O Águia jogou como campeão, teve aquela tal atitude vencedora, como gostam de dizer os gurus da motivação. Começou recuado, aparentemente cauteloso e respeitador, permitindo ligeira pressão remista, que em nada resultou. Mas, assim que a oportunidade se apresentou, lá estava o time de João Galvão preparado para aproveitar. No primeiro tempo, a única chance permitida pelo Remo resultou em gol. Bola alta na área, zaga afasta mal e Samuel Lopes aparece, fulminante, para finalizar.
A partir daí, o desenrolar do confronto foi uma sucessão de chutes para o lado, bolas rebatidas e nenhuma tentativa lúcida de envolver o adversário. Um jogo feio, sem técnica ou dribles vistosos. Acontece que decisões costumam ser assim mesmo, disputadas na vontade e deixando de lado a categoria. O Águia entendeu isso desde o começo. O Remo, não.
Enquanto a equipe marabaense fazia o tempo passar e não brincava em serviço quando a bola rondava sua área, os azulinos insistiam na condução e nos passes laterais, demorando para organizar jogadas e facilitando o trabalho da marcação.
A coisa ficou tão sob feição para o Águia que, no primeiro tempo, o goleiro Inácio só espalmou bolas cruzadas. Não precisou fazer nenhuma defesa arrojada ou sair para impedir uma finalização. O Remo não ameaçou. Ciscava muito, mas não agredia. Num jogo decisivo e com o placar em desvantagem, agir assim é encomendar a derrota. Essa sentença se confirmaria logo no começo do segundo tempo.
Aos seis minutos, antes que o Remo pensasse em reagir, veio a sentença final. O ala Vítor Ferraz pegou uma bola junto à área e, como ninguém lhe combatia, foi avançando. Quase na risca da pequena área, bateu rasteiro e marcou o segundo gol, fechando definitivamente a contagem. Descrito assim, o lance parece fácil – e foi.
Ali, sob o símbolo da apatia, morria a participação do Remo no campeonato. Ao contrário, o Águia começava a festejar a merecida conquista. De lanterna do 1º turno, emergiu para uma campanha quase impecável na segunda fase. Nas finais, diante do Remo no Mangueirão, jogou com maturidade. Perdeu pela contagem mínima e preparou-se adequadamente para o jogo da volta, sabendo que só precisaria ter afinco e disciplina para alcançar a vitória, que veio até com facilidade.
O Remo consolida-se como terceira força do futebol paraense. No ano passado, foi alijado das finais do campeonato pelo S. Raimundo. Desta vez, pelo Águia. No âmbito nacional, ficou sem divisão em 2009. Agora, vai disputar a Série D, um degrau abaixo dos outros representantes estaduais – Paissandu, Águia e S. Raimundo –, que jogam a Série C. Quem se acomoda com o papel de coadjuvante está a caminho do limbo.
Sem alarmismo, cabe dizer que foi exatamente assim que a Tuna iniciou sua viagem ao inferno. Começou a perder espaço nos torneios regionais, sendo ultrapassada por forças intermediárias até sumir definitivamente do cenário. O Remo, que investe cada vez mais no ramo imobiliário, que se cuide. Pode acabar perdendo o trem da história.
(Coluna publicada no Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 24)