POR GERSON NOGUEIRA
O futebol permite, vez por outra, algumas digressões existencialistas. Grandes escritores modernos, como Albert Camus, estiveram envolvidos com a bola durante suas vidas. De certa forma, algumas partidas também podem adquirir uma simbologia que espelha o mundo real. Acompanhei na quinta-feira o jogo entre Atlético de Madri e Barcelona e ficou evidente ali que o esforço coletivo ainda pode superar as valências individuais. Graças aos céus.
Com um trio ofensivo portentoso – o argentino Messi, o uruguaio Luiz Suarez e o brasileiro Neymar –, o Barça joga como se tudo fosse fácil, a ponto de enervar seus adversários com a incessante troca de passes que termina sempre com o arremate de um dos três citados.
Chega a ser irritante até para quem vê o jogo pela TV. A explosão individual, a serviço de um esquema meticulosamente montado, faz do clube catalão um dos mais admirados do planeta. A admiração das multidões também produz uma forte rejeição.
Vi gente festejando entusiasticamente a vitória do exército Brancaleone de Diego Simeone. Não celebravam a supremacia atleticana, mas o inferno astral do quase invencível Barcelona. Coisas da bola, e da vida.
Simeone como atleta foi um dos mais nefastos volantes que já vi atuar. Mirava a canela dos adversários e fazia disso sua principal missão ao longo dos 90 minutos. Pelo empenho e perícia, devia adorar a vocação carniceira.
Como técnico não é lá muito diferente. Organiza seu time para não permitir que o adversário crie ou avance. Não por acaso, o Atlético joga muito duro, gosta do confronto físico. Contra um oponente que prefere o toque de bola, as sutilezas do passe e a alegria do drible, Simeone libera seus gladiadores para tornar o jogo uma luta incessante, privilegiando o choque.
Na quinta-feira, seu estilo triunfou, como já ocorreu ao longo da temporada passada. Marcou muito bem, anulou Messi, controlou Suarez e cercou Neymar. Não é algo que vá se repetir sempre, mas funcionou. Pragmático, o Atlético aproveitou as oportunidades criadas e não deu espaços ao Barça.
É sempre gostoso ver o mais fraco ou inferior triunfar sobre o mais poderoso. Não há como negar que o Barcelona, por tudo que se sabe, é um dos times mais fortes do futebol, daí a legítima efusão dos que preferiram o triunfo do Atlético de Simeone.
Foi um show de disciplina tática sobre o esplendor do talento individual que dá brilho ao time catalão. Acontece que, apesar das marcações táticas próprias do futebol moderno, continuo fiel ao conceito libertário tão bem executado por Luis Henrique no Barcelona.
Herdeiro legítimo de Johan Cruyff e Pep Guardiola, o técnico atual concede aos seus craques o quinhão de liberdade necessário para que façam o que lhes der na telha a partir da linha de meia-cancha. Ancorado na articulação de Iniesta, o trio MSN faz misérias quando tem a posse da bola.
Exercita à exaustão o conceito libertário de jogar bola, tão caro nos campos quanto na vida. Enquanto o time catalão tiver essa voracidade, cultuando seus craques, terá minha sincera admiração. Mesmo quando não atua bem e se deixa vencer, como aconteceu duas vezes nesta semana – ontem novamente.
O consolo é que nas próximas jornadas triunfará porque o talento é sempre invencível – e a liberdade é um bem inalienável em qualquer área de atividade, e na vida.

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O melhor técnico do campeonato
Pode ser que o São Francisco nem chegue à final do campeonato, mas não importa. Meu voto para técnico do campeonato é dele, desde já. Walter Lima. Pelo que fez ao longo da disputa, merece minha admiração e aplauso. Está à frente de um time que não tem opções no banco de reservas e, ainda assim, chega com justiça à semifinal do returno. E faz com que o São Francisco jogue bem, movimentando-se com agilidade e sem precisar recorrer ao tedioso recurso da retranca para garantir resultados.
Atrapalhou-se um pouco no sábado diante de um Paragominas que chegou a ameaçar a classificação à final do returno. O empate em 1 a 1 levou para a decisão em penais, vencida pelo São Francisco, que agora irá enfrentar o matreiro Cametá, que despachou o São Raimundo, ontem à noite, também na série de tiros livres da marca do pênalti.
É importante dizer que Waltinho vem se conduzindo de maneira exemplar há algum tempo. Desde os tempos em que apareceu nos campos de Santarém, primeiro como atleta, jogando como um meio-campista clássico. Camisa 10 de recursos que depois virou técnico.
Passou pelo Remo e montou o time que viria a ser campeão brasileiro da Série C em 2005, embora muitos esqueçam de reconhecer esse mérito. Em seguida, foi o mentor da estruturação que levou o São Raimundo ao título da Série D de 2009, o primeiro da competição.
Nos últimos anos, tem se dedicado a trabalhar com jovens atletas. Foi assim no Remo que alcançou as semifinais da Copa do Brasil sub-20 e, no ano passado, como orientador da Desportiva, que participou da Copa São Paulo de Juniores.
