Ciro e a metralhadora giratória mais rápida do Oeste

Trechos da entrevista concedida por Ciro Gomes à revista Poder, edição de julho.

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SOBRE O IMPEACHMENT – Não faltam razões para não gostar do governo Dilma, mas o impedimento se dá quando é cometido, pessoalmente e dolosamente, crime de responsabilidade. Governo ruim não é crime de responsabilidade. (Dilma) Não cometeu nem as pedaladas, porque isso se apura no exercício e ela encerrou 2015 com todas as contas pagas.

É mero pretexto, como em 1964. Na ocasião, o Auro de Moura Andrade, um Renan Calheiros da época, presidente do Senado, declarou vaga a Presidência da República alegando que Jango tinha fugido do país. Sobre essa base mentirosa se ergueu um castelo de cartas: Ranieri Mazzilli, o Eduardo Cunha de então, era o último da linha sucessória, convocou eleição indireta – já tinha se passado dois anos da eleição – e Castelo Branco foi eleito no Congresso Nacional – com voto de JK, que acreditou na mentira de que seria apenas para terminar o mandato. Hoje ninguém duvida que foi golpe. Naquela época o STF também declarou a legalidade de tudo aquilo, exatamente como estão fazendo hoje.

DILMA ROUSSEFF – É honrada e a fiadora da democracia. Mas não tem treinamento para a política e se cerca mal. Nomeou o  (Joaquim) Levy, que não é um quadro brilhante – trabalhei com Persio Arida, Gustavo Franco, Edmar Bacha… sei quem é brilhante mesmo sendo conservador – e está na ancestralidade da falência do Rio de Janeiro. Caso o golpe se consume, ela crescerá muito como referência de firmeza. Aliás, é impressionante que a sociedade brasileira aceite o nível de mesquinharia de proibi-la, ainda presidente, de andar nos aviões da FAB, enquanto o Eduardo Cunha anda pra cima e pra baixo, um marginal afastado pelo STF. E cortar comida do Palácio, como se a Dilma estivesse comendo 60 mil por mês no maior luxo. Há um destacamento de 50 homens do Exército morando lá! Nunca quis viver pra assistir a isso. É justa a queixa da corrupção, do desmantelo do governo, mas não é possível que não saibam separar uma coisa da outra.

LULA –  É o responsável por entregar parte da administração aos ladravazes da República. Temer já era essa figura pequena e moralmente indefensável quando Lula o colocou na linha sucessória. Disse-me que não daria Furnas a Eduardo Cunha “de jeito nenhum” e no dia seguinte o nomeou – inclusive me afastei por isso. Dilma também deu a Cunha a vice-presidência da Caixa Econômica Federal, onde ele levantou uma propina de R$ 52 milhões. Nada justifica, porém, a violência que o Lula tem sofrido. Foi ilegal a condução coercitiva: só pode levar debaixo de vara, como se diz no Ceará, quem se negou a obedecer à intimação.

SÉRGIO MORO – Tem um papel importante, mas pode estar sendo manipulado por ser muito jovem e a política ser mais complexa do que ele consiga perceber. Começou a aceitar o incenso, essa coisa de ir para o estrangeiro de gravatinha-borboleta… Juiz bom é o severo, aquele que não vai nem ao bar para não dizerem qualquer coisa. Certas ilegalidades cometidas na Lava Jato abrem brecha para a anulação de muita coisa lá na frente, como aconteceu na Satiagraha. O delegado herói de então (Protógenes Queiroz) está exilado, com ordem de prisão, e os acusados estão livres porque as nulidades destruíram as evidências reais. Nos Estados Unidos, divulgar gravação de um presidente da República dá até pena de morte. Moro sabe que violou a lei e tinha obrigação de destruir as gravações.

GOVERNO TEMER –  Salvo o Henrique Meirelles (de quem discordo, mas é meu amigo), justiça seja feita: esse governo é um misto de incompetência com bandidagem. O povo tem razão de estar zangado, porém o desastre de um governo ilegítimo se projeta para 20 anos, enquanto um mau governo passaria em dois. E é a maior frouxidão fiscal que eu já vi.

