A frase do dia

“O autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, acaba de ser deposto por quem o autoproclamou. Entre outros motivos por corrupção e traição. E agora? Como fica a cara da UE? A do Bozo não interessa. Ele não tem cara. E o Grupo de Lima, tesão de Ernesto Araujo? Limado”.

Palmério Dória, jornalista e escritor

Sarney conta sua versão da "guerra" de Carajás

Por José Sarney – publicado em “Os Divergentes”

As minas de ferro de Carajás determinaram uma guerra entre o Pará e Maranhão. É que essas minas, das maiores do mundo, pela sua localização no interior do Pará, não tinham como escoar sua enorme riqueza. Desencadeou-se uma guerra para saber como viabilizar seu aproveitamento. O escoamento seria por via fluvial ou terrestre — ferroviária?

O Pará reivindicava a via fluvial, pois assim todas as receitas de sua exploração seriam naquele estado. Acontece que ele, dos mais ricos do Brasil, não dispunha de porto com o calado necessário para escoar tanto minério de ferro, além do Rio Tocantins necessitar de uma barragem dotada de comportas, a serem construídas em Tucuruí, sem o que o Rio não seria navegável.

Foi aí que o Maranhão entrou na história oferecendo a solução ferroviária da construção da Estrada de Ferro de Carajás até o Itaqui, porto que, tendo uma das melhores localizações do mundo, poderia capacidade de receber graneleiros de até 400.000 toneladas, o que acontece hoje.

Mas o Pará não se conformava com essa solução. Numa dessas reuniões de bancadas com o Presidente Médici, o Deputado Epílogo de Campos, paraense de grande talento, disse ao Presidente:

— O Pará tem direito, Presidente.

O Presidente Médici respondeu:

— Direito tem, o que não tem é Porto.

É que eu já construira o Porto do Itaqui com esse objetivo, sabendo que se tivéssemos o porto em condições o viabilizaríamos, pois Carajás seria a grande fonte de carga que sustentaria o Itaqui. Para isso lutei com todas as forças, tendo o apoio decisivo do Ministro Andreazza, do Presidente da Vale, Eliezer Batista e de Vicente Fialho, que o Ministro Cesar Cals, que tinha sido Presidente da Cemar, nomeara presidente da Amazônia Mineração, companhia criada para estruturar a presença da Vale nesta região.

Foi uma guerra. Lutei e finalmente vencemos. O Maranhão conquistou Carajás. Fui ao Pará, falei na Associação Comercial tentando fazer as pazes entre os dois estados. Depois da minha conferência, em que eu dizia que o Maranhão salvara Carajás com o Porto do Itaqui, o Fialho que fora ao banheiro, ouvira a conversa de dois empresários paraenses:

— O Sarney, com essa conversa, se não abrirmos os olhos, termina levando o Círio de Belém para São Luís.

Injustiça, ninguém mais admirador, amigo e desejoso do desenvolvimento do Pará do que eu. Os tempos passaram. Hoje vê-se que o Pará muito lucrou juntando-se ao Maranhão, promovendo um dos maiores polos de riqueza do Brasil.

Fico feliz de ter contribuído para essa grande obra. Ajudei Carajás, o Maranhão, o Pará e o Brasil. O Maranhão sem o Itaqui, que eu construí, e sem Carajás, que viabilizei, não teria as perspectivas que hoje tem — terceiro porto do Brasil.

— José Sarney é ex-presidente da República, ex-senador, ex-governador do Maranhão, ex-deputado, escritor da Academia Brasileira de Letras.

Como dominar um país subdesenvolvido sem precisar de uma guerra, só na base da ideologia

Faça seu povo odiar a política. A política resolve nada, é só corrupção, esqueça isso. A virtude está no mercado, que é impessoal e entrega o que você quer.

Tenha domínio sobre sua grande mídia. Como fazer isso? Simples, basta entregá-la para a burguesia local alinhada aos interesses das grandes potências capitalistas, como os EUA fizeram com a Globo via Time Warner.

Use essa mídia para repetir 24 horas o mantra de que política é corrupção, políticos, principalmente de esquerda, são demagogos e populistas, e que a virtude está no mercado. Use essa mídia para dizer que quem provoca a desigualdade e a pobreza é o funcionalismo público e as políticas “intervencionistas” do Estado.

