Por Gerson Nogueira
Estou certo de que o torcedor, mesmo aquele mais distraído, percebe com clareza a sinuca de bico em que o futebol brasileiro está metido. Não que a situação seja recente. É claro que as mazelas acumuladas têm forte influência no cenário atual, desaguando na indigência técnica de times e jogadores em atividade no país.
É grande a tentação de culpar os técnicos pelo anacronismo das configurações táticas e a pobreza criativa das equipes. São, afinal, os responsáveis pelos ensinamentos repassados aos atletas, daí a fama injustificada de “professores” que muitos reivindicam.
Os treinadores têm lá sua parcela na história, mas não são os vilões principais. Há muito mais envolvidos nessa ópera bufa. A começar pela gestão do próprio futebol no Brasil, que passa obrigatoriamente pelos desmandos da CBF e suas federações filiadas.
Graças ao poder quase ditatorial dessas pessoas o Brasil só fez descer a ladeira da hierarquia futebolística mundial nos últimos 20 anos. O ensaio do desastre foi bem mais lá atrás, ali por volta de 1970, quando a força da cartolagem começou a se fazer notar. Até então, dirigentes de futebol lucravam com benesses e tráficos de influência, mordomias diversas, mas não faturavam a fábula de dinheiro como nos dias que correm.
A ascensão do futebol como negócio de dimensão planetária coincide com a derrocada do esporte como arte pura no Brasil. Parece uma visão simplista de um troço tão complexo, mas não precisa ir muito longe para atestar o fato. Enquanto craques como Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos e outros eram incensados pelo simples talento, mas não eram vistos como investimentos lucrativos, conseguiam jogar bola em paz.
Pode-se, por conta disso, afirmar que a força destrutiva da grana está na raiz deste monumental problema brasileiro. Nada contra o lucro e a adoção das práticas mercadológicas como ferramentas a serviço do esporte. A desgraça é que, como quase tudo neste país tropical, a preocupação em acumular riqueza costuma vir em embalagem predatória, sem a mínima preocupação com a galinha dos ovos de ouro.
A Lei Pelé, que almejava dar independência aos atletas, estabeleceu um novo aleijão: além dos tubarões que dominam os clubes, agora existem as figuras do “empresário” e “procurador”, tão ou mais vorazes que os primeiros.
Os garotos bons de bola não têm mais tempo de crescer e amadurecer. Ao menor indício de que podem propiciar lucro, são imediatamente transformados em moedas de troca. Talvez por isso o futebol esteja cheio de promessas que não vingam. Como sempre foi um celeiro natural de craques, o Brasil ainda é olhado como mercador exportador, mas a baixíssima qualidade de seguidas safras aos poucos vai apagando essa imagem. A fonte está secando.
Caso não haja radical mudança, de alto a baixo, da CBF às federações e ligas interioranas, o futebol continuará em marcha batida rumo ao nada. Times ainda conseguem lampejos de glória na esmaecida Libertadores, mas na disputa com outras seleções fica evidente a disparidade técnica.
Os antigos fregueses agora são os donos da festa. Os brasileiros entram (quando muito) como coadjuvantes. Não sei por vocês, mas ainda não me acostumei com a ideia de ser apenas plateia. Infelizmente, pelo menos por mais alguns anos, este é o papel que nos foi reservado – por direito.
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O exército Brancaleoni do Baenão
Não fosse o Remo dirigido por uma comissão técnica podia-se até desconfiar de simples estratégia. É tanta desgraça vindo dos lados do Baenão que alguns torcedores do Paissandu chegaram a pôr em dúvida a real quantidade de desfalques que Flávio Araújo tem para o jogo de amanhã.
Acontece que, para aflição dos remistas, a bruxa parece realmente desembestada. Além dos ausentes por suspensão (Carlinho Rech, Mauro, Val Barreto e Branco), o treinador não pode contar com Zé Antonio, também vitimado por virose fulminante e ainda tem Leandro Cearense praticamente descartado pela mesma razão.
O futebol é useiro e vezeiro em situações que opõem fortes contra fragilizados. No primeiro confronto, o Paissandu tinha essa condição mais tranquila e daí vinha seu favoritismo. O Remo, para surpresa geral, acabou vencendo. Para o segundo embate, nessas circunstâncias, a dose se repetirá?
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Direto do Facebook:
“Nosso futebol é superado. Nosso técnico está superado. Nossos jogadores são medianos. Não tem esquema, jogadas, jogadores e só aquele idiota do Galvão vai ser campeão na Copa de besteiras!”.
De Edyr Augusto Proença, definitivo, sobre as chances nacionais no Mundial.
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Sobre “discipular” e “mentorear”
Tropeço, nas redes sociais, com um inusitado cartaz convocando para um “curso de capelania”. O evento é organizado por atletas de Cristo e previsto para São Paulo. A intenção declarada é “capacitar pessoas que trabalham com atletas nos mais diferentes níveis” para “discipular” e “mentorear”. Não sei bem o que é isso, mas deve até ser um baita seminário, capaz de transfigurar corações e mentes. Duro é testemunhar a tortura cruel da língua pátria, com requintes de perversidade.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 26)