ECONOMIA   –  Defender o mandato da Dilma e ao mesmo tempo criticar o desastre que foi seu governo tem me deixado na maior solidão. O desemprego saltou de 6% para 11%, a dívida pública galopou, os juros mais altos do planeta. A próxima crise é do setor financeiro: ninguém paga ninguém, é a maior inadimplência da história. Sabe quem mica com a quebra da Oi? O Estado. Os bancos privados empurraram todos os créditos para os públicos, como de praxe. Este país está sendo assaltado há muito tempo, e o sintoma disso não é um tríplex cafona no Guarujá. Agora vem essa emenda constitucional para congelar a despesa primária, deixando os juros, que é a maior despesa corrente, por fora. Um governo ilegítimo, precário, aproveitando a perplexidade do momento, pode congelar o gasto primário por 20 anos! Se fizerem, é o caso de ir lá quebrar tudo, porque isso é a revogação da Constituição de 1988.

PARTIDOS  –  Minha vida partidária é um desastre. Minha única defesa é que eu fico na minha, os partidos é que mudam radicalmente. Mas Serra também já foi de quatro partidos; Marina Silva, essa flor de pessoa, mudou três em três anos, tudo por projeto pessoal. Mas só a mim perguntam… Vim para o PDT para mobilizar as pessoas e defender a democracia. Vou pensar mil vezes antes de ser candidato.

JOSÉ SERRA Obcecado pelo poder, traidor da própria memória. Ninguém quer bem a ele. Agora resolveu, escorado no interesse estrangeiro e no golpe, forçar a mão para ser o FHC do Itamar. Mas está muito longe de calçar o sapato do charmosíssimo Fernando Henrique, e o Temer também não é Itamar – que era decente, um grande estadista.

MARINA SILVA – É séria, mas não compreende o Brasil. Vocês acham que eu não gostaria de não ser polêmico? Adoraria ser homenageado pelo Greenpeace, mas tenho de defender o país. Sou a favor da BR-163, que liga Santarém a Cuiabá e vai tornar a produção de soja do Centro-Oeste a mais competitiva do planeta. A Marina era radicalmente contra, até que foi lá comigo – somos amigos – e voltou com a cabeça virada. A “indiarada” toda pedindo a BR! É muito bom ter ar-condicionado central, Hospital Israelita Albert Einstein, e querer para os outros, em abstrato, o atraso.

TEMPERAMENTO – Não vou mudar meu jeito. Fico p… da vida com esse fru-fru aristocrático. Já viu o Cunha sendo chamado de ladrão? Ele olha para o outro lado. Essa é a elegância que a elite brasileira gosta. Tenho longa biografia e ocupei muitos cargos, mas na pauta de vocês nunca vai aparecer a pergunta “como o senhor explica tanto dinheiro no seu patrimônio”– e olha que é dever de vocês me fustigar. Por isso olho para trás e digo “no regrets!”.

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23 comentários em “Ciro e a metralhadora giratória mais rápida do Oeste

  1. Ciro é um ótimo cara para entrevistar. Mas tenho minhas dúvidas de como ele se sairia na presidência. As declarações dele para a mídia são coerentes para um projeto de longo prazo, penso, porque duvido mesmo que ele se candidate logo à presidência. Ele sairá candidato assim que perceber que a aliança PT-PCdoB se esgotou e o PSOL não emplacar como representante de esquerda. Essas são a senha para ele chegar lá. É nisso que Ciro pensa, no fracasso das esquerdas, para tomar o papel de líder social-democrata, mas nem tanto assim à esquerda e com um pouquinho do pragmatismo próprio do neoliberal. No entanto, ele parece ser muitíssimo melhor que qualquer entreguista tucano ou traíra peemedebista.

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  2. Quanto ao impeachment estaria tudo bem na análise do oportunista Ciro se a presidente suspensa, e seu grupo, não fossem da mesma estirpe do presidente interino e sua turma. Tanto o são que foram cumplices até bem pouco tempo. Cumplicidade esta que é atestada por várias delações.

