POR MARCELO SEMER
A necessidade de aprovar uma reforma para o Judiciário foi o pretexto empregado pelo general Ernesto Geisel para justificar o fechamento do Congresso em 1977. Com base em atos institucionais que haviam sido escritos pela própria ditadura, editou-se, no entanto, o Pacote de Abril que, entre outras atrocidades, desfigurou a representação parlamentar para aumentar o suporte congressual ao regime.
A grotesca declaração de vacância do presidente João Goulart, lida numa tétrica noite do Congresso Nacional, aliás, já havia aberto caminho para a institucionalização da ditadura, treze anos antes.
Não faltam na história brasileira soluções hipoteticamente jurídicas para mascarar golpes e rupturas institucionais sempre que os setores empoderados se viram distantes do poder político.
A própria trama que levou Getúlio ao suicídio se fundou em um inquérito policial, cujos resultados, que antecediam às investigações, eram diuturnamente amplificados na imprensa, criando, com base em ilações jamais demonstradas, um clima propício à renúncia ou destituição.
A grande mídia, como se sabe, deu suporte a praticamente todas essas manobras na questionável qualidade de representante do interesse público – leia-se aqui do mercado financeiro, de líderes industriais e da classe média urbana. Afinal, se o poder não está no poder, alguma coisa definitivamente deveria estar fora da ordem.
Por tudo isso, pelas tristes e cruéis lições da história e a amplitude dos poderosos insatisfeitos, nem é de se estranhar que imediatamente ao resultado das últimas eleições tenha-se iniciado uma campanha de negacionismo: pedido de recontagem das urnas, chamados por intervenção militar, mobilização pelo impeachment.
A última delas chegou a ser revestida de uma plumagem jurídica, mesmo na ausência de qualquer crime de responsabilidade que esteja à disposição do anseio golpista cada vez menos disfarçado de seus proponentes.
Mas também aí nada de novo.
Sempre houve, entre nós, juristas que se dispuseram a ceder, às vezes até alugar, seu conhecimento jurídico para institucionalizar soluções autoritárias. Muitos deles perseveram mandando às favas os escrúpulos da consciência.
Verdade seja dita: isso não é um privilégio nacional. Hitler também não teve qualquer dificuldade de sedimentar, com apoio de juristas de plantão e de renome, seu caminho legal para a barbárie.
A ânsia de buscar fundamentação jurídica para atrocidades não passa de um subterfúgio publicitário e um eufemismo para apaziguar consciências que se apregoam ilustradas. E porque, como ensinou Goebbels, até mesmo o autoritarismo precisa de propaganda.
Mas o que sai de suas entranhas nunca será direito.
Nossa ditadura jamais deixou de ser ditadura apenas porque houve um rodízio de generais, nem porque preservou algumas eleições e certos mandatos. Sempre que o poder esteve em risco vozes foram silenciadas, Congresso desprezado e eleições manipuladas.
Aqueles que mais se diziam defensores da lei e da ordem foram, ao final, os maiores violadores do estado de direito.
No estado democrático, todavia, o direito não pode existir como forma de sepultar a vontade das urnas. Por mais incômoda que ela se apresente. Sempre haverá um novo pleito para que os derrotados possam submeter suas teses e seus nomes, suas agendas e seus projetos aos eleitores.
Alimentar as especulações pelo impeachment, porque a vitória do oponente desagrada; surfar no golpismo, pelo oportunismo das alianças; levar a interpretação da lei às sombras do direito para tornar a política irrelevante. Tudo isto fragiliza o processo mais que o resultado; o Estado mais que o governo; a democracia mais que o partido.
Espera-se, enfim, que aquela conversa toda sobre alternância de poder, insistentemente repetida antes das eleições, não tenha sido pensada na sucessão entre democracia e estado de exceção.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em SP e membro da Associação Juízes para Democracia.
E a conversa fiada continua. Antes era a CIA. Agora também o poder judiciário numa conspiração para derrubar os petralhas.
É próprio dos incompetentes e desonestos essa mania de perseguição para desviar o foco. O mundo está contra os caras. O pt vazou os nomes do renan calheiros e do cunha na mídia para enfraquecer ambos, mas só conseguiu atiçar a ira do pmdb, que vai se juntar de vez à oposição. Demonstração de como o pt e dilma estão completamente perdidos.
Quando estourar o escândalo do setor elétrico vamos ver qual será a própria entidade a se juntar à CIA e ao poder judiciário na “conspiração”. Se tiverem sucesso, não pensem que vai haver algum protesto nas ruas. A saída da presidenta será festejada efusivamente.
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Só não enxerga a trama quem está apostando nela, amigo. A coisa nem é mais dissimulada.
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O julgamento a que está submetido todo o período de doze anos de governo do PT é absolutamente moral, não criminal. Como tudo o que sempre acontece no país, uma investigação da polícia federal de mais de um ano, que já conta com nove fases e sabe-se lá quantas delações, não me recordo de ter visto uma só prova que fosse de crime de responsabilidade contra Dilma. O julgamento é despudoradamente moral. É desavergonhadamente político e eleitoreiro. Não resta a menor dúvida de que toda essa ação de imprensa livre, mas irresponsável, se estenderá o quanto for possível e um pouco mais além só para manter a esquerda nacional sob suspeita até a próxima eleição. Se a direita chegar ao poder, a imprensa silenciará. E o brasileiro se sentirá mais tranquilo sem as notícias de corrupção e os elogios ao governo. Ao mesmo tempo, o Swissleaks, que tem o potencial de uma investigação muito mais rápida e certeira contra a mesma classe farisaica que crucifica Dilma e o PT, com total apoio do indeciso PMDB… E ainda sou obrigado a ver jornalista brasileiro se gabando de ser membro do ICIJ e não divulgar os nomes da lista que recebeu. Ele tem o poder de decidir os rumos do país, apenas pela opção de publicar ou engavetar a lista do HSBC. Disso, ele pode se gabar. Mas note bem que isso é o que se chama de “notícia seletiva”. Ao noticiar os nomes da lava jato, vê-se o “vazamento seletivo” de informações…
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“…mesmo na ausência de qualquer crime de responsabilidade que esteja à disposição do anseio golpista cada vez menos disfarçado de seus proponentes.”
Que um opositor comum do governo, inclusive da mídia, diga que HÁ crime de responsabilidade… Que um partidário comum da situação, inclusive da mídia, diga que NÃO há crime de responsabilidade… Tudo isso é compreensível. Afinal, o partidarismo, com seus respectivos interesses, frustrações e pretensões, comportam esta polarização. Agora, quando um profissional da magistratura, como o signatário da postagem ora em pauta, vem dizer que não há o crime, mas golpe; ou da consultoria jurídica, como o professor Ivens, vem dizer que há crime, tudo sob a maior generalidade e abstração, é de se lamentar que ninguém esteja mesmo preocupado com a
Inflação, com desconsideração de direitos trabalhistas e previdenciários históricos, com a escalada da violência, com o caos na saúde, com o defict habitacional, etc, etc, etc, mas pura e simplesmente em manter o poder, ou se apoderar dele. É o poder pelo poder, com suas benesses, e nada mais.
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