
Comício desta sexta-feira, 17, em Maceió (AL). Foto: Ricardo Stuckert
Por Ruy Castro

O mundo inteiro, agora, sabe quem é Bolsonaro
Em 2020, no auge da Covid, Jair Bolsonaro preferia passear de jet ski a visitar os hospitais abarrotados e solidarizar-se com os profissionais que arriscavam a vida. Enquanto brasileiros morriam por falta de oxigênio, Bolsonaro imitava uma pessoa lutando para respirar. Já então eram-lhe oferecidas vacinas, que ele desprezava em função da cloroquina. E, quando os cemitérios tiveram de abrir covas rasas para comportar milhares, ele celebrou essa tragédia com uma frase: “E daí? Não sou coveiro”.
Agora Bolsonaro terá de ser coveiro. Está diante de dois mortos que o mundo não deixará insepultos: o indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. Queira ou não, são seus mortos, assassinados pelos exploradores, traficantes e pistoleiros a quem ele entregou a Amazônia. Por “ele”, leiam-se Bolsonaro ele mesmo, seu cínico vice-presidente Hamilton Mourão, presidente decorativo do Conselho Nacional da Amazônia, e o ex-ministro Ricardo “Boiada” Salles.
Bruno e Dom foram mortos a tiros, esquartejados, possivelmente incendiados e enterrados na floresta. Não se sabe a que se reduziram seus corpos —ou “remanescentes humanos”, como foram chamados pelas autoridades. É insuportável imaginar que dois seres humanos, até há pouco na plenitude de suas forças e virtudes, sejam neste momento material de laboratório e, pior ainda, em Brasília, não muito longe do homem que os responsabilizou pela própria morte chamando-os de “aventureiros” e “excursionistas”.
Seja o que tiver restado deles, mesmo que uma unha, terá de ser entregue às suas famílias e sepultado —Bruno, aqui mesmo, e Dom, quem sabe em seu país. Era o que Bolsonaro mais temia: a prova física do crime. A partir de agora, ninguém mais, em qualquer parte, poderá dizer que o desconhece.
Os coveiros da Covid eram heróis. O coveiro da Amazônia pode ser chamado de muita coisa — você escolhe.

“Hoje, Bolsonaro, o Centrão e toda a turma bolsonarista vai tentar fazer parecer que é contra o aumento dos combustíveis. Mas, atenção, povo brasileiro! A verdade é que eles NÃO TÊM coragem de enfrentar o mercado. Se tivessem, decretariam o fim da política de preços dolarizados”. Bohn Gass, deputado federal PT-RS
“Agora a Petrobras virou uma “República Independente”. É tanta mentira pra esconder a covardia desse governo”. Ivan Valente, professor e engenheiro