    Sobre a presidente suspensa é interessante ler que o Ciro a diz honrada e fiadora da democracia, mas ao mesmo tempo sustenta que a queixa contra a corrupção no governo rubro é justa. De minha parte, malgrado os motivos alegados não me pareçam configurar o crime de respinsabilidade, creio que há malfeitos graves atribuíveis à presidente suspensa, e o principal deles diz respeito à Pasadina.

    Quanto ao ex presidente rubro, devo discordar do rubro quando Ciro o acusa de entregar parte da administração aos malfeitores. Deveras, não foi parte, foi a totalidade. Note-se que a mesma benevolência que o Ciro dedicou à suspensa, não dedicou ao antecessor dela. O motivo é simples: a suspensa ele considera “cachorro morto”, não há motivo para chutá-la, melhor oportunisticamente vestir a máscara de democrata e dizê-la apenas inapetente. Já quanto ao antecessor da suspensa lhe ataca com firmeza eis que também o teme em 2018.
    (…)

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  3. Na verdade, caro Oliveira, a presidenta não é da mesma estirpe do interino. E cumplicidade para roubalheira, qual seja, não a envolve. O fato de haver delações contra essa ou aquela pessoa não atesta nada. O valor de delatar e não provar culpa é zero.

    A queixa de haver corrupção nos governos do PT e em qualquer governo sempre será justa, ninguém quer ser roubado. Mas o fato de haver petistas envolvidos em maracutaia não acaba com o partido, nem torna Dilma conivente com a corrupção. A lava-jato, pelo contrário, mostra quão firme esteve na decisão de apurar as malfeitorias e hoje, não fosse o golpe, estaria fortalecida pela conta simples de a oposição estar envolvida até o pescoço em maracutaias, trambiques e acertos escabrosos, e o PT, até a canela. A diferença de atividade corrupta é brutal. E membros do PT são presos sem provas, como Zé Dirceu, enquanto Aécio, Serra, Cunha e o próprio interino estão no poder, atuando para, a todo custo, desmontar a “sangria”. E, no congresso, está aí o Maia para garantir mimos e benesses aos maiores lesadores da pátria, os maiores sonegadores de impostos.

    Quanto à Lula, é simplesmente ridícula a rede de intrigas, fuxico e mitos criado ao redor dele, como a que lhe imputou Oi e Friboi e, hoje se sabe, que os envolvidos com essas empresas estão mais para o PMDB e tucanato, incluindo Gilmar Mendes, dos HCs cangurus a Daniel Dantas e salvo conduto ao opportunity que quebrou a Oi, que de tão partidário é de icônica parcialidade. Ora, caro Oliveira, é preciso melhorar o nível da oposição, da direita, que agora resolveu simplesmente reproduzir o golpe para ser representada.

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  4. Ah, então, “o fato de haver delações contra essa e aquela pessoa não atesta nada”?

    Bom, em sendo assim, o temer, em nome de quem eu faço exemplificar e representar todos os políticos que recentemente trocaram de posição no pider, inclusive, e, especialmente, a suspensa e seu antecessor, são todos anjos de candura cívico/republicana?

    De minha parte, eu concordo que haja necessidade de elevar o nível de muita coisa no Brasil. Mas, na verdade, o que é imperioso, é que diminua o nível de ingenuidade de muitos brasileiros, principalmente aqueles que tem oportunidade de melhor se informar.

