A cisma contra os nativos

POR GERSON NOGUEIRA

A discussão é tão antiga quanto a fome e está longe de chegar a uma posição esclarecedora. A história se repete a cada nova temporada. Sempre que um dos grandes da capital contrata jogador revelado por clubes emergentes surge a interrogação na cabeça do torcedor: será que vai emplacar?

Como o resultado é quase sempre decepcionante, firmou-se o conceito de que a camisa pesa e os jogadores amarelam. Óbvio que nem tudo é tão esotérico assim. Há muito mais por trás dessa história de fracassos dos boleiros nativos na dupla Re-Pa, quando oriundos de equipes mais modestas.

Leandro Cearense é a bola da vez. Depois de uma temporada de altos e baixos no Remo, marcando oito gols em 30 partidas, o futebol do homem que despontou como artilheiro no Cametá há três anos foi colocado em xeque.

Entre os remistas, ficou a imagem de um jogador caro – para os padrões regionais – com aproveitamento pífio. Há quem veja na produção de Cearense um reflexo da instabilidade reinante no Remo, que venceu o Campeonato Estadual e naufragou na Série D.

O time não rendeu o esperado na competição nacional e a verdade é que poucos jogadores se salvaram da campanha ruim, mas as críticas da torcida e da mídia esportiva se concentraram quase exclusivamente em Cearense. Talvez pelo fato de ser um jogador regional.

Até porque gente que custou muito mais ao clube e com histórico bem pior foi esquecida, passando em brancas nuvens. Cearense, não. Ficou aqui, reapresentou-se ao clube depois das férias e encaminhou sua permanência. Com o fim do contrato, porém, o Remo não demonstrou interesse e ele terá que buscar outro clube.

É provável que seu novo destino seja a Curuzu. A diretoria do Papão não confirma ainda as negociações, mantém o habitual silêncio, mas surgiu a informação de que o contrato será curto, de risco, levando em conta o retrospecto recente do jogador.

Apesar da curta duração do acordo, caso isso de fato se confirme, jogar no Papão é uma tremenda chance de recomeço para Cearense. Terá a chance de provar que não desaprendeu a jogar e a fazer gols, como nos gloriosos tempos de Cametá.

Detive-me no caso Cearense porque é bem exemplar do nível de dificuldades enfrentado pela prata da casa no futebol do Pará. Vale aqui a velha máxima de que santo de casa não faz milagre. Uma fase ruim já é suficiente, na maioria dos casos, para decretar o fim de uma carreira.

Cearense é apenas o mais recente de uma longa lista de jogadores vitimados pelo implacável crivo crítico das torcidas de Leão e Papão. Flamel, Robinho, Michel, Rubran, Soares, Maicky Douglas, Cassiano e Jader, entre outros.

Já vai longe o tempo em que a indiscutível categoria individual garantia o sucesso de nomes vindos de equipes mais modestas do interior ou da periferia da capital. Manoel Maria, Cuca, Tuíca, Oberdan, Belterra, Darinta, Chico Monte Alegre, Marajó, Balão e Vânderson foram jogadores que marcaram época, integrando grandes esquadrões da dupla Re-Pa.

Uma característica deste grupo de vencedores é que nenhum deles tremeu ou desistiu diante das adversidades e as desconfianças habituais do torcedor. Com talento, superaram todos os obstáculos, brilhando e deixando saudades.

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Um justo tributo à Enciclopédia

unnamedMesmo sem o endosso das autoridades estaduais, a nova diretoria do Botafogo resolveu abrir uma campanha pela troca do nome do estádio Engenhão (atual João Havelange) para Nilton Santos, a Enciclopédia do Futebol e melhor lateral-esquerdo de todos os tempos, segundo vários levantamentos feitos no mundo inteiro.

A causa é das mais nobres – e justas.

Ninguém merece tanto ter seu nome eternizado no estádio do clube como o grande Nilton, um caso raro de jogador de uma só camisa e que nunca deixou de externar seu profundo amor pelo Botafogo.

Ao contrário, o ex-presidente da Fifa é cada vez mais um nome visto com desconfianças – e até certezas negativas – no universo do futebol. O envolvimento com irregularidades e subornos, além o apadrinhamento de seu ex-genro Ricardo Teixeira são apenas alguns dos pontos que mancham sua biografia.

Vejo, porém, como principal razão para a necessidade de mudança a ausência de qualquer vínculo entre Havelange e a história do Botafogo. Para ser justo, o cartola só teve algum contato com o clube quando na juventude disputou algumas partidas pelo time de vôlei alvinegro.

Por outro lado, se as leis do Estado do Rio não contemplam o projeto de mudança do nome do estádio, também não amparam a homenagem a pessoas vivas. Portanto, o Botafogo começa muito bem 2015 ao abraçar uma bandeira que é também a de todos os desportistas do mundo.

Viva Nilton!

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Re-Pa amistoso pode esfriar o Parazão

Um clássico Re-Pa para reabrir a temporada vem sendo defendido por dirigentes dos dois clubes, mas padece de um sério problema de origem: o pouco atrativo representado por times que ainda se estruturam e estão longe da melhor forma física e técnica.