Você é pobre porque paga via imposto a fortuna de R$ 3.000,00 como salário para o seu Zé que trabalha no almoxarifado do fórum da esquina. Você não pode fazer universidade porque as unis públicas só querem saber de aluno “riquinho”. Você não pode comprar playstation barato por culpa da política econômica do Estado.

Use a mídia para dizer que tudo o que é do Estado não presta e só dá gasto, para assim a população concordar com a entrega das riquezas nacionais, como petróleo, infraestruturas de energia e transporte, investimento em pesquisa e desenvolvimento, estatais estratégicas, principalmente as que fomentam complexidade (caso mais recente: Embraer), enfim, para que a maior corrupção de todas, o roubo de tudo aquilo em que está o desenvolvimento e o futuro como algo bom e necessário.

Use a mídia para engrandecer e glorificar o “agronegócio”, para assim condenar o país a uma economia primária, para que nunca desenvolva sua indústria e nunca se torne um concorrente dos produtos industrializados dos países centrais,ameaçando assim sua hegemonia.

Sim, o capitalismo é um jogo de soma zero e se os países periféricos ganharem complexidade, os países centrais perdem. O sucesso dos 20 países capitalistas centrais depende totalmente do fracasso dos 180 países capitalistas periféricos.

Invisibilize os ricos dizendo que os ricos são os funcionários públicos e a classe média. Para tal, use a mediana de renda, que em país pobre rebaixa a linha da pobreza a tal ponto que até um lixeiro assalariado é considerado rico. Assim, os reais ricos ficarão livres de críticas, afinal, eles não existem! o que existe é uma classe média e funcionários públicos privilegiados.

Desta forma, a necessidade da tributação progressiva e taxação das grandes fortunas fica invalidada e a extrema desigualdade, um dos fatores que possibilitam a colonização moderna, se mantém.

Mantenha sua população na ignorância, não permita que desenvolva senso crítico, no máximo deve receber uma educação voltada para os interesses do mercado. Uma população ignorante é mais vulnerável a acreditar no mantra de que política é o mal e o mercado é o bem.

A pobreza, por sua vez, não só traz carência material, mas sobretudo emocional, tornando as pessoas vulneráveis aos exploradores da fé. Estes, por sua vez, naturalizam o status quo, demonizam os progressistas e desenvolvimentistas e fortalecem o conservadorismo moral, paralisando a sociedade.

Fomente o complexo de vira-lata, o individualismo e a meritocracia. Nos países subdesenvolvidos, isso possui um efeito mais efetivo do que 10 mil bombas atômicas, pois destrói qualquer possibilidade de união, pertencimento, de coesão, de real nacionalismo, muito pelo contrário, fomenta um ambiente de extrema competitividade, de hostilidade, de ódio mútuo, minando qualquer possibilidade do surgimento da cidadania e de um caráter nacional, para assim facilitar o saque do país pelos interesses estrangeiros.

Treine a “justiça” desses países para que criminalize qualquer político, seja de direita ou de esquerda, que ousar orientar seu país para uma direção menos subalterna em relação aos países centrais, que acredite no potencial do seu país e do seu povo, que sabe que entre o capitalismo de Estado “intervencionista” que explora o conhecimento e o capitalismo liberal que explora matéria-prima, apenas o primeiro traz real desenvolvimento.

Quando um país periférico tentar copiar o modelo de desenvolvimento que os países ricos usaram, use a justiça local para dizer que isso é corrupção e criminalizar a política.

Crie think tanks neoliberais e ultraliberais para imbecilizar a classe média e para fortalecerem o mito de que os 20 países centrais do capitalismo se desenvolveram com “livre mercado”, escondendo a real receita do bolo: o uso do Estado para proteger a economia, criar infraestrutura, investir em ciência e tecnologia, sendo o mercado apenas um coadjuvante, que se aproveita do desenvolvimento planejado politicamente.

Este é o manual básico de como manter suas colônias em pleno século XXI, que ainda vai ter eficácia por muito tempo entre um povo que odeia mais um funcionário público do que o patrão que o explora, que odeia mais um comediante do que o pastor que o rouba, que odeia mais um sindicalista do que o banqueiro que o estupra na base de taxas e juros. (De MPH)