A diferença entre o politicamente incorreto do Charlie Hebdo e o de Danilo Gentili e derivados

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Por Paulo Nogueira, no DCM

Existem dois tipos de humor politicamente incorreto. Um é destemido, porque enfrenta perigos reais. O outro é covarde, porque pisa nos fracos.

Os cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo pertenciam ao primeiro grupo. Humoristas como Danilo Gentili e derivados estão no segundo.

Stéphane Charbonnier, o Charb, editor do Charlie Hebdo, disse uma frase sublime pela bravura e pela lucidez quando lhe perguntaram, algum tempo atrás, se não temia a vingança do fundamentalismo islâmico, depois de tantas charges sobre Maomé e de tantas ameaças.

“Prefiro morrer de pé a viver como um rato”, afirmou ele.

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Charb tinha um ponto: num país laico, liberto há muito tempo do que Rushdie definiu como “irracionalidade religiosa”, era e é um absurdo não poder fazer sátiras sobre religião, qualquer delas.

Charb poderia recuar diante dos riscos. Mas, para ele e seus companheiros, isso equivaleria a viver como um rato.

Charb não conseguiria mais olhar para o espelho. Não se reconheceria, não se respeitaria.

Muitos absurdos são cometidos em nome da liberdade de expressão. Canalhas frequentemente a invocam com propósitos malignos e torpes.

Mas Charb verdadeiramente viveu — e morreu — pela liberdade de expressão. É justo tratá-lo como um mártir da liberdade de expressão, e reverenciá-lo enquanto existir alguma coisa parecida com jornalismo.

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Os caricaturistas mortos não espezinharam minorias impotentes. O problema deles era com algo – o fundamentalismo islâmico – que os impedia de se expressar no mesmo tom que usaram tantas vezes para debochar de outras religiões.

Compare com a versão do humor “politicamente incorreto” de Danilo Gentili. Gentili é capaz de chamar uma mulata de “Zé Pequeno”, e de oferecer bananas a um internauta negro cansado de suas piadas racistas.

Ele provoca e estimula o que existe de pior no seu público, e não surpreende que seja seguido por pessoas como ele – preconceituosas, analfabetas políticas, estúpidas.

A coragem do humor “politicamente incorreto” de Gentili seria testada na França, desafiando coisas como o fundamentalismo islâmico, a exemplo do que fizeram Charb e companheiros.

Alguém consegue imaginá-lo neste papel?

Nem ele mesmo provavelmente, porque a essência de seu “humor” é a covardia. Chute quem não tem chance de devolver.

O que pôde fazer a mulata chamada de “Zé Pequeno”? Sequer a Justiça no Brasil coíbe esse tipo de agressão racista.

Um juiz conseguiu não ver racismo, numa sentença que entrará para a história da infâmia jurídica nacional, quando Gentili ofereceu bananas a um negro.

Gentili também se especializou em fazer humor contra o governo do PT. É um exercício interessando pensar como ele usaria sua “criatividade” se a presidência estivesse sob Pinochet, por exemplo.

Quando você vê gigantes do humor politicamente incorreto como os cartunistas franceses assassinados hoje por fanáticos, reconhece também pigmeus como Gentili.

Uma revista deu a seguinte chamada de capa quando Lennon foi assassinado: “O dia em que a música morreu.”

Você pode dizer agora, depois do fuzilamento bárbaro de Charb e companheiros: “O dia em que a charge morreu”.

20 comentários em “A diferença entre o politicamente incorreto do Charlie Hebdo e o de Danilo Gentili e derivados

  1. Assino em baixo. Os craques, os gênios, os ousados e os rebeldes são o que são por definição. Os idiotas, os palermas, os covardes e os obtusos… fingem ser os primeiros.

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    1. Pois é, amigo Daniel. Duro é ter que assistir outro atentado, que alguns ousam perpetrar: achar normalíssima a comparação entre Gentili e os gênios executados nesta quarta-feira.

