Torcida já arrecadou mais de R$ 15 mil

Até o final da tarde de ontem, a campanha organizada por torcedores do Remo para coletar dinheiro já havia conseguido arrecadar mais de R$ 15 mil. A quantia – que deve aumentar nas próximas horas – será entregue aos jogadores em Paragominas, neste domingo, como forma de a torcida estimular a equipe para a partida que decide a vida do Leão no Campeonato Paraense.

Briga de foice no escuro

POR GERSON NOGUEIRA

Não se tem notícia de uma situação tão enrascada para a dupla Re-Pa em campeonatos paraenses, pelo menos nos últimos 40 anos. Até já se viu um ou outro enrolado e eliminado antes das fases decisivas, mas o aperreio de ambos é coisa nova. E preocupante. Principalmente para o Remo, que precisa ganhar o campeonato para ter calendário no segundo semestre. Apesar de não partilhar do mesmo desespero do rival, o Papão também vive momento incômodo.

unnamed (50)Depois de eliminados no primeiro turno, os dois grandes de Belém ficaram com a responsabilidade natural de reagir no returno. Imaginava-se que a qualificação de seus elencos poderia vir a fazer diferença. Ledo engano. Os emergentes continuaram a se impor, inclusive dentro dos domínios da dupla. O último a aprontar foi o Parauapebas, no meio da semana, em plena Curuzu.

Cercada de expectativa, a rodada deste domingo, envolvendo todos os participantes da competição, tem oito clubes com chances de classificação às semifinais do returno. O cenário é ingrato para bicolores e azulinos, que correm sério risco de nova eliminação.

O Papão (6 pontos) recebe o São Francisco (7), precisando dos três pontos. Não pode empatar, pois seria superado por Cametá, Paragominas e Tapajós. Já os azulinos de Santarém têm histórico de boas atuações como visitantes. Aliás, já fizeram das suas no estádio bicolor no Parazão 2013, vencendo por 3 a 0.

O Remo vai a Paragominas, onde quase nunca se dá bem. Com 7 pontos, enfrentará um time tinhoso e um técnico a fim de cravar sua vingança particular – o clube ainda deve dinheiro a Charles Guerreiro, que saiu do Evandro Almeida bastante magoado no ano passado.

Nos demais confrontos, o Cametá terá missão espinhosa em Parauapebas contra o time que foi finalista do primeiro turno e é uma das sensações do torneio. O Mapará entra mais inteiro contra um adversário que terá somente um jogador no banco de reservas.

Por esses absurdos só possíveis no permissivo regulamento do Parazão, o Parauapebas inscreveu apenas 17 atletas para disputar o campeonato estadual, como se fosse disputar um torneio de pelada. Como não conta com divisões de base, não pode sequer utilizar juniores para compor o banco. Tanto Cametá (7 pontos) quanto Pebas (5) têm possibilidades de classificação, mas o empate pode fulminar com as esperanças de ambos.

Em Tucuruí, o Independente (6 pontos) enfrenta o rebaixado Gavião e deve conquistar os três pontos que precisa para se classificar. Mesmo vencendo, pode ser ultrapassado por Remo e São Francisco.

O Tapajós (4 pontos) é o que depende da combinação de resultados mais complexa, mas também tem lá suas chances. Recebe no Barbalhão o já eliminado Castanhal. Caso vença, chegará a 7 pontos e ficará torcendo para que Papão e Cametá não pontuem.

A rodada tem tudo para ser empolgante, com emoção do começo ao fim. Pena que esse raro momento de animação não é suficiente para disfarçar o fato de que este é um dos piores campeonatos dos últimos anos. Além de deficitário nas bilheterias e repleto de jogos ruins, apresenta poucos destaques individuais e se encaminha para um desfecho chinfrim.

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Leão entre a cruz e a espada

O resultado do confronto em Paragominas pode determinar consequências graves para o futebol do Remo. Se não se classificar à semifinal do returno, o clube será dominado de vez pela crise que vem sendo alimentada desde a posse da nova diretoria. Na quinta-feira, a manifestação dos jogadores desmentindo a diretoria quanto ao atraso de salários teve grande impacto junto à torcida e aos conselheiros azulinos.

