Clima de insanidade toma conta da Nação

POR ADILSON FILHO, NO VIOMUNDO

Que boa parte da classe média se tornou reacionária nos últimos anos acredito que, a essa altura, ninguém mais discorde. Mas quando Paulo Freire, um dos educadores mais importantes da nossa história, é esculhambado nas ruas, acho que a coisa precisa ser investigada com mais profundidade.

Acho que se aquelas pessoas soubessem quem foi esse homem, a dimensão de sua pedagogia, a importância de suas ideias para a educação brasileira — naquilo que talvez seus próprios filhos hoje estejam se beneficiando para no futuro não repetir gestos lamentáveis como esses — jamais fariam isso.

Um fato como esse é muito preocupante, pois sinaliza (ainda que simbolicamente) para aniquilação do último bastião do maior dos valores civilizatórios, creio eu, que podem redimir essa nação: a educação crítica e humanista, proposta por Freire.

Nesse sentido, eu acho que se quisermos compreender com mais clareza o que está acontecendo com a nossa sociedade, acredito ser fundamental, nesse momento, recorrer a um velho clássico da Sociologia brasileira: “Casa Grande & Senzala”, do também pernambucano Gilberto Freyre.

Certamente encontraremos ali boas explicações sobre como construímos a nossa socialização, como olhamos e subjugamos os negros, os desfavorecidos sociais, ao mesmo tempo em que conseguímos, com criatividade ímpar, estabelecer uma maneira de nos relacionar baseada numa ‘cordialidade’ completamente falsa.

Um tipo de socialização na base do “tamo junto e misturado” que, jamais teve o sentido de inclusão, mas sim de diluir eventuais conflitos que poderiam emergir da violência absurda que se escondia nessas relações.

A partir da última década, um “pequeno” arranhão foi dado na estrutura social — mesmo sem alterar as suas bases — e isso já foi motivo para enorme desconforto e instabilidade. Dividir aeroporto ou filas de exposição no MAM com o porteiro, ver a empregada doméstica se empoderando em seus direitos trabalhistas, o gari se organizando e deixando de recolher o lixo, tudo isso é algo muito novo, totalmente inusitado que deu um sacolejo nessas relações baseadas no mandonismo, no tapinha nas costas e alegria geral — “o pobre é muito gente boa, divertido pra caramba, a gente se dá muito bem; eu, uma pessoa muito caridosa, inclusive ajudo a sua filha com material escolar todos os anos, desde que ela fique lá, e não venha querer dividir agora a universidade com os meus filhos, aí já é demais”.

Ainda assim, o nosso caso é tão complexo, tão singular, que analisar o que está acontecendo só observando a estrutura é pouco. E é aí que entra o segundo fator, acredito, decisivo: A influência nefasta e corrosiva da mídia hegemônica com seus valores e métodos de persuasão.

Durante quase uma década os principais veículos de comunicação se encarregaram de pegar o cidadão já assustado com essa “pequena revolução” e entupir-lhes as veias, artérias e até a sua alma de programas de péssima qualidade, bastante violência (que vai de um tapa no Big Brother até a forma como falam da inflação do tomate) e um pensamento único ultra-liberal, sempre o mais superficial possível, baseado em muita desinformação.

CAQwi3VWYAAMPUnO resultado disso é o medo, o pânico, a confusão ideológica, tudo isso que foi penetrando em sua subjetividade até chegar a esse assustador estado de desespero que temos testemunhado por aí.

E não menosprezemos o que está acontecendo. Há um clima de insanidade geral tomando conta da nação. São pessoas agredindo as outras de todas as maneiras, gente chorando em videos, pedindo socorro aos militares, gente escrevendo carta pra embaixada americana intervir em nosso país, batendo panela e xingando palavrões sexistas ao lado dos filhos, tem relatos de mordida nas ruas, gente surtando em posto de gasolina, etc. Há muito sofrimento envolvido, as pessoas não estão teatralizando, essa dor existe, é da alma, é coletiva; talvez até sejam gritos de dor que carregam o peso da ancestralidade, a nossa história triste de dominação – um pouco do sofrimento e da morte dos índios, da escravidão do negro, das torturas, todos esses ‘demônios’ voltando agora e explodindo no inconsciente coletivo de uma parcela da população.

Enfim, vale a pena voltar a “Casa Grande & Senzala”. Um clássico obrigatório da nossa Sociologia e que certamente ajudará numa compreensão maior sobre o atual momento brasileiro que, mais a frente, quando tudo isso passar ( e vai passar) será também objeto de estudo, assim como são hoje essas outras páginas infelizes da nossa História.