Por Regina Helena Paiva Ramos (*)
15 de junho de 2022. Lua deslumbrante vigia o céu. E o país enluarado vai dormir, hoje, com a notícia dolorosa do encontro de restos mortais de Bruno Pereira e de Dom Phillips. Tínhamos certeza da morte deles. Mas quando a notícia chega o horror se instala. Brasil irá dormir, hoje, sob o signo do horror. É a palavra certa? Não sei. Que termos existem pra qualificar tudo isso?
Assisti anteontem entrevista do ex- superintendente da Policia Federal na Amazônia, delegado Alexandre Saraiva e assustei com a clareza dele. Disse nomes de políticos da Amazônia que defendem o ilícito na região. Os nomes, o Estado que representam e o partido que os acolhe. Falou da ausência do Estado na região. Ausência que permite o avanço da ilicitude, do crime. Falou da falta de equipamento: lanchas, helicópteros, armas.
E quem esteve atento à tevê nestes dias viu o presidente da República falar que “a região é perigosa, os caras foram lá sem avisar a Funai”, chamou-os de aventureiros. Não era aventura. Era trabalho. Em licença não remunerada da Funai Bruno trabalhava para a Univaja – União dos Povos Indígenas do Vale do Javari. Sobre Dom, o homem do Planalto disse que era mal visto na região por ter perseguido garimpeiros. Dom não perseguia ninguém, Dom procurava subsídios para um livro. E quanto a garimpeiros… ali só existe garimpo ilegal.
Resta saber agora quem mandou matar os dois: o garimpo ilegal, a pesca ilegal ligada ao narcotráfico, os madeireiros ou todos juntos, em consorcio? Os que confessaram os assassinatos estavam a mando de quem?
O ódio ao lícito domina a região. O crime avança. O horror navega em barcos velozes. As balsas do garimpo ilegal envenenam os rios. O desmatamento aumenta sem que se reprima nada. Funcionários zelosos são dispensados. O desprezo ao índio é a tônica de políticos da região. Não sei que palavras usar para descrever a morte de dois justos e o ódio que despertaram nos criminosos.
Horror. Tragédia. Crime. Vergonha. Tristeza. Safadeza. Brutalidade. Ganância. Demonismo. Sim. O demônio existe. E encarna nos viventes. Infelizmente domina vastas regiões e muita gente.
Só tenho vontade de chorar.
(*) Trabalhou na Band TV, jornal A Gazeta, revista Construção, Correio da Manhã e revista Manchete.
Por Mino Carta
Todos falam em democracia neste país que nunca a conheceu e, sobretudo, a praticou. Acabrunhadora a história do poder que as Forças Armadas exercem com absoluta tranquilidade na história nativa, desde o golpe destinado a derrubar a monarquia para impor a república, da qual os primeiros presidentes foram Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ambos generais.
Sempre foi poderosa a presença de um ministro da Defesa devidamente fardado, a não ser em raros momentos de lucidez, por exemplo, de Lula, quando em lugar do general foi chamado um civil perfeitamente habilitado a ocupar o posto. E aceitam-se, no país sem democracia, alguns mitos, entre os quais, o Duque de Caxias, autor do genocídio do povo paraguaio.
Com Bolsonaro chegamos ao ponto alto deste recurso ao poder militar, buscado, inclusive, para manter-se na Presidência a todo custo e enquanto for possível.
Recebo da excelente editora da seção Plural o seguinte recado: “A nuvem negra que encerrava o processo se espalha e responsabiliza o poder e o País no documentário Amigo Secreto, de Maria Augusta, sobre o impeachment de Dilma Rousseff. O novo filme da cineasta, a partir de uma linguagem documental e incisiva, evoca os mecanismos ilegais adotados pela Operação Lava Jato e o engajamento de Sergio Moro na prisão de Lula”. Que democracia é esta? Graças à propaganda midiática, um personagem deplorável sob todos os pontos de vista como Moro se torna herói.
O Estadão, para variar, um dos autores do apelo às Forças Armadas a favor do golpe de 1964, sustenta que Lula calado é um poeta. O jornal paulista afirma que, quando o ex-presidente fala a respeito da guerra da Ucrânia, diz o que CartaCapital afirma desde o momento do ataque de Putin. E reitera a igual prepotência e violência do imperialismo soviético e do Tio Sam. Já O Globo define Lula como um “desorientado com a cena global”. Ao que tudo indica, os jornalões empenham-se em defesa da ideia desastrada da via do meio.
A polarização neste momento é clara e a possibilidade de que ele vença no primeiro turno as próximas eleições de outubro soa como provável, ou mesmo algo mais, a demonstrar que o povo brasileiro percebeu a demência bolsonarista e não pretende partilhar dela. Falo de um povo que não chegou a ser nação por enquanto, exatamente porque por aqui a democracia não vigorou e não vigora. Ainda assim, a necessidade de nos livrarmos do bolsonarismo é agora prioridade absoluta, ainda que, depois dos golpes praticados em conjunto pelos ditos poderes da República, tenham expulsado da cena uma presidenta legitimamente eleita.
Tudo converge para uma única verdade: o País nunca foi verdadeiramente democrático.
Hoje, conforme o IBGE, 30% da população morre de fome e cerca do dobro teme sofrer a mesma sorte. Nunca tantos nativos dormiram nas calçadas, nunca tantos temeram o pior, nunca tantos já o vivem. Enquanto isso, Bolsonaro vai a Orlando e lá celebra o aniversário da Disney, evento retumbante que o induz a promover uma motociata para deslumbrar Tio Sam. E, naturalmente, o ex-presidente Trump, ainda cultuado, insisto, pelo nosso presidente, a maioria dos brasileiros o elegeu.
Prossigo na pergunta: seria esta a democracia? Cabe apenas perguntar a Bolsonaro se prefere Mickey Mouse ou o tio do Pato Donald, o Patinhas, que costuma mergulhar em uma piscina cheia de dinheiro até a borda.

