Solidão é o maior problema do governo Dilma

Por Ricardo Kotscho

Pelo que posso notar daqui de longe e conversando com amigos que trabalham no Palácio do Planalto, o maior problema do governo Dilma, fora todos os outros, é a solidão. Desde que tomou posse, faz dois anos e meio, a presidente segue rigorosamente o ritual do cargo, cumpre a agenda sem se sujeitar a imprevistos ou a arriscadas iniciativas, cercada por pouca gente, subordinados que a tratam como a chefe poderosa, com uma reverência que vai além das normas hierárquicas.

De outro lado, a presidente convive desde o início com uma imensa base aliada que se alimenta da desconfiança mútua e lhe causa mais problemas do que a própria oposição. Ao manter uma solene distância dos setores da sociedade civil que habita o Brasil real, com quem Dilma poderia abrir seu coração, além do ex-presidente Lula e de raros ministros, como o velho amigo Fernando Pimentel e o novo amigo Aloizio Mercadante, os poucos que se arriscam a falar em nome do governo e até a divergir dela?

dilma-gO desabafo da presidente ao final de um evento na quarta-feira, no Palácio do Planalto, no lançamento do programa Minha Casa Melhor, é sintomático de alguém que não se conforma com as críticas, que atribui a pessimistas comparados ao “Velho do Restelo”, personagem de “Os Lusíadas”, de Luís Camões: se tudo vai tão bem no Brasil, na sua própria avaliação, com a inflação e as contas públicas sob controle, porque essa gente só fala de coisas negativas sobre a condução da economia?

Pois não se trata de ser otimista ou pessimista, mas ver os fatos como os fatos são e não brigar com eles. Da minha parte, sempre procuro ser otimista tentando descobrir notícias boas para comentar aqui e não estragar o humor dos leitores, mas no mesmo dia em que a presidente criticou a “leviandade política” dos críticos, o dólar voltou a subir e a Bolsa a cair, dois indicadores econômicos a sugerir que as coisas não vão tão bem como ela gostaria.

Atribuir as dificuldades pelas quais está passando a condução da economia apenas à crise externa, à má vontade da grande imprensa, que é real mas não é de agora, e à propaganda  negativa da oposição baseada na alta da inflação, não resolve o problema. De uns tempos para cá, os ventos mudaram e sente-se no ar um clima difuso de mal estar e falta de confiança nos rumos do país, que atinge principalmente os investidores, personagens vitais para a retomada do crescimento.

Certamente não é por outro motivo que os principais candidatos da oposição, o senador tucano Aécio Neves e o governador Eduardo Campos, do PSB, velho aliado do governo petista, priorizam contatos com os maiores agentes econômicos e financeiros em suas pré-campanhas.

Dilma continua dando prioridade absoluta às classes mais pobres, onde se encontra a grande maioria do eleitorado, mas não se deve esquecer que, se os grandes empresários e as classes médias tradicionais não têm muitos votos (nas últimas eleições em São Paulo, elegeram apenas um vereador, Andrea Matarazzo, que, aliás, vai ser o chefe da campanha de Aécio Neves no Estado) são eles que podem dar ou não as condições econômicas para se manter os atuais níveis de renda e de emprego, principais trunfos do governo na campanha pela reeleição.

Sabe-se que é deles e dos setores financeiros inconformados com o corte nos juros e nas tarifas de energia, entre outras, que partem as maiores pressões pela substituição de Guido Mantega no Ministério da Fazenda, mas outro fato real é que Dilma o mantém no posto não só por birra ou pela simpatia que tem pelo ministro, mas também porque não é fácil a esta altura encontrar um substituto.

Vamos ser francos: quem temos no mercado para oferecer a Dilma que possa exercer o papel de Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco Central, pau da barraca da política econômica dos governos Lula, ainda outro dia lembrado pelo ex-presidente? Na verdade, quem acumula esta função hoje é a própria presidente Dilma, obrigada pelas circunstâncias e também pelo seu estilo centralizador, a ser ela própria a formuladora tanto da política econômica como da articulação política no Congresso, exatamente pela solidão que vive no governo.

Dilma precisa urgentemente sair do círculo de ferro em que está e se encontrar mais com representantes de diferentes setores da sociedade, viajando pelo país não só para inaugurar e anunciar obras e, sem a solenidade que paira nos encontros palacianos, ouvi-los sobre a realidade em que vivem e discutir propostas para o futuro para resgatar a credibilidade nos rumos e objetivos do seu governo.

