, que é o direito ao voto popular que elegeu a Dilma.
E eu às vezes fico vendo televisão, as revistas e os jornais e fico me perguntando por que tanto ódio? Será que é ódio porque a empregada doméstica passou a ter direito neste País? Porque filho de pobre negro da periferia passou a fazer universidade nesse País? Porque em apenas 12 anos geramos 22 milhões de empregos neste País? Será que é ódio porque durante 12 anos todos os trabalhadores organizados tiveram aumento de salário? Porque nós criamos o FIES e colocamos milhões de jovens na universidade? Por causa do Pronatec, das escolas técnicas, do programa de aquisição de alimentos, do Minha Casa Minha Vida, do Bolsa-família, do aumento do salário mínimo/ Eles precisam explicar por que tanto ódio da primeira mulher que governa este país.
E resolveram tentar encontrar uma via fácil pra derrubar a nossa presidenta.
Foi só a Dilma começar a andar de bicicleta, e eles inventaram de começar a tentar cassar ela por causa de uma pedalada. 
Ninguém aqui é Pra ter impeachment tem que ter base legal, tem que ter crime de responsabilidade. E a companheira Dilma e o seu governo não cometeram nenhum crime de responsabilidade. Por isso defender o impeachment é ser golpista, neste instante neste País.
Queria que todos prestassem atenção ao que está em jogo neste instante, que nós já vimos em 1964. Não é tentar derrubar a Dilma com um golpe pra colocar alguma coisa melhor. Olha quem tá pretendendo governar este País. Olha se eles têm alguma preocupação com o social deste País. Eles não querem governar este País pra aumentar salário mínimo, pra garantir piso dos professores, pra garantir o Bolsa-família e reajuste anual, pra garantir que as pessoas mais pobres tenham direito. Incomoda eles, sim, que o nosso povo frequente a mesma praça que eles, o mesmo restaurante, vá no mesmo cinema ou no mesmo teatro. E o que mais incomoda a eles é o pobre querer andar de avião agora. 
Na verdade, eles não aprenderam a dividir os espaços públicos com o povo brasileiro. E vou dizer uma coisa pra vocês, pelo carinho que eu tenho pelo povo do Ceará, porque venho aqui há muito tempo fazer campanha. Eu passei minha vida inteira acreditando que era possível mudar este País. Às vezes eu deitava na cama e perguntava pra Marisa: será que vamos conseguir mudar este País? E eu tinha na minha cabeça uma coisa: eu não posso trair o meu povo.
A solução do nosso País foi encontrada quando nós vimos que o povo não era problema; era a solução desse País. Uma mulher pobre com cem reais faz muito mais por esse povo do que um rico com um bilhão, que pega lá no BNDES. Eles não sabem o benefício que a gente faz quando a gente resolve fazer com que todas as pessoas possam subir um degrau na escala social. Eles pensavam que pobre não gostava de coisa boa. O que incomoda a eles é um presidente nordestino, que não tem diploma superior, ter sido o presidente que mais fez universidade neste País.
A coisa mais sagrada da minha vida foi carregar o orgulho e dizer no mundo inteiro o que a gente fez neste País. 
Quando a gente fez o Bolsa-família, eles diziam que era esmola.
Eles perceberam que a gente tava trazendo doutor pro Nordeste, fazendo pesquisa pro Nordeste.
Eles não admitem que a gente tenha feito em 12 anos mais escola técnica do que eles fizeram em 100 anos. Colocado mais jovens na universidade que eles colocaram num século.
Eu soube que ontem nessa cidade encheram de outdoor contra o Lula. Eu não fico com ódio não. Aos 70 anos eu já tô pensando que o homem tá me chamando. O dinheiro que essas pessoas gastaram com outdoor pra falar mal de mim, deveriam ter vergonha na cara e fazer outdoor dizendo o que eu fiz pelo Nordeste brasileiro e o que eu fiz pelo Ceará. 
Pode pegar a história pra saber se um presidente da República em qualquer momento colocou no Ceará 30% do que eu coloquei em oito anos de mandato.
Se tudo der certo, e a Suprema Corte aprovar, quinta-feira eu estarei assumindo a Casa Civil do governo. E vou dizer por que que eu aceitei, depois de muito tempo. É porque eu tô convencido, acredito nisso como acredito em Deus, que este País tem que mudar, tem que dar a volta por cima, mudar a economia, gerar emprego e renda pra essas pessoas. 
É todo dia se falando em corte neste País. Em crise. Precisamos falar em crescimento, desenvolvimento e investimento neste País.”