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  5. Contra Cunha há provas de ilícitos, caro Oliveira! Dadas pela Suíça! E Temer é suspeito, sim suspeito, até que provas contra ele concluam pela sua culpa indubitavelmente. O processo justo é direito mesmo do traíra. Mas os indícios são muito sérios. Nada de futuro do pretérito. Por exemplo, nas listas de contabilidade, e não de simples menção de delação, de muitos delatores estão Temer, Aécio, Cunha, Renan, Padilha, Moreira Franco, Serra… Nenhuma menção a Lula ou Dilma. Essas listas podem se comprovar rastreando as operações bancárias, recibos e tais. Qualquer um que saiba o mínimo de auditoria e contabilidade já ouviu falar de conciliação bancária, você não? Basta a PF investigar… Quer mais? Basicamente todos os que se interessaram pelo golpe estão mais sujos que pau de galinheiro na justiça e têm interesse em não ser investigados ou processados. Ora, o que temem? Por que todo processo contra Aécio não vai pra frente? Isso é muito suspeito. Tão suspeito que, para muitos, já é em si a confissão de culpa, blindado que sempre esteve pela justiça brasileira. Há o patrimônio oculto em Liechtenstein até agora mal explicado, como fruto de herança de um banqueiro questionado por correntistas lesados! Quer mais ainda? Rodrigo Maia, o favorito de Temer, e que agora preside a câmara enterrou de vez a CPI do CARF, e livrou a cara dos maiores apoiadores do golpe, como aquele “grande empresário” que deve, sozinho, R$ 6,9 bilhões à união! Observe, os “impolutos” golpistas são sonegadores, corruptos, bolsonaros e felicianos, desonestos intelectuais, etc… o enredo em si é pesado. E para tudo isso que se vê aí, foi preciso afastar Dilma. Isso por si só demonstra que, com ela, nada do que se vê por Temer teria vez, mostrando que com ela estava ruim devido à crise, ao estelionato midiático e à corja parlamentar. Basta boa vontade para compreender.

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  6. Mas, meu Caro Lopes, quer dizer, então, que as delações só não valem contra a presidente suspensa e seu antecessor? Ah, tô entendendo…

    Mas, de minha parte, independentemente do meu nenhum conhecimento de contabilidade, auditoria, consolidação bancária e afins, não sou assim nem um pouco seletivo não. Inclusive, porque a a concreta riqueza historicamente apresentada por uns, e subitamente apresentada por outros, estão aí para que todos que queiram possam ver, inclusive porque a generosa amizade alegada por alguns, constitui peneira que já não consegue mais tapar o sol do abuso.

    Na verdade, a delação tem valor igual para todos. Logo, dado o teor do que foi delatado, e da posição de quem delatou (como por exemplo o delcídio, o cerveró e outros) junto ao governo suspenso e ao governo interino, quer me parecer que todos estão com a biografia fazendo água no mesmo barco. Aliás, estão no mesmo barco desde sempre. O próprio ciro, aqui neste post onde é denominado metralhadora, dá bem a medida, especialmente na parte que ele fala do antecessor da presidente suspensa, do quanto ele, o antecessor, e a própria suspensa, juntamente com o cunha, o temer, e os demais, sempre tiraram coco no mesmo coqueiro.

    No que respeita ao cunha, contra quem, é dizer, realmente há bem mais que delações, lembre que o processo já está bem adiantado. Ele, não demora, se não receber a ajuda de seus pares, e do próprio governo rubro, vai ser julgado e receber o que bem merece.

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  7. Como assim, Oliveira, as delações valem menos aos petistas que os outros? De onde você tirou que eu disse isso? No meu comentário coloquei apenas que Temer está em diversas listas de doações de campanha. Lula e Dilma, não. Doações de campanha são assuntos de partido, não pessoais, ou não deveriam ser. Cunha, Temer, Aécio, Renan, Jucá, Serra, Gedel, e outros cuidam disso pessoalmente, individualmente, bem entendido, das doações que recebem? Isso não soa estranho para você? O interesse e o esforço de campanha é partidário e programático ou pessoal e oportunista? Inclusive no meu comentário dei o benefício da dúvida ao traíra. E, enfatize-se, contra Lula e Dilma há relatos, contra peemedebistas e tucanos há folhas de contabilidade! A diferença é absurda. Se não há contra Lula e Dilma outros indícios além dos relatos, como prosseguir com a investigação contra eles? Já contra os outros existem provas documentais, “preto-no-branco”, além dos relatos, que apontam o caminho de inquéritos policiais e processos de justiça. Precisa desenhar?

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  8. Tá bom amigo Lopes, então, desenhe aí, apenas um sim, ou apenas um não, para a seguinte pergunta: a delação premiada tem efeito (valor) igual sobre todos, seja lulla, seja dilma, seja aécio, seja temer, seja renam, seja sarney, seja qualquer um, seja de qualquer partido for?