Prefiro olhar pra esses gritos e ver neles a certeza de que o nosso corpo social está se renovando. O futuro do país finalmente começou a ser construído de uma outra maneira; alguns vícios ainda persistem e vamos combatê-los com pressão nas ruas pelas mudanças necessárias; mas com todos os problemas que ainda temos, essa reação de parte da sociedade sinaliza que estamos no caminho certo. Acho isso que nos dá força pra seguir.

6 comentários em “Clima de insanidade toma conta da Nação

  1. É de Skinner um ponto de vista sobre o comportamento, do condicionamento do pensamento. Tive um professor que disse certa vez que jamais aceitaria que um médico de educação construtivista o operasse porque o médico deve estar condicionado para a cirurgia, pois ele precisa agir sem refletir, na medida da emergência da cirurgia. Nesses casos não há tempo para sofismas… Somos condicionados, ou seja, a agir sem refletir para várias coisas, como escovar os dentes, tomar banho etc… Tudo bem, mas será bom agir assim, impensadamente, para votar?… A mídia reacionária, com suas reportagens rápidas e cheias de voltas, não dá tempo para a reflexão e, desse modo, condiciona o receptor da mensagem mais desatento. É preciso refletir, não se deve abrir mão da própria opinião. Vejo especialmente como Dilma cede aos apelos de reforma política com facilidade, de maior combate à corrupção… Quem resiste a isso tudo são os mesmos parlamentares, a mesma imprensa que sequer toca no assunto. É impressionante a pressão que a mídia reacionária vem exercendo sobre este governo, o que faz pensar no porquê de a mesma capacidade de pressionar ainda não ter se voltado ao congresso pelas reformas que o povo exige, como a reforma política, início da moralização da política no país. Como disse em outro tópico, dada a realidade de a presidente do Brasil resolveu adotar as mesmas medidas econômicas que a oposição defendia nas campanhas, por que é que a oposição está indignada? Imagino que só deva ser por causa da reforma política…

    Curtir

  2. Olha esses caras que estão segurando os cartazes.

    Eles não me parecem ser a classe rica reacionária que foi as ruas protestar contra melhoria na qualidade de vida da classe pobre.

    A foto me parece suficiente para desmentir todo o texto.

    Curtir

  3. Na verdade “nação bicolor”, o teu comentário reafirma exatamente o que o texto diz, inclusive ao que se refere a ” Casa Grande & Senzala”
    Fácil sua dedução! Afinal os caras que estão na foto são negros, e se são negros devem ser pobres!
    Óbvio!
    Não é negro? Como poderiam ser outra coisa!

    Luiz Carlos Azenha acerta até quando quer errar!

    Curtir

  4. O incomodo que trouxe os programas sociais do governo para as camadas mais ricas da sociedade é muito grande.
    Os ricos adoravam explorar os menos favorecidos com o amém dos governos do PSDB, não podem mais usar e abusar das pessoas pobres!
    Por outro lado, não podemos fechar os olhos e os ouvidos para os erros ocorridos nos últimos anos, parece até que são repetir o período FHC onde rolou muita coisa errada, porém abafada, pela podre Rede Globo e a Veja, que só publicaram e publicam o que é dos seus interesses. Pena que milhares de lares brasileiros, inclusive dos que se beneficiam dos projetos sociais, são corrompidos por um noticiário tendencioso e nefasto destes dois meios de comunicação.

    Curtir

  5. “Nação bicolor”, além da fotografia considero que ainda há outras inconsistências e incongruência e contradições e omissões na retórica, mera retórica, que vai embrulhada neste palavrório do artigo que se arvora ser politicamente correto.
    Quem lê assim descuidadamente o que o retórico sustenta, nem se dá conta que os artífices deste governo estão todos compondo a classe media alta e a propria elite; que o “pequeno arranhão” que o autor do artigo fala que a exclusão social teria experimentado, não passa de um eufemismo para a manutençao neste 12 ultimos anos, das mesmas perversidades sociais que já ocorriam em governos pretéritos, ou se preferir, uma hipérbole, uma turbinada, no assistencialismo conservador e encurralante adotado pelo governo, eis que ao tempo que engana os excluídos com as “bolsas” das mais diversas matizes, o relega a morrer nas filas dos hospitais, sem remedios, sem médicos, sem exame e sem dignidade, a morrer na mao da bandidagem que só aumenta, ou na mão da polícia cuja bandidagem também tem crescido deveras.
    Vai ver que o autor do artigo nem se deu ao trabalho de ir às duas manifestaçoes, sequer de ficar na calçada para vê-las passar, eis que se tivesse feito uma coisa ou outra, teria constatado, que tanto havia muita gente da classe baixa na manifestação do dia 15, quanto havia muita gente da classe mais favorecida, da elite, no manifesto anterior do dia 13.
    Por hora, é isso.

    Curtir

Deixe uma resposta