Ao mestre, com amor (para Afonso Klautau)

Por Paulo Silber 

Meus heróis são vivos. São de carne e osso. Não usam roupa colada no corpo nem capa sobre os ombros e dispensam armas secretas, cintos de utilidade anacrônicos e arsenais tecnológicos de última geração.
Eles duelam às claras, mesmo, manuseando com a precisão e a elegância de esgrimistas aquele que é seu bem e mal maior: a inteligência. Correndo o risco, eventualmente, de não ter razão. 
Sim, heróis também erram, ao menos os meus. 
1044117_4949461661693_1875821184_nErros daqueles que lhes expõem fragilidades aparentemente inverossímeis para gente como eles, com a qualidade de heróis. Tanto é que esses erros parecem ter sido errados de propósito, só para que nós, do lado de cá, gente acostumada a aprender com eles, saiba exatamente o que não se deve fazer. E quando gente como nós repete esses erros jamais escapa da vergonha de não ter entendido o recado. 
Meus heróis são assim, escaracados, ousados, marrentos, implicantes, apaixonados, instigantes, exagerados, delirantes. Donos de uma sinceridade tão explícita que se não fosse de verdade pareceria blasfêmia. Compreender a ternura deles não é para qualquer um; apenas para quem se permite sabê-los pelo caminho mais difícil, que não admite atalhos, aquele caminho que somente eles sabem, os sacanas.
Os meus heróis não são santos. Não foram ungidos. Não lhes ergueram altares. Não estão acima de qualquer suspeita. Não são politicamente corretos e muito menos comportados. Mas são amados, isso são, como pouca gente é amada. Exatamente por não serem aquilo que se espera deles; por se manterem na condição encantada dos inesperados, aqueles seres a quem se consente a graça de abrir fendas no que se supõe consagrado. 
Subversivos seres, esses meus heróis. Graças a Deus, subversivos.
Não é à toa que esses caras, os meus heróis, parecem estar o tempo todo inflamados, com suas dores, tumores, rubores e calores que os mantêm em carne viva. O tempo todo pulsando, com a impressionante capacidade de pulsar além de si mesmos, e de reverberar essa vida, por exemplo, em mim. 
Não são exatamente humanos esses meus heróis. Ou não estariam vivos, aqui dentro, como se alguma parte minha fosse na verdade um generoso pedaço deles. Mas não são exatamente humanos mesmo! Não os meus heróis.
Ou não estariam aqui, o tempo todo vivos, o tempo todo vivos! 
O tempo todo!
Até quando lhes é inevitável morrer.

Éguaaa… Quando crescer, quero escrever assim.

Lateral paraense é contratado pelo Peixe

20130627_082204destaqueO lateral direito Cicinho, revelado nas divisões de base do Remo e que estava na Ponte Preta, é desde ontem o novo reforço do Santos. O jogador se destacou na equipe de Campinas nas duas últimas temporadas. Como clube formador, o Remo terá direito a um percentual do valor da transferência, oficialmente anunciada em R$ 10 milhões. A cúpula santista conseguiu se antecipar a São Paulo, Vasco e Coritiba, que também tinham interesse no atleta paraense. Cicinho se apresentará nesta sexta-feira na Vila Belmiro para exames médicos e vai brigar pela posição com Bruno Peres e Rafael Galhardo. No clube praiano, há também grande expectativa em torno da contratação do técnico argentino Gerardo Martino, do Newell’s Old Boys. 

Não é preciso brincar com fogo para avançar

Por Mauro Santayana

A Polícia Civil de Minas Gerais já descobriu que bandidos mascarados, provavelmente pagos, recrutados em outros estados, têm percorrido o país no rastro dos jogos da Copa das Confederações, provocando as forças de segurança, a fim de estabelecer o caos. Mensagens oriundas de outros países, em inglês, já foram identificadas na internet, como parte da estratégia que deu origem às manifestações.

Há os que pedem a cabeça dos “políticos”, como se eles não tivessem sido legitimamente eleitos pelo voto dos brasileiros. Esses pregam a queda das instituições, atacam a polícia e depredam prédios públicos, provavelmente com o intuito de gerar material para os correspondentes e agências internacionais, e ajudar a desconstruir a imagem do país no exterior.

Os radicais antidemocráticos se infiltram, às centenas, no meio das manifestações e nas redes sociais, para pregar o ódio irrestrito à atividade política, aos partidos e aos homens públicos, e a queda das instituições republicanas.

Eles apostam no caos que desejam. Querem ver o circo pegar fogo para, depois, se refestelarem com as cinzas. Não têm a menor preocupação com o futuro da Nação ou com o destino das pessoas a que incitam à violência agora. Agem como os grupos de assalto nazistas, ou os fascistas italianos, que atacavam a polícia e os partidos democráticos nas manifestações, para depois impor a ordem dos massacres, da tortura, dos campos de extermínio, dos assassinatos políticos, como o de Matteotti.

No meio do caminho, como mostra a História, pode surgir um aventureiro qualquer. Conhecemos outros “salvadores da pátria” que atacavam os “políticos”, e trouxeram a corrupção, o sangue, o luto, a miséria e o retrocesso ao mundo.