    Ainda há mais a dizer sobre seu mais recente comentário, mas vou dizê-lo num comentário separado para garantir que não se misturem eventuais resposta.

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  9. Quanto ao valor das delações, já há um comentário específico a respeito.

    Sobre lulla, dilma, temer, aécio, cunha, renam, jucá, serra, gedel, já sustentei que são todos farinha do mesmo saco, conforme a história mostra que são, eis que estavam juntos até bem pouco tempo direta e indiretamente usando a política e o governo num comunismo de ações malfeitoras tanto na área das doações de campanha, quanto no uso das estatais. E a operação lavajato e suas decorrentes mostram isso. Com efeito, nada vindo daqueles que compõe o governo provisório me surpreende são todos malfeitores tradicionais. Me surpreendi, isto sim, logo no início do governo suspenso, quando há 13 anos, o vi se enveredar pelos idênticos caminhos do governo que sucedia, chegando, inclusive, a usar a Justiça Eleitoral para branquear as doações transversas que recebeu. Hoje, com este, já não me surpreendo mais também.

    As delações premiadas são compostas de relatos, sim. Mas, não são apenas relatos. São todas homologadas, vale dizer, referendadas pelo judiciário, inclusive pelo Supremo, que só referenda se existirem elementos fidedignos de amparo, os quais habilitam que se inicie ou se prossiga numa investigação.
    Ah, e um último dado, agora referente ao comentário anterior: o maia foi eleito presidente com o apoio expresso dos petistas, o que certamente não foi um ponto dado sem nó, um prego batido sem estôpa.

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  10. As delações são sim tratadas diferentemente, dependendo do partido delatado, é dizer, dos envolvidos terem pertencido à cúpula do malfadado governo de FHC. O famoso “não vem ao caso” de Moro é a própria intenção persecutória contra o PT e a esquerda, é a vontade pessoal de se investigar um, e não o outro, é a parcialidade. E nem é necessário divagar sobre o grampo ilegal contra Dilma e Lula, e a condução coercitiva de Lula, espetáculos pirotécnicos preparados especialmente para a grande mídia e incautos que assistem, ainda, àqueles tristes e vergonhosos telejornais. Desenho feito, vamos à próxima questão.

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  11. A questão aqui é sim documental. A parcialidade garante a visão do indício, mesmo onde não há, e que passe “despercebido”, onde existe. É um problema fundamental. O fiapo que liga Dilma e Lula a qualquer suspeita de corrupção é pertencerem ao PT e terem sido presidentes eleitos pelo partido. Mas o nexo é tênue, muito tênue. E por quê? Por que Aécio é tão ligado ao PSDB quanto Dilma ao PT, e os dois partidos receberam doações de campanhas das mesmíssimas empresas, assim como Marina, ligada a ela mesma e ao evangelicismo da política brasileira. O tratamento parcial é que tem garantido que se trate a doação ao PT como ilegal e, ao PSDB, como legal. Não a menor garantia de que as doações ao PSDB sejam assim tão isentas de imoralidades e obscenidades políticas, jurídicas e contábeis. Ora, qual é o critério? Doação ao PT é corrupção e ao PSDB, ideologia? Isso é ridículo! Quem acredita nisso ou é incauto demais, ou esperto demais!

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  12. Não, amigo Lopes, seu desenho ainda está com os contornos muito genéricos. Afinal, nos estávamos falando sobre o que você disse, sobre o que você pensa, sobre o que você entende, sobre como você trata as delações, sobre o valor que você atribui às delações.

    Deveras, o que está em pauta é o valor que você atribui às delações. Então eu insisto: independententemente do que as autoridades, a mídia e os demais contrários ao governo suspenso pensam e fazem, você considera que “as delações valem menos aos petistas que aos demais”? Você considera que as delações valem igual, seja para os petistas, seja para os demais? Você considera que as delações valem mais para os petistas que aos demais?