Por Denise Assis, no Jornalistas pela Democracia

No primeiro dia (05/06) do desaparecimento, na Amazônia, do indigenista Bruno Pereira, (41 anos), e do jornalista, Dom Philips, (57 anos), ainda sem que houvesse uma investigação mais aprofundada, Bolsonaro declarou que eles se meteram numa “aventura” e que poderiam ter sido executados.
Não houve perguntas sobre a base para a sua afirmação. Tampouco agora, quando declarou à Rádio CBN de Recife que ambos talvez tenham sido submetidos a “alguma maldade”. Bolsonaro demonstra, desde o primeiro minuto, que quer dar ao tema um tom de “normalidade”, quando duas prováveis mortes, e tudo leva a crer, com requintes de tortura, nada têm de normal. A impressão que se tem é que ele sabe mais do que fala.
“Os indícios levam a crer que fizeram alguma maldade com eles, porque já foram encontradas boiando no rio vísceras humanas que já estão em Brasília para fazer DNA”. Calculou também, que pelo prazo entre oito e nove dias de desaparecimento, “vai ser muito difícil encontrá-los com vida. Peço a Deus que isso aconteça”.
Por enquanto, o pescador Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como “Pelado”, de 41 anos, é a única pessoa investigada por suspeita de envolvimento nos desaparecimentos. Ontem (12/06) as equipes de buscas encontraram pertences dos dois. Nesta segunda-feira (13/06), a mulher do jornalista britânico, Alessandra Sampaio, disse que os corpos dele e do indigenista foram encontrados. Mas as autoridades que atuam nas buscas, lideradas pela Polícia Federal (PF), não confirmam a informação.
Amarildo, o Pelado, foi preso na terça-feira, dia 07, e durante buscas na casa dele policiais militares encontraram uma porção de droga, além de munição de uso restrito das Forças Armadas. Na ocasião, foi também apreendida uma lancha, usada por ele.
No domingo, dia em que o indigenista e o jornalista desapareceram, ele foi visto por ribeirinhos passando no rio logo atrás da embarcação dos dois, no trajeto entre a comunidade ribeirinha São Rafael e a cidade de Atalaia do Norte, destino da dupla. Em sua lancha foram encontrados vestígios de sangue, mas ele alega inocência.
A partir daqui é preciso prestar a atenção em alguns detalhes que, no mínimo, poderíamos chamar de instigantes. Há quem vá se lembrar da “invasão” de cerca de 200 balsas de garimpo fazendo um verdadeiro paredão próximo às comunidades indígenas, naquela região. Aconteceu alguma coisa? Alguém foi punido? Não se tem notícias. Ou seja, há, no mínimo, uma leniência sobre os abusos e malfeitos que por lá acontecem. Houve denúncia do “sumiço” de 25 yanomamis. Apuração sobre o caso? A que resultado chegaram?
De acordo com o portal “Amazônia- Notícia e Informação”, do dia 10 de junho, segundo dados do Deter do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), “o mês de maio totalizou 900 km² de área sob alerta de desmatamento na Amazônia Legal. O número é o segundo maior em seis anos, ficando atrás apenas de maio de 2021 que totalizou 1.391 km² de desmate. Mesmo com os números de maio ficando atrás da soma dos alertas de 2021, o compilado dos cinco meses de 2022 já é cerca de 8% maior do que o ano anterior”. Em sua fala na Cúpula das Américas, Bolsonaro disse que o Brasil preserva a floresta.
O descaso tanto para com a Amazônia, quanto para com o trabalho de buscas fez eco lá fora. A alta-comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), Michelle Bachelet, classificou de “lenta” a ação para localizar os desaparecidos e painéis com os rostos de Bruno e Dom circulam pela Europa com a pergunta: onde estão?
E, detalhe: o fato de Amarildo portar armas de uso exclusivo das Forças Armadas não pode ser considerado irrelevante. Tampouco terem sido encontradas vísceras boiando no rio.
Era o ano de 1993, e eu estava prestes a embarcar para cumprir a pauta: “Araguaia, 20 anos depois”, (Revista manchete de fevereiro daquele ano) na companhia do então líder do PC do B, Haroldo Lima e da responsável pelo recrutamento e condução dos jovens que optavam pela luta no palco da selva. Antes, fui ter com um tenente que havia servido no Araguaia, num domingo à tarde, para tentar obter dicas e informações. Ele me recebeu com cordialidade e começou o seu relato, após o almoço. Desmentiu que os corpos dos guerrilheiros tenham sido queimados na Serra das Andorinha, e detalhou como eram obrigados a participar dos “desaparecimentos”.
Contou que abriam o ventre dos mortos, retiravam as vísceras e jogavam no rio, porque rapidamente elas seriam comidas pelos peixes. Em seguida colocavam pesos no interior dos corpos, os ensacavam e jogavam na água. Antes, porém, tinham o “cuidado” de cortar as cabeças e as mãos. As cabeças eram enterradas em sacos plásticos, depois de fotografadas. Quanto às mãos, eram enviadas para o Comando, a fim de identificarem os “abatidos”. Ao fim do relato ele vomitou no meu sapato. Teve pico de pressão e interrompeu o relato para ser hospitalizado.
No ano de 2014, em audiência à Comissão Nacional da Verdade (CNV), o agente do Centro de Informações do Exército e coronel do Exército brasileiro, Paulo Malhães, fez um relato muito parecido em seu depoimento público. Detalhou da mesma maneira o destino dos que combateram a ditadura no Araguaia. A impunidade e a permanência desses oficiais na formação dos quadros das Escolas Militares permitiram que o “modus operandi” fosse passado de geração a geração. É possível que os autores das “maldades” contra a dupla Bruno e Dom, tenham recebido esse tipo de treinamento. E não devemos descartar que tal como naqueles tempos, um “teatrinho” esteja sendo montado, antes do caso ser apresentado à sociedade. O tempo passa, os métodos não mudam.
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Por Ana Luiza Albuquerque e Marcelo Toledo, na Folha SP

