O demônio existe

Por Regina Helena Paiva Ramos (*)

15 de junho de 2022. Lua deslumbrante vigia o céu. E o país enluarado vai dormir, hoje, com a notícia dolorosa do encontro de restos mortais de Bruno Pereira e de Dom Phillips. Tínhamos certeza da morte deles. Mas quando a notícia chega o horror se instala. Brasil irá dormir, hoje, sob o signo do horror. É a palavra certa? Não sei. Que termos existem pra qualificar tudo isso?
Assisti anteontem entrevista do ex- superintendente da Policia Federal na Amazônia, delegado Alexandre Saraiva e assustei com a clareza dele. Disse nomes de políticos da Amazônia que defendem o ilícito na região. Os nomes, o Estado que representam e o partido que os acolhe. Falou da ausência do Estado na região. Ausência que permite o avanço da ilicitude, do crime. Falou da falta de equipamento: lanchas, helicópteros, armas.
E quem esteve atento à tevê nestes dias viu o presidente da República falar que “a região é perigosa, os caras foram lá sem avisar a Funai”, chamou-os de aventureiros. Não era aventura. Era trabalho. Em licença não remunerada da Funai Bruno trabalhava para a Univaja – União dos Povos Indígenas do Vale do Javari. Sobre Dom, o homem do Planalto disse que era mal visto na região por ter perseguido garimpeiros. Dom não perseguia ninguém, Dom procurava subsídios para um livro. E quanto a garimpeiros… ali só existe garimpo ilegal.
Resta saber agora quem mandou matar os dois: o garimpo ilegal, a pesca ilegal ligada ao narcotráfico, os madeireiros ou todos juntos, em consorcio? Os que confessaram os assassinatos estavam a mando de quem?
O ódio ao lícito domina a região. O crime avança. O horror navega em barcos velozes. As balsas do garimpo ilegal envenenam os rios. O desmatamento aumenta sem que se reprima nada. Funcionários zelosos são dispensados. O desprezo ao índio é a tônica de políticos da região. Não sei que palavras usar para descrever a morte de dois justos e o ódio que despertaram nos criminosos.
Horror. Tragédia. Crime. Vergonha. Tristeza. Safadeza. Brutalidade. Ganância. Demonismo. Sim. O demônio existe. E encarna nos viventes. Infelizmente domina vastas regiões e muita gente.
Só tenho vontade de chorar.

(*) Trabalhou na Band TV, jornal A Gazeta, revista Construção, Correio da Manhã e revista Manchete.

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