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  13. Quanto ao mais, é dizer, por primeiro, que falando exclusivamente por mim, jamais conferi tratamento parcial à questão de que tratamos aqui. Deveras, para mim, salvo as raríssimas exceções, nas quais não se inserem nenhum destes de que aqui tratamos, todos são iguais, nenhum é melhor ou pior do que outro. Em verdade, minha leitura destes problemas tem se mantido inalterada ao longo do tempo, independentemente de quem tenha assumido o governo. Tenho mantido a coerência. Antes eu reclamava dos militares, do sarney, do collor, do itamar, do fhc, e mantive as reclamações dos governos que se seguiram, já que eles, infelizmente, mantiveram as práticas malfeitoras dos governos que lhe antecederam, não honrando as promessas que fizeram.

    De outra parte, não são fiapo, não são tênue, os vínculos, os liames, os nexos, existentes entre os presidentes dos últimos 13 anos, com as malfeitorias que continuaram acontecendo no Brasil em tal período. E a só cumplicidade destes com as figuras contumazes nas malfeitorias mediante a distribuição de cargos e verbas, como bem diz o ciro com sua metralhadora, já mostra a força desta ligação óbvia e ululante. De fato, direta e indiretamente o cunha sempre foi aliado da presidente suspensa e de seu antecessor. E um dos elos, perceptíveis até pelo método braille, é o dirigente da cef, nomeado apenas para ser o veículo financeiro das malfeitorias.

    De minha parte, eu sempre execrei o psdb, pelas malfeitorias que fez em todos os setores, inclusive na captação de recursos para campanha. O problema é que o pt, quando assumuu a presidência fez igual. Daí que eu não poderia tratá-lo diferente do que eu tratei o psdb só porque eu votei no seu candidato por quatro vezes até ele conseguir se eleger. O pt é igualzinho ao psdb. Daí que não merece, de minha parte, tratamento diferente.

    Por último, quanto aos incautos demais, e aos espertos demais, eu concordo plenamente com você, e digo isso com tranquilidade, pois já escrevi assertiva idêntica aqui no Blog mais de uma vez.

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  14. Sei que você é coerente nas suas afirmações. Mas para o devido processo penal, caro Oliveira, é preciso prova material, e estar em companhia desse ou daquele não é prova material de nada. Além do mais, vejo quem defenda o posicionamento de que Lula e Dilma teriam perdido o bonde da economia quando do boom dos preços das commodities, minérios e petróleo, bem entendido. Mas, imagine, por um instante só, que Serra tivesse vencido a eleição de 2001, que Lula nunca tivesse sido presidente, tampouco Dilma. Quando do boom daquelas commodities, haveria bem-estar social? Não. É possível dizer que, provavelmente, Serra teria entregue a Petrobras aos estrangeiros. Eles é que lucrariam e a população não veria a cor do dinheiro. E os preços de combustíveis e outros derivados de petróleo estariam, como hoje, nas alturas, mas muito antes de hoje, por certo. É que governos de direita defendem o direito ao lucro como defendem a redução à maioridade e o uso da violência policial sobre manifestações pacíficas de ideologia contrária a própria. Seria uma ditadura neoliberal. E o salário mínimo estaria tão defasado quanto esteve antes do PT. E o desemprego seria muito pior que hoje. O feito de Lula e Dilma diz mais que ideologia partidária, diz que fizeram por vontade e por convicção programática. Mais que se aliar às raposas de sempre, o que também reprovo, a possibilidade de fazer o mínimo socialista que fosse rendeu-lhes o prestígio internacional de que gozam, e também ao país. E mais, a soberania. Que Temer põe em risco agora, com suas MP’s e aumentos aos que devem investigar-lhe. Ele tenta comprá-los. Conseguirá? Não sei, mas é presumível que sim. Disso, nada se viu contra Lula e Dilma, e só isso já diz muito sobre a postura estadista de ambos frente à presidência. Gostar da política como tem sido feita nos últimos, só mesmo quem dela se aproveitou, mas negá-la é abrir mais espaços para quem dela quer continuar tirando proveito. É por isso que é preciso recriminar o golpe. E destituí-lo.