Marketing corintiano nem sempre ajuda

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Por Jorge Corrêa (do UOL)

Depois de uma invicta parceria que durou quase dois anos, o Corinthians anunciou que não renovou seu inovador contrato com Anderson Silva para a luta contra Chris Weidman, no dia 6 de julho, em Las Vegas. Mas essa decisão não é recente e não foi tomada de sopetão, pelo menos não por parte do estafe do atleta. A ideia de o campeão dos médios deixar de defender a camisa do clube do Parque São Jorge já era pensada desde o final do ano passado e passava por dois grandes motivos: a nova estratégia de marketing do lutador de olho no mercado mundial, e não mais só no brasileiro, e o desgaste que ele passou em alguns momentos por conta do clubismo dos fãs.

Os mais observadores já tinham percebido esse rompimento nas últimas semanas. Sempre que fazia uma aparição pública relacionada a lutas, fazia questão de usar roupas com o símbolo do clube, fosse em uma coletiva, fosse em um sparring. Mas quando foi córner de Rodrigo Minotauro no UFC de Fortaleza, em 8 de junho, e quatro dias depois, em sua última coletiva antes do UFC 162, ele já não usava mais o símbolo corintiano.

Vamos destrinchar os motivos e os bastidores para isso:

Marketing: Anderson anunciou neste mês a criação da Spider Company, uma agência de marketing esportivo que vai cuidar de sua imagem exclusivamente no exterior – no Brasil, quem cuida dessa área é a 9ine, do ex-atacante Ronaldo. Manter a marca do Corinthians criaria um ruído para futuros contratos em outros mercados.

Foi avaliado por sua equipe que não seria bom para um atleta de alto nível carregar muitas marcas, ter sua camiseta parecendo um abadá. É melhor ter uma carteira de patrocinadores mais enxuta, com poucas marcas, mas fortes e globais, como é o caso da Nike e da Phillips, que ele já tem há quase dois anos.

Clubismo: Assim que foi anunciado como atleta do Corinthians, Anderson não escondeu a felicidade de defender seu clube de coração e onde até tentou ser jogador. Mas logo em sua primeira luta pelo clube, contra Yushin Okami no UFC Rio 1, ele percebeu que não seria tudo tão lindo. Mesmo com a vitória, ele ouviu algumas vaias e xingamentos relacionados ao time.

Apesar do discurso de “antes de corintiano, sou brasileiro” ou falar que os torcedores de MMA sabem separar as coisas, o clubismo de [boa] parte dos fãs sempre o incomodou. Ele não assumia publicamente, mas sempre teve um nariz torto para essa situação. Foi uma aposta que ele fez, mas que não venceu completamente. Para um campeão como ele, isso era pouco.

O ônus e as dores de cabeça de misturar futebol e MMA e defender um clube que que movimenta tanta paixão – a favor e contra – já não compensava mais. O modesto salário que recebia do clube, se comparado com seus patrocínios e que usava para pagar parte de sua equipe, não valia mais a pena por conta de seus compromissos maiores.

Academia: Um dos principais pontos do contrato de Anderson Silva com o Corinthians foi a construção de uma academia de artes marciais no Parque São Jorge levando seu nome. Ela virou referência em São Paulo e um time de MMA foi montado, contando até com o ex-campeão dos pesados do UFC Junior Cigano.

O clube não tem a menor ideia nesse momento do que vai fazer com o nome do local. A estrutura será mantida, assim como o time e os treinadores, mas ainda não se sabe se poderá manter a marca Anderson Silva. É possível que fique simplesmente como Corinthians MMA ou que o clube mantenha o nome do campeão dos médios como forma de homenagem.

Futuro: Assim como a parceira de Anderson com o Corinthians foi inovadora e abriu as portas para outras similares entre lutadores e clube de futebol na época, o fim dela também pode representar o término dessa fórmula. A maioria delas já tinha sido encerrada antes e, ao que tudo indica, essa amálgama entre os dois esportes que mais chamam a atenção do Brasil no momento não funcionou da maneira esperada. 

Com suor e algum talento

Por Gerson Nogueira

Mais do que propiciar a passagem à final da Copa das Confederações, a vitória suada do Brasil sobre o Uruguai trouxe uma excelente notícia: Felipão já tem um time para disputar a Copa do Mundo. Faltam ajustes de posicionamento, definição de jogadas no ataque e mais segurança defensiva, mas já é uma seleção de verdade.

bol_qui_270613_15.psAlém da persistência do técnico em utilizar a mesma escalação desde os amistosos preparatórios, o time se beneficia da qualidade de um pequeno grupo de jogadores – Neymar, Paulinho, Fred, Tiago Silva – e do esforço de alguns coadjuvantes – Marcelo, Luiz Gustavo, Daniel Alves.

O embate de ontem foi duro, disputado palmo a palmo e marcado por muitas interrupções geradas pela catimba. Tudo absolutamente normal na tradição do clássico. A diferença é que, depois de muito tempo, o Brasil foi tão ou mais aguerrido que o Uruguai.

