O Brasil e o dia seguinte

Por Luciano Attuch

O jogo está prestes a acabar, soará o apito final e a sociedade brasileira em breve saberá quem irá governá-la pelos próximos quatro anos. A presidente Dilma Rousseff retomou o favoritismo, mas o tucano Aécio Neves ainda tem um debate pela frente. Qualquer que venha a ser o resultado, o trabalho essencial no dia seguinte será de diálogo e de reconstrução de pontes. Para um país de centro, e de natureza conciliadora, como é o Brasil, foi espantosa a radicalização que se viu nessa disputa. Agressões nas ruas, insultos no meio artístico, ofensas nas redes sociais e até divisões familiares. Para quê? Para nada, como diria o poeta pernambucano Ascenso Ferreira.

Afinal, quais são as diferenças centrais entre PT e PSDB? Deixando de lado as radicalizações do marketing político, os últimos vinte anos, das eras FHC e Lula-Dilma, serão lidos como um único período histórico, que foi o da consolidação da social-democracia no Brasil, ora com o pêndulo mais ao mercado, ora mais ao Estado. Um período marcado por estabilização monetária, inclusão social e ampliação de direitos civis. Uma construção coletiva, que não tem donos. E os erros, de parte a parte, decorrem de um trabalho ainda inacabado. A sucessão de escândalos, tanto tucanos quanto petistas, é fruto de uma democracia que ainda não se libertou do poder do dinheiro e não encontrou mecanismos adequados de financiamento.

Por isso mesmo, o dia seguinte deveria ser marcado pelo diálogo e pela construção de um pacto em torno da reforma política. Esta sim, a tarefa inicial de qualquer dos vencedores. Até porque, na economia, ao contrário do que apregoou nos últimos anos, os ajustes são bem mais simples do que parecem. O Brasil opera hoje em pleno emprego, fechará o ano com a inflação na meta, ainda que no teto, e possui um caminhão de reservas internacionais. Ou seja: há uma herança benigna. E se há necessidade de uma política fiscal mais transparente e de ajustes em alguns setores da economia que enfrentam grave crise, como é o caso do etanol, os dois lados parecem ter a compreensão do trabalho a ser feito. Por último, mas não menos importante, no social já há consenso. Para um país marcado por tantas desigualdades, seria uma heresia retroceder nas políticas de inclusão social.

O grande risco que nos cerca é o de os derrotados – quaisquer que sejam eles – não aceitarem os resultados das urnas e lutarem por um “terceiro turno”. Especialmente se a diferença de votos for estreita, inferior a 1% ou 2% dos votos totais. A radicalização, numa sociedade pacífica, mas momentaneamente conflagrada, poderá causar danos irreversíveis a um país que é democrático e nada tem de “bolivariano”. Que, no dia seguinte, tanto vencedores quanto derrotados sejam maduros diante da responsabilidade histórica com o Brasil e os brasileiros.

4 comentários em “O Brasil e o dia seguinte

  1. No dia seguinte, vença quem vencer, a vida republicana tem de continuar. As bolsas devem continuar a ser distribuidas, as casas tem de seguir sendo entregues, os trens, os aeroportos, os helicópteros, as empreiteiras, as refinarias tem de continuar sendo investigadas e os processos respectivos sendo levados até o fim e por aí avante. Vida que segue.

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  2. Tomara que essa reforma eleitoral finalmente saia do papel. Em vários países daqui da América do Sul o voto é facultativo e o daqui não é. Tomara também que com essa reforma, pare de pipocar partidos nanicos que não terão futuro algum.
    O dia seguinte das eleições será apenas mais uma segunda-feira chata e mal-humorada para muita gente.

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  3. No Brasil do dia seguinte para mim será muito fácil conviver com a situação. Se o meu candidato vencer querer torcer que ele cumpra em grande parte o prometido, porque cumprir tudo é impossível mesmo e tenha sucesso e melhore realmente a qualidade de vida do povo, porque se piorar mais do que está será o caos social total. Mas se o meu candidato perder a eleição, não serei matuto de torcer contra e desejar mal ao vencedor só porque não votei nele como farão alguns matutos por esse Brasil a fora. Eu vou torcer e rezar que ela finalmente e verdadeiramente melhore a qualidade de vida de 60 milhões de pessoas. Aliais, não. Eu vou querer que ela, de forma verdadeira, sem propaganda enganosa, retire só 10 milhões de pessoas da miséria, porque aí ja seria a gloria total do mérito do governo petista e veríamos em qualquer lugar essa melhoria. E se ela tirar os 60 milhões mesmo da miséria, aí será o sonho realizado de nosso país passar de sub desenvolvido para um país em crescimento acelerado quase chegando no patamar de uma Alemanha por exemplo. Sonhar não custa nada. e sou acima de tudo do povão e não posso torcer contra quem vai gerir meu dinheiro dos impostos.
    boa noite

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  4. Já se desenha uma tentativa de impeachment contra Dilma. Por muitos mais haveria contra FHC? Pessoalmente, acredito que não. Esse tem sido o papel aceito pela mídia pitbull, de não só tomar partido como de partidarizar-se em favor desse ou daquele candidato ou ideologia, selecionando as manchetes, as reportagens, as denúncias. De colocar contra o governo o mesmo povo que o elegeu. A corrupção deve sempre ser combatida, em qualquer governo. Não cabe à imprensa criar factoides para manipular a vontade do eleitor.

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