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  15. Outra evidência a favor de Lula e Dilma é o bolsa-família. Programa de distribuição de renda, transferiu receita do Estado diretamente à famílias de baixa renda, para que elas mantivessem a criança na escola. Investir em educação é investir nas pessoas. Não há placas nas camisetas das crianças que digam “aqui mais uma obra do governo federal”. Investir em pessoas não rende visibilidade. Governantes brasileiros gostam de obras, porque rende placas e publicidade. E também caixa-dois e consequentes financiamentos de campanhas. Uma beleza (para quem se serve disso). É preciso destacar que o bolsa-família, ao transferir receita do Estado diretamente às famílias socialmente vulneráveis, elimina o empreiteiro, elimina o caixa-dois, elimina a possibilidade de ganho político (ou melhor, financeiro) por esquemas, escamoteamentos e todo de gambiarra contábil possível e imaginável. Penso que seja por isso a maior crítica ao programa, e que se deseje o próprio fim do bolsa-família, porque isso representaria mais a ser desviado da finalidade. Frente aos cunhas, isso é quase o mesmo que desprendimento! Embora seja nada mais que probidade. Há muito mais por detrás dos interesses das elites que simplesmente ideologia, há o desejo de se tornar entreguista e faturador hegemônico da riqueza nacional. Que se destitua a corrupção do poder, mas para isso não posso concordar que os mesmos notórios corruptos tenham a tarefa de fazê-lo!

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  16. Bom, amigo Lopes, eu também sei que é preciso aguardar e obedecer e respeitar o devido processo legal. Por isso me manifestei, inclusive aqui no Blog, contrário à condução coercitiva do lulla, pela ilegalidade da divulgação da conversa telefônica entre o lulla e a dilma, pela inexistência de crime de responsabilidade nas pedaladas e na edição dos decretos e pelo descabimento do impeachment pelos motivos que o processo foi desencadeado.

    Mas, há coisas que independentemente do processo e de sua marcha lenta e nem sempre sob a livre direção exclusivamente da lei, temos o direito de ter e expressar nossas convicções, as quais, estando nos limites de nossa impossibilidade natural e legal para atribuir-lhe as consequências de punição concreta, não causam qualquer prejuízo a quem quer que seja.

    Por exemplo, no caso da refinaria adquirida nos EUA. Minha convicção é de que houve irregularidade e de que a presidente, hoje suspensa, tem responsabilidade no fato prejudicial, no mínimo, por omissão. O mesmo se diga nas malfeitorias na cef. Com efeito, esta é minha convicção, mesmo que o caso para se concluir ainda dependa de investigações e comprovações e decisões por quem tem poderes para tal. Do mesmo modo que considero que o renam, o temer, o cunha, o sarney, o maluf, e demais, também têm responsabilidades em tudo aquilo que deles se fala, seja nas delações, seja mesmo antes, quando esta ferramenta ainda não estava na moda.

    Quanto ao que teria ocorrido acaso fossem os candidatos do psdb que tivessem assumido o Brasil em 2003, não tenho a certeza dotada deste grau de exatidão que você expressa. Mas, para mim foi suficiente a suspeita de que talvez acontecesse algo assim como você descreve para que eu nunca os tenha escolhido nas minhas intenções e votos efetivos todas as vezes que eles se candidataram antes e depois deste período que você cita.

    Pena, sob o meu ponto de vista, que aqueles que escolhi não se comportaram como eu imaginei, e eles prometeram, que se comportariam. É pena, mas não é arrependimento de tê-los escolhido. É experiência e aprendizado para não escolhê-los mais.

    Mas, minha convicção me diz que negando esta política que tem sido feita por todos que se revezaram no poder nestes quinhentos anos de Brasil, especialmente, nestes últimos 50, creio que faço minha parte, na luta para que ninguém que dela tire proveito, maior ou menor, possa fazê-lo sem resistência, sem crítica, sem repúdio.