Nesta edição do Bola, o presidente Pedro Minowa fala sobre seus planos para tirar o Remo do sufoco. Apesar de procurar demonstrar confiança, o dirigente sabe que a tarefa não é tão simples. As dívidas se avolumam e a diretoria precisaria levantar pelo menos R$ 2 milhões para sanar as demanadas mais urgentes.

Não será fácil para Minowa convencer o Conselho Deliberativo do clube, que acolheu o pedido de impedimento da atual diretoria, com base em supostas irregularidades administrativas. Diante disso, cresce em importância o jogo de hoje em Paragominas. Uma vitória terá importância capital para o time e poderá também dar uma nova injeção de ânimo a Minowa e sua equipe.

Há consenso quanto ao papel dos últimos gestores na angustiante realidade do Remo. Minowa herdou problemas que se acumulam há tempos e se ampliaram dramaticamente a partir da desastrosa gestão de Amaro Klautau, desembocando nos desmandos do mandato de Zeca Pirão.

O problema é que Minowa assumiu brandindo o discurso de modernização, garantindo que nada mais seria como antes. Em menos de três meses, conseguiu se desmentir e frustrar todas as expectativas criadas. Pior: repete os mesmos passos tortuosos de seus antecessores.

Caso consiga resistir ao desgaste e se safar da ameaça de afastamento, Minowa terá um trabalho hercúleo para revigorar o Remo – principalmente se o futebol ficar sem atividade a partir de julho.

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O mais bonito teatro do Brasil

Gregório Duvivier, um dos comediantes mais brilhantes da nova geração, anuncia nas redes sociais que irá trazer seu espetáculo “Uma Noite na Lua” a Belém agora em abril. Ganhou minha simpatia ao revelar a alegria de se apresentar “no teatro mais bonito do Brasil” – o nosso Theatro da Paz.

Sim, já sabíamos disso, mas é sempre motivo de orgulho ver alguém de fora falar bem de um dos encantos de nossa castigada metrópole.

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Bola na Torre

Guerreiro apresenta. Tommaso, Valmir e este escriba de Baião debatem a super rodada e os rumos do Parazão. Começa logo depois do Pânico na Band, por volta de 00h15.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 12)

Sobre ratos e homens terceirizados

POR XICO SÁ, NO EL PAÍS

Quando certa manhã o trabalhador acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto terceirizado, mais para roedor de si mesmo –um metafísico tísico decadentista! – do que para uma romântica barata da literatura.

Acordou em cama de faquir, diga-se, o que indicava também a volta da inflação alimentícia, no que o sujeito refletiu friamente: agora sou um servidor de dois patrões, como na comédia picaresca italiana, sirvo à dupla patronal e recebo salário como meio homem, eis a real da matemática financeira da modernidade trabalhista.

“Getúlio, Brizola, Lulaaa!”, ele gritou, em um pesadelo sebastianista recorrente. “Acorda, amor”, seu benzinho o confortou com um terno, e sem tesão algum, beijo na testa. Programa Tesão Zero, fome idem, longo casamento… A gente vai levando, a gente vai levando…

1428679921_468638_1428684048_noticia_normal“Seu terceirizado”, ele disse para si mesmo ao espelho do box do banheiro donde não havia sequer mais sombra de Narciso. “Seu terceirizado”, ele ouviu da sua própria mulher, que não havia dito nada, mas sabe aquela hora fragilizada que a gente escuta coisas da parede? “Terceirizado”, gritou o vizinho. “Terceirizado”, mexeram com ele na sinuca da esquina. O trabalho dignifica o homem, ele puxou essa do volume morto do cocoruto. A gente vai levando essa joça, viver é roça, ele se encorajou apesar de tudo e gastou o Bilhete Único como se fosse um luxo. O direito de ir e vir do nada para lugar nenhum. “O trabalho precário danifica o homem”, ele pensou direito, na volta para casa, mirando a rede que balançava sozinha na varanda nada-gourmet seu corpo de outrora, carteira assinada, rubrica decente, fundo de garantia, essas regalias que foram para as cucuias. “Que merda”, ele disse já pedindo desculpas à filhinha que não tinha nada a ver com seu infortúnio. Não tinha nada a ver, vírgula, o pai mirava a filhinha sob vergonha da sua trajetória, paranoia é paranoia, nada explica um surto psíquico de um terceirizado.