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  2. Há alguns anos atrás os árabes deslancharam a mais inteligente estratégia de dominação já vista. O que começou com pequenas ondas de imigrantes árabes agora já ameaça se tornar maioria na França, Inglaterra e Alemanha. Ocorre que Inglaterra e França são potências atômicas. Dentro de algumas décadas, se não for contida a imigração, Ambas serão países islâmicos e terão um enorme arsenal atômico nas mãos. Um gigantesco problema para as próximas gerações.

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  3. Gentilli e tantos outros, apenas fazem aquilo que os donos das empresas querem. Tal como Bonner, sabem que precisam agradar seus patrões para se manterem nas empresas. Por outro lado, me deu uma saudade do PASQUIM. Hoje tudo está tão comercial que um atentado desse em um jornal “inteligente” fere nossa perspectiva de liberdade.

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    1. Jorge, não confunda alhos com bugalhos. Não coloque um reles presepeiro como Gentili no mesmo nível de um gênio como Wolinski. Tenha santa paciência.

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  4. Coloquei no outro post e reitero aqui, qualquer fundamentalismo religioso é pernicioso a vida em sociedade e a imprensa tem a liberdade de satirizar figuras importantes, seja Maomé ou Moisés ou Jesus Cristo, ja que em estados laicos a santidade ou divindade deste é apenas uma questão de perspectiva, de fé.

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  5. Graças à falta de limites do fundamentalismo alguns aspectos da questao suscitada na postagem ficam remetidas para o campo exclusivo da probabilidade.
    Deste modo é dizer que assim como é muito pouco provavel que o Gentilli satirizasse algo ou alguem sob o risco da retaliacao por exempll de um Estado Islamico, tambem e muito pouco provavel que os martirizados em solo francês nao satirizassem o governo petista, assim como tambem e muito pouco provavel que se a tal tipo de satira se dedicassem os referidos martirizados eles nao teriam suas reputacoes assassinadas numa tipica ação fundamentalista da midia governista.

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    1. Amigo Oliveira, fiz a observação em face da comparação entre os desenhistas e o comediante, mas que fique claro: de minha parte, censurar jamais. Muito menos, obviamente, partir para ações violentas.

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  6. Sobre a comparação, penso que cada país vive seus dilemas, França e Brasil são realidades distintas, logo não espero que Gentili bate de frente com EI, posto que, aparentemente, este é um tema ainda distante da realidade nacional. A coragem do humor nacional basicamente é afrontar os políticos e o judiciário (coisa que não faz ou faz pouco).

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  7. Sr. Jota, não ande na contramão dos participantes e comandante deste blog, sob o risco da censura vir que nem raio. (mas segundo eles……..sensurar, jamais. E que fique bem claro. ) huuuuum!

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  8. Se o governo fosse de Pinoche, Gentili encararia? Não sei. Não posso trabalhar com o se… Especulações serão sempre especulações.

    Sobre fazer piada com o governo do PT (um dos destaques do texto), penso ser mais do que normal, ja que quem está no governo é o telhado de vidro do momento.

    Vale destacar que enfrentar o PT não é facil, pois nos dias de hoje quem crítica o governo é automaticamente taxado de coxinha e outros atributos mais pelas redes sociais… Como se o governo fosso incriticável (existe essa palavra… rs…).

    Em síntese, Gentili não é gênio e nem genial, longe disso, mas é um cara que está apenas começando neste ramo e merece ser observado, denegri-lo com uma comparação absurda (com um gênio) já é uma tentativa, por parte dos cala anti-PT, de denegrir quem crítica o governo do PT.

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  9. Amigo Gerson, nada obstante nossas várias divergencias, nesse caso em particular meu comentário não se dirigia exatamente ao seu comentário, mas aa postagem propriamente dita. E que achei a comparação e/ou a referência ao Gentilli um tantinho fora de lugar, quiçá até oportunista, na medida que aproveita a tragédia para espetar alfinetes no adversário politico.

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