Quem advoga a ideia está mirando exclusivamente no faturamento. O motivo é mais do que justificado, mas é forçoso observar que até essa meta pode estar comprometida pela tradicional ojeriza do torcedor por amistosos caça-níqueis.

A história de que o jogo serviria para apresentar os novos jogadores dos dois rivais também não convence, pois o Campeonato Estadual começará em duas semanas e todos os recém-contratados poderão ser vistos em ação.

O mais importante de tudo é que um clássico a poucos dias do pontapé inicial do Parazão funcionará como anticlímax, podendo até queimar algumas das atrações maiores do campeonato.

Que ninguém se engane: apesar da ansiedade, o torcedor remista quer ver Flávio Caça-Rato em ação, mas em jogo oficial. O mesmo ocorre com os bicolores, que esperam ver Rogerinho com a camisa 10 bicolor em confronto valendo ponto.

Badalar o Parazão é o melhor caminho para garantir boas rendas a médio prazo.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 15)

14 comentários em “A cisma contra os nativos

  1. De forma um tanto simplista (o que não faz muito meu estilo), elejo duas razões para Leandro não ter emplacado no Remo: 1) Não jogar todos os jogos; 2) O time não jogar sempre em função dele.

    Isso, creio, deve ter ocorrido quando jogava pelo Cametá.
    Faltou combinar tudo com o técnico.

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  2. Não lembro de clube algum em que o jogador “da casa” não tenha que ter superação física, técnica e até psicológica. Tal qual um juvenil, ele só tem 1, 2 oportunidades e tem que agarrá-la a qualquer custo. Caso o contrário, não segue adiante. Ou melhor, segue adiante…

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  3. seu gerson analisando o leandro cearense o seu indice gols/jogo esta muito baixo, o caça rato tem um indice baixo tambem, mas este entrava sempre do meio p fim do segundo tempo.
    quanto a cisma vamos nao creio q seja isso, apenas interesses de varios setores em contratar gente de fora que rende comissoes e jabas…

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  4. O problema foi muito bem colocado. Eu acrescentaria Bira Burro, que o Remo tirou do Paissandu usando a força política de seu presidente; e Roberto ‘Diabo Louro’, saído do Sport Belém, arrebentaram em competições locais e nacionais sendo prova definitiva que é a circunstância que define se alguém vai ou não obter êxito, jamais um valor absoluto que determina a priori o fracasso ou triunfo de alguém.
    Quanto ao grande Nilton, seria a redenção daquele espaço, livrar-se de nome tão malafamado para adotar o de um dos mais notáveis jogadores, dentro e fora de campo, que o futebol brasileiro já conheceu.
    Por fim, usar um caça-níquel como fonte de recursos aos dois clubes é voltar aos anos 1960 achando-se moderno. Um mau sintoma de indigência administrativa, caso, repita-se, vingue essa ideia de jerico.

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  5. Os holofotes das mídias e os salários mais rechonchudos na dupla REPA, são fatores significativos para que muitos tremam. A repercussão sobre a transferência de Cearense para o bicola, evidencia a falta de ídolos na nossa atualidade. Para frente é que se deve olhar e o ex atacante do Leão não convenceu, já o Paty tem mostrado nos treinos atuais que merece muito mais atenção e espaço para brilhar na camisa mais linda do Pará. Também acredito que seria um erro antecipar o REPA antes da tabela do Paraense.

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  6. Repa fora de clima nunca foi compensador. O produto Leandro Cearense estava a vista de todos, logo conclusões futuras quanto a seu redimento fica no julgo de cada torcedor. Estou com pé atrás, mas torcendo que ele despele o caça-rato. Achar essa ou aquela bonita é outra particularidade, mesmo estando “na casinha”

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  7. Gerson, o futebol do Pará já teve como celeiro grandes jogadores vindos do interior.Cito apena 2 exemplos, bem do passado: Zé Elidio { Remo] E Soyá [ PSC], este de triste lembrança para nós azulinos participe que foi dos 7×0 Antes das inevitáveis gozações, pela citação do passado, quero chegar as causas que motivaram tais ausências, além das já mencionadas acima, como as contratações absurdas e caríssimas, como já me referi também, em blogs anteriores. Trata-se da extinção da rivalidade que havia nos times do interior, verdadeiros, clássicos que dividiam as cidades, como p.ex: Pedreira x Botafogo [Mosqueiro], Pinheirense x Santa Rosa [Icoaraci ] , Luzeiro x Uruitá [Vigia] Paroquial x Time Negra [Bragança]. Os olheiros de então, Aluisio Brasil, CR, Arleto Guedes, PSC, traziam as revelações p/ Belém, e aqui eram burilados.Mais citações, peço socorro ao Cláudio Guimarães, uma enciclopédia no assunto . Quanto ao Nilton Santos, toda e qualquer homenagem é mínima, por tudo o que fez pelo futebol brasileiro. Por último, RExPA,, sem valer nada é prejuízo na certa.

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