Por Ricardo Alexandre
Quem assina o Netflix brasileiro pode conferir um belíssimo documentário que fez pouco barulho em seu lançamento em 2012 e não foi exibido no país nem nos eventos especializados: Big Star – Nothing Can Hurt Me. O título do filme vem de um verso de “Big Black Car”, uma das mais belas e melancólicas canções da fase terminal do grupo, e faz um trocadilho com a impressionante sequência de infortúnios que marcou sua trajetória entre 1971 e 1975, até ser redescoberto como influência capital para bandas como R.E.M., Replacements, The Bangles, Elliott Smith e Teenage Fanclub – todas com muito mais sucesso que sua matriz.
O Big Star foi um projeto de Chris Bell, um geniozinho de 20 anos com fama na região de Memphis, ao lado de Alex Chilton, outro garoto-prodígio local que havia alcançado fama aos 16 anos com a música “The Letter” com o grupo de blue-eyed soul The Box Tops. Parecia a fórmula perfeita: Memphis tinha uma cena fervilhante (centrada na gravadora Ardent, um braço “branco” da Stax), Bell e Chilton tinham mão cheia como compositores, unindo a eletricidade do rock com a aderência do pop, e Chilton era um rosto e uma voz conhecida do grande mercado. O primeiro álbum da banda, #1 Record (lançado em junho de 1972) foi a pedra fundamental do que se tornou conhecido como “power pop”, uma versão mais moderna e rascante da boa e velha canção de assobiar.
À esta altura, você já deve ter notado que, em 1972, na ascendência do rock progressivo do Yes, do hard rock do Zep e Sabbath, da ressaca heroinômana de Neil Young, a última coisa que o público de rock queria escutar era canções de amor para assobiar junto. As nuvens absolutamente brancas pelas quais #1 Record passou em seu lançamento foi só o primeiro dos muitos problemas. Logo, até o que era uma “vantagem competitiva” tornou-se um fardo. Bell começou a sentir ciúme da atenção que Chilton recebia e, fragilizado emocionalmente, deixou o grupo, não sem antes apagar as masters do disco. O Big Star seguiu como trio em trilha pra lá de errática, alcançando algo próximo de um sucesso apenas em 1974 com “September Gurls” em rádios alternativas – o que não foi suficiente nem para rankear naBillboard, mas, se isso serve de consolo, rendeu até uma homenagem em “California Gurls” de Katy Perry, que grafou “girls” com “u” em seu megahit de 2010 em referência ao Big Star.
De fato, todo o mito em torno da banda é posterior, iniciado em meados dos anos 1980. Drew DeNicola, editor de vídeo da revista Vice, teve pouquíssimo material de época com o qual trabalhar em Nothing Can Hurt Me – e material da banda em movimento, menos ainda. Também não pode contar com depoimentos dos dois líderes da banda. Bell morreu em 1978, num acidente de carro, aos 27 anos; Chilton morreu em 2010, depois de fazer as pazes com o passado e transformar o Big Star numa banda de autotributo, com a qual excursionou por mais de 15 anos ao lado do baterista original Jody Stephens. Evidentemente, como produto final, o documentário se ressente disso.
Mas DeNicola teve em fartura dois elementos valiosos para quem quer contar uma história do mundo do rock: um mistério (ou vários mistérios) a serem desvendados e (muitos) personagens que realmente acreditavam que sua música alcançaria pessoas, quem sabe mudasse suas vidas. Nothing Can Hurt Me é um filme tocante a respeito de uma época ensanduichada entre a utopia dos anos 1960 e o cinismo e a voracidade mercadológica dos anos 1970. E é um filme sobre pessoas que amavam música, e organizaram suas vidas em torno dela. E DeNicola usa a seu favor o fato de ter uma história tão fugaz em mãos, abrindo espaço para os dramas pessoais paralelos (do produtor Jim Dickinson às desventuras solo de Chilton ou da conversão religiosa de Chris Bell à lendária convenção de críticos de rock em Memphis em 1973), uma reconstituição saborosa da cena de rock do Tenessee da época e do próprio mercado do rock. Um dos momentos mais pungentes de todo o filme é quando os irmãos de Bell, já nos anos 2000, avaliam o sucesso póstumo da banda, com direito a pequenas peregrinações de jovens indie até os lugares em que o guitarrista viveu. “Nós preferíamos não ter sua música, mas tê-lo junto de nós até hoje”. De chorar.
O fato de o Big Star ter sido um insucesso monumental em sua época, e isso ser uma tensão que atravessa o filme desde seu primeiro minuto, é parte de sua beleza. De certa forma, porque nos faz acreditar que a história sempre fará justiça ao que é urdido em verdade e talento. Em parte, porque é a prova de que qualquer banda fracassada pode render, nem que seja três décadas depois, um documentário pleno de beleza, amor e dor. Desde que, naturalmente, suas canções tenham sido cravejadas de beleza, amor e dor desde o instante em que foram compostas.