Onde ele passava, ouvia a ofensa. “Terceirizado”. “Melhor ser chamado de corno ou brocha”, ele sorria, elipsezinha no mar de verdades absolutas. Ele ia se conformando. O mundo de hoje em dia, dane-se. O café-com-pão-bolacha-não do trem suburbano era Bach para sua cabeça doida. Tentava. A gente vai levando…

“Se brincar vou na passeata de domingo acorrentado e puxado pelos meus dois patrões para gritar contra a corrupção”, meditou nosso amigo. Se brincar, refletiu mais adiante, eu colo no teflon da revolta dos que me lascam e bato panelas contra mim mesmo. “Não tenho mais nada a meu favor, só me resta o eco da desgraça. Falou e disse. É meu amigo, não se preocupem, bebi com ele até agora, estou próximo, não terceirizo amizade.

Como escrevi essa crônica

Agora sim…

Hoje aplico o truque, digo, a técnica, do mestre Ray Bradbury no manual O zen e a arte da escrita. Óbvio que vocês notaram.

Funciona assim, jovens escribas. Na dúvida, pegue uma palavra e rasgue o verbo. A palavra é… rato, nada mais terceirizado nas cobaias da vida. Assim começou a ideia dessa crônica.

Uma palavra e vamos simbora.

Deu dó dos roedores que um homem levou para a CPI da Petrobrás no Congresso. Até porque não eram assim, digamos, uns autênticos ratos gabirus que habitam esgotos ou porões do país do futuro. Imagina se fossem aquelas ratazanas de meio metro do Recife Antigo, ainda do tempo dos holandeses! (1630-1654). Nada, rapaz, nada disso, minha linda. Estavam mais para o tipo hamster, ramster, bichinhos fofos –sim, também são usados como cobaias, melhor não falar sobre isso. Deixa quieto.

“Ah, é rato-coxinha”, desdenhou um colega de trabalho. “Compra um pra mim, mãe”, relatou uma prima de Juazeiro do Norte cujo rebento deseja um estimado roedorzinho daqueles. O menino, candidato a macho de um certo Sertão sensível, pirou de desejo quando William Bonner gastou diminutivos no “Jornal Nacional” de Quinta para descrever as singelas criaturinhas. Padrinho de batismo, prometi o presente para breve. Devo, não nego, ratifico.

Tudo bem, os supostos ratinhos não representaram assim uma metáfora roedora à altura dos comandantes daquela Casa legislativa e aos larápios da propinaria petrolífera. Pobre roedor diante dos tesoureiros de campanhas eleitorais, quanta injustiça simbólica. Metaforazinha chinfrim, né, mas que foi divertido, não há dúvidas. Todo mundo entendeu a piada. O taxista que me conduziu ao final da tarde de ontem não falava em outra coisa. Riu à beça. Aplicou umas voltas a mais na desconhecida geografia carioca da Tijuca enquanto gargalhava, adivinha com o quê?, com os ratos do Congresso. Hahahaha. Paguei dobrado, tão-somente para usufruir da metalinguagem da roubalheira e enriquecer essa narrativa. Tudo por uma boa história.

É o que interessa. O melhor: se brincar, os bichinhos devem ter sido comprados à nossa custa, com nota fiscal superfaturada. Por que não fraudar inclusive a simbologia da roubalheira?

Só há um homem incorruptível no mundo. O mendigo altivo da esquina da minha rua Miguel Lemos com a Leopoldo Miguez, Copacabana, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um homem à prova da piedade alheia. Tente comprá-lo. Não conseguirás. Nem com a mais aguardada das aguardentes. Simplesmente não aceita. Ele escolhe. Ele sabe que a caridade atende mais a quem dá do que a quem recebe.

Xico Sá, jornalista e escritor, é autor de Big Jato (Ed. Companhia das Letras), entre outros dez livros. Na televisão, dá os seus pitacos nos programas Redação Sportv e Extra-Ordinários.