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“Volto pra ajudar a companheira Dilma, andar de mãos dadas com ela e com vocês, pra vir aqui inaugurar a Transposição das Águas do Rio São Francisco. 
O nordestino é bom por isso. a gente nasce e se não morre até cinco anos de idade cria um couro tão duro que não tem nada que a gente não possa fazer.
Eu tava pensando que eu ia descansar na minha vida, mas eu não vou deixar, junto com vocês, não vou permitir que haja golpe. E queria fazer aqui nesta praça um apelo aos deputados federais. A melhor maneira de chegar ao poder é disputar eleições, ganhar eleições. Eu sou a experiência disso. Perdi muitas eleições, e quero que eles aprendam isso.
Temer é um constitucionalista, um professor de Direito. Ele sabe que o que estão fazendo é golpe. E sabe que isso vão cobrar é do filho dele, do neto dele amanhã, porque a coisa mais vergonhosa de chegar ao poder é tentar encurtar o mandato de uma mulher com a seriedade e a qualidade da presidente Dilma Rousseff. 
Quero agradecer a vocês. Vim aqui e volto pra São Paulo hoje mesmo, mas se for necessário volto pra cá.
Eu queria que vocês lessem a ideia deles sobre economia. E que os deputados que defendem eles lessem também. Não vai ter mais garantia de dinheiro pra educação e pra saúde e pra políticas sociais, como é hoje, que está garantida na Constituição. A gente não pode diminuir dinheiro pra educação, pra saúde. Eles agora querem que a cada ano o Congresso discuta o que vai pra educação, pra saúde, pra política social. Não querem mais o reajuste anual do salário mínimo. E nós já vivemos isso, gente. Momentos em que o governo não reajustava nem a inflação do salário mínimo. Já vivemos a briga que nós vivemos pra aprovar o salário do professor, que é uma vergonha. Todo mundo fala bem do professor, minha professorinha, mas na hora do salário não querem. Querem que o professor receba um salário que não dá pra dar comida à família.
Querem que este País tenha um retrocesso.
Pelo que eu estou vendo, se depender de vocês eles vão ter que esperar as eleições de 2018 pra disputar o governo deste País. 
Eu só tenho uma coisa nesta vida de compromisso: é com o povo deste País. Eu faz dois anos que tô sendo vítima dos maiores ataques que um ser humano foi vítima. Todo santo dia. Eles já criaram um apartamento pra mim que não é meu, e eu quero convidar todos vocês, no dia que for meu. Eles já inventaram uma chácara que não é minha, e quando ela for minha vocês vão visitar minha chácara. Inventaram até um barco de quatro mil dólares. Parece o Lady Laura. É um verdadeiro iate Eu nem vou em Angra com meu iate, pra não competir com Roberto Carlos. Ou seja, já inventaram de tudo.
Nós vamos garantir a governabilidade da Dilma, porque este País não pode voltar atrás. Nós sabemos como era o Ceará, como era Pernambuco, a Paraíba e o Rio Grande do Norte quando eles estavam no governo.”

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À beira da exaustão

POR GERSON NOGUEIRA

O clássico mais disputado do planeta, recheado de galardões que fizeram sua fama fora dos limites do Estado, corre um sério risco. Pode ficar esvaziado com o passar do tempo, risco que toda atração corre caso não se renove ou insista em servir pratos feitos à plebe.

Esse temor de esvaziamento progressivo do Re-Pa, que hoje à tarde se realiza pela segunda vez na temporada, se acentua pelas sucessivas quedas de público nos últimos três anos.

