
POR PAULO NOGUEIRA, no DCM
Publicado em novembro passado, e republicado agora por razões óbvias. O título é novo:
“O que Taís Araújo diria do livro ‘Não Somos Racistas’?” Mas o enredo, infelizmente, é velho.
Não existe racismo no Brasil.
É, pelo menos, o título de um livro de Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo.
Nos últimos tempos, sempre que surgiram notícias que escancaram o racismo no Brasil, o livro de Kamel me vinha a cabeça.
Não exatamente o livro, mas a tese, a frase peremptória do título.
Não existe racismo no Brasil.
Vejo uma estatística: sete em cada dez mortes violentas são de negros.
A Anistia Internacional Brasil acaba de lançar uma campanha: “Jovem Negro Vivo”. “É quase um extermínio em massa”, diz o diretor da Anistia. Segundo a Anistia, 25 000 jovens negros são assassinados por ano no Brasil.
Sob indiferença generalizada, o que é pior.
A Anistia nota uma diferença. Nos Estados Unidos, quando a polícia mata um negro em circunstâncias suspeitas, irrompe uma revolta imediatamente.
No Brasil, não.
Quem não se lembra de Claudia, arrastada num carro de polícia? E de tantos outros?
Mas Kamel conseguiu escrever um livro cujo título é Não Somos Racistas.
Fui lê-lo.
Encontrei no Scribd, um site de livros digitais.
Em nenhum momento ele consegue ser convincente em seu ponto. O máximo a que chega é que é socialmente vergonhoso, no Brasil, ser racista. Bem, como se vê pela postagem abaixo, ou pelo número de torcedores do Grêmio que chamaram o goleiro Aranha de macaco, há quem discorde.
E ainda que fosse “vergonhoso”.
Quando a polícia vai fuzilar você, porque você é negro e está numa favela, você tem alguma chance de escapar se disser a seu carrasco que é uma vergonha o que ele está prestes a fazer?
O livro de Kamel ilumina pouco o tema do racismo. Em compensação, projeta muitas luzes sobre o próprio Kamel.
Já começa nos agradecimentos. Os patrões são entusiasmadamente elogiados. Os três. Por promoverem um “jornalismo plural”.
Não se trata apenas de bajulação. Mas de um aplauso que simplesmente não faz sentido. A não ser que pluralidade, na mente de Kamel, seja Merval, Jabor, Míriam Leitão, Sardenberg, Noblat, Waack, para ficar em alguns. Sem contar ele próprio, é claro.
É uma pluralidade absolutamente singular: todos pensam igual. Igual aos patrões, naturalmente.
O livro também é revelador na raiva que Kamel tem de Lula, e no amor por FHC.
A FHC são dados todos os créditos por ter feito do Brasil um país maravilhoso, aspas. Lula, em compensação, se limitou a copiar – canhestramente – FHC.
Lula, para Kamel, fez mal tudo aquilo que FHC fez bem.
Há também uma coisa que conta muito sobre Kamel – e a cultura livresca das Organizações Globo. A obsessão por ver seu nome na capa de um livro.
Não Somos Racistas é uma compilação preguiçosa de artigos. Merval fez o mesmo com os textos que escreveu sobre o Mensalão, e terminou na Academia Brasileira de Letras.
Não sei se este é o destino sonhado por Kamel.
Tudo aquilo somado, da negação do racismo se chega a uma outra tese: a de que as cotas para negros são um erro – mais um – de Lula.
Acho, particularmente, uma besteira torrencial, mas enxergo isso sob outro ângulo. Os irmãos Marinhos são contrários às cotas. Logo, Kamel também é – e muito.
Em meus dias de Conselho Editorial da Globo, notei nas reuniões o seguinte: Kamel e Merval, os mais falantes do grupo, como que disputavam para ver quem era mais a favor das ideias da família Marinho.
