Antes de morrer, torcedor se despede do Brugge

POR BRUNO BONSANTI, DO TRIVELA

Lorenzo Schoonbaert, 41 anos, sabia que morreria. Bom, todos sabem, no fundo, mas a sua partida era iminente. Havia passado por 37 operações nos últimos 20 anos e os médicos já haviam desistido. Ele também. Marcou a eutanásia, permitida pelas leis liberais da Bélgica, mas não conseguiu seguir em frente sem uma última visita ao lugar onde provavelmente mais foi feliz. Precisava assistir a mais uma vitória do Club Brugge no estádio Jan Breydel.

Schoonbert escreveu no Facebook: “Esse é o meu maior desejo antes de morrer: ver meu time ganhar mais uma partida”. Os jogadores não o decepcionaram e permitiram que ele comemorasse três gols na vitoria por 3 a 0 sobre o Mouscron-Peruwelz. Mas os momentos marcantes transcenderam o jogo.

Lorenzo-02Ele deu as mãos à filha Dina, de sete anos, e foi até o círculo central. Jogou bola com ela à frente de 20 mil companheiros de lutas e glórias, provavelmente também pela última vez. Apitou o início do jogo e se retirou aos assentos vips, sob os aplausos de todos nos estádio, que ao mesmo tempo cantavam o sempre emocionante hino You Will Never Walk Alone.

A família anunciou no Facebook que Lorenzo Schoonbaert encerrou uma vida de 41 anos de amor pelo Brugge na noite da última segunda-feira. “Ele foi corajoso até o último minuto, tinha tudo sob controle e aproveitou os últimos momentos com as pessoas próximas ao seu coração”, escreve. “Obrigado a todos os fãs do Club por uma ovação inacreditável e emocionante. Obrigado a todos. Vocês nunca caminharão sozinhos”.

Como Schoonbaert nunca caminhou, e depois da partida, deixou claro o quanto aquele dia significou para ele. “Eu estou incrivelmente feliz no momento”, disse. “Será uma memória valiosa para a minha filha, que ela vai aproveitar durante toda a vida. Meu último sonho se realizou. Posso morrer em paz agora. Vou comemorar no céu”.

3 comentários em “Antes de morrer, torcedor se despede do Brugge

  1. Passamos a vida tentando driblar o sofrimento, mas não tentamos, porque não podemos mesmo, fugir da morte. A eutanásia é uma prática condenada pela maioria religiosa, mas, note bem, quanto de coragem há também sobre essa decisão. Sabe?, infelizmente já pude acompanhar o fim de pessoas com mal de alzheimer, câncer e AIDS. Como funcionário público, trabalho próximo a profissionais de saúde e já testemunhei tantos tristes fins que me alegra saber que este nosso desfecho inevitável possa ter tão bonito papel social e sem impor à pessoa o sofrimento da dúvida sobre o momento do fim, principalmente quando esse fim tão doloroso é inevitável…

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