Enquanto tudo ia muito bem e as pesquisas de popularidade e intenção de votos da presidente batiam recordes sobre recordes, o marqueteiro João Santana foi ocupando o vazio deixado pelos ministros da articulação política e ganhando cada vez mais os ouvidos da presidente nas principais decisões do governo. Foram importantes os pacotes de bondades anunciados para as classes C, D e E, bem explorados em comerciais e redes nacionais de televisão, mas a fórmula parece já não ser suficiente, como mostraram as pesquisas mais recentes do Datafolha e do Ibope, com seus índices em queda.

Para discutir o que fazer, após o evento no salão nobre do Palácio do Planalto na quarta-feira, Dilma chamou a seu gabinete os mesmos ministros de sempre e, claro, o onipresente marqueteiro João Santana para discutir se deve fazer mais um pronunciamento em rede de televisão sobre o programa que acabara de anunciar. Como informa Vera Magalhães, no Painel da “Folha” desta quinta-feira, Dilma foi aconselhada nesta reunião a cancelar uma viagem que faria hoje ao Rio e ir para o Paraná “tomar uma injeção de Lula” num encontro do PT.

Seria bom, por exemplo, que ela aproveitasse esta viagem para encontrar também outras pessoas e deixa-las à vontade para falar como estão vendo o Brasil neste momento e o que poderia ser corrigido nos rumos do governo. Se me permitem a ousadia, gostaria de dar um conselho à minha amiga Dilma: conversar mais, com mais gente, ouvir mais e se aborrecer menos com as críticas.

Givanildo prepara lista de dispensas

PSC Fabio Sanches e Ze Antonio-Mario Quadros

O Paissandu se reapresenta nesta segunda-feira e o técnico Givanildo Oliveira prepara uma lista de dispensas, que deve ter 14 nomes do elenco atual de 42 jogadores. A barca deve desatracar da Curuzu antes da pré-temporada a ser definida nesta semana, aproveitando a pausa na Série B provocada pela Copa das Confederações. O local mais provável dos treinamentos é Barcarena, mas a diretoria ainda analisa proposta para levar o grupo para Macapá. Quanto às dispensas, extraoficialmente, os mais cogitados na Curuzu são o goleiro Paulo Rafael, os zagueiros Diego Ourém e Tiago Costa, o lateral Rodrigo Alvim, o volante Esdras e o atacante João Neto. O enxugamento do elenco servirá para que reforços como Fábio Sanches, Zé Antonio (foto), Jean, Marcelo, Diego Barbosa e Marcelo Nicácio possam ser melhor aproveitados. (Com informações da Rádio Clube)

Protestos de rua: ode à baderna!

Por Leandro Fortes

Um dos discursos mais comuns à direita brasileira é esse: peçam o que quiserem, digam o que quiserem, mas não façam baderna. E, sobretudo, não atrapalhem o trânsito. Não por outra razão, qualquer cobertura da mídia nacional sobre passeatas, manifestações e grandes movimentações de massa acabam, sempre, em manchetes de trânsito. Os camponeses foram a Brasília pedir reforma agrária? Atrapalharam o trânsito. As mulheres da Marcha das Margaridas invadiram as Esplanada dos Ministérios para pedir saúde e educação no campo? Provocaram engarrafamentos. A moçada parou São Paulo para reclamar do aumento da tarifa do transporte público? O promotor mentecapto, parado no trânsito, pede a PM para espancar e matar os manifestantes. Afinal, o filhinho dele está na escola. Mas como chegar para pegá-lo a tempo, se os bárbaros impedem o trânsito?
Quando, além de parar o trânsito, os manifestantes fazem baderna, aí não! Aí já é demais! Não pode ter baderna. Tem que ser como aquelas passeatas pela paz na Zona Sul do Rio de Janeiro, todos de branco na Avenida Atlântica, copos-de-leite às mãos, o trânsito compreensivelmente parado para a procissão de cidadãos contritos. A polícia, claro, à distância, com as sirenes reverencialmente desligadas. Tudo assim, sem baderna, dentro da lei e da ordem. A manifestação do mundo ideal.
Pena que para quem pega quatro conduções por dia e gasta em média quatro horas dentro delas (ou esperando por elas) a realidade seja outra. No mundo do transporte público não tem hakuna matata. O pau come no ponto, no ônibus lotado, nas estações de trem e metrô diariamente conflagradas. Para o usuário de transporte coletivo, todo dia tem confusão e baderna, mas é difícil explicar isso para o mundo da Avenida Paulista. Para a classe média bem motorizada, as demandas do transporte coletivo são subterrâneas, confinadas a um universo específico sobre o qual só se tem notícia quando motoristas e cobradores entram em greve. É o dia em que a patroa de Higienópolis se inquieta porque a empregada vai chegar mais tarde ou, horror dos horrores, nem vem trabalhar. Quem vai fazer almoço? E os petizes, sob a guarda de quem ficarão no playground?
E, de repente, vem a baderna.
Multidões de cidadãos, jovens, velhos, brancos, negros, empregadas, office-boys, desempregados, professores, trabalhadores, trabalhadoras, desocupados. Baderneiros. Quebram ônibus, depredam vidraças, picham paredes, revolvem a cidade e deixam marcas no asfalto.