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  17. Aí sim, caro Oliveira, estamos no campo da mais saudável política. Da do debate, da convicção ideológica, da convicção da experiência e de pontos de vista que enriquecem o cenário ora discutido. Claro que, de minha parte, também pondero serem possíveis todos os dados de sua fala, mas em virtude do passado, prefiro o partido e os presidentes que apoiaram a causa operária e trouxeram benefícios práticos, pois reais, ao trabalhador e à classe mais oprimida, a dos miseráveis. E trouxe, finalmente, desenvolvimento ao nordeste e ao norte e não reteve a atenção exclusivamente mais ao sul e ao sudeste. É claro, também, que não fico satisfeito com as malfeitorias orquestradas pelos políticos de sempre em meio ao governo petista, mas observo que de fato há medidas e leis que propiciam o desenrolar da lava-jato, mesmo que com forte caráter político. De todo modo, nas circunstâncias das possibilidades, tem agido o povo de modo a ter o menor prejuízo nas eleições, ao escolher a via socialista que, a cada da de Temer, ficam mais claras em objetivo e em eficácia, porque a ausência e a minoração delas fez-se sentir imediatamente. É pelo progresso social, Oliveira, que penso que só depois, como consequência, que se chegará ao econômico.

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  18. Quanto à evidência favorável a que você se reporta também não tenho convicção idêntica a sua.

    Não que transferência de renda não seja uma coisa boa, que a redistribuição da riqueza não seja algo apreciável. Não que as famílias de baixa renda não mereçam ter condições mínimas de manter suas crianças nas escolas. Não que não se deva investir em educação, e, por via de uma virtuosa consequência, investir nas pessoas, mesmo que tal não renda visibilidade.

    Tal investimento é necessário. As pessoas de baixa renda o merecem. Aliás, investimento desta natureza reflete positivamente até nas pessoas cujo padrão de renda alcance um patamar mais elevado.

    Mas, o problema é que tais investimentos historicamente têm servido de “boi de piranha” para permitir que vultosíssimos “investimentos” nada republicanos possam atravessar tranquilamente na outra margem deste rio caudaloso de malfeitorias que têm sido os governos brasileiros.

    Com efeito, sem embargo da força de expressão, à base de cada um real investido nas “bolsas”, é atravessado um bilhão para as empreitadas malfeitoras em todos os quadrantes do governo, numa recíproca absolutamente falsa em se tratando da proteção dos menos favorecidos.

    Com efeito, nada obstante o inegável valor que lhes é teoricamente inerente, infelizmente não me parece que as “bolsas”, surtam na prática este efeito eliminatório ao qual você se refere. Tanto não surtem dito efeito eliminatório, que mesmo as bolsas tendo recebido substancioso aporte qualitativo e quantitativo no período petista em relação período tucano que lhe foi anterior, nenhuma gambiarra deixou de ser realizada com o numerário público e por agentes do governo. Deveras, os collor, os cunhas, os temer, os jucás, os renans, os sarneys, com o apoio inegável do governo, que os permitiu ficar em posições estratégicas na administração pública, continuaram atuando vigorosamente.

    Pra mim, para o bem e para o mal, a maior crítica ao programa está relacionada ao efeito de encurralamento eleitoral que ele provoca. Há os que não se conformam com o narcótico uso que o governo faz do programa junto ao eleitorado mais necessitado, onde as bolsas são usadas para comprar a longevidade de um projeto de poder nada republicano. Por outro lado, há aqueles que querem tomar dos petistas esta poderosa ferramenta narcotizante do eleitorado mais necessitado que é o programa. E o querem tomar pura e simplesmente para assumir para si a ‘boca”, colhendo os frutos da longevidade do projeto de poder nada republicano.

    Com efeito, meu ideal é que o poder seja exercido de maneira íntegra. Por isso, independentemente do que venha resultar nos processos em curso no judiciário e no legislativo, entendo que são desqualificados para ocupar a presidência do Brasil, tanto o interino, quanto a suspensa.

    Ah, um outro ideal que cultivo, e por ele me esforço, é o de que os debates nunca ultrapassem as fronteiras do campo mais saudável da política, das convicções, da experiência. É dizer e reconhecer que tenho encontrado em você um aliado neste esforço.

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