Em 2013, a média de público pagante no clássico foi de 25.830 espectadores – no anterior a média foi de 28.463. Em 2014, os números foram assustadoramente baixos: 16.519 de média nos estádios. No ano passado, a situação melhorou um pouco, subindo para 20.492.

Não se pode dizer que o motivo maior da perda de público seja a transmissão ao vivo para Belém, embora este seja um ponto também importante na história, desde que os clubes concordaram com a imprudência de exibir jogos para a própria praça onde a partida se realiza.

Ao lado da questão da TV existem vários outros fatores que conspiram contra a tradição do choque-rei. A violência urbana – e seu sanguinário tentáculo na seara esportiva, as gangues uniformizadas – é outro aspecto a considerar.

Nos últimos anos, muitos torcedores deixaram de comparecer aos estádios com medo de assaltos, arrastões e balas perdidas, acontecimentos corriqueiros dentro e fora dos estádios, principalmente em dia de Re-Pa.

Um sintoma óbvio disso é que a própria Polícia Militar, encarregada legalmente de cuidar da segurança das pessoas em eventos públicos, tem sido insistente na busca por soluções que reduzam o seu trabalho contra os baderneiros que dominam as torcidas organizadas.

É preciso considerar também a própria situação econômica da população, brigando diretamente com o fanatismo dos adeptos dos dois maiores clubes da Amazônia. Entre ir ao estádio e economizar pelo menos R$ 100,00 (arredondando aí o valor do ingresso, do transporte e do lanche) a tendência é pela decisão mais conservadora.

O fato é que o Re-Pa depende de motivações extremas. Só os muito fanáticos e os mais abonados é que ainda se dispõem a encarar todas as agruras que cercam a promoção do clássico, com ênfase nas dificuldades de acesso – acentuadas pelas obras intermináveis do BRT na Augusto Montenegro – e nos atropelos de ordem interna no estádio Jornalista Edgar Proença, onde até o ato de estacionar o carro representa um desafio à paciência humana.

Não se pode subestimar o papel dos próprios clubes nesse enredo. A progressiva decadência dos times, sempre desmanchados ao final de cada temporada e reféns de importação em massa de boleiros, influi fortemente sobre o ânimo do torcedor. O último ano de boa colheita nas bilheterias foi 2011, quando a média de público no maior clássico da Amazônia chegou a 28.684 – já com a transmissão pela TV Cultura.

Até então, os times ainda contavam com o apelo de bons jogadores, identificados com a torcida e capazes de valorizar a mitologia em torno do dérbi paraense. Aos poucos, porém, tudo isso foi se perdendo pelo caminho. O Papão ainda se manteve em alta, chegando à Série B, mas o Remo patinou na Série D e só no ano passado conseguiu o acesso à Terceira Divisão.

Todos esses fatores se juntam para conduzir a um processo de acomodação do torcedor, que muitas vezes hesita em comprar ingresso e sair de casa receando se decepcionar com o nível do espetáculo. É mais conveniente ficar no sofá torcendo ardorosamente pelo seu time sem correr maiores riscos. No máximo, alguns se aventuram a ir ao bar da esquina, torcer ao lado de outros que também se afastaram das arquibancadas.

Por conta dessa realidade, o Pará está em vias de perder um de seus grandes orgulhos: a pujança e gigantismo de suas torcidas. Pelo Brasil e até pelo mundo, a beleza dos estádios cheios em Belém gerou a imagem de uma terra fanática por futebol.

É claro que continuamos a amar o jogo, mas é visível que a cada ano essa paixão é alimentada à distância. Se os principais interessados não fizerem alguma coisa para deter essa sangria, logo Belém confirmará no futebol a fama histórica da cidade do “já teve” – nesse caso, a nostalgia será das imagens do Mangueirão superlotado. E só restará a saudade.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, que começa logo depois do Pânico, por volta de 00h20.

Giuseppe Tommaso, Valmir Rodrigues e este escriba de Baião participam como debatedores, analisando todos os detalhes do Re-Pa.

