Ao sabor dos factóides

POR GERSON NOGUEIRA

Sem a presença da dupla Re-Pa na reta final do primeiro turno, o Campeonato Paraense precisou de uma sacudidela inesperada. Duas polêmicas extracampo tão ruidosas quanto desnecessárias: a partilha da arrecadação no clássico marcado para 29 de março e a discussão sobre o mando de campo na decisão do turno. A rigor, só mesmo a falta de assunto mais quente explica tanto alarido em torno desses dois temas.

O primeiro debate não resiste à lógica e ao bom senso. Mesmo não tendo sido previsto no regulamento da competição, é óbvio que o Re-Pa do segundo turno deveria ter renda compartilhada. Pela simples razão de que nos últimos anos prevaleceu o critério de venda dividida de ingresso nos clássicos.

unnamed (13)Desta vez, como o Remo é o mandante e há a possibilidade concreta de que seja o único jogo entre os rivais no campeonato, estabeleceu-se a discórdia. De um lado, aferrados à tese do mando, os azulinos pleiteavam o direito unilateral à renda. Já os bicolores argumentavam com o sistema que vinha vigorando até então para todos os clássicos Re-Pa.

Enquanto o debate se acirrava dentro e fora das lides esportivas, ganhando as ruas e agitando as torcidas, eis que a FPF surgiu ontem com um adendo ao regulamento, assinado pelo presidente da entidade, que estabelece a divisão da renda.

A medida, apesar de salomônica, não deixou de semear dúvidas quanto à data em que o documento foi lavrado e quanto à natureza política de sua divulgação. Em meio à discussão, o papel divulgado ontem deixa a impressão de que foi celebrado um acordo nos bastidores, de maneira a não parecer que o Remo abriu mão de seus direitos no caso.

Ainda ontem foi sepultado outro factóide que ameaçava deixar em segundo plano a própria final do turno. O Parauapebas, estreante na competição, insistia na tese de que a pontuação anterior à semifinal deveria prevalecer para efeito de mando de campo. Com isso, teria o direito de mandar o jogo contra o Independente no estádio Rosenão, em Parauapebas.

Sem o menor amparo na tradição dos torneios realizados no Brasil e no mundo, que reconhecem semifinais e finais como partes integrantes da competição – e, por extensão, com pontuação válida para a classificação e demais benefícios –, a posição defendida pelo Parauapebas serviu para expor as brechas e escancarar os descuidos na elaboração do regulamento.

O lado positivo das duas arengas é que, de uma vez por toda, clubes e federação aprenderam que itens referentes a mando e renda devem constar, claramente, do texto final que norteia a competição. Qualquer gancho para um possível imbróglio jurídico deve ser cuidadosamente extirpado do regulamento.

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Passo inicial para ordenar o futebol

A melhor notícia do ano para o futebol brasileiro saiu anteontem com a criação do Fair Play Trabalhista pela CBF e aprovado pelos clubes da Série A, com endosso dos presidentes das federações. Significa um passo importante no sentido de impedir que clubes desrespeitem obrigações financeiras e trabalhistas. Atraso de salários durante a competição pode implicar no rebaixamento do clube que descumprir a lei.

O lançamento se antecipa à votação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, que tramita no Congresso Nacional, com itens mais duros e exigências ainda mais rígidas impostas pelo Bom Senso FC, entidade representativa dos atletas profissionais.

Espera-se, também, que o Fair Play Trabalhista não se aplique apenas à Primeira Divisão. É fundamental que se estenda às demais séries do futebol no Brasil. Seria salutar também a instituição de mecanismos de cobrança e fiscalização sobre as contas das próprias federações.

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Galo estreia na Copa do Brasil

O Independente recebe hoje à noite o Icasa-CE abrindo a Copa do Brasil para os times paraenses. O Galo tem diante de seu torcedor a oportunidade de fazer um resultado que facilite sua classificação, vantagem que não foi bem aproveitada no cruzamento com o Brasília pela Copa Verde.

A grande preocupação do representante paraense é que, quando jogam longe de seus domínios, times nordestinos emergentes costumam se sair bem. Foram vários os estragos causados aqui mesmo no Pará, pelo Salgueiro e o próprio Icasa em outras oportunidades.

Ao mesmo tempo, em boa fase no certame estadual, o Independente terá que tomar cuidado para não perder o foco da decisão do turno, marcada para domingo, em Tucuruí. O desgaste físico que o jogo desta noite deve causar pode levar o técnico Lecheva a usar ou não sua força máxima. Questão de prioridade.

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De Animal a palmatória do mundo

Chamou atenção, no último domingo, depois do clássico Botafogo x Flamengo, a ríspida reação de Edmundo à comparação que Milton Neves fez entre o botafoguense Jóbson e o ex-jogador e hoje comentarista esportivo da Band.

Polêmico nos tempos de atleta, pelo temperamento intempestivo responsável por inúmeras confusões, Edmundo rejeitou o comentário de Neves, dizendo que nunca foi usuário de drogas ilícitas, em referência direta aos casos de doping envolvendo Jóbson.

Típico caso do roto falando mal do esfarrapado. Não consumir drogas ilícitas não faz de Edmundo um exemplo de candura ou um modelo de comportamento. Só para avivar a memória: em dezembro de 1995, ao sair de uma noitada no Rio, ele foi o responsável por um acidente que matou três pessoas.