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O horror, o horror!

Então, todos se unem contra a baderna. Podem pedir o que quiserem, podem se manifestar, cruzar as ruas com bandeiras, mas, por favor, não atrapalhem o trânsito. Políticos de todos os matizes se unem para bradar: baderna, não! Antigos militantes de esquerda que ainda acham um lindo momento histórico as barricadas de Paris, em 1968, estão, ora vejam, revoltados com a baderna. Pedras, paus, coquetéis molotov, é preciso conter os bárbaros e acabar com a baderna. Não interessa se eles vivem em panelas de pressão, amontoados em latas automotivas superlotadas, se ganham uma miséria e, agora, terão que pagar mais 20 centavos pelo mesmo sofrimento diário. O que importa é que eles, baderneiros, estão atrapalhando o trânsito.
Então, a solução é descer a porrada. Passar a borracha no lombo desses baderneiros, enfiar-lhes o cassetete na cuca, tocar o gado revoltado para o corredor polonês.
Que a violência policial contra os manifestantes venha do governo de São Paulo, não causa espécie a ninguém. O PSDB é um partido de direita, o governador Geraldo Alckmin é um numerário da Opus Dei, organização católica de extrema-direita, e a PM de São Paulo é um substrato intocável do aparato policial-militar herdado da ditadura. Os policiais que tomaram o centro da cidade para espancar e prender manifestantes e jornalistas são os cães de guarda desse sistema. Não há disfunção alguma no que estão fazendo: eles existem, basicamente, para isso. Para tocar a negrada a pau, para dar paz a Higienópolis e garantir a brisa fresca de domingo nos Jardins. Dessa gente e de sua guarda pretoriana devem cuidar, nas próximas eleições, o povo de São Paulo.
Mas, onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro.
Nessa vergonhosa escalada de violência tocada pelo governo tucano de São Paulo, não podia faltar, claro, o apoio da mídia. Não há manifestantes para a ela, mas só baderneiros. Manifestantes são franceses, suecos, turcos, chineses. No Brasil, são vândalos e desocupados interessados em depredar o patrimônio público, como se a imprensa brasileira, hoje povoada de engomadinhos formados em cursinhos de trainee, alguma vez tenha se preocupado, de fato, com a segurança física dos ônibus usados pelos pobres.
Perdão, gente indignada com os vândalos. Mas entre a hipocrisia e a baderna, eu fico, alegremente, com a segunda.

O grande trunfo da velocidade

Por Gerson Nogueira

bol_seg_170613_23.psHá gente que se entusiasmou a ponto de entender que o Brasil já tem um time. Em formação, mas um time. Mestre Tostão foi enfático nessa crença. Continuo cabreiro. A vitória sobre o Japão empolgou em alguns momentos, embora apresentando quedas preocupantes de qualidade em instantes importantes do jogo. Cabe observar também que o adversário não é exatamente uma referência no primeiro escalão do futebol mundial.

Ainda assim, com todas as cautelas, deu para perceber sábado que a Seleção Brasileira começa a ganhar uma estrutura competitiva, alicerçada no que há de mais precioso e ao mesmo tempo mais traiçoeiro nesse time: a jovialidade.

Com a exceção de Júlio César e Fred, dois jogadores acima da faixa dos 30 anos, o restante do time titular é quase todo formado por jovens atletas, com maior concentração de garotos no setor fundamental do meio-de-campo, onde pontificam Oscar, Paulinho, Luiz Gustavo e Neymar, que também funciona como meia em determinadas situações. Na suplência, Felipão conta ainda com Fernando, Hernanes e Jadson.