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Os nomes do jogo não entram em campo

Celsinho e Marcelo Veiga são os grandes nomes do jogo de hoje. Curiosamente, os dois não irão jogar. Até sábado, o meia-armador estava vetado pelo departamento médico do Papão por ainda estar se recuperando de uma lesão muscular.

Já Marcelo Veiga é o comandante azulino, recém-chegado ao Evandro Almeida para substituir a Leston Junior e tentar salvar a nau remista em meio aos banzeiros do returno do Parazão.

Ao contrário de Celsinho, cuja ausência é importante do lado bicolor, mas não chega a representar um drama mais sério para seu time, Veiga está com um senhor abacaxi nas mãos. Precisa vencer e vencer. Não há meio-termo.

Caso o Remo não consiga ganhar os três pontos, estará inapelavelmente eliminado do campeonato, abrindo mão do sonho do tri estadual. Veiga não tem a mínima culpa pela situação desesperadora.

O coquetel de erros em relação ao time é todo do técnico anterior, com ajuda dos dirigentes do setor de futebol, que também contribuíram para péssimas escolhas na hora de contratar.

Ocorre que o novo técnico já passou por isso antes. Em 2012, chegou também para uma missão quase impossível: classificar o Remo para a Série C com um time que havia sido montado por Edson Gaúcho. Veiga já tem pelo menos experiência nesse tipo de desafio.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 03)

Em Fortaleza, Lula de volta aos braços do povo

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O ex-presidente Lula discursou hoje (02) na Praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, e reafirmou a defesa do mandato da presidenta Dilma Rousseff, sua sucessora. A visita dele atraiu tanto a população da cidade como de outros municípios, que formaram caravanas para participar da manifestação. Bandeiras, estandartes e camisas estampavam o rosto de Lula e os depoimentos das pessoas reforçavam a sua liderança política. “Nós viemos a Fortaleza dar apoio a Lula porque ele foi a pessoa que mudou a cara do Brasil. A visita é importante porque ele vem mostrar que tem compromisso com o povo”, disse o agricultor Tertuliano Alves Feitosa, que mora em Pedra Branca, a 262 quilômetros da capital cearense.

A vinda a Fortaleza faz parte de uma estratégia do ex-presidente destinada a obter apoios à manutenção do mandato de Dilma na Presidência da República. Em um discurso de cerca de meia hora, Lula ressaltou as conquistas dos governos do PT e a necessidade da retomada do crescimento econômico. Ele provocou diversas vezes palavras de ordem entre os presentes, como “Lula, guerreiro do povo brasileiro” e “Lula, me liga, me chama de querida”, que faz referência ao áudios de conversas do ex-presidente divulgados pelo juiz Sérgio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato.

“Mesmo que não tivesse esse ato, só pela chuva que Deus mandou, já valeria a pena estar aqui no Ceará”, iniciou Lula, citando a chuva que persiste no estado há três dias e que prosseguiu no dia de sua visita. Em uma avaliação da crise política, ele disse nunca haver visto um clima de ódio como o atual e, sem citar nomes, o atribuiu a alguns setores da mídia.

O ex-presidente criticou as pessoas que se manifestam a favor da saída de Dilma. “Essa gente que vai para a rua usando verde e amarelo para dizer que são brasileiros precisava ter trabalhado o tanto que nós trabalhamos. Eles precisam saber que esse povo que está aqui é ordeiro, paga suas contas e que quer apenas respeito ao mais elementar e universal, que é o direito ao voto popular que elegeu Dilma”. (Com informações do blog de Esmael Morais)

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Como a Globo ainda ousa falar em corrupção?

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POR PAULO NOGUEIRA, no DCM

Pego para ler o livro Política, Propina e Futebol, do jornalista Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça.

É a história da corrupção na Fifa.

Há um trecho particularmente interessante nele para os brasileiros. Trata das propinas “constantes” pagas a Ricardo Teixeira e João Havelange para influenciarem nas decisões sobre que emissora teria o direito de transmitir Copas no Brasil.

O assunto foi objeto de investigação da Justiça suíça.

