Conexão África (26)

Erros que começaram nas escolhas

Júlio César foi o primeiro a falar com a imprensa, dando a cara a tapa, admitindo sua falha (com Felipe Melo) no gol inicial holandês. As palavras do goleiro são corajosas, mas não explicam tudo o que houve com o Brasil no segundo tempo da partida, depois de aplicar um baile de bola na fase inicial. A segurança quase intransponível da zaga ruiu justamente ali e os demais setores acabaram afetados por isso.
A bola alçada na área despretensiosamente por Sneijder gerou uma trombada espalhafatosa entre Felipe Melo e o goleiro Júlio Cesar e foi parar nas redes. Gol injusto para a produção das equipes até ali, mas que evidenciou fragilidades até então escondidas (desde outubro do ano passado, quando ocorreu a última derrota). Os holandeses continuaram em cima, sentindo a instabilidade brasileira, e a virada viria em outra jogadinha manjada, uma linha de passe em cobrança de escanteio não interrompida pelos altos zagueiros brasileiros. O golpe definitivo viria com a expulsão de Felipe Melo, aos 28 minutos, após pisar no arisco Robben.
Ouço aqui a entrevista de Dunga, que corrobora meu modo de ver as coisas. Foram tempos distintos na partida e a Holanda venceu por ter desprendimento para reverter um placar inteiramente adverso na primeira metade. Mais que isso: teve a sabedoria de entender que só havia um jeito de quebrar o passe do Brasil, que até então se apresentava veloz e insinuante. Nada tão revolucionário assim: passou a atirar bolas na área, aproveitando-se de faltas seguidas cometidas sobre Robben e Van Persie.
Em seguida, Dunga cita as estatísticas para justificar ter mantido Gilberto Silva e a explosão intempestiva de Felipe Melo, só não explica a substituição de Luís Fabiano por Nilmar, que não teve forças para superar a zaga holandesa. Grafite, jogador mais afeito ao choque e ao jogo aéreo, permaneceu no banco. Também não disse porque lançou Gilberto na lateral-esquerda e deixou Daniel Alves no meio, sendo este mais talhado para jogar pelas laterais.
Dunga não disse, mas é óbvio que a vitória holandesa teve imensa contribuição brasileira. Apesar da boa leitura de jogo do técnico holandês Marwijk, que centrou sua estratégia em Sneijder, Robben e Van Bommel, os erros gritantes de marcação e cobertura deixaram o campo livre para a troca de passes que exauriram o fôlego e o ânimo dos brasileiros. Nos minutos finais, ficou patente a impotência para mudar os destinos da partida. Kaká e Robinho, os mais criativos, perdiam-se entre os zagueiros, extenuados pela forte produção do primeiro tempo.
Nem sempre as críticas a Dunga foram bem compreendidas. O próprio técnico reagiu com ira e intolerância quando sua lista de 23 nomes foi anunciada, priorizando a lealdade (Gilberto Silva, Josué, Felipe Melo) ao talento (Ganso, Ronaldinho, Neymar). Naquela ocasião, minha preocupação foi com a possibilidade de um confronto como o desta sexta-feira, contra uma equipe sólida, entrosada e consciente de seus limites. A Holanda se postou assim nesta tarde em Porto Elizabeth, fazendo em 45 minutos uma apresentação apenas eficiente, mas suficiente para superar um time que não soube reagir a uma situação adversa de jogo. Um time sem a segurança necessária para se recompor diante de um placar desfavorável não pode ir longe, principalmente numa Copa do Mundo. A Seleção sai como entrou, sem brilho ou encantamento. À imagem e semelhança de seu zangado comandante.

A vida é escolha e, para esta Copa, o Brasil escolheu muito mal – técnico e jogadores. Diante do espetáculo (já visto em 2006, na Alemanha) de  torcedores chorando pelas arquibancadas e cercanias do estádio, só resta torcer, nesta noite sul-africana clara e quente, para que os próximos quatro anos passem rapidamente. E que venha outra Copa, com outro time e um novo técnico.

Um caso de teimosia crônica

Ainda no calor dos acontecimentos, lembro que Felipe Melo, eleito por Dunga como seu titular absoluto do meio-campo e xerife da Seleção, já havia denunciado esse despreparo emocional em outras jornadas. Até em amistosos preparatórios, exibiu essa face brucutu, ironicamente razão da admiração do Capitão do Mato por seu futebol. Ninguém pode culpar, portanto, o volante da Juventus pelo ocorrido diante da Holanda. Nunca foi craque, sempre foi lambanceiro, só não viu quem não quis. Sua presença no time é a maior prova da incoerência e desinformação do comandante.

De volta a Johanesburgo

Nossa equipe DIÁRIO/Rádio Clube, que veio de Johanesburgo até Porto Elizabeth por estrada, perdeu a chance de ir à Cidade do Cabo, onde será disputada uma das semifinais. Geo Araújo e eu continuaremos, porém, em Johanesburgo, cobrindo a Copa até o seu final. O espetáculo tem que continuar.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste sábado, 3)

6 comentários em “Conexão África (26)

  1. ‘EU JÁ SABIA’, como diz aquela placa que a Tv costuma mostrar nos intervalos.
    Um ‘técnico’ empurrado goela a baixo pelo todo-poderoso RT, em detrimento de um verdadeiro e vencedor que é o Filipão (este que tbém tem a virtude de não aceitar imposições interesseiras); jogadores, como o ‘Fabuloso’, que bem antes da convocação anunciada já estavam comprometidos com a Brama, WV e outras marcas milionárias, sendo 21 deles também convocados porque professam certa religião, etc, tudo já estava se encaminhando para a derrocada. Uma improvável vitória somente viria a favorecer ainda mais a continuidade de um feudo que vem desde J. Havelange, graças ainda aos seus ‘desinteressados’ eleitores, incluindo o ‘grande’ coronel Nunes.