Desde as primeiras divididas já era possível observar que os comandados de Felipão encaravam a partida como uma autêntica batalha. Ponto de vista corretíssimo quando se tem a Celeste Olímpica pela frente. Essa firme disposição foi o que, no fim das contas, conduziu o Brasil à vitória.

Até a metade do primeiro tempo prevaleceu a marcação uruguaia, eficiente por se posicionar à frente da linha de meio-de-campo. Surpreendido pelo povoamento do setor, o Brasil não encontrava caminhos para atacar. Sem inspiração, Oscar tocava para os lados. Neymar, muito policiado, não conseguia avançar com a bola.

Aí veio o lance que pode ter mudado a história do jogo. A penalidade boba cometida por David Luiz, que agarrou acintosamente Lugano dentro da área, foi mal cobrada por Forlán e consagrou a experiência de Julio César. Os dois foram parceiros na Inter de Milão e o goleiro pulou para o lado certo, espalmando a bola para escanteio. É verdade que se adiantou uns dois metros, mas o árbitro chileno ignorou o pulo.

Depois do susto, o Brasil passou a equilibrar as ações. Mais pela força do que pelo talento, mas de maneira eficiente. Luiz Gustavo começou a aparecer bem na marcação, travando duelo interessante com os volantes uruguaios e permitindo a Paulinho liberdade para trocar passes no ataque.

No segundo contra-ataque que puxou no jogo, livre para pensar e agir, o volante lançou Neymar na área. A bola foi dominada pelo atacante e o chute cruzado chegou a Fred, que bateu de canela para fazer o gol. A vantagem não expressava o equilíbrio em campo, mas premiava a objetividade que Felipão tanto persegue.

Do lado uruguaio, contribuindo luxuosamente para a grandeza do confronto, o trio atacante Forlám-Suárez-Cavani não permitiu um minuto de sossego para a zaga brazuca. Até Tiago Silva, o menos estabanado dos nossos beques, andou dando bico para escanteio. David Luiz, além do penal, andou abusando da rispidez.

Cavani, principalmente, deu muito trabalho aos marcadores. Rápido e corpulento, abria caminho à força e ameaçou várias vezes antes de finalizar para as redes, aproveitando uma saída errada de Tiago Silva. Depois do gol, ainda teve fôlego para destruir ataques brasileiros pelo lado direito de sua defesa. Foi um dos principais destaques da tarde no Mineirão.

O outro nome do jogo foi Paulinho, que marcou de cabeça, também aos 41 minutos (como Fred no primeiro tempo), o gol da vitória. Bem colocado, atrás dos zagueiros uruguaios, pulou antes da bola chegar e apenas cumprimentou para as redes, como os grandes cabeceadores fazem. Quando esse gol ocorreu, o Brasil já era muito superior, beneficiando-se das jogadas rápidas com Bernard pela ponta direita e Hernanes armando no meio.

Felipão saiu pulando feito criança depois do triunfo, reconheceu que não houve uma grande atuação e louvou a disposição férrea de seus jogadores. Deu a senha para entender sua fórmula de montar uma seleção às pressas e a tempo de disputar o título mundial daqui a um ano.

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À beira de um ataque de nervos

A decisão de adiar a assembleia-geral que iria discutir hoje a reforma dos estatutos do clube foi do presidente do Conselho Deliberativo do Remo, Manuel Ribeiro. O mesmo que já se posicionou abertamente contra as ideias de mudanças e, particularmente, contra a proposta de eleições diretas. O Condel justificou a transferência para agosto pela necessidade de organizar melhor as muitas emendas apresentadas.

Pode ter sido uma medida de caráter técnico, mas soou como desrespeito à oposição cada vez mais organizada entre sócios remidos e proprietários. É um grupo que se distancia dos conselheiros tanto pela questão etária quando pelo inconformismo em relação à crise que assola o clube desde o fim do Campeonato Paraense. A temperatura não baixou nem com o afastamento solicitado pelo presidente Sérgio Cabeça.

Por outro lado, a reação dos oposicionistas ao adiamento não fica atrás em inabilidade e grosseria. Abusando de adjetivos ofensivos ao presidente do Condel, os líderes dos grupos Assoremo, Democracia Azulina e Remocracia, turbinados por representantes de torcidas organizadas, enveredam por um caminho que não leva a lugar nenhum. Um ato público contra Manuel Ribeiro foi convocado para hoje (às 18h) no Largo do Redondo. Além da manifestação, a oposição insinua ameaças ao benemérito.

A radicalização do discurso só cria mais entraves ao processo de reformulação administração e política do clube. Aprofunda o abismo existente hoje entre a velha e a jovem guarda, derrubando a via do diálogo. Mais do que nunca, o bom senso precisa prevalecer. Pelo bem do Remo.

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Ao mestre, com carinho

A coluna de hoje é dedicada ao amigo Afonso Klautau, jornalista dos bons e mestre de toda uma geração de profissionais. Morreu ontem, aos 60 anos. Deixa um legado de seriedade e conhecimento. Tive a honra de aprender com ele muito do que pouco sei. Registro aqui, modestamente, minha gratidão. Obrigado por tudo.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 27)