O panelaço da barriga cheia e do ódio

DO BLOG DO JUCA KFOURI

Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado.

Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.

O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.

IMG_3923Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando  aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.

Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca.

Como eu sou.

Elite branca, termo criado pelo conservador Cláudio Lembo, que dela faz parte, não nega, mas enxerga.

Como Luís Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB e ex-ministro de FHC, que disse:

“Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres.

O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar.

Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente.

Não é preocupação ou medo. É ódio.

Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou.

11025661_439901366160420_7646172389515181317_nContinuou defendendo os pobres contra os ricos.

O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres.

Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força.

Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita.

Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho.

E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.”

Nada diferente do que pensa o empresário também tucano Ricardo Semler, que ri quando lhe dizem que os escândalos do mensalão e da Petrobras demonstram que jamais se roubou tanto no país.

“Santa hipocrisia”, disse ele. “Já se roubou muito mais, apenas não era publicado, não ia parar nas redes sociais”.

Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia, mesmo sob o risco de riscar as de teflon, como bem observou o jornalista Leonardo Sakamoto.

Ou a falta de educação, ao chamar uma mulher de “vaca” em quaisquer dias do ano ou no Dia Internacional da Mulher, repetindo a cafajestagem do jogo de abertura da Copa do Mundo.

Aliás, como bem lembrou o artista plástico Fábio Tremonte: “Nem todo mundo que mora em bairro rico participou do panelaço. Muitos não sabiam onde ficava a cozinha”.

Já na zona leste, em São Paulo, não houve panelaço, nem se ouviu o pronunciamento da presidenta, porque faltava luz na região, como tem faltado água, graças aos bom serviços da Eletropaulo e da Sabesp.

Dilma Rousseff, gostemos ou não, foi democraticamente eleita em outubro passado.

Que as vozes de Bresser Pereira e Semler prevaleçam sobre as dos Bolsonaros é o mínimo que se pode esperar de quem queira, verdadeiramente, um país mais justo e fraterno.

E sem corrupção, é claro!

22 comentários em “O panelaço da barriga cheia e do ódio

  1. Aí não se vê uma verdade única. mas um conjunto delas. Verdades sejam ditas. O Brasil vem sendo saqueado há séculos. A burguesia branca acua o proletariado miscigenado. E as mulheres continuam objetos… Verdades sejam ditas, os outros continuam olhando os diferenciados como… como? Como inconvenientes. Como quem destrói ou depreda o paraíso na terra. A ignorância reside na opinião, ou na certeza de muitos, de que é preciso exterminar não a pobreza, mas o pobre.

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  2. Não sonego imposto, nunca comprei DVD pirata e muito menos votei nos políticos citados acima – Aliás, Collor e Sarney subiram no palanque de Dilma, para os de memória curta.
    Meu ódio é pela a mentira. É pelo joguete político canalha que esta mulher fez durante sua campanha, acusando que seus adversários fariam exatamente tudo de ruim que ela própria faz agora.
    Meu ódio é contra Katia Abreu, é contra Cid Gomes, é contra o filho de um calhorda que foi posto em ministério por pura negociata. Meu ódio é pelo retorno da inflação, pela crise da nossa maior estatal, pela manutenção dos incontáveis ministérios…
    Meu ódio é pelo “investimento” do dinheiro público em elefantes brancos, em festa para gringo ver e em porto cubano para americano atracar.
    Parem de vender a idéia que só a elite protesta contra esse governo! Vocês já pararam para pensar qual a porcentagem de Brasileiros pertencentes a elite? Com certeza é infinitamente menor que a quase metade do país não quis essa mulher no governo (sem levar em conta as abstenções). E parem de vender a idéia de que reclamamos de barriga cheia! A gente não quer só comida. A gente quer segurança, saúde e educação de qualidade. A gente quer seriedade no governo e um líder DE palavra, seja ele da direita ou da esquerda!

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    1. A história do porto cubano, de novo?? Poxa, amigo, vire o disco pelo menos. Chega de insistir nessa bazófia persecutória em relação a Cuba, que vem desde 1964. FHC, ídolo dos reaças, já andou por lá, embora sem a iniciativa que Dilma teve, em boa hora, como já ficou claro. Quanto à elite, ela realmente não é tão numerosa, mas é influente, ao ponto de fazer a cabeça de alguns alienados que ainda não se conscientizaram papel na história política do país. O problema é que o discurso repetitivo da direita é pela moralidade e o fim da corrupção – dos outros. Fácil, como se vê.

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  3. hahahahah… que texto ridículo tentando justificar essa patifaria do atual governo. “se eles roubam, então tudo bem se eu o fizer.” Que maravilha.

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  4. JK disse tudo. Por falar em Bolsonaro, aí incluo também Marcos Feliciano, Malafaia e o atual presidente da Câmara, para ficar só nesses citados facistas, somente podem concordar com as ideias dessa cambada aqueles que não foram gerado por vias naturais, mas cuspidos talvez. Também os adeptos das ideias dessa corja parecem que não possuem filhas, irmãs esposas e sobrinhas, pois são contumazes em ridicularizar e desprezar as mulheres.