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  2. Certamente a corda teria que arrebentar na sua parte mais frágil. Muitos erros sim, convocações como a citadas por GN endevidas e a permanência como títular de Felipe Melo, este sim, o maior culpado pelo desastre. Como torcir para que não se recuperasse da contusão. Kaká e Robinho ficaram sobrecarregados e com pesados fardos de responsabilidade diante das expectativas, como se fossem os salvadores da pátria e Júlio César até então tão seguro, falhou. O primeiro tempo provou que o Brasil, mesmo sobre a direção técnica de Dunga e seus escolhidos, tinha condições de apresentar um bom futebol e caminhar até ao título, perdendo nos detalhes que todo o clássico exige, no caso maior atenção. O descontrole emergiu após o gol de empate e da forma como aconteceu, o segundo o golpe mortal. Dunga será criticado até a exaustão e os poucos melhores momentos da seleção, ficaram no esqueciemnto por conta das cobranças. O Brasil saiu da copa de luto a caráter. Cruz credo.

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  3. Assino embaixo sua coluna de hoje, Gerson. Os Dirigentes do Futebol brasileiro, tem que ter mais responsabilidades, na hora de contratar um bom técnico para nossa seleção. Só no Brasil, que, técnicos como Luxemburgo e Felipão, ficam treinando clubes e, se inventa da noite pro dia um comentarista de tv e ex jogador profissional, para ser técnico e, ainda por cima, de uma seleção Penta campeã mundial. Futebol, mexe com a vida dos torcedores e, portanto, precisa ser visto com um alto grau de profissionalismo. Quando vc quer inventar a qualquer custo um técnico, ou dar condições a um técnico, que não entende de tática no futebol, enquanto os jogadores forem levando, tudo bem, mas na hora que precisar, em um jogo difícil(e isso era provável de acontecer, pois se trata de um torneio com os melhores jogadores do mundo), do “dedo” desse técnico, aí, pode ser tarde, como foi ontem. Amigos, vc perdendo o jogo e ele dá uma de Mariozinho, Charles Guerreiro,…. e, me tira o homem de referência, o nosso matador(Luiz Fabiano) e coloca o Nilmar. Te contar( diria o Gerson). Quando ele tirou o Michel Bastos, na minha opinião, era pra ter colocado o Nilmar e, ter saído dos 3 volantes, para 2, colocando o Daniel Alves na Lateral esquerda. Não conseguindo empatar, teria tirado já aos 25 minutos o Felipe Melo, que estava pedindo para ser expulso e, colocaria o Grafite, com o Daniel, alternando a esquerda e meio campo, segurando mais o Kaká, pois, no segundo tempo, seu técnico fez 3 mexidas táticas, que a meu ver foram fundamentais para a virada da Holanda: o número 6 da Holanda não dava tantos espaços a Kaká. A zaga ficou com um homem bem na sobra, para matar aquela entrada em diagonal do Robinho, que vinha dando certo no 1º tempo e, a aproximação de Sneijder a Robem, nas costas do Michel Bastos, pois Robem jogou isolado na esquerda, no 1º tempo. Agora, só tem tranquilidade para mexer, mesmo perdendo um jogo, quem entende do assunto e, é dentro de campo, que se conhece um bom técnico, pois pode até perder um jogo, mas suas mexidas e explicações, são totalmente coerentes, mesmo em ocasiões em que um ou outro jogador que entre, não renda. Penso que, essa eliminação, foi bom para a seleção, pois, depois de Dunga, já estavam falando em Leonardo e a brincadeira iria continuar(é aquilo que falo, Gerson, faz as coisas erradas e, as vezes acaba dando certo), agora, certamente colocarão para treinador, um nome de peso e de concenso do torcedor brasileiro. Só um aviso: Felipão e Luxemburdo, ainda entendem e muito de Futebol. Só falta entender, também, os nossos Dirigentes. É bom dizer, que o que falei, acima, vale para o nosso futebol Local, que não é muito diferente, aliás, ultimamente, está bem pior.
    – Estava com problema em minha Internet, amigo Gerson, espero que o problema esteja totalmente solucionado.

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  4. Claudio, concordo com o que defendes. Desde há muito penso assim . Técnico e comentarista dispensam a experiencia como jogador, até porque
    no futebol, a maioria não conhece os fundamentos do esporte que tornou-lhe ptofissional.
    João Saldanha, até onde sei, nunca deu uma bicuda e consagrou-se como jornalista. Como treinador rápida passagem pela seleção e pelo Botafogo o que não impediu seu estrelato.
    Felipão como jogador fou brucutú. Vanderley como jogador foi apenas regular. Tele, também regular como jogador, brilhou como técnico.
    Em relação ao comentarista, poucos sairam das quatro linhas. Até mesmo o Rei não conseguiu trazer para os comentarios suas qualidades de jogador fora de ´serie. E assim, Claudio, o futebol é regido.

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  5. O que se ouve e se lê de FIFA e CBF, a escolha pode ter sido correta, ou seja, um técnico-ator, que estava ali para termos este resultado. Por que Felipão não aceitou em 2006 e 2010, e agora ele está se oferecendo?Algo existe entre a Fifa e CBF que a nossa Vã filosofia desconhece.

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