Ao contrário de Jóbson, que foi punido por seus erros, o ex-Animal foi premiado com a impunidade. Depois de muitas postergações nos tribunais, o processo contra ele foi simplesmente arquivado. Talvez por isso se sinta, anos depois, estimulado a vestir o figurino de fiscal de bons costumes.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 04)

19 comentários em “Ao sabor dos factóides

  1. Certo que Edmundo não é santo, longe disso, mas os comentários de Milton Neves na Tv são, muitas vezes, constrangedores, daí que eu acabo entendendo o protesto do ex-jogador.

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  2. A briga pela divisão ou não da renda do PERA é um reflexo de todo o contexto triste do momento. Ambos estão em situação lamentável no campo financeiro e de elencos. Com poucas credibilidades com suas torcidas, o público nos estádios mostra isso, a falta de um planejamento adequado que poderia visar a necessidade econômica do começo de temporada, tem também reflexo de uma Federação, dirigida por múmias, que se esquivam de sua organização onde deveria buscar uma formula mais rentável para o bem do nosso futebol.

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  3. Gérson, vou aproveitar essa sua posição em relação ao Edmundo e vou postar. Achei também a reação do Edmundo hipócrita e o próprio Milton Neves se desculpou pela brincadeira. Jobson é um jogador habilidoso e não é nenhum fenômeno, mas a reação de Edmundo foi exagerada. Deveria sim o ex-jogador ter pago pelo crime que cometeu e não arrotar santidade. Jobson não matou ninguém e foi vitima de seu vício.

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  4. Qualquer pessoa de bom senso vê que a renda tem que dividida, é o óbvio, se só está previsto um único clássico, se assim não for o PSC estará trabalhando de graça! Isso não existe!
    Quanto ao Edmundo penso que ele tem razão, analisando a vida esportiva dos dois a Animal está anos luz a frente do Jobson, que aliás só é famoso pelas merdas que fez. Quando ao acidente são coisas que pode acontecer com qualquer um, quem atira a primeira pedra?

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  5. O Brasil é um país tão grande quanto o preconceito de seus filhos, aliás, essa praga chamada preconceito existe em todo mundo.

    No caso do Jobson, isso é sempre lembrado.

    Gosto do Miltão, mas ele pisou na bola, tanto com Jobson, quanto com o Edmundo.

    Apenas um detalhe, existe ex viciado, ex assassino não, Edmundo jogou muita bola, mas num país sério agora estaria ao lado do Bruno na cadeia.

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  6. Como podemos querer que o Remo divida a renda se eles não tem divisão?

    Fica esta pergunta para nossa reflexão

    kikikikikikikikiki

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  7. Teus pensamentos caro EDSON DO AMARAL PEREIRA GOES, sao tao baixos, percebeste que vc é o maior falador de besteiras nesse blog?? cresce cara, seja mais educado, participe do blog com mais educação e com palavras uteis desse como a maioria das pessoas que aqui frequentam.. como disse antes, vc e um câncer nesse blog.

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  8. Tens total razão, caro Gerson, essa polêmica da divisão da renda está mais pra factóide, pois não se rompe um acordo de cavalheiros unilateralmente, aliás, se isto foi intentado pra promover o clássico pode resultar em tiro no pé, caso a dupla ReXPa repita o desempenho do primeiro turno. Outra conclusão óbvia desse inusitado episódio: a FPF fazendo regulamento é mais desastrada do que a PMB fazendo BRT

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  9. Edmundo, há tempos, qual FHC, vem tentando reescrever a própria história. Uma entrevista que ele deu há alguns meses ao “Bola da Vez” da ESPN mostra bem isso. Não adianta. Uma vez canalha, sempre canalha!

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    1. Naquela entrevista, amigo Marlos, ele teve a pachorra de se colocar no mesmo nível de Romário e afirmar que jogou muito mais bola do que Ronaldo Fenômeno! É mole? De fato, é um animal.

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  10. Gerson, o tópico de tua coluna de hoje ” Passo inicial para ordenar o futebol ” merece reflexão, Como dizes com propriedade é apenas um passo i9nicial.Com alguma experiência que tenho no CR, afirmo que a principal medida a ser tomada, é a responsabilização solidária, dos que , sem qualquer tipo de planejamento oneram os cofres dos clubes, e saem sem se importar com o destino dos clubes.. O dia em que sentirem no bolso as consequências dos atos desatinados e até criminosos,por eles praticados, asseguro que , aí sim, haverá o saneamento tão procurado.

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    1. Concordo inteiramente, amigo Ronaldo. Além do fair play, deverá ser instituído um mecanismo que permita responsabilizar dirigentes perdulários. Deve-se a eles, em grande medida, a situação paupérrima de vários clubes brasileiros, entre os quais o Remo.

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  11. Esta lenga lenga de divisão de renda não é só aqui.

    Em Minas o Cruzeiro aceita dividir a renda com o Galo, desde que o Galo aceite jogar todas as partidas no Mineirão.

    Aí o pau tora pelas bandas de lá. pois o Cruzeiro toda vez que vai ao Horto, cai morto!

    *Magnus obrigado pelo alerta, vou me policiar a respeito do assunto.

    Um abraço amigão!

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  12. O perigo da instituição da providencial ‘responsabilidade solidária’ é substituirem a escolha de dirigentes pela do encarregado em apagar as luzes

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