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    1. Covardes, acima de tudo, amigo Miguel. A orquestração desses atos contra Dilma parte de empresários, solidamente aboletados sobre suas fortunas e conveniências. Não passarão!

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  5. Amigo Gerson, esse artifício baixo de tentar desqualificar qualquer cidadão que esteja insatisfeito com o Governo (com todos os motivos para isso) já deu, pois a “Elite Branca/ Burguesia/ Rentistas/ Coxinhas” não são formado de 50 milhões de eleitores. Esse Governo dos Trabalhadores utilizou dos métodos mais vis para se manter no poder e a conta está aparecendo (destruição da Petrobrás, ajuste fiscal em ambiente recessivo, polarização, etc..). Chamar de perseguição a cobrança por mais ética na política é sinal de fraqueza de carácter. Muito feliz foi o Colunista Josias de Souza: “Golpismo” e “terceiro turno” são expressões que o petismo utiliza para classificar qualquer manifestação democrática.

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    1. Amigo, apoio todo tipo de crítica, desde que inteligente e civilizada. Quanto ao significado de golpismo, é bem simples: trata-se de toda tentativa de derrubar um governo democraticamente eleito – dois meses depois de empossado! Até o FHC, ídolo de vários retardados por aí, já admite que não há razão para tanto. Não discuto as razões e esperneios, bem como entendo (e respeito) quem critica o governo com argumentos consistentes.

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  6. O pensamento reacionário único, vindo principalmente de redes de comunicação (concessões públicas) que prosperaram a custas de atentados à democracia no Brasil, muito mal tem feito ao País. As reações ao texto do insuspeito Juca que, como L F Veríssimo, tomou carona nas palavras do insuspeítissimo Bresser Pereira para posicionar-se em defesa da democracia, deixam isso muito claro.

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  7. Seseu, o sudeste se vê como o pólo desenvolvido do Brasil e o N/NE como o peso que tira a riqueza que eles produzem lá. Os votos ofertados a Aécio são da maioria desinformada, supersticiosa e preconceituosa do S/SE que se acha o pólo de 1º mundo do Brasil. O comportamento xenofóbico contra nortistas e nordestinos se baseia exatamente nessa premissa do nós contra eles, dos produtores contra os parasitas, de um ponto de vista que não foi inventado na eleição, mas que sempre houve e que foi cruelmente inflado nas eleições. Não é de hoje que o Brasil é dividido. Os principais atores do subdesenvolvimento brasileiro são as multinacionais, que prosperam pela fraca iniciativa das oligarquias nacionais, estas sim sanguessugas da riqueza nacional, pela desunião popular e pela parca percepção do assalto às riquezas naturais do país. Perceba, quem retira as riquezas do S/SE industrializado e do N/NE extrativista são os mesmos atores, os gringos que se aproveitam da fraca indústria brasileira, praticamente ausente da livre iniciativa, acovardada pelo imperialismo estrangeiro, engolida pela globalização. Do N/NE levam minérios e alimentos. Do S/SE, os lucros aferidos pelas empresas multinacionais ali instaladas. Nossa burguesia simplesmente abriu mão de investir no nosso mercado interno e, com isso, decretou a falta de emprego e concentração de renda muito mais que as políticas públicas de qualquer governo.

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  8. A verdade, é que, os ricos, os abastados, enfim, a ‘burguesia que fede’, como diria o Cazuza, não tem mesmo direito de reclamar nada destes ultimos 12 anos do governo federal, e muito menos de pretender o o impedimento da presidente. Afinal, foi quem mais lucrou, foi quem recebeu os bilhoes direta e indiretamente, enquanto os menos favorecidos receberam as bolsas.

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  9. Pelo manual do petismo, quem participa de atos assim é a elite golpista. Na definição do Planalto, são pessoas que não se conformam com o resultado das urnas e sonham com um terceiro turno, entendido como um neologismo para impeachment.

    Nos dois casos, as certezas baseiam-se no mito de excepcionalidade cultivado pelo petismo. O pronunciamento feito por Dilma no domingo, em rede nacional de rádio e tevê, revelou uma inédita pretensão da presidente de ser uma potência gerencial e ética, que só deve contas à sua própria noção de superioridade.

    Inédito também o grau de alienação da presidente, denunciado no pedido de “paciência” que endereçou à audiência, na suposição de que seu destino evangelizador bastaria para obter a submissão aos seus próprios mitos autocongratulatórios. De duas, uma: ou Dilma e o petismo são ingênuos ou são cínicos.

    Não é o cinismo que assusta. Contra o cinismo sempre é possível proteger as crianças, retirando-as da sala. O que assusta mesmo é quando nem Dilma nem o PT estão sendo cínicos. O que espanta é quando eles acreditam mesmo que sua missão especial no planeta lhes dá o direito de vender uma fábula na campanha e entregar um pergatório no exercício do Poder sem uma autocrítica de permeio.

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