Técnicos não costumam abrir o jogo quanto aos planos imediatos ou futuros, mas está claro que Felipão que concentra todas as suas fichas na capacidade de dar velocidade ao time. E está certíssimo. Significa basicamente fazer com que os passes possam fluir rapidamente, envolvendo os adversários e explorando o fôlego privilegiado que a equipe tem.

Desde que o futebol ainda engatinhava no aspecto profissional o conceito de velocidade se destaca como um dos mais importantes. Hungria de 1954, Brasil de 1970, Holanda de 1974 e a Espanha de 2010, cada um à sua maneira, são times que aliavam formidável capacidade de sair rapidamente do próprio campo, valendo-se do excepcional talento de alguns atletas. Os mais rápidos sempre conseguem sobrepujar os sistemas de marcação, por mais rígidos que sejam.

Não se pode afiançar que apenas por ser veloz um time está no panteão dos grandes, mas quando consegue aperfeiçoar essa virtude se impõe frente aos concorrentes. Espanha e Alemanha, as duas melhores seleções da atualidade, baseiam sua força essencialmente na transição rápida e no esmero para envolver a marcação inimiga através de triangulações e tabelinhas em alta velocidade.

Além do golaço de Neymar, da presença marcante de Paulinho no meio e da criatividade de Oscar na armação, o Brasil que derrotou o Japão deu pistas de que pode vir a jogar como os melhores times do mundo. Não podia haver melhor notícia a esta altura.

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Espanha cada vez mais azeitada

Quem viu, ontem à noite, a Espanha encarar o Uruguai com desenvoltura e certa facilidade certamente ficou impressionado. Do time campeão mundial na África do Sul, em 2010, para a equipe que conquistou a última Eurocopa já era possível notar uma evolução expressiva. Pois o que parecia quase impossível parece ter se materializado: a Fúria engrenou ainda mais, com os mesmos jogadores.

Vicente Del Bosque conseguiu fazer com que o time flutue quase sem esquema definido, apenas centrado na incessante troca de passes, com tanta perfeição que às vezes até desanima os adversários. Contra os uruguaios, que são bons marcadores, essa vantagem ficou ainda mais evidente.

Quando Iniesta e Xavi, motores do time, põem aquele carrossel para funcionar a Espanha se torna praticamente imbatível. Quebrar o passe e interromper a velocidade são desafios de qualquer adversário que os encare. No papel, parece missão plenamente possível. Na prática, não é tão simples assim.

Luiz Suarez, o craque uruguaio, terminou a partida extenuada e admitindo humildemente que é muito difícil marcar os espanhóis. A questão é de tempo e espaço. Contra outros times, o jogo acontece bastando marcar os homens. Contra a Fúria é necessário marcar homem e bola.

Depois do confronto de ontem, tenho dúvida se haverá adversário capaz de parar a Espanha nesta Copa das Confederações. A máquina está muito azeitada e jogando por música.

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Um show solo de Andrea Pirlo

No Marcanã quase lotado, a Itália surpreendeu positivamente na vitória sobre o México. Ao contrário de outros tempos, quando se notabilizava pela marcação quase bovina, a Azzurra desta vez dá mostras de que resolveu modernizar seu estilo.

Com a defesa forte de sempre, passou a ter meias ofensivos, que se aproximam de Mário Balotelli no ataque e tornam a equipe mais agressiva do que sempre foi. No meio, o maestro Andrea Pirlo encarrega-se de efetuar a articulação.

Apesar do jeito cadenciado, que ninguém se engane: a Itália não é mais a mesma. Está apostando também na diminuição de espaços e na concentração de bons passadores no meio-campo. Pirlo é apenas o decano, mas tem bons coadjuvantes.

Ontem, em particular, o veterano superou todos os seus discípulos, exibindo um estilo que todo craque deveria ter. Não descuidou um instante sequer da proteção aos zagueiros, mas foi impecável na distribuição. Foi presente no apoio aos homens de ataque, chegando até a sofrer um penal não marcado pelo fraco árbitro chileno. E, por fim, foi decisivo e magistral ao cobrar a falta que redundou no primeiro gol.

Pirlo é a prova de que, muitas vezes, a idade não atrapalha o talento.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 17)