O vazio que entristece e empobrece

No amistoso contra o Shandong Luneng, realizado no último final-de-semana no Allianz Parque, o público foi de aproximadamente 27 mil pessoas, que proporcionaram uma renda de mais de R$ 1,5 milhão aos cofres do Palmeiras. Nada mal para um coletivão que tinha como maiores objetivos dar ritmo de jogo aos atletas e colocar na vitrine algumas peças que Oswaldo de Oliveira não deve aproveitar na temporada.

Mas repetiu-se o fenômeno que vemos em estádios brasileiros nos últimos tempos, sobretudo nas novas ditas “arenas”: áreas atrás dos gols lotadas e as laterais do campo às moscas, num contraste tão grande que é impossível não ter a certeza que há algo errado.

A razão, claro, é o valor praticado pelos clubes para os setores de visão mais privilegiada. A lógica é simples: por lugares melhores, cobra-se mais caro. É justo. Mas o acréscimo no valor dos bilhetes pelas melhores cadeiras tem que ser proporcional ao valor percebido pelos torcedores de forma a ocupá-los. Cobrar R$ 250 pelo valor cheio da cadeira central, contra R$ 40 da ferradura, é irreal. E não sou eu quem está dizendo isso, são os clarões nas cadeiras.

Não gosto do argumento populista para defender a diminuição do valor dos ingressos que se inicia com “futebol é o esporte do povo, este povo sofrido do nosso país que precisa extravasar a tensão do dia-a-dia”, seguido por todas aquelas frases sentimentais que acompanham esse tipo de preâmbulo. O futebol se inseriu num contexto mercantil e quem quiser se destacar precisa se adequar às novas necessidades. Nenhum dirigente tem o direito de fazer caridade com o preço dos ingressos e assim dilapidar o patrimônio do clube, que precisa maximizar o uso de seus recursos para montar times fortes e brigar por títulos.

De forma análoga, o processo de precificação deve ter como objetivo a combinação ideal entre estádio cheio e renda generosa, para obter ganhos técnicos e financeiros. Para isso, é necessário desenvolver um modelo econométrico baseado em séries históricas sólidas. Além do preço praticado, há que se levar em conta variáveis como o nível técnico do time e do adversário, importância do jogo, clima, últimos resultados, fator motivante (uma estreia ou uma polêmica), fase do campeonato, entre tantos outros.

De bate-pronto, parece óbvio que a diferença entre o ingresso mais caro e o mais barato precisa diminuir – e quem sabe, ao fazer isso, mesmo cobrando menos nas cadeiras centrais, a renda final não seja maior, com um estádio mais cheio? De qualquer forma, a solução deve ser encontrada usando um modelo científico. Atualmente, a precificação é feita no “feeling”.

Que é possível, é. No último final de semana, tivemos o estádio Riazor, em La Coruña, com 70% de ocupação para ver o confronto do Deportivo contra o Barcelona. Em Milão, o Milan foi derrotado pela Atalanta num estádio com pouco mais de 30% da capacidade tomada. A ocupação das cadeiras centrais nos dois prélios, no entanto, parecia equilibrada com os outros setores das arquibancadas. Cabe às diretorias dos clubes brasileiros resolver mais esta bizarrice. Se futebol não comporta mais preços de caridade para se manter competitivo, precisa profissionalizar todos os processos que o envolvem. Não há mais espaço para “feeling”.

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