O livro de Kamel não se sustenta, na teoria que defende, nem no próprio Roberto Marinho. Se não fôssemos racistas, Roberto Marinho não passaria pó de arroz para embranquecer a pele morena, conforme conta Pedro Bial na biografia que escreveu sobre o dono da Globo.
O Brasil alem de ser um país corrupto, é muito racista sim, e não tem jeito.
Olha essa genealogia
A turma do centro de Afuá ( um exemplo apenas ) se desfaz dos seus moradores da periferia
O pessoal de Belém se desfaz dos afuaenses
A turma do sul nos chama de indios
Eles mesmos se xingam de macacos e são chamados de macacos e etc, pelos argentinos, espanhois, russos e assim se vai.
Aqui no Brasil se xinga os evangélicos por serem dizimistas e ofertantes
Os mesmos que pagam pra batizarem suas crianças, o que é um absurdo.
Mas os dois não fazem isso com seu dinheiro?
Enfim, como não tem jeito, que se aplique a lei e fim de papo.
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Ali kamel salvo engano é diretor de jornalismo da Globo. E isso mostra muito bem o estilo de jornalismo da globo, parece que todos são doutrinados da mesma forma, pensam do mesmo jeito e reproduzem as mesmas idéias. Passa do dono pro diretor, do diretor pros âncoras, dos âncoras pro comentaristas, e assim em diante. Um dia desses assistindo o telejornal da Globo, vi que o Sademberg ganhou um prêmio, se minha memória não me trai, de comentarista político do ano, quase solto uma gargalhada, da mesmo forma que sinto vontade de rir quando ele aparece no telejornal trazendo uns gráficos e dados que mostram que “o apocalipse” está próximo.
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Caro Edson, diferenças regionais são encaradas mais ou menos assim em todo o mundo. Em alguns lugares isso é bem pior que aqui. O discurso étnico, por si só, já produz alguma diferença, mas pela auto-afirmação, e tem o papel não de escancarar o óbvio negado por todos, mas de esfregar na cara essa realidade. O Brasil é um país racista. Todos esses discursos de poder são por causa da influência cultural e econômica que uma região exerce sobre outra, regional ou mundialmente. Entendendo como, e por que, essas diferenças existem é possível combatê-las com eficácia. A dificuldade não é perceber o problema, isso apenas tornaria Kamel um idiota, pelo menos do ponto de vista social, e nos tornaria célebres! O maior problema ligado ao racismo e todo tipo de preconceito é não compreender as razões para tê-lo no cotidiano. Ignorar como o racismo pode ser benéfico para quem constrange, face ao constrangido, é desistir da luta antes mesmo de começar. O racismo e toda forma de preconceito não é, e nunca será em si mesmo, uma auto-afirmação étnica, como os movimentos afros. É um discurso de poder que apenas tem potencial político, e apenas político, um discurso que não se sustenta filosófica ou cientificamente. É uma invenção. Ou um meio de rebaixar socialmente, isolar politicamente e dominar economicamente o povo que é cultural e socialmente diferente. O maior beneficiário do preconceito é a burguesia. E fica fácil compreender isso quando se vê o processo histórico de formação do Brasil, e do mundo, na verdade. O conservadorismo econômico só é pregado por quem é beneficiado nele, a burguesia plutocrata e aristocrata. Lutar contra avanços sociais que promove ascensão social, como ocorre com quem prega que o beneficiário de bolsa-família é preguiçoso ou vagabundo, está, na verdade, ajudando a manter o status quo da burguesia nacional… Mas o discurso étnico, como o feminino e o LGBT, pode enfrentar o racismo, bem como o machismo e a homofobia. Quem separa e vê o diferente com preconceito, aceita para si um aposição de exclusão social, simplesmente porque não se é injusto com uns e justo com outros. É preciso mesmo tratar a todos com justiça e urbanidade, a todos, sem exceção. O negro, a mulher, o homossexual…Pense bem, não há razões para desgostar ou gostar de todos, mas há de sobra para respeitá-los e tê-los em igualdade na sociedade.
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