VVP – Vocabulário de Valorização Profissional

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
(Augusto dos Anjos in Vandalismo. Íntegra no Blogstraquis.)

POR MOACIR JAPIASSU

Roldão apresenta a terceira parte do Vocabulário de Valorização Profissional
Diretor de nossa sucursal em Brasília, instalada em edifício da Era JK, de cujo varandão desbeiçado sobre a arrogância é possível enxergar o analfabetismo a circular por todos os sítios oficiais, o considerado Roldão Simas Filho, jornalista e escritor dos melhores, maior ombudsman da imprensa brasileira e químico aposentado da Petrobrás dos bons tempos, despacha cá para a sede a terceira parte doVVP, o Vocabulário de Valorização Profissional:

Os jargões de muitas profissões, como o dos médicos e o dos economistas, são denominados jocosamente de VVP: vocabulário de valorização profissional. Mas a mania de “enfeitar” o que se escreve e diz vai se generalizando de forma a beirar o ridículo. Começa pela esfera federal, com o nome dos ministérios: Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação; Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome; Ministério do Trabalho e Emprego (sic).

Nas empresas “modernas” as atividades e cargos têm nomes tão elaborados que se tornam “códigos secretos”. Antigamente havia o Departamento de Pessoal. Depois passou a ser mais pomposo: Departamento de Recursos Humanos. Agora dizem Gestão de Pessoas. Modismo puro.

Recebi uma circular assinada por um Assessor de Gestão de Processos. O que seria isso? E como entender o que é Unidade de Negócios Corporativos?

Água virou “recursos hídricos”, como se houvesse outro que não fosse água!

O Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) virou Departamento Nacional de Infra-estrutura Terrestre (DNIT).

2 comentários em “VVP – Vocabulário de Valorização Profissional

  1. Macaco Simão contribuiu muito no desnudar desse pedantismo travestido, principalmente decifrando o tucanês. Lembrei, também, do imortal Péricles e seus eufemismos sensacionais como coletor furtivo de penosas alheias, vulgo ladrão de galinha; e o elemento circense que provoca a hilaridade pública, vulgo palhaço, e por aí vai. Oportuno texto.

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  2. Os vocabulários típicos das profissões se baseiam na própria sociologia de cada profissão, pois cada profissão tem sua própria sociologia. Por exemplo, médicos são altamente valorizados pelo povo, mas não apenas pela suposta nobreza da ação dos profissionais de saúde, mas pelo domínio de certo saber a que outros dificilmente têm acesso. O vocabulário técnico, jargões e status social são barreiras artificiais para limitar aos especialistas as discussões de cada área de atuação. Assim também no direito, na engenharia e na educação, por exemplo… Pelo contrário, garis sofrem discriminação. São descritos como profissionais invisíveis por muitos estudiosos, pois ninguém liga para eles. Parte dessa sociologia profissional também se deve a questões mesmo de escolaridade e de remuneração. No Brasil, isso adquire contornos ainda mais dramáticos porque o diploma de nível superior é visto primariamente como prêmio, e não como requisito fundamental de atuação profissional. O diploma, por aqui, se tornou instrumento de opressão, como se desse direito à propriedade da verdade e da capacidade incontestável e inata. Há muitos rumos para a apropriação do poder, e o domínio de algum saber é um deles.

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