De estilo pouco convencional, Waltinho é uma espécie de missionário do futebol. Dedica-se a preparar e treinar jovens jogadores com a paciência que quase nenhum treinador costuma ter. Em geral, “professores” entendem que não precisam perder tempo ensinando fundamentos a seus atletas. Errado. Mestre Telê fazia isso sempre. Cilinho também.
Aqui, por sorte, temos Walter Lima, que insiste em nadar contra a corrente e ainda encontra tempo para pegar um atacante pelas mãos e ensiná-lo a correr com a bola dominada. Faz isso toda semana nos treinos do São Francisco. Só essa dedicação e visão tradicionalista do jogo explicam como o limitado elenco do Leão santareno se agigantou e chegou à fase decisiva do segundo turno, posicionando-se entre os três melhores na pontuação geral.
Continuo convencido de que o futebol precisa de mais Waltinhos.
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Recado aos navegantes
Aos combatentes da liberdade que me acompanham por aqui e me seguem nas redes sociais quero dizer que nenhuma batalha é vã ou inútil. Certos percalços podem significar uma pausa a caminho de vitórias maiores. Resistir sempre, amofinar jamais. Vida que segue.
(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 18)
Gérson,
Como se diz.,nao precisa apenas ser excelente, é preciso ter alguma sorte também. Ontem o Barcelona perdeu para o Valência, com uma chuva de gols perdidos. Tem vezes que a sorte não está do lado do time.
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Pergunto ao amigo José Cardoso : Falta de sorte ou incompetência de quem perde os gols ?
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Gerson, que tal a enquete de melhor técnico?!
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Achei interessante o preparador de goleiros do S Francisco rasgar elogios ao Paulo Rafael, chegando a dizer que os grandes o invejavam por tê-lo em seu elenco. Chegou a dizer ele é o melhor goleiro do estado. Aí vem o PR e faz o que sabe de melhor: falhar em lances fáceis.
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Bom dia, amigos.
Gérson, concordo com tudo o que você falou sobre o Valtinho. Ele é o grande técnico que temos aqui e Remo e PSC não gostam porque por mais que ele seja da terra, é bastante exigente. Lembro do que fez pelo Remo em 2005, merecia sorte melhor ao longo do campeonato, não desmerecendo o trabalho complementar do Davino.
Era alguém que queria que trabalhasse no Remo a médio prazo, monta bons times com poucos recursos. Num paraense e num campeonato mais longo como a Série C, faria sucesso.
Outra coisa, exatamente TODOS os jogos da semi-final de turno e returno foram decididos nos pênaltis. Isso, antes de ser uma característica de “emoção”, é um desalento a qualidade do campeonato em disputa. Tendo em vista que somente dois times não participaram de uma semi-final este ano, os rebaixados.
Além de ser um campeonato deficitário no aspecto financeiro, torna-se um campeonato deficitário no aspecto técnico, já que o samba do criolo doido que fica o campeonato não prepara e não seleciona exatamente os melhores para disputarem campeonatos posteriores.
Já que estamos com dois anos de disputa nesse formato, é hora urgente de trocar e acabar de uma vez por todas desse negócio de turno e returno, que só faz o campeão do 1º ficar preguiçoso, prejudica quem fez um bom turno e dá anistia aos que não se prepararam a tempo.
Poderíamos ter turno único, com jogos de ida, sendo semi-final e final com jogos de ida e volta. Acredito que assim, dificilmente os jogos terminariam empatados e evitaríamos ter uma final anti-clímax que é a taça açaí.
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O problema do Waltinho, salvo engano ou desatualização de minha parte, é só um: ele não tem vínculo com os jogadores, e respectivos empresários, tão ao gosto e interesse dos cartolas dos grandes da capital.
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Sou fã do jogo do Barcelona desde os tempos de Guardiola, o primeiro de uma escola espanhola a inspirar-se na seleção brasileira tetra campeã em 1994. Como admirador da causa basca e catalã, assisto o campeonato espanhol com olhos de quem vê a paixão popular misturar-se à luta por uma sociedade mais justa e libertária, daí achar algo mais do que mera disputa de uma partida.
No entanto, me preocupa o Barcelona das últimas jornadas, não apenas pelas sucessivas derrotas, mas pela incapacidade demonstrada de reverter a situação. A meu ver, a principal causa é exatamente a renúncia ao jogo coletivo no ataque. Com efeito, querer que o Neymar Jr pegue a bola seguidas vezes, parta pra cima do adversário, aplique o drible, passe pelo segundo, pelo terceiro e toque pro Suarez fazer o gol é desconhecer o antológico diálogo entre Garrincha e Feola, em 1958, o mesmo cobrado de Neymar valendo pra Messi.
O Barça precisa fazer com que o drible volte a ser a consequência da troca rápida de passes no momento de decidir, na hora do contrataque, na situação de mano a mano, enfim, como consequência do talento e aplicação tática. Ficar parado na espera que um jogador resolva tudo sozinho é a antítese do estilo de jogo do Barça, por isso tantos gols sofridos em contrataque e tantas derrotas seguidas.
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Parabens ao amigo Miguel
Niver hoje
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Caro Manoel,
A história mostra que o elenco do Barcelona tem qualidade. Por isso digo que faltou sorte. Se fosse um grupo de pernas de pau, seria mesmo incompetência.
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