Diz o livro:

“Uma rede de televisão no Brasil é citada (…) no suborno, ainda que seu nome tenha sido mantido em sigilo no documento público [da Justiça da Suíça], uma vez que o processo não era contra ela.”

Quem transmite Copa no Brasil?

A Globo.

“Para os suíços, o serviço dos dois cartolas teria sido comprado por essa empresa [Globo] (…).”

O dinheiro, segundo a investigação, era depositado em paraísos fiscais.

Pagar propinas para corruptos é tão criminoso quanto recebê-las. Mas a Globo, e aquela é apenas uma pequena história de uma longa folha corrida de transgressões, se acha no direito de fazer sermões em torno de corrupção.

Um detalhe pode ser acrescentado em relação a uma das Copas em que a propina garantiu dezenas, centenas de milhões de reais para a Globo por conta das vendas de cotas de patrocínio.

É a Copa de 2002.

Documentos amplamente divulgados pela mídia realmente livre do Brasil – os sites independentes – mostram que os atos corruptos da Globo não se esgotaram nos subornos.

Para a Receita Federal, a Globo declarou que o dinheiro da compra dos direitos era para fazer negócios no Exterior.

A Receita detectou a fraude e multou pesadamente a Globo. Numa manobra que só acontece quando alguém se sente dono do país, uma funcionária da Receita tentou simplesmente fazer sumir o processo. Com isso, a Globo se livraria da multa e das sanções penais pela fraude.

A funcionária foi flagrada.

Em nenhum momento a imprensa tocou nos dois assuntos: nem nos subornos e nem na fraude e sonegação milionárias.

Cheguei a conversar com Sérgio Dávila, editor executivo da Abril. Conheci-o na Abril. Ele pareceu envergonhado. No dia seguinte, a Folha deu uma nota sobre a sonegação. Depois, o tema desapareceu, para sempre, dos jornais.

Um telefonema de patrão para patrão resolve o que vai ser dado e o que não vai, ainda mais quando eles são sócios, como é o caso dos Frias e dos Marinhos, donos do Valor.

Conto essa história porque já me cansei de ver jornalistas da Globo se comportarem como se trabalhassem não para uma organização corrupta e feita para consumir de todas as formas dinheiro público, mas para a Santa Casa de Misericórdia.

Eles são cegos, surdos e obtusos, ou apenas fingem ser?

Merval, Kamel, Waack, Noblat, Míriam Leitão e tantos outros: eles pensam que enganam todo mundo?

A Globo cresceu graças a “favores especiais” – a expressão é de Roberto Marinho – que pedia aos militares em troca de apoiá-los.

Passada a ditadura, continuou a crescer por conta de alianças como a com FHC: escondo sua amante e você me abre as portas do BNDES e me enche de publicidade estatal.

O mais melancólico é que também nos governos do PT a transferência maciça de recursos do contribuinte para os Marinhos continuou a ocorrer, em nome de imbecilidades como “mídia técnica”.

Com audiências despencando, a Globo nestes anos do PT continuou a levar 500 milhões por ano em propaganda do governo e estatais.

É o absurdo do absurdo, até porque o público da Globo abomina, como ela mesma, qualquer coisa relativa ao governo petista. É anunciar picanha para vegetarianos.

E é esta Globo das Copas conquistadas por subornos e das fraudes grosseiras na Receita Federal que comanda agora a cruzada contra a corrupção.

É tão ridículo, tão patético, tão acintoso quanto ver Eduardo Cunha falar em ética e moral.

Visita de Lula mobiliza multidão em Fortaleza

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Sob forte chuva, mais de 40 mil pessoas foram à praça do Ferreira, no centro de Fortaleza, na tarde deste sábado para recepcionar e ouvir Luiz Inácio Lula da Silva, que abriu na capital cearense o seu roteiro de visitas às principais cidades brasileiras para defender a democracia, apoiar Dilma e enfrentar o golpe.

“Sou um homem de uma causa só e esta causa se chama Brasil”, afirmou Lula em seu discurso, sendo aplaudido freneticamente pela multidão.

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Cabra bom.