Sobre competência e vaidade

POR GERSON NOGUEIRA

A incrível trajetória de Jorge Jesus à frente do Flamengo conquistando de uma só tacada o Brasileiro e a Libertadores, é façanha que continua a repercutir intensamente no clube carioca, com justa razão. O êxito do técnico português se espraia pelo resto do país, com torcedores de outros clubes também encantados com o bem que ele fez ao Rubro-Negro.  

Jesus não venceu sozinho. Teve nas mãos um time reforçado, extremamente aplicado e em altíssimo nível de competição. O mérito maior do técnico foi o de implantar conceitos e executar ideias que andavam em desuso no cenário brasileiro. Impôs um futebol ofensivo, que tinha sido escorraçado pelos sistemas medrosos das últimas décadas.

Chega a ser irônico que um treinador vindo da Europa, que há 50 anos praticava um futebol travado e mecanizado, tenha desembarcado em terras brasileiras para nos restituir a glória do jogo bem jogado e – mais importante – incutir no torcedor a noção de que praticar futebol bonito não significa necessariamente abrir mão do aspecto competitivo.

Gastaria todas as páginas do “Bola” discorrendo sobre os incontáveis méritos de Jesus no Flamengo – e ainda seria insuficiente. Ao mesmo tempo, a vida ensina que o sucesso fulgurante nunca vem sozinho. Traz muitas coisas boas a reboque, mas pode arrastar bagagem indesejável.

Um dos efeitos imediatos do êxito é a superexposição. Jesus é do tipo que não foge a um holofote, muito pelo contrário. Vive buscando o melhor ângulo para ser filmado ou fotografado. Passa um bom tempo ajeitando a cabeleira bem ao estilo do patrício CR7. Vaidade não é um problema, desde que tenha como suportes a competência e o profissionalismo.

Jesus é midiático. Adora uma boa polêmica, dá espetadas em companheiros de profissão e jogadores de outros times. Tenta usualmente extrapolar o papel de técnico de campo. No recente Brasileiro, arranjou arengas com Renato Gaúcho, Alberto Valentim e Argel.

Tudo isso ficou em segundo plano diante do tamanho de suas vitórias. Qualquer excesso é relativizado quando a bola está entrando e as taças se acumulam. Muita gente anotava os pecadilhos de Jesus, mas, até por cautela, evitou expor críticas.

Maluquice sair detonando o técnico campeão brasileiro e continental, idolatrado pela maior torcida do país. Tudo foi aceito até que o tempo, sempre ele, começou a agir. As glórias são rapidamente esquecidas. O prazer efêmero é uma praga do nosso tempo.

A última grande celebração rubro-negra ainda nem completou três meses e o Mister já enfrenta borrascas em sua relação com os dirigentes e ídolos do Fla. Sua insistência em cultivar dúvidas sobre a permanência na Gávea não tem sido bem assimilada. Junior Capacete já reclamou disso, obervando que Jesus vem se colocando acima do clube.

Uma pinimba interna determinou anteontem o expurgo de um dos diretores mais próximos ao treinador e indica que os rasgos de vaidade não se limitam a Jesus. A abundância financeira desperta ambições e explicita o egoísmo em qualquer ramo de atividade. O Flamengo, se já não sofria  com isso, começa a experimentar esse drama.

Interdição do Modelão tem caráter exemplar

Com o veto ao estádio municipal Maximino Porpino Filho (Castanhal), através de medida liminar determinada pelo Ministério Público do Estado, ontem, o Campeonato Estadual começa de fato a se cercar das garantias mínimas para que os jogos tenham segurança e condições necessárias para o bem-estar de atletas e torcedores.

Por mais drástica que pareça, a decisão tem efeitos positivos para a segurança geral do torneio. E é exempla também. Significa que não haverá contemporização em relação a outras praças de esporte, prática que já se fazia necessária há muito tempo.

Com base no relatório da vistoria feita pelo Grupo Técnico Interdisciplinar, que apontou inúmeros problemas estruturais, o MPPA determinou que a Prefeitura de Castanhal, responsável pela praça de esportes, suspenda as atividades do estádio até a regularização necessária.

Foi estabelecida multa de R$ 5 mil em caso de não cumprimento das exigências constantes no relatório do grupo técnico e do Corpo de Bombeiros. Além disso, há multa de R$ 30 mil para a hipótese de desobediência à liminar.

Os muitos problemas do Maximino Porpino já tinham sido observados no amistoso entre Castanhal e Remo no final de 2019. Há possibilidade de que o estádio seja regularizado ainda para a primeira fase do Parazão. Outras praças de esporte correm o mesmo risco.

Laílson: a chance de brigar pela titularidade

Uma das boas novidades do time que o técnico Rafael Jaques tem utilizado em amistosos é o aproveitamento do volante Laílson, 22 anos, revelado na base do clube e que ainda não tinha merecido chances tão claras como agora. Voluntarioso, forte na marcação e dono de bom passe, o jogador vive seu melhor momento no Remo.  

Atuou como titular nos dois amistosos com o Castanhal saindo-se bem. Permaneceu em campo mais tempo que os demais jogadores do setor de marcação. No último, realizado sábado passado, não foi até o final por ter sido expulso após empurrões com o atacante Pecel.

O dado mais importante é que Laílson tem expressado nas entrevistas a consciência de que o atleta nativo precisa trabalhar mais, a fim de conquistar a confiança do treinador.

Posicionado como segundo volante, tem qualidades que o estimulam a ser mais ofensivo. Rafael Jaques tem dado espaço e liberdade para ir ao ataque. É uma oportunidade que não pode ser desperdiçada.   

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 09)

2 comentários em “Sobre competência e vaidade

  1. Todo ano esse problema dos estádios do Pará reaparece. E reaparece sempre às vésperas do início do campeonato estadual. Entre o fim da Segundinha e o início do torneio há um tempo suficiente para a FPF sair a campo e fazer com que clubes e prefeituras se mexam para deixar os estádios dentro das condições exigidas para o início da competição. Mas, as providências necessárias só são tomadas de última hora, no sufoco.

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    1. Os jogos em Belém, contra Remo e Paissandu, se tornaram fonte de receita para os interioranos. A troca de mando prejudica o equilíbrio de forças da competição.

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