Britânico que vivia no Brasil desde 2007 foi morto no Vale do Javari, na Amazônia, junto com indigenista Bruno Pereira, 41
Há 15 anos vivendo no Brasil, o jornalista britânico Dom Phillips, 57, assassinado no Vale do Javari, no Amazonas, estava escrevendo um livro que tinha tudo a ver com sua viagem a Atalaia do Norte (AM): “Como Salvar a Amazônia”. Qualificado pelos amigos como generoso, cuidadoso, gentil e solícito, Phillips, que foi morto junto com o indigenista Bruno Pereira, 41, cresceu em Bebington, cidade 8 km ao sul de Liverpool, na Inglaterra.
Quando jovem, tocava nas ruas em busca de dinheiro. Começou sua carreira jornalística cobrindo o cenário da música eletrônica e foi editor da revista Mixmag.
O britânico escreveu um livro sobre o nascimento da cultura dos DJs e, em 2007, viajou ao Brasil atraído por colegas da área musical. A ideia inicial era ficar alguns meses em São Paulo, mas se sentiu tão em casa no país que decidiu se mudar de vez. Ele também morou no Rio de Janeiro, onde gostava de andar de bicicleta e de fazer stand-up paddle, e, nos últimos meses, se mudou para a Bahia, estado de sua mulher, Alessandra Sampaio.
Em sua trajetória profissional morando no Brasil, Phillips passou muitos anos trabalhando como freelancer para o jornal britânico The Guardian. Também escreveu para The New York Times, Washington Post, Financial Times e The Intercept.
Ele conhecia muito bem a Amazônia e tinha uma grande experiência de trabalho junto aos povos indígenas, habilidades que adquiriu por ter se dedicado a essa cobertura praticamente desde o momento em que chegou ao país. Fez em sua trajetória várias viagens consideradas perigosas e viabilizou a produção do livro depois de ter sido selecionado para uma bolsa da Alicia Patterson Foundation.
Em 2019, Phillips se tornou alvo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) após questioná-lo em um evento a respeito da escalada do desmatamento na Amazônia. O vídeo foi replicado nas redes bolsonaristas e ganhou milhares de visualizações.
“Primeiro, vocês têm que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês. A primeira resposta é essa daí”, respondeu Bolsonaro ao jornalista que amava o Brasil e a Amazônia, conforme relatou sua mulher na semana passada, ao fazer um apelo para que o governo intensificasse as buscas pelos desaparecidos.
“Ele poderia viver em qualquer lugar do mundo, mas escolheu viver aqui”, disse.
Depois do episódio de 2019, que o abalou, Phillips passou a ser reconhecido na região amazônica como “o jornalista que levou um esporro do Bolsonaro”, relata o amigo Andrew Fishman, também jornalista, que contribui com o The Intercept.
Em sua jornada em terras brasileiras, foi voluntário para ensinar inglês em favelas do Rio e, na curta estadia como morador da Bahia, dava aulas numa ONG.
Suas últimas postagens no Twitter, em 31 de maio, foram de reportagens do The Guardian sobre a Rússia e da Folha sobre o apoio do agronegócio a Bolsonaro.

A mulher de Dom Phillips, Alessandra Sampaio (foto acima), divulgou uma nota nesta quarta-feira (15) comentando a notícia da confissão dos suspeitos de matar seu marido e o indigenista Bruno Pereira em Atalaia do Norte, no Amazonas.
“Este desfecho trágico põe um fim à angústia de não saber o paradeiro de Dom e Bruno. Agora podemos levá-los para casa e nos despedir com amor. Hoje, se inicia também nossa jornada em busca por justiça. Espero que as investigações esgotem todas as possibilidades e tragam respostas definitivas, com todos os desdobramentos pertinentes, o mais rapidamente possível”, disse a viúva do jornalista britânico.
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